Mr. Clichê

3 Capítulo 3


Delegado. Todas as sirenes do cérebro de Elisa ligaram ao mesmo tempo. Delegado. meu Deus, ela morava ao lado do delegado.

— Acabei de conhecer o seu filho. Ele é uma criança muito esperta. Seu marido deve estar muito contente.

— Elisabeta é viúva, Darcy. — Ludmila respondeu, e Elisa podia escutar o divertimento em sua voz.

— Ah, meus pêsames. É recente? — Ele questionou.

— Não muito. — Elisa pareceu sair do torpor. — Quase um ano.

— Está aqui para recomeçar? — Darcy questionou novamente.

— É a ideia.

— Você não poderia ter escolhido um lugar melhor. Aliás, por que escolheu a gente?

— Credo, Darcy! — Mariko interrompeu. — Desse jeito Elisa vai achar que está sendo interrogada.

— Parece que ela está sendo. — Ludmilla olhou feio para o amigo.

— Peço perdão, Elisabeta. não foi minha intenção. Só estava curioso. Seja bem-vinda a nossa rua.

— Muito obrigada, Darcy. Se vocês me dão licença, vou em casa, usar o banheiro. Tomei muita limonada.

E tendo dito isso, Elisa saiu apressada, dando uma última conferida no filho, que estava em frente a casa ao lado, a casa do Darcy, admirando a moto com outras crianças. Ela entrou em casa e foi até o banheiro. Jogou água gelada no rosto e disse para si mesma.

— Se acalme. Se recomponha. Não há motivos para ficar tão nervosa.

Ela repetiu aquilo umas três vezes. Se ela ficasse nervosa, agiria estranhamente. E aí sim levantaria suspeitas. É só agir normalmente. Disse para si mesma. Ele não tem motivos para suspeitar de você. Se ele não suspeitar, não vai investigar. Você não tem nada a temer.

— É só não agir como maluca.

Ele é o mulherengo da cidade, ela se lembrou. Podia estar só levantando informações sobre ela nesse sentido. Não precisava ficar apavorada. Ela saíria, responderia tudo como respondeu aos outros, cortaria qualquer avanço, caso existisse. Luto. Ela usaria o suposto luto. Aquilo quase fez Elisabeta rir. Luto… Ela retocou a maquiagem e saiu de casa. Viu que ele estava parado no seu jardim, do lado de dentro. Ele mexia no portãozinho de ferro da frente.

— Você precisa trocar o ferrolho. — Ele falou sem olhar para ela. — Está bastante enferrujado. O Tom pode se machucar.

— Ah, sim. Existe uma série de coisas que eu preciso fazer na casa. Esteve tudo parado desde que a vovó morreu.

— Nós tentamos manter o melhor possível, sem transpassar muito.

— Eu percebi. E agradeço bastante. — Elisabeta viu que ele quase fez outra pergunta, mas se calou. Ele passou a mão pelos cabelos. Era um pouco mais comprido do que ela esperava de um delegado. Aliás, ele não parecia em nada com um delegado. Pelo menos não com os que ela conheceu. Ele era jovem, forte, bonito. A barba e os cabelos escuros mais o faziam parecer um garoto rebelde que um oficial da lei. — Agradeço por tudo que vocês fizeram pela vovó. Gostaria muito de ter vindo ao enterro, mas eu estava no último mês de gestação.

— Claro… Eu gostaria de lhe pedir desculpas. Ludmilla gentilmente apontou que eu fui um pouco… rude? Não era minha intenção lhe interrogar. — Ele passou a mão pelos cabelos, afastando os que caíam nos olhos. — Acho que às vezes acaba saindo mais acusatório do que o planejado.

— Eu imagino, deve ser os ócios do ofício.

— Sim, sim. Na verdade eu acho que é mais como as pessoas me veem, sabe? Por as perguntas virem de mim, soa como interrogatório. Enfim. — ele enfiou as mãos nos bolsos. — Eu só estava curioso.

— Claro, não se preocupe. — Elisabeta sorriu. — Desculpas aceitas.

— Você pretende ficar de vez, ou está aqui apenas para se reorganizar?

— Por hora, o plano é ficar.

— Ótimo. Então teremos tempo para nos conhecer. — Ele lançou para ela o que Elisabeta interpretou como sorriso de conquista. Ela quase riu. Ele parecia ter saído de um filme de romance dos anos 80. Motoqueiro bonitão de sorriso fácil. Não era o tipo dela.

— Com certeza. Se me dá licença, eu preciso voltar. Seria muito mal-educado da minha parte ficar ausente da festa feita para mim. — Ela passou por ele pelo portãozinho, e esperou com ele aberto, indicando que ele deveria sair. Darcy achou aquilo divertido.

— Aqui no Vale nós mal fechamos a porta. — Ele falou quando a viu bater o ferrolho e passar o cadeado.

— Você, como delegado, recomenda tanta distração assim dos moradores?

— Como delegado, eu garanto a senhora que não há com o que se preocupar. Acho que tem dois anos desde a última vez que alguém foi assaltado. E ainda assim, eu sou mais alto que esse portão. Acho que até o seu filho conseguiria pular.

Elisabeta ponderou aquilo. Fazia sentido. Precisaria fazer algo a respeito. Mas não disse nada. Apenas sorriu e saiu em direção a um grupo de mulheres da rua.

A festa acabou no fim do dia. Thomas estava exausto e ao mesmo tempo tão empolgado. Enquanto eles caminhavam para casa ele contou que conheceu todas as crianças da rua, e algumas de outras. Contou que nos domingos, depois da igreja, as crianças costumavam andar de bicicleta na rua, jogar futebol e queimada, e ele implorou a mãe para que ela deixasse ele brincar também. Elisabeta quase disse não. E então olhou para ele. Havia um brilho ali, em seus olhinhos esverdeados que ela não via em tanto tempo! Talvez nem mesmo antes do … Bom, ele nunca tinha tido essa oportunidade. De brincar na rua, se sujar com outras crianças. Correr despreocupado. E foi para isso que ela foi para o Vale, não foi? Para que os dois pudessem ter uma chance de ser feliz. Então disse sim. Desde que eles permanecessem na rua de casa. Ela trabalharia no jardim. Não demorou mais que meia hora para que Thomas caísse no sono, no sofá mesmo. Elisabeta o levou para cama e foi até a geladeira. Precisava fazer compras. Precisava de uma garrafa de vinho, mas teve que se contentar com leite com achocolatado.

Ela estava em seus pijamas, lendo um livro no sofá quando escutou uma batida na porta. Estranhou aquilo, pois seus vizinhos a chamavam no portão. Ela correu para cozinha e pegou a primeira faca que encontrou, e caminhou até porta. Havia um sombra grande na soleira, e antes de abrir ela perguntou.

— Quem é?

— Sou eu. — O homem respondeu. — Darcy. — Ela respirou aliviada. Pôs a faca na mesinha ao lado da porta, e a abriu.

— Aconteceu alguma coisa? — Elisa perguntou antes de olhar para Darcy. Ele estava encostado na soleira. Usava uma camiseta azul escura muito justa, que colava no corpo e dava para ver que ele gastava algum tempo malhando. Seus braços eram enormes, e o seu cabelo caia bagunçadamente pela testa. Ele segurava uma xícara.

— Eu estava no meio de uma receita, e percebi que meu açúcar acabou. — Ele lhe deu um sorriso de lado. — Você poderia me arrumar uma xícara de açúcar? — A voz dele era rouca, quase um sussurro.

— Claro. — Elisabeta pegou a xícara da mão dele. — Espera aí.

Ela entrou e ele entrou em seguida. Ela não reparou que ele a seguiu até a cozinha. Quando ela abriu o armário e pegou o pote de açúcar, se virou de vez e viu que ele estava ali, com um sorriso sedutor. Mas sua cabeça estava inclinada num ângulo divertido.

— Você realmente achou que eu queria uma xícara de açúcar? Que bonitinho.

— Você não quer? Então por que...Ah. — Ela entendeu. — Isso era uma cantada? — Darcy deu um passo na direção dela, mas parou quando ela começou a rir. Elisabeta começou a rir descompassadamente, engasgando com o ar. Ela levantava a cabeça, olhava para Darcy e então voltava a gargalhar. Ela riu tanto que o sorriso convencido dele foi murchando aos poucos.

— O que é tão engraçado? — Ele perguntou por fim.

— Você não está falando sério, está? — Ele parecia genuinamente confuso. — Essa cantada já funcionou alguma vez que não seja num filme pornô?

— Na verdade, já.

— Sério? Você já ficou com alguém usando isso? Estou impressionada. — Elisabeta ainda ria. Não conseguia evitar. Tinha sido a coisa mais ridícula e inesperada que aconteceu com ela nos últimos tempos.

— Não sei se fico ofendido ou lisonjeado.

— Acho que um pouco dos dois. Não precisa do açúcar, então? — Ela perguntou enquanto fechava o pote. Darcy deu de ombros.

— Não sei cozinhar. — Elisabeta balançou a cabeça em reprovação e pôs o pote de volta no armário. Ele estava ali, parado, na sua cozinha, parecendo pensativo. — Não vai rolar então? — Ele perguntou.

— Não. Desculpe. — Ela lhe deu um sorriso divertido.

— Foi eu ou a cantada?

— Um pouco dos dois. — Ele levou a mão ao peito.

— Outch.

— Não leve a mal. Você é bonito e tal. Mas não estou a procura de uma aventura.

— Nós nunca achamos que estamos, até encontrarmos uma.

— Todo esse personagem badboy não faz muito a minha vibe. — Elisa começou a andar em direção a porta, o obrigando a segui-la. Ela abriu a porta para ele. — Mas obrigada. Deus sabe a quanto tempo não dava umas boas risadas. Estava precisando.

— Tudo bem então. Se mudar de ideia, sabe onde me encontrar.

— Boa Noite Darcy.

— Boa noite, Elisabeta.

Ela entrou ainda balançando a cabeça. Sentou-se no sofá, pegou sua xícara de leite com achocolatado e teve outra crise de riso. Deus, como ela queria ligar para Jane e contar o que acabou de acontecer.

No dia seguinte, ela levantou com Thomas muito contente e feliz, perguntando se ele já podia ir para rua. Elisabeta teve que o convencer a tomar café antes. Enquanto ele brincava lá fora, com as outras crianças, ela se deixou a arrumar o jardim da avó. Ele havia sido bem cuidado, de uma forma geral. Mas pensou que podia transformar um lado em uma pequena horta. Adicionou aquilo a lista de coisas que olharia amanhã, quanto fosse a Monte Alto. Ela viu quando Darcy saiu de casa com um cachorro grande, ou melhor, gordo, e as crianças pararam o jogo para ir até eles. Achou engraçado nunca ter escutado o cão, visto que suas casas eram tão próximas e um cachorro daquele tamanho deveria fazer uma bagunça. Mas Darcy logo começou a correr, e o cão, surpreendentemente, o acompanhou. Naquela noite, Thomas falava empolgado sobre a escola. Aparentemente, seus novos amigos frequentavam, ele mal podia esperar. Ele comeu mais que o de costume e novamente desabou na cama. Elisabeta pensou que poderia se acostumar com isso. Com seu filho correndo feliz pela rua. Empolgado com as coisas. Sem medo. Ele era novo demais para ter medo da vida.

Quando ela e Thomas pararam na frente da escola primária, na manhã de segunda-feira, ele já estava mais nervoso que empolgado.

— Mamãe, acho que eu mudei de ideia. Não quero ir.

— Por que, Tom? Você estava tão empolgado ontem!

— E se eu fizer alguma coisa errada? E se eu acabar dizendo algo sobre ele.. Algo que faça com que a gente tenha que ir embora. Eu gosto daqui. Quero ficar. — Elisabeta se ajoelhou.

— Não se preocupe. Vai dar tudo certo. Você é Thomas Silva. Um menininho muito inteligente que vive com sua mãe na rua das mangueiras. Seu pai morreu. É isso. ninguém vai te perguntar mais nada, e se perguntarem fala que não sabe.

— Eu não quero estragar nada. — Ele repetiu.

— Você não vai. — Nesse momento, Ludmila se aproximou, junto com um menino de cabelos encaracolados igualmente vermelhos.

— Elisabeta! Que prazer encontrá-la aqui. Este é o meu menino, Joaquim. Esse deve ser o Thomas.

— Olá. — Thomas respondeu. Ele estendeu a mão para Ludmilla, que achou aquilo divertido.

— Muito prazer, eu sou a Ludmilla. Mas você pode me chamar de Tia Lud. Primeiro dia, hã.

— Tom está um pouco nervoso. — Elisa se levantou e sorriu para os dois.

— Nem precisa. — Joaquim respondeu, solícito. — A professora é muito legal. Vem, você pode sentar na minha mesa. — Thomas deu uma última olhada para a mãe, e Elisa acenou, concordando para ele ir, e então os meninos adentraram o prédio.

— Está a caminho de Monte Alto, imagino. — Ludmilla disse para ela.

— Sim. Com uma lista enorme de coisas para fazer.

— Posso te acompanhar até a praça, onde as vans saem. É caminho para a cafeteria. Aproveito e te mostro o local.

— Eu não sei por onde começar a te agradecer.

— Aparecendo amanhã as 8. Detesto ficar no balcão, mexer com o caixa. Meu negócio é a confeitaria. E só. Passou da cozinha vira um pesadelo.

Elisabeta sorriu enquanto Ludmilla andava ao lado dela, lhe dizendo os lugares que deveria ir, as pessoas que precisava conhecer, quem ela deveria evitar. Ela foi para Monte Alto com uma sensação boa no peito, que não tinha desde a escola. A sensação que fez uma amiga. Elisa estava empolgada, ela reparou. Não reconhecia esse sentimento desde o nascimento do Thomas. Ela estava empolgada com a perspectiva da vida nova, de criar raízes ali. Fazer amigos. Em Monte alto ela comprou tudo que precisava e penhorou algumas joias. Ela estava feliz por se livrar delas. Traziam péssimas recordações. Ela voltou na van cheia de sacolas. Não quis dar o seu endereço para nenhum entregados, então levava consigo o notebook, o celular, lençóis de cama, material escolar… Precisaria deixar tudo em casa antes de pegar o filho. No caminho, tirou o número de Ludmilla da bolsa e salvou na agenda. Mandou mensagem para ela, dizendo que esse era o seu novo número, e recebeu de volta vários emojis. Ludmilla fazia Elisa sorrir. Era o tipo de pessoa que ela queria ter por perto de agora em diante. O motorista da van ficou com pena de Elisa, e por ser amigo de Ludmilla, deixou ela na porta de casa. Elisa nem reparou que Darcy a observava brigar com o ferrolho enferrujado do portão. Ela largou as coisas na sala mesmo e saiu correndo para buscar o filho.

Thomas estava empolgado com tudo. Disse que ninguém fez muitas perguntas. Todo mundo já sabia quem ele era e quem era a mãe dele. Ele sentou com o Otto e o Joaquim, eles brincaram no recreio, e Thomas recebeu um convite do filho de Ludmilla para brincar na casa dele depois da aula. Elisabeta disse que iria pensar. Afinal, amanhã era o primeiro dia de trabalho dela e não sabia com quem o Thomas ficaria depois da escola. Havia um espaço de três horas, entre a saída dele da aula e a dela do trabalho. Conversaria com Ludmilla. Veria se existia alguma coisa extracurricular que ele poderia fazer. Passaram numa loja de material de construção ( a única da cidade) e compraram uma tinta verde, pincéis e ferramentas para pintarem o quarto. Mas ao chegarem na rua, Elisa reparou que tinha um homem mexendo no seu portão.

— Thomas, filho, por que você não vai perguntar o Otto se ele não tem algum jogo legal para a gente instalar no computador novo?

Tom começou a correr em direção a casa do Otto, e Elisa foi andando devagar, mas Thomas reconheceu o homem no portão antes dela.

— Ei Darcy! — Ele acenou, do outro lado da rua.

— E ai, garoto! Como foi o primeiro dia de aula?

— Legal. Eu vou perguntar o Otto se ele tem jogos. Depois você me deixa ver seu cachorro?

— Claro! — Darcy sorriu para o filho dela e ela se aproximou. Ele estava de regata preta, levemente suado, e mexia no portão.

— Posso saber o que você está fazendo? — Ela perguntou apoiando as sacolas no chão.

— Estou consertando seu portão. Troquei o ferrolho, e agora estou lixando a ferrugem. Criança se machuca com cada coisa, não é? Achei melhor evitar que o Tom pegasse tétano. — Ele voltou a lixar o portão e Elisa ficou desconcertada. Não sabia o que dizer.

— Obrigada. Você não deveria ter se dado ao trabalho. Sério, obrigada.

— É o mínimo que eu posso fazer. Sua avó me ajudou muito com Charlotte quando eu estava na faculdade. Ela a olhava pra mim. Ajudar a neta dela a se ambientar é o mínimo que eu possa fazer.

— Charlotte? Você tem uma filha?

— Uma irmã. Eu era responsável por ela. Meus pais morreram num acidente.

— Ah. Eu sinto muito.

— Tudo bem, já faz tempo. Ela está na faculdade agora. Estuda química. — Ele sorriu. Elisabeta percebeu que os olhos dele brilhavam quando ele falava da irmã. Ela achou aquilo lindo. Ela sentiu saudades da suas irmãs. — Ela é muito inteligente. Vai fazer mestrado em Londres. Você tem irmãs?

— Ah sim. Uma irmã. — Ela respondeu. Já tinha pensado nisso. Era muito mais fácil rastrear alguém com quatro irmãs que com cinco.

— Uma? É a que teve câncer, certo? Dono Rosinha me falou da neta que teve câncer. Mas agora não lembro o nome.

— Lídia. É ela sim. Mas ela está curada.

— Que bom. Ela ainda mora na capital? Me lembro de Dona Rosinha viajando para lá.

— Sim. Ela mora lá sim.

— Você também morava lá?

— Voltamos ao interrogatório? — Ela deu um sorriso. A verdade é que ele já estava cavando fundo demais. Já havia misturado mentiras com verdade. Precisaria anotar para não se perder.

— Desculpe. Vou voltar aos meus serviços. — Ele abaixou a cabeça e pôs os fones de ouvido, e Elisabeta entrou, mas antes deu uma olhada nas costas dele. Ele não fazia o seu tipo, mas podia entender todas as mulheres da cidade que caiam na dele. Ele sentiu o olhar dela nele e levantou a cabeça. Depois ele encarou a sacola dela. — Isso é uma tinta?

— Sim. pretendo pintar o quarto de Tom. Ele reclamou que era muito feminino.

— Eu posso fazer isso para você. Se fizer uma lista de tudo que precisa ser consertado, eu posso ir arrumando aos poucos para você.

— Não sei se teria como pagar os seus serviços.

— Ah, eu consigo pensar num precinho camarada. — Ele lançou um sorriso para ela e Elisa balançou a cabeça, rindo.

— Faz tudo também não é minha fantasia.

— Não se pode culpar um cara por tentar. -Ele deu de ombros e Elisa entrou em casa, ainda rindo do seu vizinho.

No dia seguinte, ela deixou Thomas na escola e rumou para o seu primeiro dia de trabalho. Encontrou Ludmilla no caminho,e as duas entraram pela porta lateral. Ela começou a explicar o que eles vendiam no Café da Lud. Chás, cafés, sucos. Doces diversos, bolos, pão de queijo, biscoitos e as tardes, sanduíches. Ela explicou que eles possuíam cliente que eram cativos, e eles teriam paciência com Elisa. A outra funcionária, Manu, era uma adolescente, que só trabalhava no período da manhã.

— Gosto de ajudar os jovens. — Lud riu. — Eles tem vigor, são divertidos e fáceis de agradar. Isso aqui é apinhado de adolescente, você vai ver. É o lugar oficial de primeiros encontros. Vi muitos casais começarem aqui. Eu vou por as primeiras fornadas. Subo tudo por esse elevadorzinho. Toca um sininho quando sobe. A Manu deve estar chegando e vai te ensinar a mexer na máquina de café, porque eu não sei.

Ludmilla desceu para a cozinha, fez um rápido tour com Elisa por lá. Elas abriram a porta e Lud pôs uma lousa no chão, com o especial do dia e um aviso dizendo “Funcionária nova. Sejam legais com a Elisa.” E eles foram. Manu chegou afobada. Ela tinha cabelos azuis e piercings no rosto. Explicou Elisa como funcionava a máquina e ajudou com os pedidos e a caixa registradora. Todos que chegavam eram simpáticos, pacientes e lhe deixaram gorjetas de boas-vindas. Elisabeta estava na máquina de café quando ouviu a voz dele.

— O que uma garota como você está fazendo em um lugar como esse? — Ela se virou e Darcy estava apoiado no balcão. Vestia uma camiseta preta, uma jaqueta escura. Exibia o distintivo como um xerife do velho oeste. Ela sorriu para ele.

— Todas as suas cantadas saíram de um livro dos anos setenta? — o sorriso dele aumentou.

— Eu achei que as moças gostassem de romance.

— Nós gostamos. Mas precisa ser natural. Você parece uma fusão de clichês ambulantes. — Ela sorriu para ele e ele ficou sério. — O que eu posso servi-lo hoje, delegado?

— O de sempre. — Ele respondeu pensativo.

— Que seria?

— Desculpe. Um café grande, cinco pães de queijo, três biscoitos de polvilho, um bolinho de chocolate. Para viagem.

Elisa sorriu e enquanto pegava o copo para viagem, teve uma ideia. Ela montou o pedido dele e entregou. Ele agora a olhava com um sorriso diferente.

— Acho que estamos destinados a passar algum tempo juntos.

— E por que acha isso?

— Nós moramos um ao lado do outro e agora trabalhamos um ao lado do outro. — Ele apontou para a delegacia. Ela não tinha reparado, mas ficava no início da rua do outro lado da praça. — Se isso não é destino eu não sei o que é.

— Azar. — Ela respondeu. Ele balançou a cabeça e pegou as compras dele. Ele já estava na porta da cafeteria quando começou a rir. Ele virou para trás e fingiu estar indignado, mas acabou lhe jogando um beijo.

No copo de café dele, ela havia escrito com canetinha : “Mr. Clichê”.