Morte e revolução - O fim de um sonho
1 Parte I
Juliet queria acreditar que tudo era uma ilusão. Todas as câmeras, entrevistas e tudo mais que o cercava.
Que ele não era aquele homem estúpido, que no fundo era uma pessoa maravilhosa. Se ela pudesse acreditar nisso.
Bem, isso não importava agora.
Você é o meu veneno. A minha morte.
Sentia que morria a cada instante que passava com ele, mas ainda assim era um vício, não conseguia seguir em frente sem ele.
Juliet sentou-se em frente a TV. A sala ainda estava imunda, não teve capacidade de limpar nos últimos dias. Alguém havia gravado a última discussão do deputado com sua noiva e aquilo havia feito sucesso na internet.
Discussão. Foi uma briga séria, com tudo que tem direito: xingamentos, socos, empurrões...
Ambos haviam sido criticados, pessoas tomando partido de ambos os lados. Os eleitores conservadores dele diziam que ela estava arruinando a carreira dele, não entendiam porque ele havia escolhido uma mulher como aquela, entre todas as mulheres. A chamavam de louca, desequilibrada. Falavam se suas crises de saúde e uso de drogas. Já os que tomavam partido dela diziam que ELE a havia destruído. Era um namorado abusivo e estava envenenando a alma dela.
Realmente era um relacionamento abusivo.
Sentada em frente a TV ela via o discurso que ele fazia. Sempre parecia tão bonito, tinha uma facilidade imensa para falar. Não havia quem pudesse vencê-lo em um debate.
Se sentiu muito mal, como se estivesse negando todos os seus ideais.
Preciso me concentrar, tenho um livro para escrever.
Não é grande coisa...
Mais uma distopia. Uma distopia sobre a religião dessa vez.
Precisava vender.
O telefone toca, atrapalhando seus já confusos pensamentos.
— Você viu o jornal?
— Você não pensou em me contar mais cedo?
— Do que iria adiantar? Só ia ficar com raiva durante mais tempo.
Bate o telefone na cara dele. O telefone continua tocando, mas não atende.
As notícias dos últimos dias a assustam profundamente.
"Sempre quis fazer parte de um acontecimento importante da história, me perguntava como seria, o que eu iria fazer se participasse da Revolução Francesa, Revolução Russa, Guerra Civil Espanhola. Sempre achei interessante e quis poder voltar no tempo para lutar ao lado de meus irmãos, mas agora vejo tudo indo pelos ares e não consigo me mexer. Acho que todos estamos assim. Não achamos que iria ser possível mais uma ditadura, por algum motivo nos iludimos com a volta a democracia e agora... Estamos estupefatos, não sabemos como reagir. Não sei o que fazer. Caminhamos a passos largos para mais uma ditadura, estão cortando nossos direitos em nossa frente e nós estamos parados olhando. Quando ouvi boatos sobre o primeiro Ato Institucional que o presidente — presidente — ia lançar, fiquei pensando: Não, ele não irá ter coragem de fazer isso. A população não irá deixar.
E então foi lançado. Nossos representantes, a maioria aplaudiu e o que restou foi silenciado. — Fez uma pequena pausa antes de continuar. — Não sei o que esperar do futuro. Estou gravando esse vídeo e postando aqui porque pode ser minha última oportunidade de dizer o que penso para todos vocês. Quem sabe quando irá começar a censura e a Internet será bloqueada? A proibição de partidos que foi anunciada agora a pouco já foi o bastante para todos notarmos o que vem pela frente. Espero que sejamos fortes para lutar. Sei que mais cedo ou mais tarde iremos derrotá-los e sei que dessa vez será a última. Iremos ter nossa vitória, custe o que custar. "
Desligou a câmera. O vídeo foi postado em todas as suas redes sociais. Não sabia o que esperar, do jeito como as coisas estavam sendo poderia ser presa a qualquer instante. No vídeo foi sincera, não mentiu nenhuma vez, apenas ocultou a culpa que sentia. Havia sido usada como uma distração. Todos os dias saíram nos jornais e na internet novidade de seu relacionamento conturbado. Pessoas acompanhavam a vida dos dois como se fossem atores de Hollywood ou estivessem em um reality show. Ficavam distraídas com tudo mais que estava acontecendo.
Se sentiu usada.
Marcelo sabia exatamente o que estava fazendo.
Deputado galã, com a noiva louca. Sempre se questionou porque todos os vídeos "vazados" dos dois ela sempre saía como a louca. Sempre gritando, batendo, a um ponto de perder a sanidade. E ele sempre paciente e conciliador. Durante um tempo acreditou que fosse realmente assim, que talvez estivessem certos e ela fosse a louca. Louca por ser provocada até perder a sanidade, até não aguentar mais. As provocações, gritos e empurrões dele nunca eram gravados pelos vizinhos.
— Todos nós queremos o melhor para o país, mas temos ideias diferentes de como conseguir isso. — Disse uma vez o Marcelo conciliador.
Viu a entrevista dele ao vivo. Ele falava sobre economia. Parecia que sabia do que estava falando, afinal havia estudado bastante sobre aquilo. Estava pronto e preparado. Havia sido indicado pelo partido — O Partido — para disputar as eleições. Agora as coisas mudaram: Ao invés de serem escolhidos normalmente por todos os partidos, O Partido indicava 3 candidatos elegíveis e Marcelo era um deles.
Assistimos parados tudo isso. Como pudemos deixar acontecer?
Na TV o próprio Marcelo fez o pronunciamento que estavam fazendo a vontade da maioria da população. E talvez fosse verdade. Nem sempre a maioria está certa, afinal. O radicalismo cresceu assustadoramente e ficamos olhando, cantando e jogamos flores.
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