Morte e Compaixão

1 Sobre guerreiros e forasteiros


Notas iniciais
A fic teve inspiração no clipe Princess of China - Coldplay ft. Rihanna, que por sua vez foi inspirado no filme O Tigre e O Dragão, mas a trilha sonora é composta pelas músicas: Miracle of Love - Gregorian & Celtic Carol - Lindsey Stirling

Deixe de fraqueza, cumpra sua missão, pela sua própria vida.

Não

Se não cumprir a sua, terei de cumprir a minha.

Aceito a morte com um abraço se vier, mas não tiro-lhe a vida.

Não deve. Vai decepcionar seu mestre.

Pouco me importa o Imperador, não estarei aqui para aquiescer sem argumento suas injúrias.

Estou ordenando-lhe...

Não ordenas-me nada.

Ela parecia resoluta àquela hora tão distante, tão próxima do fim. Nua, deitada sob a luz prateada da manhã, envolta nas alvuras dos lençóis de cetim.

Mas, à hora da batalha, quando recuou e sabia certo seu fim, teve ainda uma última esperança de que aquele sabre não a atravessasse. Fitou-o e seus olhos pareciam conter o próprio inferno. Por um segundo antes estiveram com as frontes unidas murmurando o amor. Mas o sabre perfurou sua carne, espalhou seu sangue pela areia úmida. O mar recolheu suas gotas vermelhas de amargura, mas a mancha da traição estava em seu olhar e ali fixou-se. Não, ninguém a traíra. Ninguém dera-lhe esperança. Ele dissera: "-Se não cumprir a sua, terei de cumprir a minha.", mas por um instante, aquele de auto preservação antes da morte iminente, agarrou-se à idéia de que sobreviveria, de que, não se sabe como, ele, tão certeiro, erraria o golpe, atingiria o Imperador e fugiriam dali para envelhecerem. Erro. Errou imperdoavelmente. Guerreiros não erram. Contra tudo que lutou para provar que era uma guerreira, não era. Guerreiros do Imperador não erram. E amar era um erro. Amar um forasteiro era um erro. Amar o forasteiro que trouxera a guerra era o erro que merecia a condenação. Condenada. Executada. Levada pelo mar que um dia a trouxe ao Mestre e sua mulher.

Na mente do guerreiro ficaria gravada eternamente a expressão traída com que ela partiu do mundo. E talvez tenha sido ali que ele percebara que a amava. Que não queria que ela se fosse. Que tentaria errar seu golpe e desferí-lo no Imperador, o culpado por aquela horrível execução. Mais cedo, quando a fitava seriamente em seus braços, tinha certeza de que ela seria fraca e abandonaria-se a ele. Mas não poderia saber nunca que não desejava cumprir sua tarefa e retirar daquele corpo fino, curvilíneo, a vida. Naquele último instante, o de preservar a vida do ser amado, querendo por tudo retroceder todos os passos, retirar o sabre de sua carne sangrando, retirar o veneno da dor injetado naqueles olhos negros, pensou nela quando viu-a pela primeira vez: uma serva fazendo a apresentação de boas vindas aos diplomatas, o kimono vermelho e azul, de longas mangas circulantes no ar, como se dominasse o fogo: um aviso do Imperador. ´E belo. ´E manipulável. Mas fere. E ela era uma guerreira bela, manipulável e treinada para matar. Não era uma simples serva. Era membro da escolta Real, pronta a defender o Imperador de quaisquer ataques.

Ele não perdoou-se por só perceber o quanto a prezava no último momento. Havia sido tão egoísta. Usara-a. Fizera-a trair todo um ideal. Induzira-a a própria morte argumentando que o matasse, se ela o amasse de verdade não o mataria. No fundo esperava que ela estivesse esercendo o mesmo papel que ele naquela peça, os passos eram tão sincronizados naquela dança... Matou-a. Não teve coragem de morrer. A vida lhe foi vazia com todas as glórias e recompensas por aquela execução de um reino. Quando ela veio buscá-lo, aquiesceu. Deu-lhe a mão e caminharam, correram, voaram pela praia como teriam feito anos antes, se ele houvesse errado o golpe, desferindo noutra pessoa e não nela com seus belos olhos negros.

Notas finais
Que tal?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!