Mortemville - Primeira Temporada
4 Episódio 04: "Bruxaria"
Mortemville, 1903, Lua de Sangue.
Naquele dia em específico, existia uma grande movimentação na cidade. Aquela altura, a maioria das pessoas já sabiam que uma maldição havia caído sobre a cidade e que sempre que havia uma Lua de Sangue, algo muito ruim aconteceria. Por isso, todos haviam se preparado. Os mercados encerraram o expediente com as prateleiras vazias, as lojas de materiais de construção também, pois ninguém sabia o que enfrentaria durante a noite e no momento de desespero, qualquer coisa valia, uma corda, enxada, martelo etc. Os membros da Seita também não pararam nem um minuto. Como tradição, toda Lua de Sangue, era preciso realizar o ritual Rooge, contudo, essa noite seria mais do que especial. Um membro importantíssimo havia falecido no dia anterior e seu corpo seria cremado no Pentagrama para que suas cinzas perpassam o véu entre a Terra e os Sete Infernos e descer até o Reino do Supremo. Sendo assim, o ritual não seria realizado em uma das três mansões como de costume e sim no cemitério...não em um qualquer...no cemitério onde os fundadores de Mortemville haviam sido enterrados assim como Morgana.
Quando o ritual começou, as velas foram acesas uma por uma até que o pentagrama se iluminasse. Todos estavam com capas pretas e o símbolo da seita estampado no capuz sob a cabeça, velas grossas pretas nas mãos acesas também. Quatro membros trouxeram o caixão enquanto os três herdeiros, Nikaly, Hernandez e Darkson entoavam as palavras em uma língua descomunal. O caixão foi posto em pé no centro do desenho no chão. Todos se amontoaram em volta e começaram a repetir “tu enim ducit in anguis” até que o fogo se intensificou e algo rachou a terra em volta do caixão. Uma coisa grotesca e grande começou a se mover saindo de dentro da terra e se enrolando no caixão. Uma cobra gigantesca com a pele vermelha cobre e olhos vermelhos tão intenso que mesmo de longe era possível vê-los brilhar. A serpente subiu e os fitou no topo do caixão, abriu a boca como se fosse atacar e tudo se apagou. Um grito zuniu no ouvido de todos tão agonizante que alguns sangraram. No escuro, apenas os olhos vermelhos se mexiam no ar, indicando a movimentação da cobra. Instantes depois um som horrível, indescritível tomou conta de tudo. E os olhos da cobra começaram a descer rapidamente até sumirem. No céu, a lua de sangue reluzia na floresta, iluminando tudo ali em volta e o que puderam ver é o que caixão havia desaparecido em uma cratera no chão.
As velas voltaram a se ascender e os membros da seita puderam vê-los pela primeira vez. Todos os doze estavam parados dentro do pentagrama, ombro a ombro, encarando-os. Os olhos verdes neon, a forma parecia com a humana, contudo era difícil descrever pois todos usavam capas como os membros da seita. Eram os Doze Cavaleiros do Inferno. Ergueram um dos braços lentamente — que mais pareciam patas — e quando chegaram a uma altura que ficassem completamente retos, os membros da seita sentiram um formigamento nas pernas tão forte que desabaram, do que deveria ser os pés, serpentes saíram deslizando tão rápido que em um feixe de luz não era possível vê-las. Atacaram os olhos dos membros da seita e entraram pelo primeiro buraco que viram. Os humanos se debatiam e sangravam enquanto seus gritos ecoavam pelo bosque. Do centro do pentagrama, a serpente de olhos vermelhos e pele de cobre se erguia triunfante.
MORTEMVILLE, 2012.
Cynthia, Will, Sabrina e Edward estavam de pé em volta de um pentagrama de sal grosso desenhado na biblioteca da Mansão Nikaly. Os pais dos irmãos haviam saído para a cidade e eles aproveitavam o momento. Mesmo contra a ideia, Edward precisava estar ali. Primeiro, porque estavam na sua casa e não tinha para onde ir, segundo que se acontecesse alguma coisa à irmã ele precisava estar ali para salvá-la.
—Acho que não tem necessidade de fazermos uma coisa dessas né. — Disse Edward com a voz trêmula.
— Cala a boca Edward, já dissemos que você não precisa estar aqui.
— Cynthia é a nossa casa!
— E daí? Ela é grande suficiente para fazermos o ritual aqui e você nem sequer ficar sabendo do que aconteceu aqui em baixo se estiver no seu quarto.
— Não pense que você vai escapar dessa! O pai e mãe vão ficar furiosos quando souberem…
— Eles não vão saber.
— Se depender de mim vai!
— Aé? Ouse contar para eles que eu conto o seu segredinho do armário…
Edward fechou a cara imediatamente e fuzilou a irmã com os olhos, se afastando lentamente até alcançar uma poltrona de veludo vermelha mais ao fundo. Os três continuaram com o ritual. Sabrina acendeu as velas,Will e Cynthia pesquisavam as páginas certas nos livros que encontram na biblioteca. Não era o que Will e Sabrina haviam dito, Livro da Invocação e nem o Livro do Sangue, mas outros escondidos nas prateleiras.
Quando encontraram, alguns minutos depois, eles começaram. Edward tentava esconder o tremor que percorria seus músculos, sobrecarregados de adrenalina. O trio entoou as palavras unicamente em uníssono como descrevia o livro. Instantes depois, as velas se apagaram e um vento forte soprou. A respiração do mais velho parou e os olhos se arregalaram tanto que estavam prestes a saltar das órbitas. Contudo, nada mais aconteceu. Esperaram por quase dez minutos, rígidos e sem mexer um músculo. Outro sopro e as velas voltaram a se ascender. Do lado de fora, ouviu-se o som do carro dos pais entraram nos terrenos da Mansão.
(***)
Já era noite quando Thomas subiu ao sótão com uma vela e um crucifixo benzido na mão. Todos já estavam dormindo na casa, menos ele. Não conseguira. Precisava fazer alguma coisa contra a seita. Destrancou a porta lentamente com medo do que poderia acontecer e terminou de subir as escadas. Nada havia mudado ali. As caixas, os objetos. POrém continuava sentindo a sensação de estar sendo observado. A sensação fria e pulsante de ter mais alguém ali...ou melhor, alguma coisa. Quando olhou para um dos cantos, viu dois olhos verdes o fitando. Não piscavam. O coração disparou naquele instante. Desde os doze anos que não via nem sentia nada do tipo. O par de olhos se mexeu deslizando para a esquerda indo em direção a luz que entrava da pequena janela. Muito distante dali, ele ouviu um sino tocar. Como no alto de uma igreja. Insistente. A cada badalada, seu corpo sentia uma pulsação forte dentro de si.
— Ut a familia tenet, qui es te! — Gritou Thomas em Latim, ofegante. — Preciso de uma maldição para proteger minha família da seita.
Os olhos verdes continuaram o olhando até que o Livro da Invocação se arrastou pelo chão e abriu violentamente com as páginas passando tão rápido que uma corrente fina de ar fora provocada. O livro parou aberto em uma página e Thomas não pensou duas vezes antes de pegar e sair dali o quanto antes.
Uma vez na biblioteca, Thomas se preparou com o que o Livro da Invocação indicava. Não era preciso um pentagrama como em um ritual, apenas um objeto importante da família. Nesse caso, era um pingente usado pela tataravó de Thomas. Era uma corrente de prata com um pentagrama pendurado.
— Sanguis enim dicam. Eodem sanguine insidiantur talia mala Suntne. — Dizia ele em alto e bom som. Com um canivete, passou ligeiramente a lâmina pela palma da mão e deixou o sangue banhar o pingente enquanto repetia sete vezes. Uma vez para cada inferno.
(***)
Robert Darkson II se encontravam sozinho em seu gabinete às onze da noite. Trancará a porta e desenhou no chão um pentagrama. Ascendeu todas as velas e se posicionou no centro. Começou a dizer as palavras baixinho e foi aumentando o volume até estar esbravejando.
— Pater noster, qui es in infernum clarificetur nomen tuum, veni in regnum tuum fiat voluntas tua prævalebunt in terris sicut in Caelo et Inferno, opes hodie nostrum quotidianum da nobis nec ignoscet delictis publicis, Neque enim nocui quis ante numquam demisisti nos: Libera nos ab inertia da nobis fortitudinem. Ethan. — Rezou ele em Latim. Começou a tremer violentamente. As velas se apagaram. Perdeu completamente o controle sobre o corpo e quando olhou para baixo, viu uma cratera enorme. Dois olhos vermelhos se mexiam no fundo em direção a ele até que alcançou o topo. A serpente tinha uma cabeça do tamanho de um crânio humano e a pele vermelho cobre se enrolou no pé do prefeito de Mortemville e começou a subir. Era quente e seca. Subiu até estar no topo da cabeça, enrolado completamente. Apertou o máximo que pode até uma dor crescer dentro dele e sangue escorrer de todos os buracos do corpo. Antes que fosse morto, pela cratera, uma outra serpente, essa menor e com olhos verdes e pele escura carvão se deslizou para fora e subitamente atacou-lhe o rosto, entrando pela boca que se abriu em um sufoco. Imediatamente a cobra de cobre soltou e desceu pelo mesmo buraco que viera. O corpo de Robert desabou no pentagrama se debatendo violentamente, contorcendo em posições que um humano em sã consciência seria impossível ficar até que os olhos ficaram verdes e frios, como o da cobra.
Enquanto isso, no porão da Mansão Nikaly, uma vela metade preta e metade vermelha rolou da prateleira em que estava pregada até o pé da escada que levava ao térreo. Ambas as partes ascenderam subitamente. A Vela que Chama foi acesa depois de quase duzentos anos.
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