Motorcycles and Grape Sodas
1 Capítulo Único
Notas iniciais
I was gone, but not my love
You were clearly meant for more
Than a life lost in the war
I want you to be happy
Free to run, get dizzy on caffeine
Funny friends that make you laugh
And maybe you're just a little bit dappy..."
Youth - Glass Animals
Na pequena e abafada garagem com a iluminação provocada somente por uma lâmpada amarela, Carmilla acomodava-se diante de, uma quase decadente, motocicleta com a simples missão de fazê-la funcionar novamente. A sua face carregava seu típico mal humor e seus pequenos dedos pálidos sujavam-se de graxa na tentativa de consertar cada peça. Certamente, ela desejava o encontro das rodas com a estrada e o seu silêncio, se distanciando de seu pequeno mundo, de sua mãe, de sua deprimente vizinhança, de suas lembranças, porém, o seu desejo estava longe de se realizar, em razão dos caprichos de sua mãe. Sendo assim, o seu interior permanecia frustrado com o seu atual estado, alimentado pela sensação de estar aprisionada por todos os centímetros de sua cidade; ela compreendia os sentimentos doimperador Nero o qual em suas lendas tangia sua lira enquanto a cidade estava em chamas.
Enfim, o que restava era estar com as mãos sujas por consertar uma motocicleta deixada pelo seu pai que fugiu, e por conseguinte enlouqueceu a saudosa Lilith Morgan, mulher de ferro que governava a pequena cidade de Silas ou como chamava, mamãe.
Carmilla era criança quando ele a deixou, certamente Franz Karnstein tinha ido embora, mas não o seu amor ou a crença que ela estava claramente destinada a uma vida melhor, sem ele. Entretanto, as palavras de seu pai eram apenas fantasmas de suas melhores memórias.
Anos atrás, Carmilla sentiu que seu coração se partira e agora seu corpo está intacto e de uma forma ordinária, tudo o que tentou deixar para trás ainda está ao seu lado.
Somente seu pequeno raio de sol personificado em mulher a desviava de seu objetivo de consertar sua motocicleta. Carmilla certamente amava o seu silêncio, porém Laura sempre chegava em sua garagem com um ânimo incurável comentando sobre o último jogo do time de Silas; quem jogou ou quem saiu após uma severa concussão ou quem vomitou por ter comido uma quantidade alarmante de cachorro quentes. Ela era nova na cidade e criou uma rápida amizade com a filha de Lilith. Carmilla observou por alguns segundos a fala rápida de Laura e depois, voltou sua atenção para sua atividade inicial.
Naquela posição, Laura podia somente observar as mãos ágeis da garota ou o chão sujo. Pelo tempo da amizade, ela se sentia sem poder algum sobre a nuvem cinzenta que ultimamentetem acompanhado Carmilla.
Laura notou o total desinteresse de sua amiga por si, sentou-se com as pernas cruzadas junto a garota de cabelos escuros e fitou a fervorosa adoração da mesma pela decadente motocicleta, em silêncio. Após alguns segundos, soltou um suspiro bem ruidoso que infelizmente não atraiu a atenção da menina.
Laura lembrou que arrancou pequenos sorrisos daquela garota poucos dias atrás, enquanto se sentaram nos balanços do velho parque da praça, quando a informou que iria desmascarar o esquema do desvio de cargas de seus cookies favoritos. Carmilla sorriu e considerou que era apenas um plano bobo; ela sempre pareceu com os pés tão rentes ao chão.
Algumas vezes, o presente tinha essa capacidade de se desenrolar calmamente, e Laura era agraciada com a chance de observar o perfil de Carmilla, suas feições delicadas e franzidas, seu conjunto típico de roupas: a calça jeans escura e camiseta de alguma banda punk rock que usava enquanto manuseava as peças e as chaves de fendas. Essa é a garota apáticaa qual se importava, quese tornara uma incógnita. A relação delas nas últimas semanas tinha se esfriado, pois algo havia acontecido e Laura se sentia impotente, por Carmilla acreditar que não podia ajudá-la. Laura tinha a noção que algo acontecia sempre que a primavera se aproximava, e os últimos resquícios do raro bom humor de Carmilla se esvaia.Laura lentamente retornou de seus devaneios e encontrou-se na mesma cena de antes, porém agora Carmilla proferia algumas palavras inaudíveis. O período da tarde iniciava seu fim e com ele o horário de ir para casa.
Então, Laura somente concordou em silêncio e partiu da residência das Karnstein.
Após a saída de Laura, Lilith Morgan entrou lentamente no local com a cautela de quem se aproxima de algo perigoso, por certo, a oficina de Franz era o último lugar onde esperava estar, afinal, o sentimentalismo que aquele lugar desenvolvia em si era perturbador. A garagem era como uma caverna para Franz, onde ele desaparecia para dar atenção para os instrumentos de observação dos cosmos. Ele se denominava diplomata das estrelas, interpretava a comunicação delas, mas para Lilith, ele era apenas um professor de Astronomia com recaídas para Filosofia e ascendência em "lunático". Lilith sempre foi ciente que havia se casado com um homem sonhador, aparentemente uma completa versão desfigurada de si mesma e isso foi os lampejos mais surpreendentes de sua relação com Franz como também, a desgraça, da mesma.
Quando o informou que esperava uma criança dele, sentados naquele restaurante de beira de estrada e Franz ainda detinha a sua atenção no tráfego de carros do lado de fora, então, Lilith disse mais uma vez a tão temida sentença e finalmente, seu namorado afirmou que entendeu e sorriu. Mesmo com a afirmação, a mulher ainda confusa pediu que Franz repetisse sua frase, pois não compreendeu o semblante absurdamente calmo de seu namorado. Tão jovens... Talvez, ele ainda não havia descoberto a gravidade da situação, ela mesma encontrava-se com uma intensa incerteza do futuro, antes ele, um plano brilhante sem margem de erro.
Então, Franz percebeu a inquietação de sua namorada, tomou a mão dela e disse que desejava um filho enquanto ainda jovem, sendo assim, ele prometeu que seguraria a mão de seu filho e lhe mostraria um pouco de beleza, então não houve erro algum, afinal.
Alguns ruídos tomaram sua atenção e procurando pelo responsável, encontrou Carmilla sentada junto à uma caixa de ferramentas, encarando a antiga motocicleta de Franz, na qual em sua juventude costumava dirigir.
Então, concluiu que sua filha estava com uma disposição quase sagrada para reconstruir aquele pedaço inútil de lata, logo que observou a maneira do olhar de Carmilla sobreaquele objeto como um pagão fiel em seu santuário, enquanto seus lábios se moviam em uma conversa silenciosa. A mulher mais velha observou por mais alguns segundos aquela cena, para então assimilar que essa era a atividade que Carmilla exercia após aos jantares "em família" quase inexistentes; o motivo das ligações da coordenação da escola devido as constantes faltas de Carmilla.
A ingratidão daquela garota a enfurecia, pois enquanto, Lilith oferecia a melhor educação e qualidade de vida para sua filha em favor de algum afeto da mesma, Carmilla porém preferia cultivar os laços inexistentes com Franz, como se aquele covarde a auxiliasse na criação de sua filha. Ele fugiu, deixando a na solidão que por ventura ela não merecia, como também não é justo que sua filha lhe ignore depois de tudo, logo, ela precisava que estabelecer algum controle sobre isso imediatamente.
Então, com a voz fria e autoritária, Lilith exigiu que Carmilla retirasse as mãos daquele objeto, porém pareceu que ela não a ouviu e continuou olhando para baixo. Porventura, sua filha se tornara surda? Carmilla, sua joia mais preciosa, sua bela e única filha, que não a escutava e a feria amargamente.
Ela repetiu a frase com mais dureza. Apesar da baixa iluminação, Lilith sabia que Carmilla carregava os olhos de seu marido, as mesmas feições de quando o contrariavam que no momento foram lançadas para si, enquanto Carmilla negava com a cabeça vagarosamente, ato que provocou tamanha fúria na mais velha, pois logo daria um basta nisto...
O entardecer, ora perceptívelora banalizado pelosmoradores da pequena cidade de Silas. O céu comseus tons alaranjados e a brisa da primavera que acariciava tanto os galhos das árvores quanto os fios claros de Laura que caminhava olhando para os seus pés, quando ela voltou seu olhar para o plano mais alto, de imediato avistou o velho "Barão" Vordenberg.
Desse pitoresco lugar outro sujeito interessante, o qual se acreditava que o tempo tomou a sua vitalidade, o deixando a essa enfadonha rotina dese sentar em um dos bancosdaquela decadente praça todos os finais de tarde. As feições do velho eram duras, a boca em uma linha grossa enfeitada com rugas. Apesar da visão afetada pelo tempo, seu olhar não se limitava ao plano baixo, logo que sempre encontravam o velho Barão em seu terno risca de giz, sentado com postura ereta, de cabeça erguida e sem se esquecer de sua preciosa bengala na mão.
Laura ouvia muitas histórias acerca daquele homem absurdamente calado, por isso, eledespertava em si uma curiosidade tamanha. De acordo com os moradores de Silas, ele fora um moço falante que adorava contar histórias e aventuras nas quais ele não era o protagonista; um mentiroso. Um dos motivos de sua partida, o jovem Cornelius Hans Vordenberg desejava ser o protagonista de sua própria história, então saiu da pequena cidade, e décadas depois, ele retornou envelhecido e sem proferir palavra alguma.
Laura sabia que aqueles olhos testemunharam avidamente este sinuoso mundo, e hoje devesse acumular tanto, mas infelizmente o egoísmo do velho devia ser maior que qualquer coisa.Sendo assim, o Barão se tornou um projeto pessoal da menina, devido a sua extensa bagagem de mundo, apesar dedesejar o silêncio e a tristeza em razão de sua atual condição, ou talvezele não veja as mesmas coisas como antes ou não sinta as mesmas coisas como antes, ainda que tenhaalma elevada. O corpo do velho Barão estava preso a saudosos sentidos e o tempo caia sobre seus ombros, apesar de seu esforço para manter a postura ereta, os anos tinham seu peso.
Enfim, o velho "Barão" Vordenberg foi somente alguém que viveu e, hoje, espera que a morte o encontre quanto antes, enquanto observava o pequeno parqueinfantil onde o tempo também tomou as cores primárias do escorregador; a ferrugem desabilitou o movimento dos balanços e a vegetação em volta crescia. A cidade havia envelhecido tal como o LugenbaronVordenberg e sua vista para o horizonte inexistente do pequeno parque.
Laura se aproximou receosa e com uma intensa necessidade de conversar com o Velho, acompanhada por seus olhos inquietos repletos de antecipação. Para enfim, calmamente, sentar-seao lado dele. Ela fitou seus pés, para depois os pés do Velho Barão e a postura ereta rotineira dele.
Sua curiosidade gritava por respostas para as perguntas que incessantemente navegavam em sua mente, mas o velho Barão não lhe daria a atenção necessária, além do mais, Laura poderia estar o assustando, pois, já fazia alguns minutos que observava o perfil dele.
Ela retirou do bolso um tocador de músicas. Os seus movimentos foram acompanhados peloolhar de canto do velho, e Laura, notou. O velho Barão olhou por mais alguns segundos para o objeto, e depois, retornou novamente sua visão para o horizonte em um movimento vagaroso.
Ela pensou um pouco em sua próxima ação, olhou novamente para os seus sapatos e mordeu os lábios. Talvez, ela pudesse instigar o gosto pela música do velho Barão, sendo assim, começou a procurar algo em sua lista de músicas. Após alguns segundos de busca, ela reuniu ofereceu um dos fones de ouvido para o mais velho. Inicialmente, a ação causou um pouco de espanto no Barão, que antes a observava com indiferença e uma pequena desconfiança, tentando compreender as ações da jovem que ainda persistia com seu sorriso comentando que ele iria gostar.
Cornelius estava sem ânimo para isso, ele movimentou a cabeça em negação como resposta. Mas, ela continuou dizendo que talvez ele pudesse gostar de uma cantora famosa nos anos 50 e ele negou novamente. A resposta frustrou as intenções de Laura para com o Velho Barão. A insistência dessa menina irritante era cansativa, porém, ele mentiu.Seria impossível enterrar as lembranças de sua primeira grande festa onde as batidas alegres do jazz instigavam qualquer alma a dançar no salão em seu memorável passado, como o jovem que foi.
O salão de dança estava cheio. O som das vozes, a alegre batida da música e o cheiro de rosas inundava seus sentidos. O moço havia sido convidado por um amigo, o qual não conseguia encontrar e esse fatolhe causava uma certa ansiedade. Ele desconhecia a maioria das faces ali presentes, mas todas elas compartilhavam os mesmos largos sorrisos. Os jovens conversavam animadamente, enquanto se deleitavam com taças de champanhe caro. Cornelius olhou mais uma vez para seu terno emprestado, verificou seus fios loiros e rebeldes controlados por gel barato e o hálito de menta da bala que acabara de descartar, ele concluiu que não estava tão ruim, afinal.
De repente, uma mulher de cabelos loiros puxa a sua mão e o leva para o meio do salão de dança. Seus lábios tremiam, as palavras fugiram de sua mente, como haveria de avisá-la que nada dançava e que seria uma total vergonha em pleno salão, porém, sua atenção fora para as mãos macias que atrelaram a sua e nos lábios vermelhos que o avisava para não se preocupar. Embora, o jovem Cornelius com seus passos mansos e envergonhados, ele seguiu a noite de dança com a bela dama que o acompanhava e quem conversou e compartilhou taças de espumante. Thérèse. O último rosto que viu antes de partir.
E as memórias permaneciam assim vagas e borradas como se vistas de baixo d’água, que ainda insistiam...
O que Laura poderia falar se ele compartilhava o mesmo gosto de sua amiga em cultivar um silêncio profundo e agora, constrangedor. No momento, comentou a semelhança do Barão com a sua amiga com um riso sem graça e em seguida perguntou ao mais velho, se ele conhecia CarmillaKarnstein.
O mais velho quebrando seu voto de silêncio a respondeuapós alguns segundos que sim e com uma voz pesada disse que lamentava a morte tão precoce do pai de Carmilla. O comentário causou espanto na jovem.
Para o Barão, somente aquele sobrenome provocou-lhe mais lembranças. O sorriso educado que era compartilhado consigo todas as manhãs quando Franz Karnstein saia para trabalhar e lhe avistava. Como também, no início das primaveras passadas, quando Franz acompanhava sua filha ao pequeno parque da praça. Aquela minúscula menina arisca nas palavras e que procurava as respostas com o olhar. Quando ela se concentrava em alguma brincadeira, o pai oferecia um sorriso singelo e iniciava conversa com o Velho Barão Vordenberg. Franz Karnstein, um rapaz instigante em suas palavras e com ideais interessantes compartilhados por insistência do mais novo, logo o velho Barão considerava Franz como um pequeno esboço de seu eu mais jovem, alguém espirituoso, animado com as probabilidades esperançosas que a vida podia oferecer.
Mas, enfim a menina não cresceu com os mesmos traços da personalidade do pai, então? Além do mais, poucas foram as vezes que viu a pequena Karnstein andar pelas ruas da cidade, principalmente em volta da praça, de vez em quando com essa jovem petulante ao seu lado.
Quando retornou novamente de suas lembranças para si, a jovem de cabelos claros havia desaparecido. Ela havia deixado o pequeno objeto ao seu lado e a feição dura de Cornelius aos poucos foi produzindo um sorriso ridiculamente pequeno ocasionado por uma figura tão pertinente. Por fim, ele posicionou um dos fones em seu ouvido e iniciou a música.
Enquanto Laura corria pelas ruas da cidade, as luzes mornas e alaranjadas dançavam em sua visão. O barulho eloquente de seus pensamentos confundia sua direção e parecia que o caminho para casa de Carmilla se tornara mais longo. Ela corria em um desgoverno semelhante ao seu corpo e o compasso de seus batimentos.
A sua única certeza é que não haveria de desmoronar antes de alcançar a residência da amiga, então, ela implorava para seus pés fracos não falhassem, pois, teria que alcançar o quanto antes aquela quem deixou horas atrás. O motivo do mau humor de Carmila foi revelado, um tanto incompleto, logo, mais perguntas se formaram acerca dos pais de Carmilla ou quem foi CarmillaKarnstein?
Finalmente a jovem entrou na casa pela garagem. A motocicleta estava despedaçada e o rastro de destruição daquele pequeno espaço causou mais confusão em sua mente, Laura pediu a Deus que encontrasse sã e salva aquela garota de olhar apático. Com intensa dificuldade, ela atravessou o local, antes identificado como garagem, procurando a porta e adentrou na cozinha que estava vazia, para depois para a sala de jantar que ostentava uma mesa grande para somente Carmilla e sua mãe. A residência absurdamente enorme para tão poucos moradores não transmitia acolhimento ou o calor de um lar com a sua decoração tão mísera em cores nas escalas de cinza, local próspero para a criação de uma criança tão mal humorada quanto Carmilla.
Laura finalmente encontrou a escada que guiava para os quartos no segundo andar. Os seus pés como plumas passeavam nos degraus, pois, seu objetivo era não ser detectada, sendo que invasão de propriedade privada ainda é considerado um crime, porém, o descompasso dos batimentos de seu coração contrariava seu querer. Enfim, ali estava ela em uma selva, na procura de uma arisca pantera negra, somente pelo desejo de olhar nos olhos daquele abismo novamente, Laura pensou que foi longe demais em suas metáforas.
Em movimentos calmos, ela abriu a última porta do corredor e não encontrou sua fera de fala sarcástica, mas um pequeno felino que se resguardava na escuridão de um cômodo destruído, pretendendo encolher-se até deixar de existir.
A cena se formou mais uma vez, uma imensidão destruída que antes identificada como o quarto de Carmilla e outra coisa que chamou a atenção de Laura, a fotografia do quadro sobre o criado mudo que ainda pendia em pé, a imagem de uma pequena garota ao lado de um homem e ambos sustentavamcaracterísticas semelhantes, aquela bela cena registrada que agora a lua iluminava.
O sangue brotava de seus lábios partidos, Carmila parecia não ter voz, mas ainda precisava gritar seu desespero silencioso no ar sufocante até seus pulmões arderem. A luz mísera que entrava e demonstrava as últimas colunas de Roma, seu império sentimental, destruído com as memórias que antes a consumiam, e que agora tentava se livrar delas.
Hoje, talvez, ela recorde com mais precisão aquelas memórias de seu último passeio ao grande terraço de sua antiga casa com seu pai. Franz havia preparado o local com telescópios, sucos de uva e chocolates sobre um pano vermelho que pegou escondido de Lilith que até hoje não sabe o paradeiro de sua toalha de mesa favorita.
Enfim, a noite estava quente e o céu facilitava qualquer viagem pelas estrelas e seu pai estava determinado a apresentar a história de uma das muitas constelações do céu: Andrômeda, a bela filha de uma rainha arrogante e de um pai que permitiu seu sacrifício para um monstro marinho. A animação de Franz com as estrelas a contagiava, suas palavras eram suaves como as de um trovador à sua musa professando sua admiração e sempre após seu discurso permanecia em silêncio, quieto por alguns minutos; olhando para o céu. Por fim, ele respirava profundamente e oferecia a filha um de seus sorrisos tortos.
A pequena Carmilla tinha certeza que sonharia com a princesa Andrômeda sendo salva pelo herói Perseu assim como sonhava com qualquer mito que seu pai contava; cavalgando com Pégasus; encorajando Hércules para que ele terminasse os doze trabalhos; ou torcendo para que Inanna pudesse resgatar seu amante no submundo. Enfim, aquele homem sonhador a induzia a acreditar que podia voar e ser feliz o tempo todo, porém aquele momento brevemente encerraria.
De repente, Franz estava exibindo aquele conhecido sorriso de lado para sua pequena garota de vestido preto, atualmente, Carmilla reconhece que aquele fora seu traje para um velório, pois assim interpretou a súbita partida de seu pai.
Franz explicou com uma surpreendente calma que precisava viajar por alguns dias, e observou as lágrimas passearem sobre a face de sua pequenina garota e aquelas bochechas rechonchudas e sempre coradas que se pronunciavam quando a fazia rir, estavam úmidas. Seu interior se consumia diante de sua filha talvez por reconhecer sua falta de poder em relação às emoções de sua pequena garota. Ele desejava que a mentalidade infantil de Carmilla pudesse compreender que não necessitava dele como ela considerava ou que ela estaria feliz sem o seu ruído, logo que sua cabeça estava virada para trás e os seus pés em ângulos engraçados e cada vez que dava um passo, avançava mais rápido a insensatez e ultimamente, não conseguia aguentar.
Por fim, Franz passou as mãos sobre suas tranças de Carmilla, parou para observar as pontas de seu cabelo e depois, a fitou intensamente, talvez na tentativa de sussurrar algumas desculpas e partiu.
Enfim, isso é o que somente recorda das últimas ações de seu pai.
Nesse quase rito de passagem, Carmilla sentiu o toque humano novamente em seu ombro e de repente o asco subiu a sua mente, porque pensou Lilith lhe tocara novamente, buscando reconciliar-se após tamanho estrago. A ira incendiou seus sentidos e desferiu um tapa certeiro nessa pessoa e ocasionou na queda desse alguém que gemeu alguns metros a distância, o ruído que chamou a atenção de Carmilla, ela levantou sua cabeça e encontrou o olhar de Laura, assustado, como um cervo na escuridão, ela tocava as bochechas vermelhas com as pequena mãos. Confuso, tudo se tornara tão confuso que Carmilla começou a odiar seu próprio nome. E então a última coluna caiu.
As lágrimas na face de Carmilla formavam-se como pedidos de desculpas, ela juntou suas mãos com as de Laura e implorou em sussurros quebrados para que esta lhe perdoasse.
Laura apertou aquelas mãos frias que entravam em um perfeito contraste com a suas, quentes, e sustentou aquele olhar que carregava com tanta maestria a escuridão da noite, para depois aconchegar a cabeça de Carmilla em seus ombros, e assim, os últimos resquícios da sanidade de Carmilla foram repostos, enquanto Laura acariciava as bochechas onde secas lágrimas a pouco passearam.
Finalmente, quando a respiração de Carmilla estava quase imperceptível e acalmada, em um ansioso momento, Laura cuidadosamente mudou sua posição para que pudesse ver a face de Carmilla; seus traços delicados, sua franja desgrenhada, a maquiagem borrada e o que mais temia: aqueles olhos, agora frágeis e serenos como o mar após a tempestade, e indecisos com toda aquela proximidade.
Então, reunidas no chão do cômodo, elas esperariam calmamente pelos primeiros raios solares que surgissem nas janelas.
E os dias haveriam de prosseguir; andar pelas ruas do subúrbio, sentir a vizinhança acordar consigo com os seus passos ainda sonolentos no asfalto, observar os primeiros raios de sol na grama seca e com impaciência o severo tédio das tardes de domingo, quando os ponteiros do relógio com dificuldade se movimentavam. E ao invés deimaginar que os céus cairiam sobre si, a filha de Franz deixaria de reviver as coisas que passaram.
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