Mother
3 Breath Of Life
Dez anos após o último relato, ou seja, já com dezenove anos, eu e Matt estávamos mais do que juntos, até porque ele estava passando por momentos difíceis com alguns amigos nossos e sua namorada, que estava em coma, então toda a carga dramática parecia estar voltada para ele e por isso eu não esperava que fosse acontecer o que aconteceu com meu pai Josh.
Meu pai era professor de Educação Física na escola em que eu, Matt e nossos amigos estudávamos, e poucos meses atrás, ele encontrou um dos alunos com um novo tipo de droga que estava rolando nas ruas. Ele levou o aluno na diretoria e tudo mais, porém o jovenzinho revoltado e, provavelmente, já dependente daquela nova substância, resolveu se vingar e mandou dois homens atrás do meu pai. Ele apanhou feio e injetaram nele, a mesma droga.
Por ser uma droga nova, talvez ainda em testes, o corpo dele não reagiu muito bem. Meus dois pais já imaginavam o que estava para acontecer, pois começaram a discutir escondidos após o ocorrido. Eu, curioso e impaciente, acabei descobrindo um exame médico e, como Matt tinha começado a estudar medicina, pedi que avaliasse o que estava escrito e, apesar de não ser muito conclusivo, sabíamos que não era coisa boa, a gente só não imaginava que meu pai estivesse correndo perigo de vida. E em uma crise de ar, isto é, com extrema falta de ar, ele acabou… Bom… Acho que vocês já deduziram o que aconteceu a seguir.
Mas o que tenho para contar, aconteceu no dia do seu enterro. Não tenho muito o que dizer sobre o funeral, a não ser que foi de grande importância a presença de meus amigos e familiares. Exceto por tia Ana, que não estava na cidade, talvez nem sequer soubesse o que tinha acontecido. Obviamente, eu estava munido da gravata vermelha dando a volta no pescoço e caindo sobre o torso. Ela realmente se tornara o meu amuleto.
Após o funeral, eu e meu pai Miguel fomos até a escola onde estudei e onde meu falecido pai, Josh, trabalhou como professor de Educação Física, para o memorial que fizeram em nome dele. Achei um pouco estranho o memorial ser no mesmo dia do funeral, mas talvez não quisessem ficar lembrando do que aconteceu depois, então relevei essa situação.
Ao sair do memorial, na escola, eu e meu pai Miguel fomos andando para casa. Não queríamos ir de carro, pois andar nos fazia bem e ajudava a manter a mente sã.
Um grupo de três rapazes rindo, vinha atrás de nós. Eu olhei para trás e reconheci um deles, não era o líder, mas era importante. Importante, porque justamente o que reconheci, era o que estava com a tal nova droga na escola.
Segurei a gravata vermelha com as duas mãos, me segurando para não avançar contra eles, que até então, não pareciam ter percebido quem era em sua frente. Meu pai Miguel percebeu minha agitação e olhou para trás, imaginando se eu conhecia aquelas pessoas. Me perguntou quem era e logo respondi, e para a minha surpresa, ao ouvir minha resposta, ele parou de andar.
— Pai… – Perguntei, preocupado – O que houve?
— Qual deles? – Ele retrucou.
— O da esquerda – Falei apontando para o rapaz e com isso, os três finalmente pareciam ter percebido quem éramos.
— Entendo… Só queria saber quem era o assassino do meu amado.
Meu pai voltou a andar e eu o acompanhei. Eu estava nervoso, mas acabei me acalmando quando ele disse aquilo. Eu não era o único que sentiria falta de Josh.
Os garotos, no entanto, ao notarem que não faríamos nada com eles, voltaram a rir e andar tranquilamente, mas desta vez falando alto para que pudéssemos ouvir. Começaram com o cinismo e as ironias através de indiretas, mas ao citarem o nome do meu pai pela primeira vez, eu parei de andar. Meu pai notou e apenas disse “Não vou te parar. Não desta vez!”, e voltou a andar enquanto eu surrava os três rapazes.
Eles não eram páreos para mim, mas não quis descontar nos outros o que apenas um deles fez então nossa briga foi bem rápida. Apressei o passo e alcancei meu pai, ainda na rua, mas quase chegando em casa.
Caminhamos em silêncio, então. Meu pai Miguel, tirou o maço de cigarro, que antes pertenceu ao seu companheiro, e acendeu um. Aquilo era o modo dele de dizer que estava tudo bem cruzar um pouco os limites naquele dia, afinal, não passávamos de dois humanos em luto.
Eu tinha problemas para controlar a raiva, mas com o tempo e com a ajuda de muitas pessoas, acabei conseguindo. Deixei de me transformar em uma pessoa violenta. E meu pai Miguel sempre foi contra o fumo, tanto que ao resolver ter um filho com meu falecido pai Josh, pediu a ele que parasse de fumar, ou seja, colocar um cigarro acesso na boca, era como levantar uma bandeira vermelha.
No quarteirão da nossa casa, virando a esquina, ele tirou o cigarro da boca, suspendendo-o com dois dedos e expeliu a fumaça. Fitou-me pensativo, como se estivesse com medo de dizer algo. Coisa que sempre fazia antes de, de fato, dizer-me algo.
— Eu preciso ver uma pessoa e acho que você também – Eu não respondi. Apenas continuei andando. Se ele estava pensativo para dizer apenas isso, então eu já sabia de quem se tratava – Eu ainda não falei nada para ela porque não tenho forças para fazer isso sozinho. Filho… – Meu pai me segurou no ombro, foi quando eu parei para encará-lo, tentando ignorar a dor que sentia em meus punhos – Sua mãe precisa saber disso.
— Ela não é minha mãe – Falei e voltei a andar – Mas eu concordo com você e também não tenho forças para fazer isso sozinho… Quer que eu dirija?
A viagem foi longa, tanto que tivemos que cruzar o estado. Chegamos de noite na casa de tia Ana, mas não havia ninguém. Meu pai telefonou para o celular dela e ela disse a ele que estava no asilo com o pai e, novamente, voltamos para o carro.
Não demorou muito e fomos para o asilo onde ela estava. Não era comum, mas ela passaria a noite lá para ficar com o pai, que sofria de amnésia. “Meu avô”, não pude deixar de pensar. “Vou encontrar meu avô”.
Ela abraçou forte meu pai, que desabou ali mesmo. Fitou-me por cima do ombro do meu pai e me viu com os olhos cheios de lágrimas. A ausência do meu outro pai a fez perceber então o que tinha acontecido sem que disséssemos qualquer palavra.
No momento em que eu a abracei, o mundo calou-se. A única coisa audível para mim naquele momento eram as nossas respirações. Nem mesmo o seu choro era detectável para minha audição. Foi o abraço mais apertado e o segundo mais necessário em toda a minha vida – sendo o primeiro, o do meu pai, Miguel, quando fiquei sabendo o que houve.
Ficamos quase uma hora ali, um fazendo companhia para o outro. Tia Ana nos deu a chave de sua casa e disse que passaria lá pela manhã. Eu queria ficar ali com ela, mas não podia deixar meu pai sozinho.
Acordar sem as brincadeiras e palhaçadas do meu pai foi doloroso, mas foi ainda mais doloroso lembrar que não era apenas aquela manhã que estaríamos sem ele. Tia Ana chegou cedo, nos abraçando bem forte e já preparando um café da manhã para a gente. Nós três sentamos à mesa e conversamos com mais detalhes sobre o que tinha acontecido.
— Eu sinto muito – Ela disse
— Eu sei – Meu pai respondeu – Jamie e a família do Charlie são os únicos que sabem de todos os detalhes… E a polícia, é claro.
— Charlie está investigando?
— Sim. Aparentemente, ele já estava no caso dessa tal de Juno.
— Esse é o nome da droga? – Perguntei, realmente interessado.
— Sim – Meu pai respondeu – É a mesma que deixou a namorada de Matt em coma.
— A namorada do Matt está em coma? – Tia Ana se surpreendeu. Acho que a gente não tinha contado tudo – Matt tem saído com drogadas agora?
— É uma longa, de verdade, longa história! – Falei – Mas a versão curta é que ela ingeriu uma variação da droga que estava destinada a outra pessoa.
— Quanta loucura – Tia Ana disse, por fim.
Algumas horas depois, meu pai foi ao mercado comprar algumas coisas para tia Ana, que não tinha muito tempo, já que revesava entre o trabalho e o asilo. Mesmo em luto, assim como meu pai e eu, nos sentíamos distantes, como se o desfecho de nossa história ainda não tivesse acontecido, apesar de ser exatamente essa a sua intenção ao me revelar que ela era a minha mãe biológica a dez anos atrás.
Na tentativa de acabar com essa história de uma vez por todas, eu a procurei pela casa, encontrando-a sentada no sofá agarrada a um álbum de fotos.
— Ah! Jamie… – Ela levou um susto.
— Posso me sentar?
— Mas o que é isso? Claro que pode!
— Tia Ana… Como… Como tudo começou?
— Como assim? – Achei que ela fosse entender de primeira, mas parecia confusa.
— Bem… Eu achei que teria um desfecho quando descobrisse quem é a minha mãe. O sentimento passou e fiquei mais tranquilo, mas sinto que preciso encerrar essa história e, agora que meu pai se foi, queria que você falasse um pouco sobre vocês no passado.
— Ah! Sim… Primeiro eu conheci o Miguel. Ele e Charlie eram os melhores amigos desde o jardim de infância.
“Miguel sofria com os valentões que gostavam de roubá-lo durante os intervalos e foi assim que conheceu Charlie, pois ele defendeu seu pai uma vez e acabaram se aproximando. Eu estudei com os dois desde muito pequena e sempre simpatizei com Miguel. E por simpatizar, eu quero dizer que tinha uma queda pelo seu pai.
Nós três crescemos juntos. Brincamos juntos, saímos juntos, viajávamos juntos… Era um pesadelo para as nossas famílias. Principalmente para a família do seu tio Charlie, já que ele era obrigado a levar o irmão chato junto.
Quando o seu pai Miguel fez dezessete anos, ele já estava estudando para fazer medicina. Sempre foi organizado, não só com as coisas, mas com ele mesmo. Ele só era mais brincalhão na época. Enfim… Foi nessa época que ele resolveu sair do armário e pediu que Charlie e eu o ajudasse. Seu tio queria fingir que era namorado do seu pai pra família dele não surtar, mas eu achei melhor fazer algo mais prático como ir ao lado do seu pai contar à família dele que ele gostava de homens. E seu pai nem tinha namorado na época, coitado.
E por falar em namorado… Miguel conheceu Josh graças a mim. Eu estava trabalhando no açougue do meu pai quando chegou um Josh tagarela, reclamando que tinha torcido o pé, mas que precisava voltar logo para casa. Miguel não estava muito longe, então falei com ele. Nem preciso dizer que os dois não se deram muito bem logo de cara, não é? Quero dizer, enquanto Miguel é todo organizado e certinho, Josh era mais relaxado e provocador.
Demorou um pouco, mas consegui juntar os dois. O primeiro beijo deles foi num cemitério. Longa história. Talvez eles te contem um dia!
E apesar de os dois serem bem diferentes, algo eles tinham em comum...”
— Os dois são gays! – Falei para descontrair
— Além disso – Tia Ana disse, sorrindo – Eu ia dizer aventureiros. Você acabou com o clima da história.
— Você estava dando detalhes demais – Falei enquanto passava algumas fotos – Fiquei com medo de você contar como foi a primeira vez dos dois.
— Esse era o próximo tópico na verdade – Ela respondeu, me provocando – Mas já que você não quer saber, eu vou pular essa parte. Enfim… Josh e eu nos tornamos melhores amigos. Miguel já tinha o dele… Eu sempre achei que ele tinha uma queda pelo Charlie, mas talvez eu esteja enganada. De qualquer forma, eu continuo shippando os dois.
— Ninguém merece.
— Relaxa! Só tem mais uma coisa para te contar – Tia Ana disse num tom mais sério, o que me preocupou um pouco – Josh veio conversar comigo, dizendo que queria um filho.
Eu gelei na mesma hora. Sabia que chegaríamos nesse assunto, mas não imaginava que fosse tão rápido assim. Eu estava curioso e queria saber mais sobre meu falecido pai, mas… Estava nervoso. Passei minha infância e adolescência tentando descobrir mais sobre meu passado e agora que as respostas estavam finalmente se revelando, eu estava com medo e nem sabia porquê.
— Eu disse que os ajudaria. Como eu poderia não ajudá-los? Quero dizer… Eram meus melhores amigos.
— Olha… Tia Ana…
— Eu só pedi a eles – Ela continuou, me ignorando – que me prometessem que não diriam a você que eu era a sua geradora. Eu tive medo.
— Medo de quê?
— De que você quisesse ficar comigo como se…
— Como se você fosse minha mãe?
— Não só isso. Nós éramos próximos. Quero dizer eu sou humana, p-p-poderia fraquejar e q-que-querer você como meu filho p-porque eu o gerei o-o-ou talvez...
Ela assentiu com a cabeça e eu a abracei forte. Eu já imaginava que fosse algo assim. Assim como eu, ela só estava preocupada com a minha relação com meu pais, Miguel e Josh. Eu não iria simplesmente deixá-los, mas o medo de que talvez isso acontecesse nos distanciou.
Quando tia Ana revelou que era aquela que havia dado à luz, eu não quis contatá-la. Achei que seria melhor, pelo mesmo motivo, manter distância. Quanta bobagem!
Finalmente todas as peças do quebra-cabeça haviam se encaixado. Finalmente eu tive o desfecho que tanto procurei.
— Está tudo bem, tia Ana! – Eu a fitei nos olhos, acariciando seu rosto – Você não é minha mãe.
— Seu pai – Ela respondeu, sorrindo – Estaria muito orgulhoso.
— Dos dois?
— Provavelmente
E rindo do nosso diálogo, caímos no sofá.
Dois amigos, abraçados.
— A vida não pode separar o que a morte junta – Falei quebrando o silêncio – Ou algo assim.
— Você viu isso em algum filme, não foi? Senhor Biscoito da Sorte…
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