Notas iniciais
Essa fanfiction foi escrita para o Amigo Oculto de Halloween do grupo "Fanfictions OUAT" do Facebook.

Há quem diga que o extraordinário ocorre em circunstâncias comuns. Para Red, entretanto, nada era comum e o extraordinário encontro que mudou a sua vida ocorreu no dia mais tenebroso do ano entre duas pessoas que se situavam entre o ordinário e o extraordinário.

O Samhain – a festa dos mortos – causara por muito tempo um medo em Red que beirava a loucura, pois por muito tempo ele trouxera sonhos vívidos com aquele que ela sem querer matara – embora Red fosse uma garota muito comum na maior parte do tempo, uma vez por mês, um lobo surgia de seu interior dotado de um instinto assassino.

Ela se sentou tarde daquela noite para observar as estrelas no céu, adiando ao máximo o momento em que deveria enfrentar aqueles terríveis pesadelos nos quais Peter, seu antigo namorado que fora assassinado quando ela se transformara em lobo perto dele, aparecia implorando liberdade – seja lá o que isso significava!

A noite estava gelada, mas isso não era um problema para Red. Na verdade, ela se sentia agradecida por isso, pois o frio a manteria desperta por mais algum tempo. As estrelas brilhavam belamente no céu enquanto Red se sentia pequena e idiota as observando – ela sabia que, em algum momento, precisaria dormir e só estava adiando o inevitável.

– Você deveria entrar na casa. Vai ficar doente se ficar se expondo ao frio de maneira tão irresponsável, você sabe.

A voz, embora doce e dotada de uma pureza sem igual, a sobressaltou e, quando os olhos de Red seguiram aquele som, encontraram uma jovem a observando de longe. O vestido que ela trajava era dourado e belo demais, deixando óbvio que aquela não era uma simples camponesa. Mas foram os olhos que prenderam a atenção da jovem: ela nunca vira mais bonitos e expressivos em toda a sua vida.

Red a encarou tentando não esboçar qualquer sentimento e fracassando completamente, pois era incapaz de qualquer reação, mesmo a formulação das mais simples das frases, diante da surpresa em relação ao encontro com aquela garota e do encanto que ela emanava.

– Você sabe, eu não vim aqui para bancar a mãe de uma criança irresponsável, vim ajudar uma jovem mulher a seguir adiante, deixando a culpa pelos seus atos passados para trás.

– Q-quem é vo-você?

A misteriosa menina sorriu travessa, se aproximando sem tirar os olhos de Red. Enquanto isso, a outra não pôde deixar de notar o quanto ela parecia jovem. Talvez, mesmo cinco anos mais jovem que Red. “Ora, mas a criança é ela!”

– Creio que a pergunta correta seja “o que é você,” e a resposta mais curta é “eu sou uma fada,” embora tecnicamente eu não seja exatamente isso, — disse a jovem quando parou a apenas dois passos dela.

“Uma fada!” Não era à toa que Red a achara tão jovem: seres mágicos nunca envelheciam da mesma maneira e na mesma velocidade que os humanos – mesmo os mais incomuns da espécie –, e as fadas podiam muito bem ser imortais. Mas o que uma fada estaria fazendo ali?

– Eu não pedia a ajuda de uma fada, e não há como qualquer um me ajudar. Até mesmo uma pessoa ignorante a respeito de magia sabe que nada pode trazer de volta os mortos.

A fada sorriu e deu mais um passo em direção a Red, de modo que seus rostos ficaram a uma distância de pouquíssimos centímetros um do outro. Aqueles olhos eram de um azul cintilante e havia mais do que beleza no brilho que eles emanavam – embora fossem de fato excepcionalmente belos –, havia magia.

– Não precisamos ser chamadas para enxergarmos um coração desesperado precisando de ajuda, especialmente um que está seguindo na direção oposta à necessária para a solução da causa do desespero.

Red não respondeu, e isso se deu tanto pelo fato de que não sabia o que dizer diante de uma alegação tão extraordinária quanto pelo fato de que ela duvidava que seria capaz de fazer a voz sair por sua boca. A proximidade daquela criatura tão extraordinariamente bela e pura mexendo com seus sentidos e fazendo-a desejar romper a distância que havia entre elas.

Quando a fada se afastou – segundos ou horas depois, Red não sabia –, o sorriso havia desaparecido do rosto dela por uma razão que a outra desconhecia e a jovem pareceu mais focada no cumprimento de seus deveres ali.

– Você não tem culpa e você deveria saber disso. Ele não te culpa pela própria morte, Peter sabe que você é inocente e ignorava completamente o lobo que havia aí dentro. Mas você é culpada do sofrimento posterior, pois é o seu sentimento de culpa que o prende ao seu lado, impedindo que ele seja livre para prosseguir.

Red a encarou. Não havia mágica nas palavras da fada, mas ela se sentia compelida a escutá-la, como se daquela linda jovem emanasse apenas verdade. E, enquanto ela pensava a respeito do que lhe fora dito, a mágica aconteceu e uma terceira pessoa apareceu do lado da fada. Red soube imediatamente de quem se tratava, embora seu rosto estivesse, de alguma forma, oculto em sombras.

Quando Red deu um passo em direção à aparição, ela ergueu a mão como que para sinalizar que ela não deveria fazê-lo. “Peter?” Seu cérebro gritava; “Peter!” Seu coração respondia.

– Red, eu estou aqui apenas em espírito, você não será capaz de me tocar. Eu vim, meio que convocado, meio que por escolha própria, para lhe implorar que me liberte. É muito doloroso estar em um mundo ao qual eu não pertenço, é antinatural. Nossa dor precisa ter um fim.

A voz dele era distante e sobrenatural, mas havia um resquício do que um dia fora a voz do Peter que ela conhecera e amara. A jovem sentiu as lágrimas percorrendo sua face, mas não tentou uma nova aproximação, não tentou buscar conforto nos braços do rapaz diante de si. Ela sentiu-se mal por sequer conseguir encará-lo nos olhos, ainda encobertos por sombras.

– Sinto muito, — disse ela, deixando escapar um soluço.

– Eu sei, mas não sinta. Algo bom e emocionante me aguarda, uma nova e fantástica viagem está bem diante de mim, muitas aventuras. Liberte-me e vá trilhar a sua própria viagem, viver as suas próprias aventuras.

Uma viagem, aventuras, era tudo o que ele sempre havia desejado, tudo o que eles haviam desejado juntos, mas a vida decidira que precisariam seguir seus próprios caminhos, viajar separadamente e enfrentar os próprios monstros. Red sorriu, embora as lágrimas continuassem teimosamente. Um peso fora tirado de seu coração.

– Eu te liberto, Peter. Obrigada!

Ele pareceu sorrir antes de desaparecer – embora Red não tivesse muita certeza. Ela permaneceu algum tempo assim, chorando e sorrindo enquanto encarava o vazio, antes de sentir braços a envolvendo carinhosamente e se lembrar da fada.

O coração de Red disparou quando ela sentiu o corpo daquela jovem maravilhosa contra o seu, os dedos dela percorrendo seus cabelos lhe provocavam estranhos arrepios. A despeito do fato de que Red acabara de entrar em contato com um homem morto e que aquele era o dia dos mortos – o Samhain –, ela nunca se sentira tão viva.

– Sinto muito, Red. O amor muitas vezes pode ser doloroso.

Mas Red não conseguia sentir muito enquanto abraçava aquela estranha e impressionante criatura. A fada cheirava a um jardim possuidor das mais belas rosas e o calor do abraço dela lembrava um dia de temperatura amena durante a primavera. Um sentimento inundou o coração dela: algo novo e maravilhoso, antigo e nostálgico; de modo que Red não conseguiu se conter, beijando-a com paixão.

A jovem tinha certeza que a fada se afastaria dela, mas, em lugar disso, ela repousou seus braços nos ombros da outra e respondeu ao beijo. Os lábios dela tinham um sabor diferente e quase sobrenatural e o cheiro das rosas era tão forte que Red apostaria tudo o que tinha que estavam em um jardim cheio delas – embora racionalmente soubesse que não havia nenhuma.

Por fim, elas separaram seus lábios, muito ofegantes, embora suas testas tenham continuado juntas por algum tempo enquanto elas encaravam os olhos uma da outra.

– Eu nunca senti isso com mais ninguém.

A fada sorriu por alguns segundos. Então, o desespero a tomou e ela se afastou bruscamente, olhou para Red com terror estampado no rosto e desapareceu, deixando uma Red muito confusa com um vazio em seu coração.

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– Belle…

A fada encarou a dona da voz, sabendo que estava encrencada. Sempre fora diferente de todos, não inteiramente fada ou humana, fruto de um envolvimento entre as duas espécies. Sentindo-se deslocada na corte de seu pai humano, foi buscar a sua herança entre as fadas, mas mesmo ali não se sentia como se pertencesse.

– Belle, o que você acabou de fazer?

A fada diante dela era a mais antiga e a líder da comunidade, e se colocara como responsável direta por Belle após aceitá-la contra a vontade de muitas outras fadas. A jovem sentia uma enorme gratidão por aquela que era sua tutora e amiga.

– Blue, e-eu…

– Belle, você, melhor do que qualquer um, deveria saber que o envolvimento amoroso não é permitido.

Sim, Belle sabia. Sua mãe fora expulsa daquela comunidade exatamente por esse motivo. Expulsa e condenada eternamente a viver como uma humana, embora nunca tenha retornado para o lado dela e de seu pai, de modo que Belle só descobrira isso quando se juntara às fadas.

– Belle, nós, fadas, somos responsáveis pelo bem estar de todos os que pisam em todos os mundos. Não podemos nos envolver emocionalmente com outras criaturas. Você entende o motivo disso?

– Não podemos tomar partido por motivos pessoais.

– Isso mesmo.

Belle se sentia incapaz de olhar para Blue, mas sentia os olhos da fada mais velha em si, analisando-a, sondando a sua alma e o seu coração. Blue era excepcionalmente boa nisso e não precisava encarar Belle nos olhos para sentir a dúvida e a confusão que se apossavam dela.

– A rebeldia… você se parece excepcionalmente com a sua mãe. Não cometa os mesmos erros que ela, querida.

E, sem esperar por uma resposta, a Blue Fairy desapareceu, deixando Belle completamente sem reação. Ela se sentou na grama, incapaz de raciocinar. Sempre acreditara que estava destinada a nunca se apaixonar e, quando se juntara às fadas quase vinte anos antes, aquela proibição não lhe parecera muito preocupante. Fora muito tola!

O dia dos mortos: ela nunca pensara que encontraria um amor durante o dia mais escuro do ano. Parecia-lhe surreal o fato de que era incapaz de sentir a escuridão que a cercava – sempre fora sensível a isso –, mas sabia que a mágica que sentira durante o beijo ainda percorria o seu corpo e era bastante provável que aquilo afastasse a escuridão. Luz em meio à escuridão: Belle não sabia se seria capaz de ignorar aquela simbologia para o resto de sua vida.

Ela retornou ao local onde se encontrara com Red em sua forma mais reduzida e, escondida entre as folhas de uma árvore, observou a garota, que tinha um olhar perdido e estava sentada diante da casa. Red suspirou e Belle pôde sentir o coração quebrado dela, o que lhe causou um forte sentimento de culpa.

– E ela sequer me disse o nome dela, de modo que não sei por quem o meu coração descongelou.

Belle não sabia muito bem como era capaz de ouvir àquela distância. Talvez fosse consequência do beijo que ela e Red haviam compartilhado, ou do dia mágico em que se encontravam ou mesmo ambas as opções.

Ela fez surgir em suas mãos um botão de rosa e sussurrou seu nome a ele, depois a soprou ao vento. Belle observou a rosa crescer até atingir o seu tamanho natural e chegar até Red, que a segurou entre suas mãos e sorriu instantaneamente ao ouvir o sussurro da planta.

A garota olhou em volta, procurando-a, e Belle não pôde deixar de conter os seus lábios, que teimavam em esboçar um sorriso. Embora fosse o dia dos mortos, ela nunca se sentira tão feliz e viva quanto naquele momento e, sem perceber, deu um passo em direção à garota.

– Você está certa disso?

Belle se voltou para a sua tutora, que a encarava com um misto de compreensão, resignação e tristeza.

– Eu soube desde o momento em que você me chamou que isso acabaria por acontecer.

– Então, por que me deixou entrar na ordem? – Perguntou Belle espantada.

– Por que era uma herança sua e você a estava reclamando, era um direito seu se juntar à nossa ordem.

Blue sorriu e desapareceu, deixando Belle sozinha diante do que provavelmente era a decisão mais importante de sua vida. Ela, entretanto, não tinha tanta certeza quanto a fada mais velha a respeito do caminho que trilharia.

Ela se voltou novamente para Red, que segurava a rosa próxima ao coração e sorriu tristemente: como gostaria que as coisas fossem mais simples.

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Ruby observou a decoração da estalagem de sua avó combinando com a sua data festiva favorita. Era a primeira vez desde a maldição que ela comemoraria o Halloween e, mais importante, a data em que conhecera o seu verdadeiro amor.

Também era aquele o dia em que Belle decidira ficar ao lado dela. O Halloween – não, naquele momento eles usavam outra palavra, Samhain – do ano imediatamente posterior àquele em que conhecera Belle. Fora uma noite de lua cheia, uma coincidência espantosamente dolorosa para a jovem.

A transformação sempre fora excessivamente pungente, e isso sempre causara estranhos lapsos de memória na jovem, pois sua consciência humana se tornava quase inexistente. Naquela noite de Samhain, entretanto, alguma coisa – talvez a magia que envolvia a data – a impedira de se entregar completamente ao lobo, o que só servira para tornar a sua dor ainda mais excruciante.

Red se lembrava de um mar de sofrimento indescritível quando, repentinamente, algo começou a mudar dentro e em volta dela, um calor confortável como o abraço de uma mãe ou o beijo de um amante. Algo tão bom que Red quase desmaiou sentindo a exaustão que sucede a dor. Ela se lembrava, também, de brilhos azuis e dourados em todo o seu campo de visão.

– Fadas? Isso não é um enfeite muito típico do dia das bruxas, é?

Ruby sorriu ao ouvir aquela voz doce e sensual que ainda a fazia se sentir como se tivesse sido atingida por um raio. A dona da voz a abraçou por trás e apoiou a sua cabeça no ombro dela.

– É típico do meu, — disse Ruby, incapaz de conter uma leve risada.

Ela ainda se lembrava que acordara no dia seguinte deitada no colo da mesmíssima fada que a ajudara um ano antes. Belle. A fada sorrira quando vira que ela acordara.

– Corta o meu coração te ver tão machucada, eu gostaria que pudesse impedir a sua transformação.

Seu espanto fora grande quando percebera que a fada a estivera curando, e Red se perguntora o motivo pelo qual aquele ser maravilhoso estivera ali, ajudando-a.

Foi com surpresa, portanto, que Red descobrira que Belle estava ali contrariando as regras das fadas, por amor. Ela lhe contara que havia se apaixonado instantaneamente por ela, mas fora covarde e não conseguira escolher entre seu lugar ao lado das fadas e a pessoa que ela amava.

– Quando eu vi o seu sofrimento, entretanto, precisei interferir. Suponho que a Blue Fairy tenha razão a meu respeito, mas é difícil resistir ao amor verdadeiro.

Amor verdadeiro, amor verdadeiro, amor verdadeiro. Aquelas duas palavras ficaram se repetindo dentro da cabeça de Red por muito tempo até que ela entendesse completamente o que elas significavam de fato.

Aquilo fora confuso a princípio, mas tanto tempo depois – e, simultaneamente, nem tanto tempo assim –, Ruby finalmente entendia: o verdadeiro amor fora a magia que, contrariando todas as expectativas dela, rompera com a maldição do lobo dentro dela. Quando Belle entrou definitivamente em sua vida, as transformações pararam completamente. Por que o primeiro beijo não funcionara? Elas não tinham muita certeza.

– No meu, há muitos lobos, — disse Belle.

Ruby se virou, sorrindo para encarar sua amada nos olhos. Por alguns segundos, ela se perdeu diante do brilho natural deles – que não desaparecera, embora ela tivesse deixado de ser fada muito tempo antes.

– Eu te amo.

– Eu te amo também, Belle.

E elas se beijaram, o que fez com que Ruby se recordasse daquele primeiro beijo. Nada mudara, mas tudo estava totalmente diferente.

Notas finais
Essa fanfiction foi escrita para a Amanda Alcântara Gonçalves. Espero sinceramente que tenha gostado.
Peço desculpas pelos possíveis erros, não houve muito tempo para eu corrigi-los. Em breve, farei uma nova revisão.
Abraços a todos os leitores e espero que tenham apreciado a leitura.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!