Notas iniciais
Parte 2 de 3

Sua mente ainda era um turbilhão de sensações, a voz de Elvis Presley ao fundo, cantando Love Me Tender, fazia com que seu corpo entorpecido parecesse cada vez mais distante da realidade. Tentou abrir os olhos. Sua visão estava turva e pesada. Tentou mover o corpo dormente, sem sucesso. Grunhiu, sua garganta gorgolejou, cheia de saliva. Por um momento, imaginou se estava morta, mas logo os pensamentos se esvaíram no ar, branco e preto, sua mente era um amálgama de descontrole mental. O cheiro de aço inox, misturado com álcool e Lysoform, fustigava seu nariz sensível. O mundo era uma bizarrice sem sentido, a música de Elvis penetrava em sua mente, ribombando pelos estribos e martelos de seu canal auditivo, seu labirinto era apenas uma fração do que havia antes, não sentia, mas sangue escorria de seus ouvidos sem parar.

— Hey, ei-ei, olha quem está acordando, a maldita bela adormecida. Escute, você não deve estar se sentindo muito bem agora, não é? Não se preocupe, já já passa.

David estava de costas para Sarah. Suas mãos ocupadas afiavam facas e bisturis, alinhavam instrumentos cirúrgicos em meio a parafernálias culinárias, martelos de carne dividiam o espaço com fórceps e alicates, tigelas de bolo com pesos eletrônicos, condimentos com ampolas e frascos de componentes químicos para Taxidermia. E, ao redor dos dois, pássaros pretos e corvos empalhados.

— Olha, primeiramente, você não tem culpa. Seu cafetão me vendeu você. Eu juro, tudo isso foi planejado. Minha mãe está doente e somente assim posso tratá-la. Sou um sacana, mas é a lei. Uma pessoa tem que morrer para a outra viver. Pense assim, nunca mais terá mais que chupar picas na sua vida, nem dar o rabo em troca de dinheiro para o seu cafetão. Apenas... Imagine que tudo isso acaba agora. — David riu e pegou um bisturi da bancada. — Ninguém vai sentir falta de uma prostituta órfã de 16 anos como você. Ou você pensa que engana, com essa cara e atitude de bebê?

O corpo desnudo de Sarah estava deitado de bruços sob uma maca de massagem, sua cabeça estava colocada entre um suporte almofadado para não machucar e evitar a falta de oxigenação. Suas costas haviam sido desenhadas ao longo de sua coluna vertebral com setas para incisão. Seu corpo pálido sob a luz cirúrgica que havia no teto fazia a pele parecer feita de leite. David passou o rosto pelas nádegas redondinhas sentido a maciez e a textura da pele. Realmente uma pele de uma adolescente era outros quinhentos. Diferente das mulheres mais velhas, as jovens tinham uma aceitação melhor pelas toxinas e compostos taxidérmicos, parecendo verdadeiras bonecas de porcelana quando terminado o trabalho. Passou a mão sobre a vagina raspada e introduziu um dedo. Sarah gemeu, tentando se mexer, porém sem muito êxito. Seus braços e pernas estavam presos por tiras de couro e algodão aos lados da maca, seu corpo drogado não respondia aos estímulos.

— Olha só isso, não é que é boa mesmo? Um pouco frouxa para o meu gosto, mas dane-se, né? — David retirou o dedo da vagina de Sarah e chupou-o. Sorriu vendo aquela nádega juvenil, puxou-as para o lado expondo seu ânus rosado. Aproximou seu rosto sentindo a mistura de fezes e suor que exalava do local e colocando sua língua para fora, pôs-se a lamber devagar o orifício. Sentiu as membranas pulsarem na ponta de sua língua e empurrando com força, começou a enfiar sua língua mais adentro, sentindo o gosto amargo de suas paredes anais. Girava sua língua dentro do reto de Sarah, varrendo e vasculhando, sentindo cada centímetro de seu intestino. Com o rosto enfiado entre as nádegas sentia o cheiro forte que vinha de dentro e se sentia mais e mais excitado. Não tinha costume de fazer isso, mas, dessa vez, ele tinha que foder sua vítima. Ele precisava fazer isso.

Retirou a língua devagar, pressionando as paredes do reto, e chupou o ânus quando a língua saiu. O gosto amargo fez com que sentisse ânsia, mas segurou o vômito. Limpou a saliva marrom que sujava sua boca com a palma da mão e, abaixando as calças, tirou o pênis pequeno para fora da cueca. Subiu em um banquinho e tentou deitar-se em cima do corpo de Sarah, arrumando a barriga em cima do quadril da menina. Tentava colocar a glande dentro do ânus de Sarah. Xingou alto, pela dificuldade de enfiar seu pênis, e pela dormência em seu braço, por segurar seu peso. Depois de algumas tentativas frustradas, desistiu. Seu rosto avermelhado e sentindo-se furioso por não conseguir foder a menina, começou a se masturbar freneticamente, enquanto enfiava seus dedos sem lubrificante no reto de sua vítima. Sarah sentia seu corpo ser violado e tentava gritar, mas seu corpo não respondia, o máximo que saia eram gemidos tímidos e fracos, como os de uma pessoa embriagada. David enfiava os dedos com força e brutalidade, retirando-os às vezes só para ver o buraco ficar arrombado, e abrir os dedos sujos de sangue, deixando filetes entre as dobras. Masturbava-se com um sorriso no rosto, e os olhos injetados de sangue mantinham-se fixos no buraco que cada vez mais ficava frouxo. Um dedo, dois, três, quatro, a mão. Socava o ânus de Sarah com força e fúria, sentia seu punho bater no esfíncter anal e quando finalmente ejaculou, fez questão de jogar o esperma dentro do reto da menina. Levou as mãos ao rosto, e lambuzou-o de sangue e fezes. Olhou para o rosto de Sarah por baixo da maca. Seus olhos estavam revirados e sem movimento, sua boca aberta babava. Com certeza a menina deveria ter apagado, logo após a introdução do punho no seu cu. Não importava, ele já ia terminar o serviço logo mesmo. David tossiu e analisou o estado do reto da menina e gritou. Ele havia danificado legal o produto.

David lavou o rosto e as mãos, pegou os instrumentos e colocou-os do lado da maca em um suporte cirúrgico coberto por um pano azulado. Aumentando o volume do rádio para abafar o som dos instrumentos, pôs-se a trabalhar. Pegou uma agulha cirúrgica e enfiou-a no pescoço da vítima, onde ficaria a artéria, conectou a um longo cano que terminava em uma bomba de aquário. Segurando a cabeça de Sarah contra a maca, assistiu o corpo de sua vítima estremecer ao ligar a máquina e ver seu sangue ser drenado para um aquário velho, sem esboçar sentimentos, afinal, não era a primeira vez que estava fazendo aquilo. Esperou por alguns minutos até o aquário encher e então, soltou a cabeça. O corpo mole estava ficando frio e ele sabia que tinha que ser rápido. Abriu a válvula da bomba de sucção e despejou dentro de seu compartimento o seu composto de taxidermia. Ligou a reversão e observou com um sorriso no rosto o cano trocar de sua cor vermelho vivo para um verde esbranquiçado. Estapeou o rosto para retomar a concentração e começou a fazer o trabalho de limpeza.

As mãos rápidas desenhavam com um marcador onde estariam os órgãos, posicionou o balde de onde ficaram as vísceras, embaixo da mesa do lado de seus pés. Dedos firmes faziam a incisão nas costas ao longo da vértebra, dois cortes únicos e precisos, expondo a carne e os gânglios nervosos por debaixo da derme. Bíceps fortes faziam força para arrancar as vértebras e as costelas seccionadas, as mãos arrancavam com presteza os órgãos de dentro da cavidade torácica. Grampeava artérias e veias principais para evitar o extravasamento do composto; cauterizava membranas, limpava a parte terminal da dura-máter como um peixe. Drenou o fluido pleural e retirou o mesentério, os omentos e o intestino. Olhou para o relógio na parede ao lado de um corvo que olhava para cima e abriu um corte coronal na cabeça de Sarah. Trabalhou rápido puxando a pele para baixo e expondo a parte parietal e occipital do crânio, pegou uma serra e fazendo um corte quadriculado, abriu espaço suficiente para poder arrancar o encéfalo. Jogou água nas cavidades para higienizar e virando o rosto de Sarah para o lado, pegou uma pinça e inserindo nas cavidades oculares, arrancou os olhos cor de mel das órbitas. Lambeu os beiços e chupou um dos olhos enquanto jogava o outro no balde de vísceras. Adorava chupar olhos e fazê-los estourar em sua boca como um chiclete bubbaloo humano. POP. Sentir o gosto amargo do humor vítreo, descer pela sua garganta, mastigando e mastigando como um chiclete velho que já perdera o sabor.

Lavou as cavidades abertas do corpo e polvilhou-as com um pó que, ao reagir com o composto, se encarregaria de secar os tecidos moles, evitando sua decomposição. Deixou o corpo curtindo, pegou o balde de vísceras e saiu da sala em direção às escadas que levavam para o segundo andar. Ele podia não ter a mesma técnica com animais como seu maldito irmão Ronald, mas ele era muito melhor que ele em empalhar pessoas. Nisso sim, ele era muito melhor.

Abriu a porta vermelha do outro lado da sala, que levava ao cômodo que seu pai um dia chamou de Paredes da Vida. Uma sala pequena, de paredes de um rubro vivo, onde todos os cantos estavam cobertos por relógios-cuco. O barulho dos cliques, dos chiados da maquinaria. Seu pai dizia que cada um daqueles relógios representava um país no mundo, e cada clicar era uma vida que deixava de existir. Cada segundo significava uma dezena de vidas, os minutos, centenas, as horas, milhares. O velho dizia que ele se sentava naquela sala para ouvir os cliques e sentir-se como o ceifador, capaz de saber quando uma vida se esvaía nesse plano terreno. Que, durante a Segunda Guerra, o clicar destes eram tão intensos, que uma pessoa normal enlouqueceria se passasse uma hora na sala.

David olhou para os relógios do Oriente Médio e sorriu, estes estavam tão desregulados que ele cogitava em mandar para o conserto a qualquer hora. Subiu as escadas devagar, com medo. O balde cheio de carne batendo em sua coxa fazia um barulho metálico que ecoava pelo corredor estreito e funéreo. O barulho dos cliques dos relógios ficava mais distante a cada degrau e, a seus ouvidos pareciam toques dos dedos de uma mão cadavérica sobre uma superfície de madeira, ligeiramente apressados como os de uma pessoa impaciente. O corredor do segundo andar era um pouco mais amplo, havia uma passarela com um corrimão de mogno antigo e desembocava em uma janela. Dali era possível ver a sala de exibição da família no andar abaixo, e as portas que levariam para a entrada e para um dos quatro banheiros do estabelecimento.

Parou em frente a uma porta de metal rústico que levava ao anexo da loja no prédio seguinte. Puxou a trava, e, sentido que ela não se movia, colocou o balde no chão e passou um tempo tentando lembrar a sequência de movimentos que tinha que ser usada para resolver o segredo que liberava o ferrolho da porta. A trava maior fez um estalo alto e, fazendo um som de escape de pressão, abriu com um empurrão. O cheiro de carne velha, suor e urina subiu ao seu nariz como um véu azedo, fazendo seus olhos lacrimejarem e sua boca secar. Abriu a porta com cuidado para não fazer a porta ranger demais, prestando atenção nos sons que vinham do corredor anexo. Da última vez, tivera uma surpresa que lhe rendera uma concussão na cabeça (que o fizera enxergar embaçado por dias) e mordidas profundas no braço direito que impediram que trabalhasse na taxidermia por duas semanas. O corredor que havia do outro lado era mofado, suas paredes desgastadas, fendas mostravam suas entranhas amadeiradas, roídas por cupins e, expondo através delas, os tijolos do prédio ao lado.

Caminhou devagar até a porta do quarto no fim do corredor, uma porta antiga e cheia de barragens. Levantou-as devagar uma por uma, abrindo-a devagar. Sentindo o fleuma seco na garganta, disse, com uma voz trêmula:

— Mãe? Está tudo bem?

A mulher estava sentada sobre a cama, seu olhar catatônico fixado nas janelas bloqueadas por madeiras e plásticos escuros. A luz que vinha de fora era fraca, e dava um ar frio e triste para o quarto. Uma única lâmpada fluorescente piscava ao fundo, perto do que um dia foi uma privada. David às vezes se perguntava quando seria a hora de arriscar a trocá-la, mas nunca chegou a pensar muito a fundo no assunto. Chegou mais perto e colocou o balde no chão, afastando-o lentamente com o pé.

— A borboleta passou por aqui,

Ascendeu a altura da luz.

Resplandecente, bateu suas asinhas,

E então foi esmagada!— A mulher riu como uma velha, engasgando e pestanejando a cada respirada, e virou-se para David. — Isto não é lindo? Diga a verdade!

— Sim Mãe. É magnífico. — respondeu David olhando para o que restava de uma borboleta azulada partida ao meio.

— Uhm. Não é bonito então. — A mulher virou o rosto numa feição perplexa. – Ele disse magnífico e não bonito. Uhm. — A mulher abriu a boca e enfiou o inseto garganta à baixo com pouca saliva e algumas tossidelas.

— Mãe? Porque isso?

— Meu filho querido me disse que era magnífico. Muito diferente daquele imprestável do seu irmão que costuma criticar tudo que eu faço. Então, eu prefiro engolir algo magnífico, e ser magnífica para meu filho querido.

Os olhos de David encheram-se de lágrimas naquele instante. Por um momento, mesmo que breve, enxergou por trás daqueles olhos manchados de insânia, um pouco de sua antiga mãe e sua verdadeira personalidade. A velha, doce Sra. Feellan. Levantou os braços e ela, cambaleante, veio ao seu encontro e deu um abraço fraco, de uma pessoa fragilizada. Respirou fundo e prendeu a respiração para não respirar mais daquele cheiro de carne estagnada e sujeira que vinha dos cabelos ensebados de sua mãe. Olhou para a cama, suja de fezes e sangue, os arames farpados enferrujados e tortos que ele amarrou nos pulsos de sua mãe nos primeiros dias, pendurados entre os batentes da cama. Sentiu seu coração apertar e disse chorando:

— Te amo, mãe. Me desculpe por tudo. — A senhora Feellan apertou seu abraço e respondeu devagar, se separando dele e colocando a mão direita sobre seu rosto.

— Eu também te amo, Ronald. — Saiba que você sempre será meu único filho.

A feição de David se fechou. Ele empurrou sua mãe, derrubando-a no chão, olhou para o balde e disse, com uma voz grave:

— A comida está aí no balde, mais tarde eu volto com seu remédio.

A mulher ficou de quatro, seus olhos antes inocentes brilharam, acendendo uma chama de loucura contida, inflamada pela violência e ódio quando reconhecia seu filho. Odiava David, fora ele quem matara seu único filho, seu único e querido filho, Ronald. O pequeno Ronnie. Aquele que tinha o sorriso mais lindo e doce do mundo. Aquele que fazia tudo por sua mãe, que jamais a prenderia naquele inferno e daria aqueles remédios horríveis, fazendo-a passar dias e dias febris na cama. Não o seu Ronnie.

David caminhou devagar mantendo olhar fixo a sua mãe, como um caçador fitando sua presa, mantendo o contato olho-a-olho para evitar um ataque surpresa. Chegando perto da porta, senhora Feellan grunhiu como um animal, mostrando os dentes manchados e correu para cima dele. As unhas grandes de seus pés arrancando lascas do chão de madeira velha, os punhos erguidos em frente ao rosto, dedos envergados, como se pudesse enforcar aquele monstro que via em sua frente. Esperando o ataque, David virou o corpo, e, pegando uma das barras que usava para fechar a porta, bateu com a ponta no peito de sua mãe. Ouviu um estalo alto vindo das costelas da mulher, e esta rodou e estatelou-se no chão, respirando em grandes arfadas como um cachorro asmático. David ficou na porta, parado olhando o corpo de sua mãe se movendo devagar, vendo sua caixa torácica levantando e abaixando, conforme a cadência de sua respiração ia se normalizando. Fez uma cara de nojo e abaixando a cabeça, fechou a porta, deixando a mulher estirada no chão. Colocou as barras no lugar e sentindo suas pernas bambas, recostou-se à parede ao lado e escorregou devagar até se sentar no chão.

Levou as mãos ao rosto e começou a gritar. Gritou pelo que acabara de fazer com sua mãe. Gritou pelo ódio que tinha de seu irmão. Gritou de desgosto pelo que sua vida se tornara. Gritou por tudo que tinha que passar. Levantou-se e, olhando para a parede esburacada, com os olhos cheios de lágrimas, voltou a gritar e começou a socar a parede. Socou, socou e socou. Cada soco acompanhado de angústia e fúria. Abriu uma rachadura, uma fenda, um buraco. Sua visão era uma mistura turva de cores velhas e vermelho vivo de seu punho aberto. Após alguns minutos, respirando fundo, levantou a cabeça e saiu caminhando pelo corredor, seu punho aberto deixando um rastro de sangue no chão.

Não ouviu os gritos de sua mãe em nenhum momento.