Mother
1 Wish That You Were Here
Sabe quando você está aborrecido com algo e não consegue simplesmente esquecer? Tirar aquilo da sua mente e tal? Tudo bem. Eu era uma criança naquela época, mas meus motivos eram bons. Me deixa!
Ainda me lembro da expressão que meu pai Josh fazia ao me ajudar no banho. Enquanto enxaguava-me, papai fitava-me curioso. Sorria levemente, de lado. Tomado por sua curiosidade, visto que eu não era de pedir companhia no banho, meu pai acabou perguntando o que estava acontecendo.
Eu não queria responder, então fiz apenas uma careta enquanto cruzava os braços e me virava para o lado, claramente aborrecido com o ocorrido mais cedo na escola. O sorriso no rosto do meu pai transformou-se numa gargalhada naquele mesmo instante e, na hora eu não entendi qual era a graça, mas agora, olhando para trás, consigo rir daquela situação.
— “Já sou grandinho”? Huh… Então acho que você também pode terminar seu banho sozinho também — Meu pai Josh ia se levantando com um sorriso descarado em sua face, mas voltou assim que eu o chamei — Tudo bem se não quiser me contar o que houve. Não vou te forçar a fazer algo que não queira, mas sempre que precisar se abrir com alguém, meu filho, eu estou aqui.
Eu o fitei como se tivesse ganhado o melhor dos presentes — e talvez tivesse mesmo.
Pois bem. Ainda relutante, com um pé atrás, resolvi contar que bati em um colega de classe na escola. Ele ouviu todo o relato enquanto me enxugava e tentou não demonstrar nenhuma reação, ou se mostrou, eu não percebi na época.
— Eu preciso conversar com o seu pai, filhão. Isso é sério, apesar de você ter motivos de sobra para fazer o que fez — Naquele dia eu não entendi o que ele quis dizer com isso, mas levei a conversa adiante.
— Você está bravo comigo? Papai Miguel vai ficar bravo comigo também! Eu só não gostei do que o Jon disse e…
— Calma, Jamie! — Meu pai se agachou e fez contato visual, daqueles em que você sente a pessoa enxergar a sua alma — Você é só uma criança de seis anos. Deixa que eu e seu pai cuidamos disso.
— Eu to confuso, papai. Vou ficar de castigo?
— Eu ainda preciso conversar com o Miguel, porque o que houve foi sério. Você não pode sair por aí batendo nas pessoas, mas te prometo que você não vai ficar de castigo.
Eu o abracei o mais forte que uma criança de seis anos conseguia. Seus braços enormes me envolveram num aperto confortável e foi quando percebi que podia contar com meu pai Josh para tudo. Meu pai Miguel tinha suas peculiaridades e eu o amava também, mas entre os dois, meu pai Josh era certamente o melhor para desabafar.
Terminado o banho, meu pai Josh me acompanhou até o quarto e me ajudou a escolher uma roupa legal para receber os convidados. Naquela noite era aniversário de uma amiga dos meus pais e ela e mais alguns convidados iriam jantar lá em casa.
Eu e meu pai descemos para a sala de jantar, mas da sala de TV era possível ouvir meu outro pai, Miguel ao telefone se despedindo de alguém. Fui descobrir depois, que era a diretora do colégio contando o que aconteceu.
— Jamie, você já está pronto?
— Sim, o papai me ajudou.
— E você está lindo! Por que você não vai ligando o videogame para a gente disputar algumas partidas de MMA enquanto a tia Ana e o tio Charlie não chegam?
— Eba! — E saí correndo, porque é isso que crianças de seis anos fazem quando se animam com algo. Além disso, eu estava melhorando no jogo e quase sempre ganhava do meu pai Miguel. Ele não era muito bom com jogos de luta… ou jogos.
Enquanto ia ligando o vídeo game, pude ouvir um pouco da conversa dos meus pais. Um contou ao outro o que sabiam do ocorrido mais cedo na escola, mas decidiram focar nisso em outra hora, porque estavam esperando visitas naquele momento e também porque estavam muito nervosos, sem saber ao certo como agir numa situação em que eu bati num rapaz e pior: por causa deles!
Eu me senti mal. Os dois estavam claramente desconfortáveis e eu gostava demais dos dois, só não gostei do que Jon havia dito pra mim e num momento de raiva, avancei contra ele. No momento me pareceu a coisa certa a se fazer, pois pedi que Jon parasse de falar coisas maldosas sobre meus pais e sobre o fato de eu não ter uma mãe…
Meu pai Miguel se aproximou com um sorriso enorme no rosto e pegou o joystick, confiante de que iria me vencer. Infelizmente, desta vez ele estava certo. Eu não conseguia tirar da cabeça o fato de ter feito meus pais se chatearem com algo que fiz, mesmo que tenha sido para defendê-los. E isso, obviamente, não passou despercebido por meu pai Miguel.
— Eu estou começando a ficar melhor que você, Jamie! Ganhei mais uma!
— Está mesmo — Falei sorrindo, tentando disfarçar. Papai Miguel fitou-me pensativo, mas eu não conseguia encará-lo de volta — Papai… Por que eu… Ern… Por que eu não tenho uma mamãe como o Matt?
— Mas que droga, Jamie! — Eu levei um susto, achando que ele realmente havia ficado com raiva por causa da pergunta que eu acabei de fazer. Até encolhi os ombros rapidamente como se tivesse levado um tapa… Mas ouvir sua voz branda no instante seguinte me fez perceber que meu pai Miguel também podia ser brincalhão e descolado como meu pai Josh — Você estava pegando leve comigo, então!? Eu realmente achei que estava indo bem no jogo pela primeira vez.
Meu pai Miguel ergueu seu braço pedindo que eu me aproximasse e se desculpando pelo susto. Eu também tentei me desculpar pelo que fiz, mas ele insistia em dizer que estava tudo bem. Eu me ajeitei no sofá ao seu lado, como se adivinhasse que ele iria dizer mais alguma coisa.
— A gente precisa ter uma conversa séria!
“Quando um menino cresce e acha uma menina bonita, os dois começam a namorar. Você já sabe disso. Não tem segredo, certo? Então… Esse menino e essa menina se casam, têm filhos, vivem felizes para sempre e essas coisas.
Ainda assim, às vezes, um menino pode se apaixonar por outro menino ou uma menina pode se apaixonar por outra menina e algumas pessoas acham isso um pouco estranho, mas está tudo bem. Não há problema nisso. É como eu e seu pai. Acontece menos, mas acontece e por isso seus amiguinhos têm uma mãe e um pai enquanto você tem dois pais.
Como eu disse, algumas pessoas não acham isso muito legal e começam a ser malvadas com a gente, que gosta de alguém… igual. E isso nem sempre é culpa delas. Pessoas, assim como Jon, são motivados e ensinados a achar que a família perfeita é formada apenas por uma mãe e um pai, mas não é bem assim que as coisas funcionam.
Timão e Pumba, por exemplo. Eles são dois amigos e adotaram um leãozinho, ou a pequena Lilo e o Squitch, ou seja lá como se chama aquele bicho estranho. É tudo família e nem sempre se tem um papai e uma mamãe e está tudo bem. Você está entendendo?”
— Acho que sim… Então você e o papai são só amigos como o Timão e Pumba?
— Vamos um pouco além disso, mas de certa forma sim.
— Ai, papai. Você fala muito difícil.
— Eu e seu pai somos namorados, mas o Timão e Pumba são só amigos, entendeu? — Ele respondeu quando conseguiu parar de rir — Eu só estou dizendo que família acontece de diversas formas. Não precisa ser necessariamente uma pai e uma mãe.
— Ah! Agora sim eu entendi, papai....
Eu abracei forte, como havia abraçado meu pai Josh instantes mais cedo. Foi uma conversa esclarecedora e aquele foi um dos primeiros momentos em que os dois foram bem sinceros comigo sobre o assunto. Tanto meu pai Josh quanto meu pai Miguel sentiam medo de alguma reação ruim da minha parte, então nem sempre foram muito diretos, talvez esperando que eu crescesse mais um pouco — como eu acabei de relatar — para que eu pudesse entendê-los melhor.
— Eu conversei com seu pai e não vamos te colocar de castigo porque a gente não teve essa conversa antes. Mas o que você fez foi errado!
— Mas o Jon falou mal de vocês, papai…
— Não importa. Não se bate nos outros só porque eles pensam diferente. A gente conversa e se a pessoa não quer ouvir, deixa pra lá.
— Mesmo que essa pessoa fale algo ruim de vocês?
— Mesmo assim. Não vale a pena.
O toque da campainha me despertou. Na hora fiquei chateado com o ding dong, mas logo passou, pois era tia Ana e tio Charlie que haviam chegado. Junto a eles estavam tia Glória, esposa do tio Charlie e seus filhos, Matt e Megan.
Meu pai explicou que meu outro pai estava a se arrumar e que logo se juntaria aos outros. Tio Charlie veio falar comigo bagunçando meu cabelo. Tia Glória apenas me acariciou e me deu um beijo. Megan e Matt me deram um abraço rápido. Tia Ana, no entanto, se aproximou com um embrulho. Um presente! Se agachou do meu lado, me dando um abraço e me entregou o tal embrulho.
Eu encarei meu pai e ele deixou que eu abrisse ali mesmo. No chão, entre os pedaços de papel de presente, estava a gravata vermelha. Acabou caindo devido a minha animação. Eu a peguei curioso, tentando entender que tipo de doida daria uma gravata — vermelha ainda por cima — para uma criança de seis anos.
Ainda assim, eu agradeci o presente e fui para o meu quarto guardá-la. Meu pai Miguel pediu para chamar meu pai Josh e nós dois voltamos lá para baixo juntos.
Meus pais foram socializar com os adultos, enquanto Matt e Megan se juntaram a mim e ao meu video game em frente a TV. Megan não gostava muito dos jogos que eu tinha — exceto, talvez, alguns de corrida — então ficou do nosso lado conversando.
— Ouvi dizer que alguém brigou na escola hoje! — Megan disse me provocando.
— Você tinha que ver o Jon, Meg! Chorou igual uma menininha.
— É. Ele falou mal dos meus pais.
— E seus pais não falaram nada? Nem te colocaram de castigo? — Parecia que ela estava gostando da confusão toda — Isso é meio estranho. Ainda mais vindo do tio Miguel.
— Eles disseram que não tinha problema dessa vez.
— Não foi isso o que eles disseram!
— E você estava lá, por acaso? — Matt interveio me defendendo
— Ah, cala a boca, seu idiota!
Tia Glória passou por nós como um furacão repreendendo os filhos e me usando como exemplo. Acho que ela não sabia do que tinha acontecido.
— Só eu que achei estranho a tia Ana dar presentes pra gente no aniversário dela? — Matt falou tentando mudar o clima estranho que se formou ali.
— Vocês também ganharam? — Perguntei curioso — Eu ganhei uma gravarta.
— É gravata, o nome!
— Ih, Megan! Larga de ser chata. — Matt disse assim que sua irmã mais velha me corrigiu.
Infelizmente a conversa não foi para frente porque meus pais nos chamaram para jantar. Adultos e crianças sentados à mesa para comemorar o aniversário da tia Ana.
Algum tempo depois entre o jantar e a saída do tio Charlie, tia Ana se aproximou enquanto eu estava na janela sozinho esperando Matt ou Megan terminarem a corrida no Xbox.
Tia Ana agachou-se ao meu lado e fitou-me sorridente. Fiquei lembrando da gravata e pensando que talvez a tia Ana fosse um pouco doida.
— Seus pais me disseram o que aconteceu na escola hoje cedo.
— Ah… Bem…
— Eu adorei o que você fez — Ela disse rindo e piscou para mim — Só não conte pra eles isso, ok?
— Ainda mais o papai Miguel!
— Nossa! Nem comenta!
— Tia Ana… Você teve uma mamãe?
— Sim, mas ela faleceu cedo então eu cresci apenas com o meu pai.
— Você também só teve papai? — Foi um pouco difícil controlar a minha empolgação naquele momento — Igual eu! Só que eu tenho dois papais.
— E sabe o que é mais legal? Eu cresci junto com o seu papai Miguel. E quando eu fiquei adulta eu conheci o seu papai Josh. Os dois são bem legais, né?
— Demais. Eu amo eles.
— Isso é bom. Você… Não tem ideia do quão feliz eu fico com isso!
Eu não tinha a menor ideia do rumo daquela conversa, muito menos qual era a intenção da tia Ana, mas eu estava gostando. E foi então que… Uma criança, de seis anos, teve uma ideia…
— Tia Ana… Você pode ser a minha mamãe?
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