Move — A Vida é Feita de Mudanças
11 A Segunda Voz
Alguns dias depois, Sun tinha feito daquele lugar na grama o seu lugar e sempre ficava ali na hora do intervalo ouvindo música ou escrevendo suas músicas em seu caderno de anotações. Ela gostava do fato de não ser incomodada e de ter achado um cantinho ali pra chamar de seu. Porém, ficou surpresa quando chegou ao local pela terceira vez e viu que alguém estava ocupando o seu lugar.
O garoto também ouvia música e sussurrava algo que ela não se deu ao trabalho de decifrar, ele não se deu conta da aproximação dela, estava de olhos fechados e cabeça encostada na árvore. Sun olha ao redor com o violão na mão e vê que tinha gente em praticamente todo o lugar ali e ela não tinha feito amigos até agora para se sentar perto de qualquer outra pessoa dali — bem, duas garotas tentaram puxar assunto com ela duas vezes, mas ela não estava mesmo afim de fazer amizades e não encorajou as meninas a continuarem. Sun suspira, justo quando ela decide praticar violão antes da aula de instrumentos... mas ela estava determinada a não deixar que ninguém a atrapalhasse, então decide se sentar do outro lado da árvore, há apenas uns quarenta centímetros de distância do garoto, seja lá quem fosse. Ela se senta de pernas cruzadas, coloca um dos fones para acompanhar a música The Man Who Can't Be Moved de The Script e posiciona o violão no colo para começar a tocar e cantar, ela dá play na música e começa baixinho para não incomodar o garoto do outro lado do tronco da árvore que os separava.
Enquanto cantava e tocava, na metade da música, ela começa a ouvir uma segunda voz a ajudando. Ela continua, notando que a voz a segue e ela aumenta um pouco o volume, pra ver se ela estava imaginando aquilo realmente ou se tinha mesmo alguém cantando com ela, e a segunda voz aumenta também. Sun sorri e continua cantando e tocando, estava impressionada em como a sua voz e a voz desconhecida se encaixavam bem, a música tinha ficado perfeita daquela forma e ela a finaliza sorrindo.
Então, ao terminar, Sun decide tocar outra música, a mesma que ela tinha tocado na sua audição: Breakeven; e, como o esperado, quando ela chega no refrão, a segunda voz surge e elas cantam juntas. Sun não podia parar de sorrir, assim como na primeira música, aquela voz se encaixava perfeitamente com a sua e ambas tinham uma conexão incrível que durou por mais alguns minutos até que a música terminasse e Sun parasse de tocar.
Ela não queria parar, na verdade, estava pensando em iniciar outra música quando o sinal anunciando o fim do intervalo toca. Sun guarda o celular no bolso com os fones, coloca o violão nas costas ao se levantar e vai em direção ao edifício sem ousar olhar pra trás, um pouco triste por não poder continuar cantando ali com o dono misterioso da sua segunda voz.
Sook estava voltando de metrô com a irmã e o primo, como já tinha se tornado costume; ela conversava com Yong-Kyung sobre suas aulas e sobre suas amigas, já Sun, olhava para a janela com a cabeça encostada no vidro e ar perdido. Ela se lembrava da voz que a tinha acompanhado e da forma como ela se sentiu conectada naquele momento, como se voltasse a pertencer à algum lugar pela primeira vez desde que estava ali.
Sook a chamou para descer, mas ela não ouviu e então, ela levou um sacode da irmã.
— Sun, chegamos! Ande logo antes que a porta se feche... — Os três descem rápido.
E eles completam o percurso até o prédio andando.
— O que você tem? — Sook pergunta, ao notar que a irmã estava mais longe do que nunca.
— Nada... — Sun não entende a pergunta, ela não tinha feito nada de diferente até ali.
— Está mais esquisita do que de costume...
— Isso é coisa da sua cabeça de vento, porque eu sou a mesma de sempre — Sun vai andando na frente e entra no prédio.
— Eu também acho que ela está mais calada hoje — Yong-Kyung diz.
— Sim! — Então os olhos de Sook brilham com um pensamento novo e ela sorri. — Será que ela tem algum oppa?
Yong-Kyung sorri também e dá de ombros sem saber o que dizer e eles entram no prédio.
No dia seguinte, após Sook responder as mensagens das amigas do Brasil no grupo do Whats, ela usa o seu celular no intervalo das aulas para pesquisar coisas sobre o seu grupo favorito, mas as únicas notícias eram do outro lado do país e ela tinha certeza de que sua mãe jamais a deixaria ir pra tão longe mesmo se Sun a acompanhasse. Ela estava ficando frustrada, mas não desistiria.
— E então? — Kimin pergunta.
— Nada... — Sook diz com um suspiro.
As amigas fazem cara de triste pois compartilhavam o mesmo amor pelo grupo.
— Eu soube que eles estariam numa festa da empresa nesse final de semana... mas não tenho certeza porque muitos dizem que isso não passa de um boato — Haneul diz.
— E mesmo se for verdade, não sabemos onde seria... — Chun-Ho completa.
— Pois é... — Sook olha para o celular meio desanimada. — Mas eu vou tentar procurar mais informações sobre isso, talvez consiga achar pistas do lugar.
E ela continua pesquisando.
Sun chega ao seu lugar à sombra da árvore onde tinha cantado com a segunda voz misteriosa e fica um pouco triste por estar sozinha dessa vez. Ela se senta no lugar onde o garoto desconhecido estava no dia anterior, cruza as pernas com o violão nas mãos e coloca um dos fones para praticar outra música. Dessa vez sozinha...
Ela suspira e coloca a música pra tocar, Smother de Daughter e começa a tocar e cantar. A música triste combinava com o seu estado desde que seu pai se fora e ela se lembra dele enquanto canta, segura as lágrimas e sua voz treme em algumas partes, mas ela continua cantando.
Quando termina, agradece mentalmente por estar sozinha, seria constrangedor saber que alguém a viu quando ela tinha se emocionado com suas lembranças. Sun coloca a música Home pra tocar dessa vez, da mesma cantora e começa a tocar e cantar. Ela canta sozinha, essa música a lembrava da saudade que ainda tinha da sua vida no Brasil e quando chega na parte final, uma voz tímida surge. Ela fica surpresa e para de cantar e tocar por um instante, mas respira fundo e continua prestando atenção, era a mesma voz de antes. A voz faz alguns arranjos diferentes enquanto acompanha e Sun sorri, era uma nova forma de cantar aquela música e tinha ficado bem legal.
Quando termina, Sun se pergunta a quanto tempo aquela pessoa estava ali. Ela não sabia, mas estava feliz por não cantar sozinha e começa a tocar uma última música, Run também de Daughter, essa era mais divertida e ela só é acompanhada no refrão, talvez a voz não conhecesse aquela cantora... Sun sorri. Ela termina a música e o sinal toca. Então, mesmo sem querer, ela se levanta com o violão e vai para a aula, ela não quis olhar pra trás, sentia que se fizesse isso, não conseguiria mais cantar com o desconhecido, pois a timidez a impediria de continuar com certeza. E ela estava adorando aquilo.
Naquela noite de sexta, Sun teve que ir fazer compras para a mãe e como vinha fazendo há meses, Sook a acompanhava. Sun não entendia o interesse da irmã ultimamente em fazer compras, ela odiava isso no Brasil, mas desde janeiro, ela sempre acompanhava qualquer um que mencionasse a palavra: supermercado.
Dessa vez, tio Kwan tinha emprestado o carro pra Sun trazer as compras, após algumas aulas de como dirigir na Coréia e de conseguir sua habilitação nacional, ela já podia andar ali sozinha. Sun tinha conseguido sua habilitação no Brasil recentemente, assim que tinha feito 18 anos, mas teve que fazer uma nova prova ali para poder dirigir no novo país. Ela estacionou e as duas foram pra dentro.
Enquanto Sun pegava as coisas da lista e colocava no carrinho, Sook não ajudava e apenas desaparecia indo de seção em seção fazendo sabe-se lá o que. Não era muita coisa a comprar e Sook apareceu apenas quando Sun estava indo para o caixa.
— Vou esperar no carro, to cansada da educação física de hoje... — ela diz e sai.
Sun revira os olhos e vai pagar as coisas. Sook vai pra fora do supermercado e não lembra onde a irmã tinha estacionado o carro direito, mas logo vê o carro do tio, entra pela porta de trás e se deita no banco. Ela fecha os olhos enquanto espera e acaba pegando no sono ali mesmo.
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