Moshikashite Hajimatteru

1 Capítulo único - Wagamama to Henachoko


Notas iniciais
Primeira fic de KKM que eu escrevo *u* To nervosa, sejam gentis, onegai ._. Oneshot dedicada à minha senpai Teffy-chan, que me apresentou a esse anime incrível, e me incentivou a escrever, sempre repetindo que eu era uma preguiçosa e devia me mexer e escrever a fic logo senão apanhava *u* Obrigada, senpai, sem os incentivos, eu teria demorado o dobro do tempo! Então, vamos a história o/

Moshikashite Hajimatteru...

Wagamama to henachoko no raabusutori

Uma música lenta e ritmada ecoava pelas paredes do salão de festas do castelo Blood Pledge, conduzindo os pares na pista de dança a moverem-se em unidade, girando em círculos coloridos e animados. Todos riam e se divertiam, aproveitando o banquete servido e o que mais a noite tivesse a oferecer.

Yuri sorria tolamente, sentado em seu trono, observando a animada festa. Todos estavam felizes, e era assim que ele gostava de vê-los. Vestia um pesado manto vermelho, presente de Cheri-sama, sobre o habitual gakuran preto. Era desconfortável, mas evidenciava o caráter especial do evento.

Estavam presentes membros da realeza dos países aliados, representantes das dez famílias nobres, os preciosos amigos do Maou, os moradores do castelo e até mesmo os empregados festejavam junto. Murata estava muito ocupado com os salgadinhos, sem se deslocar do seu estratégico lugar ao lado da mesa com as comidas. Greta estava vencendo o sono, e, junto com Beatrice, sua mais nova amiga, se divertia vendo a recente invenção de Anissina servir petiscos aos convidados. A antiga Maou Cecilie já havia dançado com todos os homens da festa, e agora era conduzida pelo seu filho mais velho, Gwendal, pelo salão. Conrad e Yozak observavam tudo de um canto afastado, atentos, enquanto conversavam animados um com o outro, relembrando de eventos da juventude dos quais se arrependiam. Gunter coordenava os empregados, quase surtando com cada pequeno detalhe que não saía conforme o planejado. Alford, o herói, estava sendo recuado em um canto por jovens damas, que riam entusiasticamente enquanto faziam perguntas a ele. O pai de Beatrice, Hrysto Cruiff, havia tirado Anissina para dançar, e os dois rodopiavam pelo salão sob o olhar atento de Gwendal, que os fitava muito sério e de aparente mau-humor enquanto dançava com a mãe. Até mesmo Ulrike havia especialmente se deslocado do Templo de Shinou, e, junto com duas das suas sacerdotisas, aproveitava o evento.

O Maou sorriu ainda mais, ao contemplar o resultado de suas ações. Humanos, Mazoku, todos juntos, em unidade, vestindo suas melhores roupas. Não havia diferenças. Não havia guerra. Yuri estava contente, e satisfeito por ter sido capaz de promover tal evento, que, antes da sua chegada à Shin Makoku, seria impossível de realizar-se.

Wolfram, de pé ao seu lado, observava também. Vestia um traje de gala, branco com detalhes dourados, que só fazia com que parecesse ainda mais com um príncipe de conto de fadas. Diferente de Yuri, que era apenas um desajeitado estudante do colegial com um manto por cima dos ombros, Wolfram combinava com aquela atmosfera que o castelo disseminava. Era como se ele tivesse sido cuidadosamente talhado, moldado para aquele lugar. Yuri nunca o vira tão bonito, e sentia-se estranho ao notar o quanto isso o afetava — mas também percebeu que ele parecia um pouco nervoso, talvez receoso, e não saía do seu posto por nada.

— Você não vai se divertir, Wolfram? – Yuri indagou, vendo que o loiro observava atentamente os casais na pista de dança, com uma expressão estranha no rosto. – Se quiser dançar, você pode ir, eu ficarei bem.

— Como ficará bem, Yuri? – Wolfram resignou-se, fazendo o possível para não gritar e chamar a atenção de todos. – Eu não posso deixá-lo aqui sozinho, onde qualquer um pode levá-lo! Não mesmo. E, de mais a mais, eu não tenho interesse de valsar com ninguém. – Concluiu, com o semblante altivo característico.

— Eu reparei que várias garotas que estão aqui olharam para você. Tenho certeza de que qualquer uma delas aceitaria dançar com você. – Yuri insistiu. – Elas não são tão ruins, também. Talvez você possa arrumar uma noiva de verdade essa noite, e me deixar livre... – Yuri riu sem graça, tentando fazer piada.

— Cale a boca! – Exaltou-se Wolfram, encarando Yuri com furor. – Eu não quero dançar com nenhuma delas! Eu só queria... – Ele baixou o tom de voz, até tornar-se um leve sussurro. – É isso o que você realmente pensa de mim...? – Seus olhos tornaram-se estáticos, com uma sombra pesando sobre eles, e ele fez o possível para disfarçar o nó na garganta. Por fim, deu as costas ao Maou, descendo as escadas que levavam ao trono em alta velocidade e se misturando à multidão animada, desaparecendo por completo.

Yuri levantou-se, alarmado, e desceu um ou dois degraus, varrendo o salão a procura do garoto, que havia evaporado. O que ele havia falado de tão ofensivo assim? Yuri e Wolfram eram ambos garotos, e noivos apenas no título. Yuri havia de fato se acostumado a ser noivo de um garoto, porém, não havia qualquer sentimento entre eles. Não havia possibilidade de esse compromisso ser levado a sério. Havia?

— Yuri...? – Ouviu o chamado, na voz calma e melódica. Yuri recuou, vendo Saralegui, rei de Pequeno Shimaron, se aproximando. Retribuiu ao sorriso, mas não sem antes dar uma última olhada ao redor, à procura de Wolfram.

— Oi, Sara! Você está gostando da festa? – Indagou, assim que o outro rei chegou perto o suficiente.

— Sim, está esplêndida! Você realmente conseguiu, Yuri, juntar tantas pessoas diferentes de maneira tão amigável. É incrível! Realmente o esperado de alguém incrível como você! – Saralegui exclamou com entusiasmo e admiração.

— Ainda há muito a ser feito... – Yuri riu com embaraço, sentindo que não era merecedor daquelas palavras. – E todos trabalharam juntos para conseguir esse feito, não é um mérito apenas meu.

— Sim, claro. – Sara se aproximou, segurando as mãos de Yuri entre as suas, com um sorriso afetuosos nos lábios. – Onde está o soldado que sempre o acompanha? Não o vejo em lugar algum.

— Você está falando do Wolfram? Ele deve ter ido tomar um ar lá fora... – Yuri respondeu, olhando ao redor, esperando que talvez o loiro pudesse ser visto através da aglomeração.

— Nesse caso, você não acha que deveria aproveitar um pouco a sua própria festa? Tenho certeza de que você ainda não dançou com ninguém...

— Anh? – Yuri arquejou, surpreso. – Eu não sei dançar...

— Então eu o conduzo. – Sara prendeu-o pela mão, rebocando Yuri até o meio do salão. – Não é tão difícil, e prometo que você irá gostar, Yuri. De qualquer forma, nós já fizemos isso antes, não fizemos? – Ele sorriu, abraçando a cintura de Yuri enquanto a outra mão permanecia no alto, segurando a do garoto.

Os dois começaram a girar no ritmo da música, lentamente. Yuri sentia-se nervoso, sem coragem para olhar Sara nos olhos. Era embaraçoso, e Sara era realmente bonito, como uma garota. Fazia com que se sentisse desconfortável, sendo visto nessa situação com ele. A capa enrolou-se nos seus pés, deixando Yuri ainda mais desajeitado. Por pouco não tropeçou e caiu, segurando-se em Sara para não ir ao chão.

— Isso não é errado, Sara? – Yuri indagou, repentinamente. – Nós dois somos garotos, então dançar dessa forma deveria...

— Não mesmo! Eu não sei como são as coisas no lugar de onde você veio, Yuri, mas aqui o gênero não é levado em conta quando os sentimentos são considerados. Você, melhor do que ninguém, deveria entender isso, já que discursa sobre a igualdade.

— Tem razão... – Yuri sorriu, olhando para o chão enquanto girava. – Eu ainda não entendo muito sobre a forma como as pessoas daqui pensam...

— Você nunca se apaixonou, Yuri? – Sara inquiriu subitamente, fazendo Yuri espantar-se.

— O que? – Ele se atrapalhou, constrangido com a pergunta. Começou a tagarelar, como acontecia quando não conseguia se pronunciar com clareza. – Bem... Eu nunca conheci ninguém que... E, bem... Nenhuma garota da minha escola se interessaria... Quer dizer... Tão logo eu cheguei aqui... O Wolfram, ele...

— Entendo... – Sara sorriu, com os olhos brilhando de forma perspicaz por trás das lentes lilases. – Você é tão inocente e inexperiente quanto eu imaginava que fosse... Talvez eu deva... Então... O que você acha de estreitarmos nossos laços, Yuri?

— D-do que você está falando? – Yuri surpreendeu-se, tentando se afastar do aperto nos braços de Saralegui.

— De algo muito maior do que uma simples aliança entre países... – Sara sussurrou com sua voz envolvente no ouvido de Yuri, causando um arrepio involuntário. Yuri tentou novamente se afastar, confuso, mas Sara apenas o trouxe para mais perto, sem nunca interromper a dança.

Conduziu Yuri, aos rodopios, para o canto mais afastado e escuro, atrás das pesadas cortinas vermelhas que adornavam o salão, onde finalmente parou, o encurralando em uma parede. Impedia sua saída com os braços, aproximando-se perigosamente, sem quebrar o contato visual. Inclinou-se sobre o moreno, chegando mais perto.

— Sara... – Yuri resmungou, tentando pará-lo, mas o loiro só continuou a se aproximar. Estava a poucos centímetros de tocar os lábios de Yuri, encarando-o através dos óculos baixos, medindo sua reação. – Não faça isso! – Yuri exclamou, assim que se deu conta do que Saralegui estava prestes a fazer.

Sara se afastou, vendo o semblante assustado e trêmulo do Maou.

— Por quê? – Sara sussurrou, acariciando a orelha de Yuri com os lábios enquanto falava. – Você mesmo já admitiu que gosta de mim...

— Mas não desse jeito! – Yuri enfatizou, empurrando Sara para trás. Seus olhos, antes confusos, agora demonstravam determinação. – Você é meu amigo, Sara, e nada além disso. E mais, você é um homem! Eu nunca poderia vê-lo dessa forma!

— Então... Você está dizendo que, se eu fosse uma mulher, sua resposta seria diferente? – Sara indagou, sem deixar a provável rejeição interferir em sua pose.

— Eu não sei... Provavelmente eu encararia a questão de uma outra forma... – Yuri respondeu sinceramente, desejando não estar tendo aquela conversa.

— Yuri... E se não fosse eu? Se fosse... Sir Von Bielefeld quem o encurralasse contra uma parede, você também o rejeitaria? – Sara inquiriu, com a face surpreendentemente suplicante.

— P-por que está perguntando isso?

— Eu soube recentemente que Sir Von Bielefeld é oficialmente seu noivo. Cogitei a possibilidade de que fosse apenas algum acordo político, e que não houvesse um real compromisso entre vocês, mas... Essa noite, eu o vi ao seu lado durante todo o tempo. Ele sempre está ao seu lado, realmente... E, quando perguntei se você já havia se apaixonado, você pode não ter reparado, Yuri, mas citou o nome dele. – Sara sorriu melancolicamente. – Me desculpe, mas acredito que seja por essa razão que eu perdi o controle e o ataquei agora. Eu fiquei com ciúmes, Yuri...

— Isso... Eu... – Yuri perdeu-se, com a mente vagando entre as muitas informações que Sara expôs.

— Você não precisa responder nada, Yuri. – Sara interrompeu-o, rumando de volta para a festa. – Apenas não diga coisas imprudentes, sem pensar no que está falando. Não tire conclusões precipitadas, baseadas em juízos pré-estabelecidos, quando na verdade nem mesmo conhece seus próprios sentimentos. Você pode ser capaz de ferir as pessoas que mais preza, sem nem perceber...

Yuri viu Saralegui se afastar, e ficou para trás. No escuro, o Maou refletiu sobre suas próprias ações. Pensou nas palavras de Sara, ouvindo-as ecoarem e rebaterem-se no fundo da sua mente. O que ele estava fazendo de errado, para estar tão confuso?

Atordoado com o conflito interno, Yuri escapou pela saída mais próxima, procurando refúgio nos silenciosos e vazios corredores de pedra fria. Ele nunca havia sido bom com sentimentos. As coisas eram mais simples em sua cabeça, sempre foram. Ele não precisava refletir sobre si mesmo quando jogava baseball. Só precisava respirar fundo, e deixar seu corpo ter o comando.

Mas agora ele sentia esse aperto na região do peito, sem conseguir dar a essa sensação um nome. Era como quando ele estava na posição de rebatedor, mas, ao invés de mandar a bola para longe e fazer um home-run, ele tinha que alcançá-la, e estancar aquele buraco que parecia expandir-se dentro de si. O que era esse enorme vazio, essa sensação de perda? Seguindo sua necessidade inconsciente de procurar por algo, Yuri continuou a andar pelos corredores escuros, entrecortados por halos de luz azul provenientes da lua que brilhava do lado de fora, infiltrando-se pelas janelas altas e compridas que chegavam até o chão.

Olhando atentamente, Yuri distinguiu uma forma, uma sombra que se projetava à frente da janela mais distante. Seu corpo reagiu, com expectativa. Antes que pudesse perceber, Yuri já andava a passos largos na direção da figura, ansioso. Quando estava a poucos metros de distância, Yuri estancou. Fitando o céu através do vidro, estava Wolfram, tão distraído nos próprios pensamentos que não notou sua presença. A luz tênue do luar banhava sua pele pálida, tornando-a quase translúcida. O brilho dos seus olhos verdes parecia resplandecer, embora estivessem, de alguma maneira, mais apagados do que o normal. Lindo... foi o único pensamento que passou pela cabeça do Maou, que continuou a contemplá-lo em silêncio.

Yuri o viu estender a mão, tocando a superfície lisa do vidro. Seus olhos entristeceram-se, e os lábios franzidos murmuraram algo, em um som tão baixo que apenas o silêncio completo foi capaz de fazer Yuri ouvi-lo.

— Yuri... – Wolfram sussurrou, mordendo os lábios com força para contê-los. Dizer o seu nome em voz alta só fazia doer ainda mais, e ainda assim, havia aquela necessidade inexplicável de fazê-lo, apenas para sentir a vibração da sua voz acariciando cada sílaba. Era uma fraqueza, e Wolfram sabia que um soldado de Shin Makoku não deveria ter fraqueza alguma. Por isso permitia-se ser fraco por alguns poucos instantes de cada vez, agindo daquela maneira patética e vergonhosa.

Era a primeira vez que Yuri presenciava aquilo. Wolfram nunca pareceu tão frágil, vulnerável, delicado. Nunca pareceu tão... abraçável? Algo naquela figura solitária lembrava o garotinho que um dia ele fora, e que Yuri não chegou a conhecer. Perdido, procurando por suas respostas em lugares improváveis, admirando as estrelas longínquas que não poderia tocar. E a pergunta de Saralegui voltou a rondar sua mente, alta e clara. E se fosse Wolfram?

Se fosse Wolfram a se aproximar, Yuri o rejeitaria? A primeira resposta foi direta e rápida. Claro! Wolfram era um garoto, não importando de que ângulo se olhasse. Yuri não gostava de garotos, então, o afastaria. Óbvio. Questão encerrada. Porém, Yuri não ficou satisfeito com aquela conclusão racional. Não era qualquer garoto, era Wolfram! Yuri não queria machucá-lo! Yuri não se importava em tê-lo por perto. Yuri... não o via como um garoto qualquer. Wolfram era Wolfram... Aqueles conceitos não se aplicavam a ele!

Mas, por que não? Era certo que Wolfram era tão bonito quanto uma garota, talvez até mais! No entanto, a resposta não era a aparência. Yuri fechou os olhos, pensando na situação em que se encontrava há poucos minutos com Sara. Porém, dessa vez, ele imaginou Wolfram em seu lugar. Visualizou os orbes verdes o encarando, com determinação. Sentiu as mãos seguras dele em seu ombro. A respiração cálida batendo em seu rosto. Aqueles lábios, que pareciam tão macios, tocando os seus... Um delicioso arrepio desceu até a base das suas costas, espalhando-se como fios desencapados. Yuri abriu os olhos, em um rompante. O que era aquilo? Mesmo que fosse apenas um devaneio, Yuri teve vontade de continuar. Ele queria realmente continuar. O que isso significava?

Yuri sentia-se rodando em círculos atrás da resposta. Era como se ele corresse para a base, mas ela estivesse cada vez mais afastada, fugindo do seu alcance. Por que ele não entendia o que se passava dentro de si mesmo?

— O que está fazendo aqui? – A voz alta e orgulhosa ecoou pelas paredes frias, acordando Yuri da sua reflexão. Seu coração acelerou anormalmente rápido, ao perceber que Wolfram havia o descoberto, e agora o encarava fixamente, com os olhos repletos de hostilidade.

— E-eu.. Eu só estava... te procurando... – Yuri pronunciou indistintamente, num tom que sugeria que aquilo era novidade para ele também. Andou alguns passos, ouvindo-os ressoarem no silêncio, até chegar próximo a Wolfram. – Aquilo que eu disse antes... Eu acho que deveria me desculpar com você. Não foi minha intenção ofendê-lo...

— Você não me ofendeu, Yuri. – Wolfram rebateu duramente, com o semblante contido. Cerrou os punhos, com os ombros tremendo visivelmente. Yuri fez menção de se aproximar, mas conteve-se a tempo. – Eu só preciso saber... Você realmente sente tanta aversão assim por mim? Você não me aceita como seu noivo? Você... me odeia? – Seu tom de voz, inicialmente soberbo, tornou-se brando e hesitante, e Wolfram não conseguiu sustentar o olhar de Yuri, desviando-o imediatamente.

— Eu não te odeio, Wolfram! – Yuri se apressou em dizer, avançando na direção do loiro. Novamente, teve o impulso de tocá-lo, recolhendo as mãos para baixo do manto rubro rapidamente.

— Então... O que você sente por mim? – Wolfram suplicou, chegando ao seu limite. Não via mais sentido em manter sua atitude costumeira. Não via mais sentido em nada! Há tempos havia deixado de ser quem era, com todas as suas opiniões cuidadosamente forjadas caindo por terra, uma a uma. E tudo por causa daquele rei fracote, que aparecera do nada e bagunçara toda a sua vida e os seus sentimentos.

Yuri vacilou, com aquela pergunta tão direta. Foi como um soco no estômago. Os pensamentos do rei giraram, sem rumo certo, procurando pela reposta. Era aquela a pergunta que Yuri estava se fazendo há algum tempo — sem, no entanto, chegar a um resultado convincente.

— Eu.. não sei dar um nome a esse sentimento, Wolfram... – Yuri suspirou pesadamente, sendo o mais sincero que o seu vocabulário parco que parecia se estreitar diante do nervosismo permitia. – É diferente do que eu sinto pelos meus outros amigos. Você não é como o Conrad, ou como o Murata. Você é da minha família, ou algo assim... Talvez mais! Eu não sei. – Yuri pôs a mão na cabeça, confuso. Viu Wolfram finalmente levantar os olhos, brilhantes e esperançosos, e sentiu algo aquecer-se dentro de si. – Você é você... Wolfram. O que eu sinto por você... Seja lá o que for... É único – Ele tentou sorrir, sabendo que aquelas palavras nunca seriam suficientes, por mais claro que tentasse ser.

— Isso quer dizer... – Wolfram se aproximou. – Que você realmente sente algo por mim, Yuri?

— Acho que sim... Bem... Você me deixa... atordoado! – Yuri gesticulou, tentando exemplificar a enxurrada de emoções que o atingia, as quais até então ele nunca havia dado importância. Wolfram não pôde deixar de sorrir, fracamente, ao perceber a confusão em que Yuri se encontrava. Será que ele podia ter um pouco de esperanças, enfim?

— Yuri... Você não precisa explicar! – Ele disse, retornando ao seu tom altivo de sempre. Cruzou os braços, virando a cabeça com os olhos fechados para o lado. – Apenas saber que você possui sentimentos relacionados a mim, já me conforta. Não é como se eu estivesse deprimido ou qualquer coisa por sua causa, seu fracote!

— Não me chame de fracote! – Yuri resmungou, para então sorrir brilhantemente. – É assim que eu gosto de ver você, Wolfram! – Exclamou, sentindo um imenso alívio ao ver que o garoto havia recuperado o antigo brilho. Não gostou nem um pouco de ver Wolfram naquele estado, poucos minutos atrás. Era sufocante, doía e apertava em algum lugar na região do peito. Agora, sendo chamado novamente de fracote, era como se um peso se retirasse do seu coração, deixando-o novamente leve. Rendendo-se novamente aos seus impulsos, Yuri rodeou os braços ao redor do corpo despreparado de Wolfram, apertando-o contra o seu. – Por favor, não faça mais aquela cara! E não gosto de ver você triste...

Wolfram arquejou, surpreso, para então render-se ao conforto nos braços do moreno. Fechou os olhos, pousando a cabeça em seu ombro e sentindo o cheiro que embalava seus sonhos invadir seus sentidos. Ergueu os braços finos, retribuindo ao abraço. Segurou com os dedos trêmulos o casaco de Yuri, apertando-o, para garantir que ele não fosse sumir de repente.

— Yuri... – Sussurrou contra a pele do Maou, vendo-o se arrepiar. Afastou-se, mirando os orbes negros diretamente. Ele o fitava de volta com surpresa, o rosto corado. Era a primeira vez que Wolfram via aquela expressão em seu rosto, sempre tão tolo. Sentiu suas pernas fraquejarem, enquanto tentava empurrar seus desejos para o fundo da mente, onde deveriam ficar trancados. Yuri não o via com esses olhos, e ele não poderia se precipitar. Mas... Desde quando Wolfram von Bielefeld se importava com o que os outros pensavam? Desde quando ele era ponderado, ou racional? Não! Wolfram von Bielefeld agia de acordo com seus impulsos, pensando apenas depois de agir. E foi isso o que ele fez.

Sentindo as mãos de Yuri ainda ao seu redor, Wolfram avançou o passo derradeiro. Recuou os braços, apoiando-os sobre o peito do Maou, cerrando os dedos com força. Fechou seus próprios olhos, não desejando ver a rejeição que certamente estamparia o semblante de Yuri depois. Sentindo sua mente enevoar-se com a presença dele, Wolfram aproximou seu rosto. Inexperiente, ele tocou suavemente os lábios entreabertos em surpresa de Yuri. Um maravilhoso calor o cingiu, desde o rosto até a ponta dos seus dedos dos pés. Era por isso que ele ansiava há tanto tempo. Trêmulo, e com o coração tão rápido que mal podia se mexer, o loiro pressionou ainda mais os lábios, segurando o casaco de Yuri com tanta força que os nós dos seus dedos apareciam.

Yuri permaneceu paralisado por alguns segundos. Aquela seria a continuação da sua fantasia anterior? Só ao sentir o aperto das mãos de Wolfram, e o calor do corpo dele nos seus braços, Yuri se convenceu de que aquilo era a realidade. Seu rosto esquentou-se, quando ele percebeu o que acontecia. Hesitante, ele pensou em se afastar. E só então percebeu que não podia se afastar. Não queria se afastar. De olhos cerrados, ele apertou a cintura de Wolfram possessivamente, subindo a outra mão das costas até o rosto dele, o acariciando levemente. Foi um reflexo natural do corpo, Yuri não pensou ao agir. Talvez estivesse sendo imprudente, mas algo em sua mente enevoada o impelia a continuar. Sentiu Wolfram tremer diante do seu toque, contraindo-se. Porém, antes que ele se afastasse de verdade, Yuri puxou seu rosto novamente, tocando-o com os lábios. Abriu-os a força, invadindo a boca dele com sua língua, sentindo a textura aveludada e cálida. Sua mente funcionava a um nível incrivelmente rápido — era como o modo do Maou, mas, ao invés de ter um dever a cumprir, Yuri sentia que o tempo havia parado, e só restavam ele e o loiro em seus braços no mundo inteiro. Sentia-se incrível, como se nada fosse forte o bastante para detê-lo. Wolfram retribuía ao beijo com igual intensidade, subindo os braços e rodeando-os em volta do pescoço de Yuri, trazendo seu rosto para mais perto, enquanto acariciava os cabelos negros e macios.

Yuri o empurrou contra o vidro da janela, aprofundando o toque. A constatação que gritava em sua mente latejava e fervia, deixando-o em estado de ebulição. Era isso. O tempo todo, aquele aperto sem nome, aquela sensação indescritível. Era Wolfram o causador de tudo isso. Desde o começo, Yuri amava o seu noivo, e era tolo o suficiente para nunca ter percebido.

— Me desculpe. – Yuri balbuciou ao afastar os lábios do loiro, sentindo-se febril e agitado com sua iminente descoberta. Desenlaçou os braços do corpo dele, cauteloso. – Eu sou um grande imbecil por nunca ter entendido... Eu o machuquei, Wolfram, por causa da minha estupidez.

— Está tudo bem. – Wolfram pronunciou, com o rosto corado. O loiro nunca havia sentido tal calma em seu ser, e talvez isso se devesse ao fato de finalmente ter provado um pouco dos sentimentos de Yuri por ele. A sensação aconchegante de que poderia ser amado de volta era inexplicavelmente atenuante. – Eu estou mais do que acostumado com a sua tolice, ela já não me afeta mais.

— Eu te amo. – Yuri sussurrou subitamente as palavras que giravam, quase transbordando. Dizer em voz alta parecia fazer tudo ficar claro como água, tão óbvio que Yuri sentiu-se patético por não ter notado antes. Levantou os olhos, vendo Wolfram retesar-se, em surpresa. Ele se afastou de Yuri bruscamente, recuando um passo.

— V-você não d-deveria dizer essas c-coisas tão subitamente! – Ele se exaltou, tentando disfarçar o indiscutível rosto vermelho. – Agora mesmo você disse que não sabia o que sentia, o que é isso tão de repente?! Eu... queria ser o primeiro a falar! Quero dizer... Eu... Eu também amo você... Um pouco, bem... Eu amo um fracote como você, então deveria se sentir grato! – Wolfram não olhava na direção de Yuri, discursando com vigor. Aquilo era muito mais do que ele jamais ousou desejar. Era quase... como em um sonho.

— Então... Acho que nós dois nos amamos... – Yuri balbuciou incrédulo, sem saber o que fazer a seguir.

Wolfram olhou pela janela, vacilando o olhar entre o céu e o rosto do Maou. Yuri fez o mesmo, agitado por dentro, sentindo-se repentinamente muito consciente da presença do outro, com o constrangimento entre os dois tão denso que quase se materializava no ar. As estrelas brilharam de volta, como se espreitassem, observando atentamente os dois garotos. O Maou, cauteloso e hesitante, movimentou minimamente a mão, erguendo-a até que tocasse na mão livre de Wolfram, que estava com o ombro alinhado ao dele. Entrelaçou seus dedos, sendo retribuído, e sentindo o calor da mão do Mazoku lentamente se misturando ao dele. Aquela sensação era boa, e nada que ele já tivesse sentido se comparava àquilo.

Os dois continuaram a olhar para as estrelas, em silêncio, apenas apreciando o fato de terem seus sentimentos correspondidos. Wolfram concentrou-se na sensação cálida dos dedos de Yuri entrelaçados aos seus. Aquilo era real, embora não parecesse. Era sólido, mesmo que ele imaginasse que pudesse evaporar a qualquer momento. Wolfram sentiu seu coração se apertar e doer, suplicando por mais, enquanto acelerava. Vacilante, o loiro aproximou-se mais de Yuri, tocando seus braços. Num movimento rápido, o moreno puxou-o para um abraço, apertando-o contra si. Estava com vontade de fazer isso há algum tempo, mas imaginava se não estaria sendo invasivo demais.

Empurrou novamente Wolfram contra o vidro da janela, que chegava até o chão, e o fitou diretamente nos olhos. Os orbes verdes brilharam, com expectativa, e Yuri avançou, rendendo-se aos seus impulsos. Acariciou a macia face de Wolfram, vendo-o fechar os olhos e apreciar seu toque, inclinando o rosto na direção da sua mão. Yuri colocou a outra mão em sua cintura, apertando-a e trazendo seu corpo para mais perto. Wolfram ofegou, enquanto ele acariciava seu cabelo, tocando de leve a orelha direita. Yuri inclinou-se, tocando os lábios convidativos do garoto, e sentindo-o circundar os braços ao redor dos seus ombros. Wolfram respondeu ao toque, movendo seus lábios em conjunto. Era lento e calmo, como a lava de um vulcão após a erupção, e prosseguiu suavemente até que ambos necessitassem de ar.

Wolfram fraquejou, deixando seu peso ceder e caindo sentado no chão. Yuri acompanhou, sentado logo a sua frente e deitou a cabeça em seu ombro, sentindo o maravilhoso cheiro da pele do loiro fazer formigar seu nariz, e os dedos dele afagando seus cabelos negros com calma. Wolfram respirava calmamente, sentindo a respiração quente de Yuri tocar a pele do seu pescoço, causando pequenos arrepios. Era bom. Yuri tocou a mão dele distraidamente, brincando com os dedos e tocando-os um de cada vez. Eram macios e suaves, talvez até frágeis, não parecendo capazes de empunhar uma espada, ou manipular o fogo com tanta destreza.

— Yuri... – Wolfram quebrou o silêncio, com a voz rouca e baixa. Yuri sentia a voz vibrando através do corpo dele, até chegar aos seus ouvidos. – Amanhã... Quando acordarmos... Você ainda vai se sentir da mesma forma? Ou isso não é nada mais que um sonho?

— Eu ainda te amarei amanhã, Wolfram. – Yuri pronunciou, rindo fracamente da insegurança do garoto, que era sempre tão cheio de si, confiante e intrépido. – E também em todos os outros dias. Agora que eu tenho certeza disso, não o deixarei escapar tão facilmente.

Wolfram vacilou, corando. Yuri não estranhou as palavras que pronunciava, tão facilmente, e que provavelmente não seriam ouvidas em outra ocasião. Era apenas natural que ele se sentisse assim, agora percebia. Não havia nada de estranho em se apaixonar por um garoto. Era apenas o rumo que as coisas tomariam, e isso estava certo desde o início, quando se viram pela primeira vez. Era o destino de Yuri amar Wolfram, e não havia nada a fazer quanto a isso.

— Pois eu espero que você também, não tente escapar tão facilmente. – Wolfram bradou, com arrogância. – Eu imagino as coisas que aquele rei de Pequeno Shimaron faz com você quando estão a sós. Ele é perigoso, e você deveria se manter afastado dele!

— Você é o único homem que eu deixaria me tocar, Wolfram. – Yuri resmungou, vendo que, aos poucos, o loiro derretia em suas mãos. Afagou a mão dele, trazendo-a até seus lábios. – Eu jamais toquei, ou tocarei, qualquer outra pessoa dessa forma além de você. Confie em mim.

— Eu confio em você. Eu não confio é nesse rei Saralegui. Você é muito ingênuo, Yuri, e se deixa levar pelas pessoas com facilidade. — Wolfram tentava manter a coerência enquanto falava, mas, com os lábios de Yuri tocando-o tão despreocupadamente, era difícil prosseguir com a linha de pensamentos. – Eu não gosto de ver ele tão perto de você o tempo todo...

Yuri riu, apreciando a irritação de Wolfram. Aquela era uma característica quase inata do loiro, que esteve presente desde o primeiro momento, e, mesmo assim, Yuri nunca soube interpretá-la da maneira certa. Achava que era um ataque normal de um garoto mimado e egoísta, quando, na verdade, Wolfram estava apenas com ciúmes, porque o amava. Levantou os olhos, erguendo a cabeça da posição confortável na qual se encontrava, e inclinou-se na direção de Wolfram, tocando-o sem pudor. Beijou-o, sendo correspondido mais do que imediatamente, sem motivos para se conter. Seus hormônios jovens se agitaram, ávidos por mais, e ele sentiu o loiro abaixo de si incendiar-se na mesma intensidade, mesmo que fosse muitas décadas mais velho.

Wolfram se afastou, tentando respirar, e sentiu Yuri, ofegante, o abraçar com força. O moreno desceu os lábios pela bochecha, até chegar ao pescoço a mostra, depositando beijos leves e passando sua língua pela superfície lisa e quente que era a pele dele. Sentiu Wolfram tremer em seus braços, e então soltar um gemido baixo e gutural.

— Y-Yuri... – Ele gemeu. – Não faça isso... Ahnn... – Sentiu Yuri morder o lóbulo da sua orelha. – Nós nem somos casados ainda...

— Eu não estou fazendo nada, Wolf... – Yuri sorriu, matreiro, e Wolfram corou com o inesperado apelido. – No que você estava pensando, hein? – Ele provocou, vendo o loiro sobressaltar e então corar ainda mais.

— E-eu não estava pensando em nada! – Ele virou o rosto, contrariado.

— Tudo bem. – Yuri sorriu, fitando a face adorável do seu noivo. O afeto pulsou em seu coração, e ele acariciou lentamente as bochechas ruborizadas de Wolfram, aproximando-se e depositando um delicado beijo em sua testa. Wolfram arquejou, surpreso com a demonstração inesperada.

Yuri se levantou em um salto, desamassando as calças e jogando a pesada capa para trás.

— Vamos? – Estendeu a mão para o loiro, ajudando-o a se levantar.

— Para onde? – Wolfram indagou fracamente, segurando com força a mão de Yuri. Levantou e esperou ao seu lado. Yuri não soltou a sua mão, entrelaçando os dedos com os dele mais uma vez.

— Para a festa, onde mais seria? Eu sou o anfitrião, não posso fugir assim sem mais nem menos, não é? – Ele sorriu sem graça, bagunçando os cabelos da nuca. – E, além do mais... Eu acho que estou devendo uma dança ao meu noivo...

— Verdade? Você quer dançar comigo? – Wolfram animou-se, com os olhos brilhando. Quando percebeu o que estava fazendo, voltou à posição anterior, sem encarar o Maou. – Eu acho que terei que aceitar seu pedido, afinal, tenho certeza de que você não conseguiria acertar nem mesmo um passo. Aposto como nem conhece as danças tradicionais de Shin Makoku!

Yuri começou a andar pelo corredor, com Wolfram ao seu lado. Em nenhum momento eles pensaram em soltar as mãos.

— Você pode me ensinar todas elas. – Sugeriu, sem tirar o sorriso tolo do rosto.

— Eu não vejo outra opção. – Ele concordou, falsamente contrariado. – Fracote.

Yuri sorriu, sem pedir para ele parar de chamá-lo assim. Havia descoberto, por si só, que fracote era a maneira própria de Wolfram dizer eu te amo.

Um pequeno sorriso ínfimo formou-se nos lábios de Wolfram, enquanto ele apertava a mão do Maou, segura contra a sua, onde ela certamente permaneceria por muito mais tempo. Ele agora era todo seu. De verdade.

E para sempre seria.



Notas finais
E então, o que acharam? Saibam que suas opiniões são muuito importantes para mim, então, sejam bonzinhos e deixem a Shiroyuki-tan saber o que vocês acharam da história *u* A propósito, a sinopse é a letra de uma música, chamada Sweet Romance que é a abertura de um anime, Yumeiro Patissiere. É isso u_u [Nota da Editora: Finalmente, criando vergonha na cara e fazendo meu trabalho. Betado em janeiro de 2016]
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!