Era véspera de Natal, após uma semana cheia de passeios e visitas a vários pontos da cidade. Sun e Sook já conseguiam andar sozinhas por Gangnam gu sem se perderem, aprenderam a andar de metrô e ônibus com facilidade e até tinham visitado cidades próximas com o primo e a tia. Min-Ho e Soo-Yun estavam preparando a ceia desde que terminaram de tomar café, enquanto tio Kwan e Sun arrumavam a casa, Sook e Yong-Kyung a decoravam e Young-Mi entretia os avós Yang.
Tio Kwan e Sun tinham sido rápidos, já estavam quase terminando de arrumar, enquanto ele varria, Sun coletava o lixo com a pá e eles conversavam.
— Eu acho a música algo muito importante na vida de uma pessoa — ele diz. — Eu não consigo imaginar minha vida sem algumas trilhas sonoras... sem música a vida seria muito chata, não acha?
— Sim — Sun sorri. — E foi por isso que eu decidi cursar música e viver disso. Eu sei que não é algo muito estável, mas... eu não consigo me imaginar fazendo outra coisa na vida.
— Então, vejo que você me puxou — tio Kwan ri com gosto. — Eu também não me imaginava fazendo outra coisa na vida quando tinha a sua idade.
Eles ficam em silêncio por um minuto e Sun se dá conta de que nunca ninguém tinha lhe dito com o que o seu tio trabalhava. Ela já se perguntou sobre isso, mas tinha se esquecido de perguntar a ele ou a alguém aquilo que parecia tão óbvio.
— Tio Kwan...
— Sim — ele estava arrumando o tapete no lugar após varrer embaixo dele.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Claro!
— Com o que o senhor trabalha?
— Bem, eu trabalho com música — tio Kwan diz, estranhando a pergunta por um instante. — Eu não cheguei a mencionar isso?
— Não.
— Eu jurava que tinha dito em algum momento, me desculpe — ele ri, bem-humorado. — Bem, eu sou produtor musical de muitos cantores e grupos daqui. Por isso fico tão feliz quando vejo alguém seguindo a carreira musical como você.
— Faz sentido — Sun sorri.
— E a paixão pela música faz de nós dois a veia artística da família.
— Eu acho que sim — Sun concorda, feliz por encontrar algo em comum em alguém improvável.
— Vocês estão fazendo um ótimo trabalho, crianças — tia Min-Ho diz ao ver todos trabalhando na sala. — Mas preciso da ajuda de um de vocês para ir comprar mais uns ingredientes de última hora que acabaram.
Sun olha para o tio, eles já estavam terminando, enquanto a irmã e o primo ainda estavam enrolados com vários itens de decoração natalina que pareciam se multiplicar, logo, sobraria para ela ou o tio ir ao mercado.
— Você pode ir se quiser, que eu termino isso aqui — tio Kwan diz, com um sorriso simpático.
— Tem certeza?
— Sim, sim. Eu só vou terminar de varrer e por o lixo pra fora, você pode ir.
— Tudo bem, então — Sun deixa a pá em um canto e vai até a cozinha com a tia pegar a lista de coisas.
A lista continha apenas 7 itens, felizmente pequenos e carregáveis por uma pessoa só, Sun só não contava com a dificuldade de encontrar alguns desses ingredientes que ela nunca tinha ouvido falar. Ela também não queria pedir ajuda à nenhum estranho e por isso, estava olhando de gôndola em gôndola tentando decifrar algumas etiquetas.
— Mas que droga de rótulo é esse? — ela dizia tentando decifrar o rótulo de dois potes com algo que parecia molho dentro. — Isso não faz nenhum sentido...
Um cara que a ouviu falar em um idioma desconhecido para ao lado dela pegando um pote do mesmo que ela tinha em uma das mãos.
— Maldita embalagem...
Ele a olha de esguelha enquanto gira o pote na mão, timidamente, sem saber se oferece ajuda ou não.
— Você... precisa de ajuda? — Ele pergunta, vendo a expressão de perdida de Sun.
— O que? — Sun se dá conta de que estava sendo observada.
— Eu perguntei se... você precisa de ajuda com isso — o cara de touca preta levanta o pote na altura do rosto e aponta pra ele como se estivesse fazendo alguma propaganda.
— Eu acho que sim... — ela acaba confessando. — É que eu tenho uma lista e... não sei qual desses minha tia quer.
— Humm... posso ver? A lista?
Sun pega a lista amassada já do bolso do moletom e a entrega a ele, que a pega e lê com atenção.
— Faltam 3...
— Sim... — Ela nota que o cara evita fazer contato visual com ela, o que ela acha engraçado já que ela é que costumava agir assim perto de garotos. Talvez ele fosse mais tímido que ela, afinal.
O cara pega um pote do mesmo que ele pegou antes para o seu próprio carrinho e dá a ela.
— Agora faltam dois. Vamos — ele sorri timidamente e vai à frente empurrando o seu carrinho.
Sun apenas o segue com seu carrinho também.
— Você não é daqui, certo?
— É tão óbvio?
— As pessoas daqui não costumam brigar com os produtos em outro idioma — ela ouve a risada contida do rapaz à frente e acaba rindo também.
— Como sabe que eu estava brigando com o pote se estava falando em outro idioma?
— Pela sua expressão. Era expressão de quem estava furiosa.
— Eu não estava furiosa... só irritada — ela dá de ombros.
Ele para em frente à outra gôndola e confere os produtos.
— E por que estava irritada? — Ele entrega o penúltimo ingrediente a Sun, trocando um olhar rápido com ela antes de se voltar para a gôndola e pegar dois sacos para o seu próprio carrinho.
— Porque eu não estava entendendo a escrita da embalagem...
— Deve ser porque ela estava em chinês — ele diz, voltando a empurrar o carrinho.
— Ah, ótimo... ainda tem isso.
Mais uma vez o cara ri. Eles andam por mais um tempo e passam por mais algumas seções em silêncio.
— Você... está aqui há muito tempo? — Ele tenta retomar a conversa.
— Só há uma semana, na verdade — ela diz pouco atrás dele, não costumava falar de si para estranhos, mas as palavras simplesmente saíam antes que ela pudesse pensar muito. — Eu vim do Brasil.
— Ah, Brasil! Eu estive lá... duas vezes. Em São Paulo apenas.
— Eu sou de São Paulo! — Ela ri e ele para na última gôndola, se virando pra ela.
— Que coincidência... — Ele sorri e Sun percebe que ele tem um lindo sorriso quando não estava evitando olhar pra ela. E uma pinta sob o lábio inferior.
E após trocarem um olhar tímido, um outro cara aparece na entrada da seção.
— Ah, aí está você, Jung... — O cara percebe a presença de Sun e se interrompe, um pouco constrangido. — O Jin hyung disse pra você se... apressar.
— Ok, eu estou indo — o rapaz pega o ultimo ingrediente e passa pra ela com a lista. — Pronto, completo.
— Obrigada pela ajuda — Sun diz com um sorriso, pegando a lista e o produto.
O rapaz apenas sorri e assente antes de ir embora com o amigo mais baixinho, que coloca a mão no ombro dele rindo.
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