Mortos que respiram

1 Por que não ser medica


A primeira vez que risquei medicina da minha lista de possíveis profissões foi por causa da grandeconcorrência para esse curso.A segunda vez que eu risquei foi que me julgava muito sentimental para trabalhar com vidas, principalmente humanas. Hoje eu tenho certeza que não tenho capacidade para lidar com qualquer coisa que leve a morte.

Um grande amigo do meu pai está enfrentando o que acredito ser o teste final que a vida impõe para você, depois de passar por isso não há nada que ele não vá conseguir lidar com. A mãe dele tem câncer. Qual câncer eu não sei, e sinceramente não quero saber, por favor, não me ache desumana oudiga que esse comportamento é imoral, eu sei disso e o fato devocê repetirnão vai mudar a minha conduta ok?

Ela já tinha feito o tratamento e tinha se vido livre do câncer, deixou o cabelo crescer, estava indo para as reuniões de família como aniversários e soube ate que estava cogitando praticar algum esporte como hidroginástica. Ela era o perfeito exemplo de vovó queimaginamos, doce, educada e com um jeitinho brasileiro de ser. Infelizmente omundo não é bom, e o câncer dela voltou.

Retomaramo tratamento, e elanão estava reagindo. Faz dois dias que ela foi internada e esta a espera de um quarto na UTI, pois como todos nós sabemos o sistema publico do Brasil não é lá essas coisas ainda mais na porção norte do país, que é onde essa historia se desenrola. Com a noticia meu pai resolveu alterar o caminho de casa para visitarmos o seu amigo e mãe no hospital.

Eu nunca vou me esquecer do que vi quando entrei no quarto. E o que vós falo agora não é um hipérbato, não é brincadeira, foi o que eu vi com osmeus olhos.

A primeira coisa que me chamou a atenção não foi a paciente em questão, mas as duas mulheres que atrás dela estavam, umamorena de olhos azuis e uma ruiva de pele clara cheia de sardas, ambas tinham olhos inchados e vermelhos de choro e somente a morena virou para me cumprimentar, eu olhei para a maca e senti o peito apertar.

Você meu caro leitor deve ter notado o titulo um tanto estranho "mortos que respiram", eu pensei em colocar "mortos que falam" mas ela já não era capaz de tanto. A figura magra com olhos protuberantes devido a magreza não era capaz de abrir os olhos e mantinha um completamente fechado e o outro ligeiramente aberto, por causa da falta de carne no rosto seus olhos pareciam duas ameixas de tão grandes. O corpo como meu pai disse enquanto descíamos as escadas para voltar para casa "era só pele, osso e liquido acumulado", realmente não tem outra forma de descrever, imagine um corpo sem gordura, onde você é capaz de notar cada osso e cada tendão, mas com mãos e pés inchados como uma luva de silicone inflada. No pescoço, o pescoço era onde eu notei o que mais me assustou, a quantidade de, ou melhor da falta de carne era absurda dava para tirar a pulsação dela simplesmente olhando a veia que se sobressaia do resto como uma linha tênue que parecia querer aparecer para avisar que a hora dela chegava.

Eu sei que minha descrição não é lá essas coisas, mas espero ter conseguido passar para você que o quadro geral era de dor, não só dela, mas de todos naquela sala, do filho dessa senhora principalmente, pois não consigo imaginar o que é ver a mãe morrer lentamente na sua frente e se ver impotente, sem poder fazer nada além de segurar a mão dela, pois dizer vai ficar tudo bem não adianta. Todos sabemos que ela vai morrer.

Não sei por que estou escrevendo isso, não quero comentários, nunca mais entrei no site para ler, porem senti uma vontade incontestável de colocar para fora o que estou sentindo, e como não tenho com quem conversar e não vou conseguir falar sem chorar achei que escrever seria uma boa.

Ninguém merece ver um ente querido em uma situação dessas, muito menos a própria mãe. Admiro muito essenosso amigo, não sei se conseguiria passar por isso e lidar tão bem como ele está lidando.

Mortos que respiram são todos aqueles presos em seus corpos.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!