Mortemville - Primeira Temporada
3 Episódio 03: "A Bruxa do Poço"
Agosto de 1871, Mortemville
A neve caía lentamente na cidade de forma poética. Não havia mais pessoas na rua. Um ou outro trabalhador que voltava para casa agasalhado e com a respiração ofegante por conta do caminhar a passos largos para se aconchegar em casa o mais rápido possível. A fonte no centro da Praça Central havia congelado, e não era mais possível diferenciar o asfalto da calçada por conta da quantidade de neve. Por mais que o inverno já estava quase no final, em Mortemville a temperatura não havia passado de -2C.
Mesmo naquele frio, a seita estava reunida na Mansão Nikaly. Hoje fora o dia escolhido para pela primeira vez ser realizado o ritual Rooge e por isso que estavam no pátio do fundo da propriedade, junto com a neve. O gramado havia sido aparado cuidadosamente e o pentagrama desenhado. Os integrantes da seita se aglomeravam em volta, assim como as bruxas. Velas coloridas foram acesas ao redor e nos principais pontos do pentagrama. No centro, a cabeça de um touro sob duas estacas.
O ritual começou exatamente as duas e cinquenta e nove com as bruxas entoando um cântico profético e gótico com letras em uma língua já morta mesmo naquela época. Quando a música parou, os integrantes ascenderam suas velas e colocaram seus capuzes pretos. Duas bruxas jogaram querosene de forma cruzada no centro e nos contornos do pentagrama. Uma sequência de palavras começou a ser lançada em direção ao centro, sendo repetida pelos seguidores. As velas se apagaram e instante depois foi como ascender uma grande fogueira. O querosene se acendeu e no círculo uma parede fogo baixa se formou. Do centro, a cabeça de touro abriu os olhos. Vermelhos. As estacas ganharam forma. Nem carnal, nem espiritual, apenas uma forma existente. O Demônio Supremo do Inferno que a seita adorava por anos finalmente estava entre eles.
MORTEMVILLE, 2012
Pela primeira vez na vida Cynthia sentiu medo. Não um medo daqueles de quando se comete besteira e o coração grita no peito com medo do que a mãe vai dizer ou de apanhar. Foi medo de verdade. Daqueles de se urinar nas calças. Sua sorte é que não deu tempo para tal. Correu como se não houvesse o amanhã. O suor escorrendo igual um maratonista que acaba de sair de uma piscina olímpica. O coração palpitando tão forte que sentia pontadas no peito. Pulou algumas raízes e continuou correndo até alcançar o gramado de casa. Em nenhum momento pensou se Edward, Will e Sabrina conseguiram acompanha-la. Naquele instante, foi completamente egoísta. Quando finalmente parou nas grades do portão e olhou para trás, viu que os outros estavam saindo da floresta correndo e com os olhos tão arregalados a ponto de saltarem para fora do crânio. Atrás deles, a assombração parou na última arvore que separava a Mansão Nikaly com o bosque. Imediatamente, Cynthia abriu o portão e eles correram para dentro de casa.
— O que está acontecendo aqui? — Perguntou Karina descendo as escadas e olhando assustada para os filhos. — Que correria é essa? E quem são esses?
— Mãe, são nossos amigos. Conhecemos na cafeteria. — Respondeu Edward ainda ofegante.
— Prazer Karina.
— Prazer William
— Prazer Sabrina.
Trocaram apertos de mãos clássicos da era colonial antes da mãe continuar.
— E porque corriam desse jeito? Não andaram aprontando alguma né?
— Mãe! Tenho dezessete anos, já passe da idade de ficar apertando campainha de vizinho e correndo.
— Nem temos vizinhos! — Debochou Cynthia em um murmúrio. Will segurou um riso.
— Tem dezessete anos, mas pelo visto não sabe se impor e vai para qualquer lugar que sua irmã queira.
— Ei!
— O que Cynthia? Acha que eu não sei que você adora quebrar regras. — Retrucou a mãe, nervosa. — Mas agora não é hora disso. Temos convidados. — Se voltou para os jovens. — Fiquem a vontade. O que acham de um cappuccino?
— Adoraria Sra. Nikaly!
— Ah não querido! Senhora está lá no céu. Me chame apenas de Karina! — Respondeu a mãe sendo o mais gentil possível. Sorriu levemente no final antes de guia-los para a cozinha.
— Onde está o pai?
— Lá em cima organizando umas coisas...
Thomas Nikaly sabia, obviamente, da existência do sótão. Só não imaginou que estaria daquela forma. Depois de ver no porão o que viu, ele e a esposa resolveram que seria melhor para todos que os objetos da seita fossem guardados no sótão. Assim, eles carregaram até lá em cima.
Todavia, o sótão estava cheio de tranqueiras velhas. Caixas lacradas, móveis, pilhas de livros, espelhos, cálices de ouro, castiçais...Tudo ali tinha uma áurea doentia. Como se as almas de seus antecessores ainda estivessem ali. Deixou os objetos em um canto. O único que estava vazio. Para conseguir esvaziar o porão precisou fazer três viagens. Na terceira e última, sentiu algo mais forte do que antes. Uma presença não humana.
O único benefício que se tinha com o sangue Nikaly nas veias era a sensatez. Conseguia sentir a presença de demônios, almas, bruxas, qualquer tipo de coisa que tivesse poder. E tinha completa certeza de que ali no sótão tinha uma presença demoníaca. Jogou as coisas e entoou as palavras na língua que lhe fora ensinada quando criança e que jamais conseguiu esquecer. Quando fechou a boca, todas as caixas e objetos se arrastaram rapidamente para mais longe dele. Thomas não pensou duas vezes antes de sair dali. Selou a porta do sótão com correntes e faria questão de procurar água benta em algum lugar na cidade para jogar ali e aprisionar seja lá qual for o demônio.
Antigamente, a família Nikaly tinha um demônio em suas mãos. Sua ligação com o inferno era tanta que quando Morgana se entregou para Lúcifer e casou-se com ele, o primogênito fora entregue de bom grado para os Nikaly. O demônio era servo e sempre estava a disposição de propagar qual fosse o mal de desejo da família à qualquer ser humano que gritasse guerra contra eles. Hoje, não sabia mais o paradeiro de Agares, o primeiro de muitos soldados do inferno que tinham o sangue dos Nikaly nas veias...se é que possuíam veias.
(***)
Era quase nove da noite quando Karina serviu o jantar. Os irmãos Nikaly haviam se sentado um do lado do outro, o pai na ponta e a mãe de frente para Edward. Por mais que fosse uma típica cena de uma família tradicional brasileira, os Nikaly não tinham nada de tradicional. Odiavam toda aquela hipocrisia implícita pelas igrejas. Apostavam mais na natureza do ser humano. A mesa estava composta por um refratário de arroz de forno, um vinho para os pais e suco de morango para os menores presentes.
Mesmo com todas as luzes ali ligadas, Edward ainda sentia um frio na espinha. A sensação de estar sendo observado em todos os movimentos. Se assustava a cada pouco com a imagem de uma sombra se mexendo no canto dos olhos, mas nunca era nada. Tudo coisa da imaginação, era o que tentava acreditar, porém depois do que virá no cemitério...
— E eles parecem ser boas pessoas? — Perguntou o pai sobre os novos amigos dos filhos que ele não chegara a conhecer naquela tarde.
— Parecem. Claro que é muito cedo para dizer algo, mas...
— Mãe! Eles são boas pessoas...não teriam falado coisas boas de Mortemville se não fossem.
— É isso que me preocupa. — Disse Thomas tomando um gole do vinho. — Raramente os moradores daqui dizem coisas boas sobre a cidade. A maioria odeia esse lugar.
— E porque não vão embora? — Questionou Cynthia. O irmão lhe deu uma cutucada embaixo da mesa e a jovem engasgou com o suco.
— Não sei. — Respondeu o pai depois de um instante de incomodo.
Um silêncio se seguiu. Mesmo mantendo o olhar para o prato Cynthia pode ver a mãe recair sobre ela, desconfiada. Mesmo sendo mestra em segredos, a garota nunca conseguia esconder muita coisa da mãe. Ela sentiu Edward se remexer na cadeira, com certeza ainda apreensivo pelo que aconteceu a tarde. Ele contaria para os pais mesmo sabendo que seria punido se o fizesse?
— Filhos, eu e sua mãe andamos descobrindo umas coisas dos antigos moradores lá no porão. — Começou o pai. — Não sei se vocês sabiam, mas nós temos um porão. E nós queríamos que vocês prometessem por tudo que é mais sagrado que não vão entrar lá em hipótese alguma.
— Porque?
— Porque não. Eu não sei de quem pertenciam aquelas coisas. Amanhã mesmo vou ligar para o Sr. Clóvis que estava responsável por cuidar da casa e ver para jogarmos fora o mais rápido possível...
— Mas porque, pai? — Insistiu Cynthia.
— Cynthia! Isso é uma decisão minha e do seu pai na qual não implica uma razão em especifico. Se entrarem lá ficarão tanto tempo de castigo que vão criar raízes dentro dos quartos. Ouviram?
Os dois arregalaram os olhos. Nunca ouvira a mãe falar daquela forma com eles. Mesmo quando estava nervosa, Karina costumava ser gentil e bondosa.
(***)
Eram duas e cinquenta da manhã quando as velas foram acesas na Mansão Darkson e o ritual dera início exatamente como em 1871. Os participantes se acumulavam atrás enquanto as bruxas poderosas da época realizavam o ritual. Quando as velas apagaram e o pentagrama pegou fogo junto com a cabeça de touro grudada ao centro, muitos deles sentiram-se arrependidos.
O vento que cortou-lhes não era frio como se esperava ser o lado das almas humanas, mas era quente e penetrante. Robert Darkson não tirou os olhos um minuto do que estava diante de si. A cabeça de touro ganhando vida. As estacas balançaram fortemente, como se o demônio ali presente quisesse sair.
— Ceifador! — Chamou Robert. Segundo a tradição do ritual Rooge era proibido chamar o demônio pelo seu nome de batismo. Quem o fizesse estaria amaldiçoado pelas três gerações seguintes. — Queremos executar uma vingança antiga contra os Nikaly...acha que...
A voz do demônio foi tão estridente e medonha que os ouvidos de muitos sangraram.
— Há anos que não venha a superfície da Terra por irresponsabilidade da Seita. Enquanto não precisavam de mim, nem ao menos ascenderem uma vela em minha memoria e agora querem minha ajuda?
Robert encarou outros ao redor, tenso.
— Perdão! A vida em Mortemville anda...
— Desculpas esfarrapadas! — Cortou Ceifador. — Sabe do esforço que faço para falar a sua língua, Robert? Já era hora de você saber a minha.
— Perdão, mas os livros estão na Mansão Nikaly e...
— Basta! Palavras vazias é o que tens para mim! — Uma pausa em que a cabeça de touro girou trezentos e sessenta graus. — Mas ajudarei no que me pede apenas por honrar a seita. Porém, terão que jurar com o sangue de vocês sobre este pentagrama e a minha presença de que não se esqueceram dos amigos de seita e que jamais a deixarão morrer. Temos tido dias difíceis em que os Sete Infernos vem sendo atacados pelos malditos Arcanjos e precisamos mais do que nunca da força dos humanos. Se vocês caírem, Deus também cai.
Um silêncio incomodo perpassou pelo lugar e os seguidores da seita se entreolharam, ainda em dúvida se deveriam aceitar o acordo ou não. Todavia, Robert foi mais rápido antes que discutissem.
— Juramos!
Tirou um canivete do bolso e passou a lâmina com rapidez e agilidade na palma da mão esquerda. O sangue escorreu e ele se abaixou, mirando no fogo do pentagrama. As chamas ficaram mais intensas. Robert se virou e passou adiante a arma branca e de um em um dos seguidores foram depositando o sangue no fogo do inferno. Um deles, se recusou.
— Você? — Questionou o demônio. — Você Fabrício Hernandez II é uma vergonha para a sua família. Desertor! Te levarei comigo!
A cabeça de touro estalou fortemente e a coluna do jovem rapaz de vinte e seis anos dobrou estranhamente para trás tão rápido que se alguém tivesse piscado não teria visto. Sangue esborrifou caindo algumas gotas nas chamas do pentagrama. Outro estalo forte e os ossos das pernas saltaram para fora. Ele gemeu antes de cair morto com o pescoço na posição contraria.
— Que isso sirva de lição!
Os outros quatros seguidores que ainda faltavam permaneceram congelados por um tempo antes de jurarem perante o Ceifador. Depois que todos os seguidores da seita haviam depositado o sangue, o Ceifador continuou.
— Precisam de uma vingança contra os desertores dos Nikaly? Bom, uma maldição deve bastar! Entreguem-me a alma dos herdeiros, Edward e Cynthia e não só acabaram com a linhagem deles como me farão um favor enorme, pois poderei trazer a Terra minha forma original. Uma lua de sangue se aproxima e deverão fazer A Fogueira de Satã neste dia com a alma deles.
(***)
No dia seguinte, Edward e Cynthia foram logo cedo se encontrar com Will e Sabrina na Biblioteca pública. Tomaram café com os pais como de costume por volta das oito da manhã e seguiram para o centro da cidade.
A Biblioteca Pública fica em uma construção antiga. Uma das pioneiras na cidade. Tinha quatro andares, com dois pilares altos que se seguiam nas laterais, como as torres de uma igreja gótica. Janelas grandes e retangulares estendiam-se pela fachada. No centro, uma escadaria de mármore levava a duas portas grandes protegidas sobre um teto do formato do Parthenon grego. O edifício era feito de tijolos de concreto e possuíam uma coloração cinza chumbo.
Não estava muito movimentado, o que segundo Will era estranho, pois sempre estava lotada por conta da faculdade que tinha ali perto. Edward achou estranho que o restante do país não possuía conhecimento da existência da cidade, mas existia uma faculdade em que segundo eles, jovens de todo o país se mudavam para estudar.
O lugar era enorme. Todos os andares tinham mais de mil livros em prateleiras espalhados em uma área tão grande que facilmente alguém se perderia. Estavam no segundo andar na sessão de Histórias & Mitos.
— Aqui! Quero mostrar uma coisa para vocês que me deixou muito assustada ontem quando vi. — Falou Sabrina tirando um livro enorme grosso e velho da prateleira. Colocou na mesa redonda perto dali e abriu na página trezentos e trinta e três.
O desenho de uma mulher de ponta cabeça em cima do que parecia ser a boca de um poço estava impresso bem no início da página. O título em letras grandes e trabalhadas em seguida: A BRUXA DO POÇO.
— Isso é uma lenda daqui de Mortemville! — Falou ela olhando para os amigos que estava com uma expressão de desentendidos. — Segundo a lenda, essa bruxa foi a que ajudou a lançar a maldição sobre a cidade em 1813 e quando as pessoas descobriram, afogaram ela de ponta cabeça no poço mais profundo da região.
— Eu tenho cadastro aqui. Podemos levar para algum lugar e ler a lenda...
— O livro não pode sair daqui. — Falou Sabrina. — Eu estava pensando que poderíamos invoca-la.
— O que? Ficou maluca?
— Edward! Isso é coisa que jovens da nossa idade faria. Além do mais, é a única maneira de descobrirmos se a lenda é real ou não. — Argumentou a irmã.
— E para que precisamos descobrir se é real? Porque não deixar a lenda ser só...lenda.
— Você é tão chato! Não sei como somos da mesma família. — Retrucou Cynthia.
— Eu não vou participar disso.
E sem dizer mais nada foi embora. Saiu da biblioteca sem olhar para trás.
— Bom, se ele não quer, eu quero. Vamos?
— Mas precisamos de outro livro aqui da biblioteca para invocar. — Falou Will. — Acho que já achei aqui...
— Meu Deus, o que vocês ficam fazendo o dia todo para encontrarem esse tipo de livro?
— Já trabalhamos aqui nas férias. Sabemos de quase todas as sessões...
Sentindo um alívio grande, Cynthia acompanhou os dois até uma outra prateleira onde pegaram um livro com nome de O LIVRO DA INVOCAÇÃO escrito na capa. Era bonito. Do mesmo tamanho do outro, porém conservado. As páginas eram grossas e de um plástico gostoso para a pele e cheiroso. Folheou um pouco e pode ver imagens aleatórias de demônios, fogueiras, bruxas entre outras coisas que no momento não sabia se estava preparada para saber o que era.
— Mas também não pode sair daqui...
— Espera! — Disse Cynthia tendo um vislumbre. — Lá em casa tem uma biblioteca enorme que meu pai disse ter mais de mil livros...podemos ver se tem algum desses dois!
— Cynthia você é incrível! — Comemorou Will.
(***)
Thomas estava na sala de jantar ao telefone enquanto comia o resto da sobremesa da noite passada quando alguém tocou a campanhia. O som reverberou pela casa inteira. Desligou rapidamente e foi até as portas duplas. Ao abri-las, deparou-se com uma imagem nada agradável. Odiava o homem que estava diante de si tanto quanto o passado da própria família.
— O que faz aqui Robert?
— Olá Thomas! — Respondeu ironicamente abrindo um sorriso. — Vim lhes dar as boas vindas como prefeito.
— Prefeito? Como...?
— Ah meu caro amigo, isso é uma coisa que só quem esteve em Mortemville ao longo dos anos vai conseguir te responder com os mínimos detalhes.
— Sai da minha casa!
— Na verdade, estava afim de entrar para batermos um papo...
— Mas nem em outra vida! — Retrucou Thomas Nikaly veementemente. — Eu não vou repetir Robert, sai da minha casa!
— Ou o que? Vai matar o prefeito?
— Você não sabe do que sou capaz!
Robert avançou contra Thomas que recuou com um passo, assustado, pois não esperava tal reação do homem.
— Eu acho que é o contrário Thomas! Você não esteve aqui nos últimos vinte, trinta anos e não sabe o que aconteceu. As pessoas mudaram. As coisas mudaram em Mortemville e eu te aviso só uma vez: Ouse me provocar e mando você e seus filhos para a boca do inferno!
E saiu sem dizer mais nada. O Sr. Nikaly sentiu um calafrio na espinha e permaneceu na porta observando enquanto o prefeito entrava no carro e ia embora. Com um suspiro enquanto o ódio crescia dentro de si novamente e cada vez mais forte, bateu a porta da frente.
Fale com o autor