Morto ou vivo para viver uma mentira

3 Tento se desvencilhar da verdade, das batalhas de sua juventude


Notas iniciais
Por que isso é só um jogo (8) Aqui eu deixei meu headcanon tomar conta, gente, desculpa.

Quando foi colocado no gelo pelo que esperava ser a última vez, Bucky não esperava acordar tão cedo. Tinha causado problemas suficientes para Steve e para o mundo com sua existência, e se o melhor fosse deixar-se dormir para deixar que as areias da história erodissem seu estrago, ele estava bem com isso. Assim, quando ele foi acordado em uma manhã quente em Wakanda, T’Challa olhando para ele com expectativa enquanto Bucky recuperava seus sentidos, não soube o que pensar.

— Por que fui acordado?

— Porque eu descobri algo que pode funcionar. Na verdade, meus cientistas desenvolveram algo que pode funcionar — respondeu T’Challa, cruzando os braços. — Você me pediu que eu te acordasse quando tivesse uma cura, e isso pode ser uma.

— Ah. — Bucky sentou-se na câmara aberta de criogênio, tentando se situar. — Certo. E como funciona?

— Tecnologia pura, não espere que eu explique. Na verdade, nem eu sei explicar direito.

— E por que você me acordou para aplicar em mim uma tecnologia que nem você conhece direito?

— Por que aquele maldito Rogers não para de encher meu saco desde que ele descobriu que existe uma chance para você. É sério. Ele me liga todos os dias. Tenho sentido bastante saudade da época em que estávamos em lados opostos, eu tinha muito menos amolação — bufou T’Challa, contrariado. — Enfim. Não era bem assim que eu esperava te dar a notícia. Levanta daí, vou te dar comida e explicar tudo mais detalhadamente.

Sentindo-se ainda um pouco desorientado, Bucky obedeceu, levantando-se e seguindo T’Challa ao que ele acreditava ser a cozinha. Ele não via necessidade de comer antes de conversar sobre um assunto tão importante, mas seu estômago parecia pensar o contrário: antes inerte, soltou um ronco que fez o Pricípe virar a cabeça para encará-lo, as sobrancelhas franzidas.

— Desculpe?

— Bem, acho que era de se esperar — riu T’Challa. — Você ficou um tempinho sem comer, o estômago sente falta. Não tem tanta coisa assim aqui no laboratório, porque eu não fico tanto tempo aqui, mas com certeza vou achar alguma coisa que você possa comer. — Chegaram um cômodo que se resumia a uma mesa, uma geladeira e uma pia de mármore branco. A monocromia era inquietante. — Olha, vamos ver essa geladeira... Ah... Bem... Tem isso aqui. Vocês americanos adoram. — Colocou em frente a Bucky um prato com um sanduíche típico meio mordido. — Eu mordi um pedaço, espero que não seja problema. Ah, ele está aí desde 2017, espero que não tenha problema também.

Bucky olhou para o sanduíche e o sanduíche olhou de volta pra ele, piscando. Parecia bom o suficiente.

— Tá ósshimo — disse ele, já com a boca cheia de comida. — Pode me falar o que você tinha para falar.

— Ah, sim. — T’Challa pegou uma cadeira e se sentou também. — Bem. Vou tentar ser didático, mas não espere muita coisa. A HYDRA conseguia, através de tecnologia apurada, suprimir suas memórias. Não me pergunte como eles faziam isso. O importante é que as suas memórias não foram apagadas, e sim suprimidas, o que significa que é possível trazê-las de volta. Meus cientistas estudaram a fundo isso nos últimos anos, e aparentemente, conseguiram desenvolver uma tecnologia que funcionará de forma reversa a da HYDRA. Com ela, vamos conseguir desenterrar suas memórias e também diminuir a influência da HYDRA sobre a sua mente, de forma que ficará mais difícil para eles conseguirem controlar as suas ações.

— Mas não impossível.

— Com certeza, não impossível. A HYDRA, porém, não precisa saber que você voltou. Os Vingadores sabem dessa tecnologia que desenvolvemos e estão dispostos a manter segredo sobre você. Tudo o que você vai precisar fazer é viver uma vida normal, longe de confusões e perigo. Eu acho isso meio difícil, mas estamos confiando no bom funcionamento do programa e também na sua força mental para resistir às tentativas de dominação. Além disso, o Rogers prometeu vigiar você vinte e quatro horas por dia. Acho que é seguro o suficiente.

— Ah. Em que ano estamos?

— 2020.

— Não achei que fossem desenvolver uma cura tão rápido.

— Também não achamos. E também não podemos dar a você a certeza de que vai funcionar. Mas não custa tentar, não é mesmo? Particularmente, eu acho que deveríamos esperar mais, mas o Rogers está realmente desesperado.

— O Steve, é sério?

— Ele só fala de você, ele só enche meu saco por sua causa, ele veio cá ficar olhando pra sua cara congelada todos os meses durante quatro anos. Ele é perdidamente apaixonado por você, só pode, porque, sinceramente, nunca vi uma pessoa tão dedicada a um amigo assim.

— Acho que é impressão sua. — Bucky sorriu. — Mas não vou recusar a oferta. Não tenho nada a perder. Se der errado, que me congelem novamente.

T’Challa deu um tapa amigável em seu ombro.

— Esse é o espírito, moleque.

Andava por uma sala escura, não enxergando um palmo à sua frente; sabia que tinha que chegar a algum lugar, mas não sabia onde, e havia uma palpitação em seu peito que não o deixava respirar, porque algo de ruim ia acontecer, ele sabia, e então as luzes se acenderam e estavam lá, no chão, nas paredes, no teto, em todos os lugares, as pessoas que ele tinha matado. Havia sangue no chão e também em si mesmo e, quando ele chorou, foram lágrimas de sangue que se uniram ao massacre que ele tinha criado com suas próprias mãos.

— Você nos matou, Soldado — disse Steve, em pé, os olhos vazios enquanto o sangue escorria dos olhos e da boca, as palavras ondulando como um mal presságio. — Você nos matou e ainda tenta levar sua vida. Por que não morre de uma vez, afinal?

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH — gritou Bucky, desesperado em culpa, recusando-se a olhar. Ele tinha feito aquilo tudo durante cinquenta anos, quem era ele para achar que merecia algum perdão, aquelas vítimas, o sangue...

— Bucky. Bucky. É só um pesadelo, Bucky. Bucky, eu estou aqui. — A voz de Steve veio de longe e alcançou-o aos poucos, até o momento em que ele estava rodeado por ela, e parecia tão bom acreditar que era verdade, que tudo estava realmente bem quando era tão óbvio que não estava. — Pode abrir os olhos. Eu estou aqui. Eu estou aqui, eu sempre estive. Calma.

Bucky abriu os olhos e encontrou Steven sentado junto a ele na cama, ainda em suas roupas de dormir, cheio de olheiras e parecendo absolutamente preocupado, encarando-o de um jeito tão intenso que o desespero do sonho foi logo suplantado por uma onda violenta de vergonha.

— Eu estou bem, Steve. Foi só um pesadelo.

— Você me disse que estava melhor, Bucky. Que a cirurgia tinha dado certo e que você estava se sentindo bem.

— A cirurgia funcionou, e esse é o problema. — Ele sentou-se na cama, apoiando a cabeça em seus joelhos. — Eu me lembrei de tudo. De todos os assassinatos, de cada uma das vítimas. Dos pedidos de socorro, dos lamentos de dor... De tudo, Steve. Eu sou um monstro. Eu fiz aquilo e eu vou ter que lidar com esse fato para o resto da minha vida.

Steve aproximou-se dele e o abraçou, deslizando as mãos pelo seu braço bom.

— Você não era você. Estava sendo manipulado, e ninguém nunca te deu a opção de dizer não.

— Mas eu fiz, Steve! Eu matei aquelas pessoas, e se tivessem me dado a chance de dizer não, eu nunca diria, porque eu era a máquina perfeita e eu gostava de ser a máquina perfeita! — Bucky sentiu os olhos arderem. — Eu tinha um sentido, entende? Sentia que eu era parte de um plano maior e que isso valia a pena. Eu... Não sei o que pensar agora. As pessoas que eu matei ficam me perseguindo. Tem dias que eu nem consigo dormir, fico tendo pesadelos acordado, escutando as vozes delas, me lembrando...

Steve fez silêncio por um minuto.

— Eu não vou dizer como você deve se sentir, Bucky. Tudo o que eu sempre quis é que você fosse feliz e que eu pudesse ser feliz junto com você. Sua amizade sempre foi a melhor coisa que eu tive. Você me perguntou uma vez o que eu seria se você não tivesse me salvado, e eu posso dizer com certeza que eu não seria a pessoa que eu sou hoje, porque você é parte de mim e eu me orgulho disso. — Ele sorriu. — É uma das minhas poucas partes boas.

Bucky deixou escapar um fiapo de riso.

— T’Challa disse que você foi lá durante esses quatro anos me visitar todos os meses.

— E iria mais cinco anos se você ficasse por lá por mais esse tempo. Juntos até o fim da linha, lembra? Quando eu era criança, eu sempre fui ridículo, e adolescente eu nunca sabia direito como me sentir a respeito de mim mesmo. Eu fiquei muito feliz no dia em que pude dizer que te amava e fazer isso parecer uma brincadeira, porque eu realmente te amava e eu ainda te amo, mesmo sabendo que você matou pessoas, mesmo que você ainda não se lembrasse de mim, mesmo que se lembrasse e declarasse que me odiava. A gente sabe que amor não é uma escolha, mas se fosse, eu não tenho dúvidas de quem eu escolheria.

— A Peggy, claro.

Steven gargalhou.

— Eu amei a Peggy também, e fico feliz por ela ter vivido uma vida produtiva e feliz. Mas não estou falando dela, Bucky. Estou falando de você. — Olhou-o nos olhos, subitamente sério, e Bucky sustentou o olhar, sem saber exatamente como reagir ou o que dizer. — Desde quando eu tinha sete anos e você tinha os seus malditos oito. E você sabe disso, tão bem quanto eu.

— Eu... Não sei o que dizer.

— Não estou pedindo que saiba. Estou pedindo que entenda. Esses pesadelos, vamos enfrentá-los juntos, e vamos tentar fazer você ver alguma graça em estar vivo de novo, tudo bem? Vamos sair, vou te levar para conhecer lugares, vou te contar as mesmas piadas horríveis que você me contava e vou obrigar você a rir igual você me obrigava. Você acha que vale a tentativa?

Bucky piscou, e lembrou-se perfeitamente de um menino magrelo, baixo e doente olhando para ele e dizendo que o amava, e de ter pensado que aquilo só podia ser um sonho, porque o amava também, e logo depois concluindo que devia ser um pesadelo, porque jamais poderiam ficar juntos. Cem anos tinham se passado. O mundo era mais receptivo, não era? Ainda não conseguia se livrar da sensação de que algo estava errado, mas Steve não estava exigindo nada que ele não pudesse dar.

Curvou-se para frente apenas o suficiente para que seus lábios se tocassem e então recuou, deitando-se novamente na cama e se ajeitando em seus lençóis.

— É. Acho que vale — resmungou. Depois, deu tapinhas ao seu lado na cama. — Me faça companhia até eu dormir.

Steve sorriu e obedeceu, deitando-se de frente para ele.

— Você nunca foi o cara para quem as meninas olhavam — sussurrou Bucky, sentindo uma onda de sono dominá-lo e se entregando a ela de boa vontade. — Mas eu sempre olhei pra você.

— Eu sempre disse que você era doido.

— E eu era. — Bocejou. — Sabe, Steve? Você é a melhor parte de mim também.

Não escutou a resposta. Dormiu. E não teve pesadelos naquele noite.

Notas finais
Eu me permiti o melodrama porque o Steve e o Bucky sempre foram meio mel um com o outro, então it's ok. Midi me desculpa tá não me odeia te amo ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.