Morte na Mansão Boston
2 Capítulo 2
Notas iniciais
De manhã, bem cedo, a perícia criminal e alguns policiais ainda estavam na casa. Na madrugada, Pedro alertou a polícia sobre o incidente e agora ela analisava as condições em que o crime ocorrera e, aparentemente, não estava gostando de trabalhar em dia de feriado. A comemoração que acontecia na noite anterior fora interrompida. Sobravam lamentos, algumas lágrimas e murmúrios.
Pedro, nesse momento, conseguia perceber como sua família era estranha, desunida. Estavam todos ensimesmados, cada um parecia viver em um mundo próprio.
Depois de algumas horas, os peritos foram embora. Alícia, a mãe de Pedro, agradeceu pelo seu trabalho. Ela aparentava estar bastante triste e seu rosto de quarenta anos demonstrava preocupação. Após levar os policiais até a porta e se despedir, ela foi em direção à janela, local em que antes mesmo já se encontrava. E ali ficou, parada, intacta, com seu longo e belo vestido, olhando para algum ponto desinteressante no jardim.
A manhã inteira se passou. O dia lá fora era ensolarado, mas o interior daquela mansão de grossas paredes escuras mantinha um clima funesto e um sentimento de vazio. Era como se não houvesse motivo para aquelas pessoas estarem ali. E ninguém parecia gostar. Em meio ao silêncio, subitamente o telefone tocou. O volume com que fizera isso parecia ampliado e todos os olhares se direcionaram para a mesinha sobre a qual estava.
O telefonema foi breve, era apenas um convite. Pedro tomara a atitude de atendê-lo e era o delegado Marcel quem estava do outro lado da linha.
Era início de tarde quando o jovem estudante de medicina chegou à delegacia. Sentado, atrás de uma escrivaninha com alguns papéis, o senhor Marcel, um homem alto e com postura elegante, convidou-o para uma conversa. Pedro acomodou-se em uma cadeira nada aconchegante.
– Senhor Boston, chamei-lhe aqui para o colocar a par das conclusões a que nossa perícia chegou, a partir das condições em que ocorreu a morte de seu tio, o famoso Aurélio Boston Craig. Alguma objeção?
Aquela pergunta desconcertava um pouco Pedro, afinal, era ele quem tinha de receber aquelas informações? Estava curioso, mas sentia responsabilidade pesando sobre seus ombros. Olhou para o delegado, embora ele fosse cordial na vizinhança, em seu trabalho, o senhor Marcel tinha ares intimidadores.
– Pode falar, senhor — disse Pedro, fazendo sinal com a cabeça para que o homem prosseguisse.
Aí, subitamente, o delegado falou em um tom mais ameno.
– Bom, jovem, a verdade é que não há muito para falar. A posição do corpo de seu tio, as digitais, a porta trancada, tudo indica que ocorreu um suicídio. Temos quase certeza absoluta disso. Não há outra saída. O homem era famoso, milionário, mas morava nessa cidade muito pacata. Ouro Verde não chega a ter oito mil habitantes. Ele parecia viver tranquilamente e não fomos informados de que há um inimigo seu na cidade. Você deve considerar que talvez ele estivesse abalado psicologicamente, a fama pode modificar um homem, você sabe.
– É verdade, senhor, mas não creio que isso tenha acontecido com meu tio — Pedro conhecia bem o homem com o qual passara os últimos anos — por favor, conte-me o que fez vocês concluírem que foi isso o que aconteceu.
– Como você mesmo disse aos meus homens, o velho estava sozinho na biblioteca. Na maçaneta, na chave, em tudo havia apenas as digitais dele. Tal constatação me causou estranhamento, porque não costumamos encontrar as digitais de apenas uma pessoa. Porém, soube que a única empregada da casa usa uniforme e luvas de borracha, além disso, só vem nas quartas. E, pelo que andei buscando, aquele era um espaço privado do senhor Craig.
Pedro concordou. Realmente ninguém, nem mesmo ele, costumava incomodar o tio enquanto ele estivesse na biblioteca. Lá, ele lia, escrevia alguns e-mails ou cartas e descansava. Era um repouso merecido, um tempo em que ficava sozinho, relaxando na poltrona diante da lareira, onde o fogo queimava.
– Além disso, — continuou o delegado — você mesmo disse que, quando olhou em torno de si, na rua, todos, exceto seu tio, estavam esperando o auge da queimação dos fogos. Note que a porta da biblioteca estava trancada, uma forma de precaução que talvez seu tio tenha tido para não ser interrompido. Quanto àquela janela lateral da qual se via o pátio, ninguém costumava ir lá, não é mesmo? Como pode perceber, o senhor é nossa principal fonte de informações, então resolvemos calcular e pesquisar os seus movimentos durante a noite de ontem e , aparentemente, você não matou seu tio. Você teve sozinho os momentos em que procurava o tio, mas há falta de motivo, o ponto mais relevante em um assassinato. Além disso, a porta não estava trancada por fora, mas por dentro, e pegadas suas foram encontradas somente da janela até o lugar em que estava o corpo de Aurélio.
Pedro não sabia como poderiam pensar que ele faria tal coisa. Mesmo assim, achou a pesquisa pertinente.
– Há algo mais? — perguntou o jovem.
– Sim, nossos peritos disseram que, se alguém atirasse pela janela, o cadáver não poderia estar na posição em que se encontrava. Pelo que eu entendo, ele deveria cair para outra direção. A arma utilizada, você deve saber, estava do lado do corpo de seu tio. Contudo, algo ainda precisa de explicação.
– Do que se trata, delegado?
– Nossa perícia conseguiu encontrar as digitais de uma outra pessoa, além das do próprio Aurélio.
– De quem você fala, senhor Marcel?
– Meu jovem, você deve saber melhor do que ninguém. Terá de nos explicar o motivo de encontrarmos as suas digitais imprimidas no revólver. Você o tocou por algum momento?
– Não senhor — disse Pedro, não entendendo o que estava acontecendo.
– Ora jovem, isso é impossível — pressionou o delegado.
Completamente aturdido e assustado, sentindo-se ameaçado, Pedro pediu licença ao detetive, deixando este com uma cara de não compreensão. A passos rápidos, o jovem deixou a delegacia.
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