O vento frio da manhã foi como um chicote em chamas no meu rosto, afinal, aquela era a única parte exposta do meu corpo. Eu estava coberto por uma jaqueta de couro e com a touca no cabelo, sinceramente, coloquei a touca porque não estava afim de pentear e passar gel no cabelo, como sempre fazia, quando tinha algum compromisso mais dark.

Joseph Brodward morreu. Foi meio complicado quando recebi a notícia da sua morte, pois fiquei sentado durante cinco minutos depois de receber a notícia da sua própria esposa, a Sra. Leonora Clovins, agora mais uma viúva.

Depois de me "acostumar com essa notícia, deitei-me do jeito que estava, no outro lado da cama, do que eu sempre costumo dormir, mas não me mexi pelo menos por uma hora. Depois o cansaço invadiu-me, e eu, claro, rendi-me.

Foi um sono estranho, cheio de pesadelos ou sonhos, não me lembro de nada, a não ser a última notícia que eu tinha recebido no dia anterior, a morte não só de um amigo de trabalho, mas um cara leal e extremamente meu amigo.

Coloquei a primeira calça, que a propósito, estava no chão do quarto, e me lembrei de ter tirado antes de dormir. Não troquei de camiseta, pois só o pensamento me dava vontade de ficar naquele quarto, relembrando o quão Joseph tinha sido importante para mim. E calcei a mesma meia do dia anterior, que não estava cheirando muito ruim, mas não tinha o cheiro das roupas recém lavadas por Maribel, minha esposa.

Maribel foi uma companhia ótima durante todos esses 11 anos de casados, mas com o tempo, ela se tornou mais minha amiga do que minha mulher. Mas ela ainda era encantadora. Tinha seus cabelos nem ruivos nem vermelhos soltos pela costa como uma cachoeira em sintonia, e era tão liso, que quando saía para comprar algum lacinho pro cabelo, ela devia tomar cuidado ao escolher, pois vários não paravam no enorme rio sem inclinações que era seu lindo cabelo.

Ela também não tinha a idade que tem, 38 anos, que eu diria mais uns 30, mas tudo isso não me fazia ficar sonhando com ela, como sonhava antes do casamento, o que me desanima um pouco, pois foram belos sonhos e belas noites sozinho no banheiro pensando nela. A doce e adorável,Maribel Rugson.

Só consegui me dispersar de pensamentos, quando um choro estridente e doentio entrou pelos meus tímpanos. Minha vontade era de virar, mesmo que tenha sido Leonora, e mandar calar a boca, pois aquilo não era um show macabro pra ela fazer tanto escândalo como estava fazendo aquele choro. Mas por outro lado, isso me dispersou, e eu pude ver, pelo caminho do cemitério, um tumulo, onde no alto de um anjo com o cabelo disperso pelo rosto e um olhar sonhador, estava um corvo, olhando para o horizonte, como o enorme anjo.

Isso me fez pensar em Joseph. E em como rimos quando tomávamos nossa cerveja de quarta, e Maribel e Leonora, fofocavam sobre sei lá o que. Mas mesmo com essas fofocas, todas (ou quase todas, pois a dois meses para cá, Joseph não se sentia bem, e várias vezes nossas quartas de bebedeira fora cancelada por alguma indisposição dele, o que era uma pena, mas que as vezes me preocupava. Mas sempre que ele sentia minha preocupação, fazia alguma piada sobre a idade, e sobre o trabalho que Leonora dava na cama: nada mais saciava ela, nem o velho e querido Joseph, como o próprio dizia, e pelo rosto todo vermelho de Leonora, eu não duvidava disso, talvez eles até brigassem depois que eu e Maribel íamos embora, mas nunca toquei no assunto com ele no trabalho) as quartas era uma alegria e tanto para mim, pois só esses encontros de casais me animavam, depois de um dia insuportável no trabalho, ouvindo o Norris Blander falar sobre como sua vida era importante.

Será que onde Joseph estava, o mundo era o mesmo, ou ele teria que se adaptar a novos meios de viver?

Essa seria uma pergunta totalmente dele próprio, se caso alguém no lugar dele estivesse morrido, e ele estaria no enterro. Durante todos esses anos, convivendo diariamente com ele, eu posso comprovar: Joseph era um cara admirado e uma pessoa que continha muitos fãs intelectuais, mesmo que não sabia disso.

Coloquei meus óculos escuros, que tinha ganhado de presente de aniversário, que fora a 1 mês atrás; não queria que as pessoas me vessem chorando, não que eu teria problema em confessar isso se alguém me perguntasse, mas temos que incentivar as pessoas nos momentos difíceis da vida, mesmo que eles sejam necessários... Joseph pensava da mesma maneira, talvez isso fosse a causa do pequeno sorriso que eu dei.

O corvo no alto do anjo, numa lápide de algum ente querido de pessoas que eu não conhecia, já tinha voado, e agora ele rodeava com mais alguns corvos no alto, com certeza Joseph não ficaria só sonhando, ele estaria agora, explorando o lugar, e até quem sabe, pensando em mais sonhos que queria fazer.

É um pensamento feliz, de um amigo que ainda tentava confortar a própria cabeça, e a tentar aceitar esse fato. A morte serve como aviso, dizendo que a nossa hora também chega.

Eu não tinha solicitado para carregar o caixão de Joseph, até porque tinha chegado atrasado, e eu não tinha forças para isso também. Minhas pernas bambeavam pelo frio, e também por esse fato, o fato de eu estar no enterro do meu melhor amigo, que está prestes a nos deixar.

Avistei Leonora do lugar onde eu estava, eu sabia que ela amava Joseph, como ele também a amava, mas ela só parecia cansada demais, debaixo de seus enormes óculos marrons de sol, cobrindo até suas bochechas e a testa. Seu cabelo castanho-escuro estava amarrado em um nó mal feito, como se ele tentasse ficar lá a muito tempo. Eu não tinha como não perceber isso, eu era um admirador, e tinha a certeza de que Leonora passara a noite em claro, bebendo todas as garrafas de vinho e cerveja que não bebemos nas quartas em que Joseph não se sentia bem.

Leonora olhou na minha direção, eu não conseguia distinguir seu olhar, mas sabia que ela estava precisando de um consolo, pois sua mãe velhinha era bem menor que ela, e se tivesse alguém sendo consolado, era a sogra de Joseph pela sua esposa.

–Olá–Disse, tentando transparecer que estava tudo bem. Sou péssimo nisso–Ele foi um grande homem, aliás, ele é um grande homem, Leonora.

–Obrigado por estar aqui– Leonora conseguiu dizer, quase como um rouco–Ele deve estar feliz pela sua presença, eu sinto.

–Foi o mínimo que pude fazer por ele–Falei–Ele sempre está feliz, e com certeza ele morreu feliz.–E uma coisa que eu não havia perguntado, mesmo que parece louco, eu não sabia do que ele havia morrido–Ele morreu com...?

–Infarto–Leonora disse, mais como um chiado–E eu devia ter visto isso antes, ele bebia demais, Cent, mas ele sempre parecia feliz. Nada disso faz sentido.

–Essa é a vida. Vida pura.–Eu disse, colocando a mão em seu ombro, senti que ela estremeceu–Vou estar por perto, caso precise de algo...–Não falei mais nada, pois a Sra. Rugson me olhava forte e penetrante, como se dissesse para partir dali.

–Obrigada, Cent...–Leonora disse, abaixando a cabeça no ombro pequeno da mãe. Ela se encurvava muito, mas era isso ou ficar se consolando sozinha.

Parti dali, deixei-a com seus remorsos e pedidos de desculpas para Joseph em paz.

***

O som das palmas me acordaram de um transe em que eu me encontrava. Ainda o vento estava forte, mas tirei minhas mãos dos bolsos aveludados da jaqueta de couro e bati-as mais confortavelmente possível, agradecendo silenciosamente Joseph, por ser... Joseph.

Ele tinha um jeito tão único de ser, um jeito que desde o primeiro dia de emprego ele não havia passado em branco, e já no 3º dia de emprego, ele já chamara eu e Maribel para uma das muitas quartas futuras em sua casa.

Descanse em paz, meu amigo.

–Sr. Warengold?–Uma voz me chamou–Vicent Warengold?

–O próprio–Eu disse, meio debochado.

–É um prazer, senhor–Um menino de mais ou menos 17 anos, cabelos loiros e pequeno estendia a mão em minha direção, que segurei e sacudi duas vezes, e depois o encarei–A, desculpe, sou Alan Drew, novo funcionário da Golden Force EUA.

–Então quer dizer que vamos trabalhar no mesmo lugar?–Perguntei sarcasticamente, mesmo sabendo que não deveria debochar de um menino que eu mal conhecia–Mas o que você está fazendo aqui, jovem?

–Achei que seria conveniente vir ver as últimas despedidas para o Sr. Brodward.–Ele disse, parecendo mais sério do que eu achava–Acredito que boas maneiras devem ser levadas a sério com os companheiros de trabalho, mesmo não estando na sede do local de trabalho.

–Talvez foi um erro, Sr. Drew–Disse–Joseph era totalmente reservado.

–Muito bom saber disso, senhor–Alan disse–Preciso aprender cada vez mais sobre todos, ou quase todos os meus futuros companheiros de trabalho.

–Futuros?

–Sim, senhor–Alan disse, sorrindo–Ainda sou um aprendiz, ainda.

–Boa sorte então, Sr. Drew.–Disse–Passar bem.

Ele apenas abanou a cabeço, como se dissesse o mesmo para mim.

A nossa breve conversa me mostrou que Alan Drew não é só mais um trabalhador da Golden Force EUA, ele deve querer ser um cientista muito requisitado. Mas ainda é um aprendiz, e vai aprender muito ainda sobre a GFEUA.

Toda essa conversa e todos os pensamentos sobre o trabalha se esvaziaram da minha mente, como uma bexiga quando murcha, e agora eu estava vendo o caixão de Joseph descer e uma chuva de rosas vermelha-sangue cair no buraco de terra, que pelo que só percebi agora, deve ter chovido na noite anterior, meu deus, eu estava vivo nessa noite?

Um breve adeus a Joseph foi reproduzido em minha boca, e de pouco em pouco, os coveiros iam colocando cimento e cimento sobre o buraco, que agora seria o novo lar de Joseph, ou melhor, do corpo de Joseph.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.