Morte no Espelho

5 Capítulo 5 – Caso Encerrado


Emílio abriu os olhos, piscando para se acostumar à luz. Havia um holofote preso na coluna bem à sua frente, e ele demorou vários segundos para se acostumar a ela. Olhou em volta, e não reconheceu o lugar. Parecia uma espécie de galpão, um lugar muito alto e espaçoso e sem nenhum tipo de mobília. Tentou levantar-se de onde estava sentado, e então notou que havia cordas em volta do seu peito, e suas pernas estavam amarradas às pernas da cadeira. Suas mãos estavam presas, amarradas às suas costas.

Emílio tentou soltar-se, sem sucesso. Praguejou em pensamento.

Olhou para os lados, tentando adivinhar onde estava. Não tinha certeza de ter visto aquele galpão antes, e ele não lhe parecia familiar. Havia uma pessoa de costas, mexendo em algo sobre uma mesa a alguns metros de onde ele estava sentado. Alguém baixo demais para ser Fernanda Gonçalo e moreno demais para ser Jéssica.

— Hey! – ele chamou. O estranho não se virou. – Hey, seu monte de bosta! Enfrentar alguém desacordado é bem fácil, não é?!

O estranho pareceu rir.

— Você não estava desacordado quando tentou atirar em mim – disse o homem calmamente. Emílio conhecia aquela voz. Mas de onde? – Desacordar você foi a parte fácil. Carregar essa sua pança até aqui é que foi a parte difícil.

Emílio enrubesceu de raiva.

— Então por que não me solta para resolvermos isso de homem pra homem?!

— Porque desde o início não agimos assim. – respondeu ele.

O homem se virou lentamente, e Emílio reconheceu o rosto que vira na ficha que Jéssica mostrara. Carlos Oliveira, o motorista de Fernanda. O delegado ficou surpreso. Não era possível que sua primeira hipótese estivesse realmente correta.

— Que início? – perguntou ele. – Você nem me conhece!

Carlos riu-se outra vez. Em seguida, gargalhou.

— Você nem se lembra, não é? – perguntou ele. Emílio franziu as sobrancelhas, ainda confuso. – É verdade o que eles dizem, não é, quem bate nunca se lembra, somente quem apanha.

— Do que você está falando?!

— Do que eu estou falando, delegado Carvalho? – perguntou o homem, chegando mais perto. Tinha alguma coisa em mãos. – Estou falando do dia em que apareceram na minha casa e me tiraram de lá como se eu fosse um bicho. Estou falando da ocasião em que prenderam meus brinquedos porque vocês os acharam perigosos. Estou falando de quando você perseguiu tanto uma pista que não parou até achar alguém pra culpar pelo seu desleixo.

Emílio travou o maxilar, sem acreditar no que estava vendo. Parecia que tinha visto um fantasma. E que o fantasma estava tentando matá-lo.

— Agora você se lembra, não é? – disse o homem, com um sorriso sádico no rosto. – É engraçado como é fácil ativar a memória das pessoas pelo lado ruim do que elas fizeram.

— Não foi desleixo meu – disse Emílio, muito baixo. Parecia dizer mais para si mesmo do que para o homem.

— Não foi? – perguntou ele, aumentando o sorriso. – Então quem foi que permitiu que todos aqueles policiais morressem torturados no meu porão?

Emílio tentou soltar-se da cadeira outra vez, avançando no homem. Não conseguiu se mover.

— Não é frustrante? – perguntou ele. – Estar amarrado a uma cadeira enquanto outros te ameaçam?

— Se está falando do seu julgamento, isso não é nada parecido.

— Ah, pode crer que é, sim... – disse o homem, com uma voz quase sonhadora. – Vocês acham que a tortura é apenas física, mas veja bem, delegado, é incrível o que se pode fazer com a cabeça de uma pessoa sem nunca encostar em seu corpo...

Emílio novamente travou a mandíbula. A cena de Rodrigo Andrade sendo levado do tribunal lhe surgiu nítida na cabeça. Ainda vou fazer você ver a sua morte, delegado! Você vai se ver sangrar!, ele disse enquanto os guardas o arrastavam para a porta de saída da sala. Então lembrou-se do quão assustado estivera desde que vira aquele corpo tão parecido com o seu estirado nos degraus da delegacia. E do quanto se esforçara para achar uma explicação minimamente razoável para aquilo.

Rodrigo Andrade tinha sido capturado em casa, depois que uma pista os tinha levado diretamente àquele endereço. Emílio havia conduzido a operação que resultou em sua prisão e na apreensão de diversos instrumentos de tortura. O homem costumava abordar policiais em serviço, drogá-los, torturá-los em seu porão e esquartejá-los, espalhando seus restos mortais pela cidade. Emílio perdera vários agentes de sua delegacia para aquele sujeito. E não tinha descansado até prender o bastardo que tinha feito aquilo.

— Podemos fazer as pessoas enlouquecerem, delegado... fazendo-as desconfiar de seus amigos... colegas de trabalho...

Emílio franziu o cenho.

— Você não tinha como saber...

— ...que desconfiaria de Jéssica Arruda? – ele sorriu outra vez. – Acha que não sei fazer o meu trabalho, delegado? Estou na cidade há semanas. Sei que o senhor não confia na detetive que foi designada pra sua delegacia. Mas eu entendo, afinal, você só estava tentando proteger o seu pessoal... Você pode imaginar a felicidade que eu fiquei quando vi você chegando ao sítio de Bruno Ferreira, eu suponho – riu- se o homem. – Você saiu de um lugar onde tinha luz e uma rua cheia de pessoas que poderiam me ver arrastar você para um porta-malas e depois, para um sítio onde ninguém veria nada se eu tomasse apenas os cuidados necessários. Tomou o cuidado de despistar todos da delegacia, e ainda de quebra, veio pra minha vizinhança. Foi quase bom demais pra ser verdade. Obrigado mesmo, delegado.

Emílio encarou-o, sem acreditar.

— Como foi que você saiu do inferno pra vir até aqui?

Rodrigo sorriu.

— Eu sabia que você ia me perguntar isso. – disse ele. – Na verdade, estava louco pra te contar.

— Louco eu sabia que você era.

Rodrigo riu.

— Muito espirituoso, delegado, realmente. – observou ele. – Mas, como eu estava dizendo, estava louco para te contar. Eu estava na minha cela, tranquilo, pensando sobre meus atos como o juiz disse que eu tinha que fazer, e me sentindo culpado por todas aquelas mortes. – ele continuou, como se aquilo fosse além de trivial. O sangue de Emílio ferveu em suas veias. – Então, ele surgiu. Na verdade, você surgiu. Um homem condenado por estupro que era tão parecido com você que tive que olhar duas vezes para ver se você não tinha se juntado ao nosso lado da força. Eu subornei alguém para envenená-lo. E dei um jeito de colocarem algo na minha comida para que eu parecesse morto também.

— Você fugiu da própria cova.

— Não é engraçado? – perguntou ele, sorrindo. – Ressurgi dos mortos para caçar quem acabou com a minha vida. Parece que consegui, não é, delegado?

Emílio não estava achando nada engraçado.

— Mas na verdade, eu fugi do IML. Bem mais fácil do que fugir da cova, não é? Você já viu a quantidade de terra que colocam em cima dos caixões?

— Você é doente. – sintetizou o delegado.

Rodrigo pareceu ponderar.

— Talvez eu seja. – respondeu. – Mas isso nunca me matou, não é? Agora imagine, delegado, que você tenha uma apendicite. – Rodrigo foi chegando mais perto, e só então Emílio identificou o objeto pontiagudo que ele trazia na mão. – Dizem que a dor é lancinante. E que, se não for tirado rápido, o apêndice inflamado pode matar uma pessoa. Você já tirou o apêndice, delegado? O que acha de fazermos isso agora?

Rodrigo apoiou-se sobre o braço de Emílio e encostou a ponta fina da lâmina na parte de baixo da barriga do homem.

— Dizem que a incisão é profunda – disse, forçando o objeto para dentro do corpo do delegado. Emílio urrou de dor. – mas que a cirurgia é rápida. E não oferece muitos riscos.

Rodrigo retirou a lâmina e se afastou até a mesa. A visão de Emílio estava turva; ele estava muito consciente do sangue que vazava do ferimento, mas o batimento desesperado do coração latejando em seus ouvidos era a única coisa que conseguia ouvir.

— Sabe outra cirurgia muito comum, delegado? – perguntou Rodrigo, se aproximando outra vez. – A retirada de pedras na vesícula. Dizem que é bem pouco invasiva, ao contrário do apêndice, mas bem, são três furos.

Emílio, que estava curvado para frente, foi forçado a se recostar novamente na cadeira. Rodrigo encostou uma ferramenta de três pontas logo abaixo de seu peito e a forçou para dentro do corpo do homem.

Emílio novamente gritou, e curvou-se arfando assim que a lâmina foi retirada de si. Tentou encontrar um jeito de desatar o nó que amarrava suas mãos, mas aparentemente elas estavam presas com um tipo de presilha plástica em vez de cordas. Não conseguiria romper aquilo sem a ajuda de uma faca.

— Bom, mas vamos falar de coisas boas, não é? Esse assunto de doença deixa todo mundo muito pra baixo. – riu-se o homem. – Eu te contei que comecei a fazer termoterapia na prisão? O fogo é uma coisa que pode ser muito relaxante.

Emílio ouviu quando Rodrigo acionou a chama de um maçarico, e por um instante, pensou em implorar para que ele o matasse. Mas ia mesmo dar esse gosto a ele? Não era isso o que ele queria?

Nesse momento, ouviu-se um grande estrondo, e Emílio levantou a cabeça apenas o suficiente para ver a porta do galpão sendo arrombada por alguém.

— Polícia, parado! – gritou uma voz conhecida de mulher. – Ponha as mãos onde eu possa ver, um passo em falso e eu atiro!

Jéssica Arruda entrou no galpão vestindo um colete à prova de balas, todos os agentes da delegacia de Laranjal em seu encalço, e mais alguns policiais do reforço que ela pedira da base de Rios Verdes. Os policiais se espalharam pelo galpão, mantendo uma distância segura de Rodrigo e o maçarico que ele empunhava, e também do sorriso sardônico que ele abriu quando foi surpreendido.

— Ora, ora, ora... Quanta ironia, delegado Carvalho – disse ele, que estava então a alguns metros da cadeira onde Emílio estava sentado. – Veja só quem trouxe a cavalaria.

— Mãos ao alto ou eu atiro! – repetiu a moça, a arma empunhada na direção do torturador. – Eu não vou falar uma terceira vez!

Rodrigo riu, virando-se para ela.

— É engraçado como palavras são corajosas, não é? – perguntou ele. – Sabe qual a sensação de matar alguém, detetive? Posso te dizer que é boa. É viciante – continuou ele. – O cheiro do sangue, do controle e do caos. Da vida indo embora. É tão bom que não sabia como parar. Ainda não sei, na verdade – riu-se. – Se atirar em mim, corre o risco de ficar do mesmo jeito...

Então ouviu-se o barulho de um tiro e Rodrigo caiu no chão, derrubando o maçarico e segurando a perna.

Dois policiais correram até ele, imobilizando-o, e um outro desligou o maçarico. Outros dois, incluindo Jéssica, correram até o delegado para soltá-lo da cadeira.

— Temos que levá-lo para o hospital – disse a moça, desamarrando o homem ferido. Emílio respirava fundo e com dificuldade, mas abriu um pequeno sorriso ao olhar a detetive.

— Bom trabalho – admitiu ele. Jéssica sorriu de lado também, parecendo orgulhosa. – Não teria feito melhor.

— Obrigada – agradeceu ela. – Eu te disse que sabia fazer o meu trabalho.

Emílio sorriu novamente enquanto era imobilizado para ser levado ao hospital. Pensou em como a vida podia ser irônica às vezes, ouvindo Jéssica dar ordens ao pessoal que o levava. Rodrigo foi algemado e levado para fora. Então suas vistas pesaram, e Emílio não viu mais nada.

***

— Uma grande reviravolta aconteceu na noite de ontem na cidade de Laranjal, a trezentos quilômetros da capital do estado – disse o repórter na TV enquanto Emílio bebia seu café, recostado sobre a bancada de sua cozinha, folheando o jornal. – Rodrigo Vaz de Andrade, preso há 6 anos por torturar e matar 11 policiais da delegacia de polícia do bairro Limeira, na capital, foi preso novamente torturando o delegado da base de polícia local, Emílio Carvalho. Emílio tinha sido o responsável por conduzir o caso que resultou em sua primeira prisão, e pediu transferência para Laranjal depois do julgamento de Rodrigo. A polícia afirma que Rodrigo estaria atrás de vingança, e que pretendia matar o delegado depois de torturá-lo.

Emílio olhou de relance para a TV, pensando em como as notícias corriam pela imprensa.

— Estamos aqui com a detetive Jéssica Arruda, responsável por desvendar o caso – disse outra repórter, e Emílio levantou os olhos para a TV. – Detetive, o que a fez pensar que Rodrigo iria se esconder no galpão da família Gonçalo? – perguntou ela.

— Bom, o elemento tinha se munido de identidades falsas e estava trabalhando para a família Gonçalo. A nossa suspeita é a de que ele tirou proveito do fato de que o galpão não estava sendo usado pelos patrões e ali instalou sua estação de tortura, como viemos a constatar quando arrombamos o local. – disse a moça.

Emílio sorriu, desviando o olhar novamente para o jornal. Tomou outro gole do café quente antes de ouvir a porta da cozinha se abrir.

— Eu posso saber o que o senhor está fazendo de pé e fora da cama? – perguntou Jéssica assim que o viu.

Emílio fechou o jornal calmamente antes de responder.

— Você é a detetive, é você quem conduz as investigações por aqui.

Jéssica revirou os olhos, embora sorrisse.

— Pode voltar já pra cama – ordenou ela. – Ouviu o médico dizendo que não deve se esforçar para não romper os pontos do ferimento.

— Não estou me esforçando – teimou Emílio. – E não consigo ficar enfurnado naquele quarto o dia inteiro, preciso de café.

Jéssica riu.

— Vou arrumar uma cafeteira pra você. – disse, apoiando o homem em seu ombro para guiá-lo pela casa.

— Sempre é tão cheia de ordens assim? – perguntou ele, deixando-se levar. Jéssica sorriu de lado.

— Apenas quando o delegado responsável não está presente.

Emílio sorriu, divertido. Podia se acostumar com uma nova ajudante como aquela.

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Notas finais
Então é isso, gente. Espero que vocês tenham gostado. Foi a primeira vez que me aventurei em uma história policial, então espero mesmo que tenha ficado coerente e com os gatilhos certos pra despertar o que uma boa história policial despertaria em vocês hahaha Não deixem de visitar a história da minha parceira de aventuras Rain, que construiu um enredo FODA sobre o mesmo prompt: https://fanfiction.com.br/historia/762925/O_Inferno_e_o_Outro/ Deixem um comentário! Pra eu saber o que tem que melhorar pras próximas e etc hahaha Beijos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!