Mountains
1 Mountains — capítulo único
Um besouro com chifres no topo de sua cabeça caminhava sobre os pelos brancos da mão de uma coelha anã igualmente branca, a cor escura do inseto contrastava de forma gritante na imensidão imaculada que era o pequeno corpo da coelha.
Esta era Haru.
— Então você gosta de insetos?
Uma mão ossuda, coberta por pelos cinzentos e unhas compridas se colocou sobre a mão dela, pegando com delicadeza o besouro, deixando que ele caminhasse tranquilamente pela extensão de seu braço.
— Gosto. Quero poder ser entomologista em algum momento da minha vida.
Os olhos vermelhos dela observavam com certa estranheza, o inseto caminhando por entre os pelos cinzentos, como se aquele fosse parte de seu habitat natural.
— Que tipo de besouro é esse?
— É um besouro-rinoceronte, um dynastinae.
Ela parecia surpresa ao constatar que ele realmente sabia do que falava, mas o que mais se ressaltava como surpreendente naquela situação era um enorme lobo cinzento ter apreço por insetos.
Se bem que ela já desistira de contar o número de vezes em que ele dissera o quanto a amava.
Legoshi certamente era um em um milhão. Somente assim, pensando que esse era um evento raro, ela poderia dormir tranquila, sabendo que um lobo se apaixonara por ela e que ela também retribuía esse sentimento.
Um carnívoro e uma herbívora.
A sociedade na qual viviam repudiava tal relacionamento e ainda assim, pouco se importando com que os outros pensavam, eles estavam ali.
Juntos.
O lobo mau conseguira provar que era bom e a coelha que se sentia perdida em meio a sua própria espécie, encontrara alguém que a reconhecia num piscar de olhos.
— Sabe Legoshi, nós podemos trabalhar juntos. Eu vou ter um enorme jardim e você pode deixar os seus insetos nele.
— Haru, você sabe como um entomologista trabalha?
— Não, por quê?
— Eles estudam os insetos, suas classes e hábitos. Existem muitas áreas de estudo mas não sei se seria uma boa ideia deixá-los em um jardim. Tudo o que fiz até hoje foi cuidar de besouros e lagartas, sempre os deixando em um lugar fechado.
As orelhas altas de Haru cederam um pouco em tamanho, dando a entender que ela pensava em algo.
— Então nós podemos selecionar quais que você quer estudar, assim eu deixo uma parte do jardim somente para eles, o que acha?
— Você não vai desistir dessa ideia mesmo, né Haru?
Ela sorriu, negando com a cabeça.
— Não. Aliás isso pode me ajudar quanto ao que usar nas plantas, vai ser divertido!
E mesmo sendo um lobo, tendo porte de um lobo, Legoshi se distanciava dos da sua espécie em alguns pequenos detalhes — seu entusiasmo por insetos, o cuidado que tinha perto de herbívoros, assim como toda a introversão e sinceridade descuidada — e existiam tantas outras coisas que ela nunca vira nele.
Como a risada dele.
Era algo tão diferente, ela não se lembrava de ter escutado um carnívoro rir dessa forma, tão contida e honestamente.
— É, pode ser.
A cauda do lobo, que até aquele momento não parara quieta, encontrara sossego circundando o esguio quadril da coelha anã, que estava sentada ao seu lado.
O dia estava bonito, ninguém os encarava de forma estranha, estava tudo bem, tudo ótimo.
Era incrível não se sentir em perigo estando na presença de Legoshi.
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