Movimento Próprio
1 Primeiro movimento
Roberto precisava de 50 movimentos para se barbear. Foi o pensamento que lhe invadiu a mente ao olhar o registro de número 50 que indicava que Apolo funcionava corretamente. Essa memória o levou de volta para o tempo na Terra em que as pessoas ainda passavam pela puberdade, processo que trazia pelos que eram tanto motivo de orgulho (“meu filho virou homem”), quanto de incômodo. O inventor do aparelho de barbear mais vendido, o Sr. Gilette, se surpreenderia ao ver o seu ideal socialista – uma moradia coletiva em Niágara – ser parcialmente realizado no planeta Gaia. Apolo era o gerador artificial de energia para manter Babel a uma temperatura amena o suficiente para a sobrevivência dos habitantes. Ela absorvia energia da estrela central da órbita do planeta novo. Roberto era o responsável por gerenciar os relatórios que indicavam qualquer mal-funcionamento.
Mas antes disso, ele era um saudosista em relação ao passado manual de sua raça. Todo o dia ao acordar na Terra ele se barbeava. Passava o creme de barbear de Aloe vera – lembrava-se do aroma adocicado e da sensação deslizante que gelava a pele recém-desperta. Depois, pegava o aparelho de barbear composto por 4 lâminas bem afiadas e descartáveis que revolucionaram o mundo pela praticidade. Naquela época, 50 movimentos era o que ele precisava para ganhar um rosto limpo. “Sem pelos, menos parasitas”, era a explicação evolucionista para o fenômeno de remoção de pelos pela sociedade terráquea ocidental.
Ele contava os movimentos automaticamente após desenvolver a técnica que lhe acompanharia por vários anos até que a depilação definitiva fosse a única opção socialmente aceitável. Era quase como um ritual. Um ritual como esse que fazia agora, de conferir o aparelho espacial. Um ritual porque se repetia sempre da mesma maneira, e com um propósito específico. Passou a mão pelo rosto liso, tentando lembrar-se da sensação áspera da época em que possuía pelos no rosto. Não conseguia. Era uma memória perdida entre as sensações que ficaram esquecidas na Terra. Mas a da barba não era tão lamentável. Uma das piores para ele era a dos arbustos das árvores balançando com a brisa da primavera ou com o vento de um temporal. O cheiro da terra molhada, combinado com os tons cinza-claros do céu chuvoso eram as memórias que mais lhe mortificavam. No novo planeta, não havia árvores, nem céu, nem chuva, nem terra.
Os últimos humanos haviam sido transportados em uma nave-mãe chamada Ísis em formato cônico, com habitações para 50.000 cidadãos, sendo que 12.000 eram habitadas. A última cartada da raça humana antes de deixar a Terra havia sido a construção de uma Arca de Noé capaz de atracar em algum exoplaneta com uma superfície composta em maior parte por nitrogênio. Desde então, contavam com o avanço tecnológico para se sustentar e com as surpresas de um novo sistema planetário.
Graça a tecnologia que permitia medir o movimento próprio de uma estrela, a nave-mãe localizou o novo planeta. E Roberto instintivamente passou a mão no queixo para sentir a sensação de barba mal feita. Movimento próprio de seu corpo que um dia teve pelos. Assim como um dia seus antepassados evolutivos tiveram cauda e agora sequer havia algum resquício de movimento que o podia guiar para esta memória. A conquista da verticalidade dava lugar à conquista de novos universos.
O relatório reportava um problema no propulsor HS-4. Precisaria enviar o andróide responsável pelo conserto. Com o movimento de um dedo, acionou o botão de comunicação com a torre responsável por enviar o Andróide. Não precisaria falar nada. O código claro de luzes no painel indicaria a ação a ser tomada.
Roberto decidiu brincar de relembrar seus cinquenta movimentos. Pegou o primeiro objeto que julgou parecido com uma gilete, colocou-se na frente do espelho e iniciou o processo de brincadeira quase infantil de faz-de-conta. A cada deslizada, ele ativava um pequeno músculo ou articulação de dedos, punho, cotovelo, ombro, pescoço. Assim, ele recuperou parte de sua memória física que, apesar de reduzida drasticamente pelo uso da tecnologia que prezava a atividade mental em detrimento da motora, ainda possuía um valor inestimável.
Ao terminar o qüinquagésimo movimento, Roberto sentiu-se satisfeito e retornou à sobriedade estática de sua função diária.
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