Não era um dia qualquer. Levantei com uma forte dor na coluna. Minha unha do dedão do pé direito decidiu que aquele era o momento de encravar. A enxaqueca, velha companheira, aproveitou para me fazer uma visita. E não bastasse tudo isso, depois do banho descobri que a minha calvície estava aumentado. Devido a ausência de cabelos na cabeça? Não! Por causa do excesso de cabelo no chão! O telefone tocou. “Padre!? Minha mãe morreu. O enterro será agora pela manhã. O senhor pode vir encomendar o corpo?” Claro! Tão prontamente respondi. Não seria a primeira vez. Nem a última. Esse serviço faz parte das minhas tarefas ministeriais. Mas o destino tinha reservado uma surpresa para essa ocasião. Cheguei ao cemitério. Lá o clima era frio. O ar-condicionado só ajudava. Eram umas quinze pessoas em volta do caixão. E todas pareciam mortas também. Velório é sempre assim! Por isso me preparo para trazer de volta à vida os que ali jazem no sepulcro da tristeza. Aproximo-me do esquife. Olho para todos. Tento não morrer também e dou início a celebração. Lá pelas tantas, decidi que estava na hora de ligar o desfibrilador. "Meus irmãos e irmãs, a morte não deve nos causar desespero. Ela nos leva para um lugar muito melhor. No céu não haverá dor nem sofrimento. Lá não tem dor de cabeça, dor de barriga, unha encravada, reumatismo, rugas, nem queda de cabelo". Nesse exato momento, atrás de mim, alguém deu sinal de vida. Ouvi o esboço de um riso, “ha”. Pensei: ressuscitei pelo menos um. E soltei então uma estrondosa gargalhada. Tinha intenção de motivar aquela que atrás de mim havia compreendido a brincadeira. No entanto, quando me virei descobri que a pessoa não ria. Chorava. E chorava copiosamente. O procedimento médico tinha causado o golpe de misericórdia. Eu não sabia. Mas a "defunta-defunta" era muito vaidosa. A referência ao cabelo causou forte comoção na filha dela. Voltei o meu olhar para os outros 14 corpos. Esperando que aquele alvoroço tivesse despertado algum. Mas todos continuavam mortos. E naquele momento eu também morri. De vergonha.

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