Mortal Enemies
4 Conhecendo a cidade das bruxas.
Notas iniciais
Tentei fugir, mas as larvas me apertavam mais ainda. Tentei usar magia para me desvencilhar delas, mas o homem mais velho segurou meus pulsos antes que pudesse perceber. No instante seguinte, o rapaz mais novo estava a cinco passos de distancia. Fechei os olhos, tentando relembrar algum encanto mágico, mas ao sentir uma sensação fria na testa, abri-os rapidamente. Aquele objeto metálico estava encostado em minha testa. E um sorriso infiel encontrava-se no rosto daquele sujeito.
– Atire logo James.
Não tinha ideia do que era aquele objeto metálico, mas sabia que algo bom não era. Acertar-lhe a barriga com um soco foi minha única ideia na hora, mas no momento em que colocava em prática, antes de acertá-lo, um estrondo seguido de uma luz cegueira se fez por entre as copas de arvores. Michelle. Os dois homens olharam rapidamente para aonde havia sido a explosão. Sorrateiramente, aproveitando o momento da distração, me escondi atrás de uma moita perto do local, fugir estava fora dos esquemas, pois o homem mais novo logo notou minha ausência.
– Maldição, ela escapou. – Socou um tronco de arvore, mesmo com dureza da madeira, ele não pareceu sentir dor alguma. – Se ela contar para alguém estamos lascados.
– Agora não é hora para isso, James. Se a guarda real estiver por aqui, aí que estamos lascados. – Olhou atentamente na direção proveniente do estrondo. – Talvez seja uma batalha da guarda, devemos sair daqui. Temos coisas a terminar. E você que enrolou para atirar depois de tudo. Agora venha. – Disse entrando em uma trilha.
– O que disse Alexander? Agora é minha culpa? – Proferiu irritado.
– Vamos logo!! – O homem de armadura chamou impaciente.
O outro se emburrou e nada disse. Os passos ficavam mais distantes. Enfim, quando já não ouvia mais ruído, suspirei profundamente, aliviada. Mas o que diabos fora aquilo? Caminhei até onde sabia que encontraria Michelle, ela sempre destruindo as coisas já não era novidade, ao menos salvara a minha vida. A passagem pelas arvores era estreita, fazendo os galhos arranharem a pele, e grudarem no cabelo. Os grilos já cantaloravam anunciando a chegada da noite. Ótimo. A floresta já ficara completamente escura, os raios lunares não ultrapassavam a densa folhagem, e isso dificultava muito. Desisti da procura do elfo. A melhor escolha era voltar para casa e cair na cama.
– Agora você não escapa, lindinho.
– Precisava de tudo aquilo?
Ouvi as vozes conhecidas, e encontrei Michelle agachada abraçando o gaft, sufocando-o, e Sophie em pé comendo alguns frutos que encontrara.
– Sabia que muitos frutos dessa floresta são venenosos, certo? – Bati de leve no ombro da morena.
– O QUE? – Começou a tossir loucamente.
– Lynn!! – A rosada ao me ver sorriu satisfeita. – Olha quem eu encontrei! – Estendeu o animal.
– Eu vou te arranhar. – Encarou-me ferozmente.
– Oh! Muito bem! – Ignorei-o, elogiando a bruxa. Peguei-o no colo e ele se preparou para me morder, mas segurei seu pescoço, impedindo-o. – Agora, diga-me. O que foi aquele estrondo?
– Hahaha... Não foi nada. – Falou sem graça. Ela provavelmente se assustou com algum bicho. Sim. – Aliás, a onde você estava? Você demorou. – Mudou fatalmente de assunto.
– Estava procurando todo tempo na parte sul da floresta, ué. – Menti. Preferi deixar em silêncio esse assusto por um tempo. – Vamos voltar. – Assobiei, e logo minha vassoura apareceu voando. – Afinal, Sophie já está ficando verde.
Jack.
Por pouco que não escapei. Droga. O que farei agora?
Tentava me desvencilhar das mãos da bruxa, mas fora em vão. Aquele corpo era muito fraco. Outro problema, virei um gato azul que pode ler mentes. Fantástico. Não poderei voltar para meu reino, mesmo se pudesse nessa forma.
Espera! Posso ler mentes? Hm... Interessante.
Saindo da terra e voando sobre o mar pude ver uma ilha ao longe. Ao aproximar avistei uma cidade enorme sobre uma montanha. Uma gigante construção circular branca e adornada a ouro no meio desta e se encontrava no topo, mais abaixo era possível ver algumas casas aparentemente bem menores que a construção do topo, mas não deixava de ser grandes e de aparência rica. Mais abaixo ainda, ruas de pedra contornavam ao redor da montanha com casas um pouco menores e modestas em relação às outras. Na base, se estendia pela ilha, vilas pobres, florestas e um grande comércio. Vários navios repousavam nas águas. Então era ali que elas moravam.
– Consegue ver a cidade? – Perguntou, a inimiga.
– Claro, como não enxergaria um local deste tamanho?
– Elfos não conseguem ver, mas vejo que como você está em outra forma, isso muda. Além de que você sentiria uma grande dor ao atravessar a camada.
– Camada? – Desconfiei.
– A camada protetora. Ela não permite que elfos vejam a cidade e nem adentrem.
– Por isso que nunca achamos o território de vocês brux... –Foi quando notei. — Você está realmente revelando informações a mim?
– O que importa? Você nunca voltara para seu reino. – Sorriu assombrosamente.
Maldita!
Pousamos sobre as ruas irregulares de pedra, e as três feiticeiras começaram a caminhar. Eu ainda preso nos braços da inimiga, sentia olhares para cima de mim. Havia várias lojas, de todo os tipos de coisas; comida; de simples roupas finas a roupas mágicas poderosas; armaduras e escudos; todos os tipos de armas, de arcos de madeira a cajados sinistros; poções; livros de magia; amuletos e objetos mágicos; animais de estimação raros. Mesmo com a lua cheia já subindo ao topo, a cidade estava completamente iluminada e vários bruxos circulavam.
Bem a frente estava uma gigantesca escadaria que ligava a base da montanha até o topo. Percebi que elas seguiam rumo à grande construção branca.
– Sem paradas durante o caminho. – Virou-se para as outras que a seguiam atrás. – Temos que subir isso ainda hoje.
– Vocês planejam subir isso a pé? Por que simplesmente não voam em suas vassouras? – Questionei inconformado.
– O uso de magia perto do conselho e das mansões pertencentes aos aristocratas é proibido. – Respondeu seriamente. – Soph. É melhor você levá-lo até o navio. Não queremos encrenca com o conselho, o que vai ser impossível. – Estendeu-me.
– O que? Você não vai entregá-lo? – Perguntou confusa já me retirando das mãos da líder.
– Entregá-lo? Ah, mas acabaria com a graça. Sophie, pense comigo, temos um príncipe em nosso poder, podemos conseguir o que quisermos dos elfos agora. Até mesmo a espada que perdermos. Seremos ricas ou até mais que isso, podemos dominar os elfos. – Sorriu confiante. — Nós o conseguimos e não o conselho. Quer que levem a nossa vantagem?
– Mas seremos prestigiadas! Podemos até fazer parte do conselho! – Exclamou a outra.
– Fazer parte do conselho? Fazer parte daquele trabalho sujo? Não, obrigada. – Colocou o capuz, escondendo o rosto, e logo a rosada repetiu o ato. – Agora vamos Michelle, temos que resolver uma enorme encrenca por termos perdido a Espada, ou melhor... – Deu uma tossida forçada. – Certo alguém perdeu.
Logo elas começaram a subir os milhares e milhares de degraus e se distanciarem, enquanto seguimos o caminho oposto, em direção ao litoral. A morena me escondera debaixo da capa preta, para prevenir olhares curiosos e por um bom tempo tudo o que enxerguei com isso foi escuridão. Alguns minutos se passaram, quando pude ouvir um som de música e conversas se aproximando, parecia até alguma comemoração.
– Cheguei. – Ouvi-a falar.
– Ei tripulantes! A Sophie chegou da missão! – Uma voz masculina gritou anunciando.
Procurei observar a onde estava pela pequena abertura da capa preta da garota, e vi uma multidão de bruxos a volta.
– Como foi? Conseguiram a recompensa?
– Cadê a capitã e a Mich?
– Heeeeey! Quem é esse aí? – Uma menininha de cabelos roxos apontou para mim, atraindo a atenção de todos. Ai.
Narrador.
– Senhor! Senhor! Jack ainda não voltou! – Gritou o albino correndo em direção ao comandante da guarda real.
– O que?! Ele foi capturado? – O comandante parou ao mesmo tempo de discutir com algum soldado, e virou-se dando atenção ao filho do duque.
– Não sei, ele foi para a floresta aproximadamente três horas atrás e ainda não voltou! – Apoiou-se nos joelhos sem fôlego.
– Isso é um desastre! Porque não o impediu? Se o príncipe Jack morrer não teremos sucessor para o trono. O Império poderá entrar em decadência. – Seguiu caminho a floresta. – Tropa! Seguiam-me!
A tropa seguiu o comandante até saírem do campo de visão do albino que caíra exausto no piso do palácio, onde varias pessoas circulavam em desespero.
– Peter! O que houve? – A governanta já com certa idade se aproximou do mesmo com a face cheia de rugas preocupada.
– Senhora, desculpe-me. Nossa rainha já se foi e agora Jack poderá seguir o mesmo destino. Desculpe-me. – Abaixou a cabeça entristecido com algumas lágrimas presentes.
– Por que se lamenta? Isso não é culpa sua. – Agachou ao seu lado, depositando sua mão no ombro do rapaz. – Não se preocupe, eu sei que Jack está bem. Acredite.
Jack.
Ah, não! Isso não está nada bem! Nada bem!
– Gatinho! Gatinho! – A garotinha me jogava para cima, se divertindo.
Fazia pouco tempo que havíamos chegado em um navio, onde pelo jeito era a onde elas moravam. Nunca pensei que bruxas morassem em navios. A garotinha me pegou no flagra espiando por de trás da capa, e Sophie comentou que eu era um gatinho que ela encontrou durante o caminho. E agora me encontro nos braços de uma criança, sendo arremessado para cima.
Yupi... Nunca na vida pensei em passar por uma coisa dessas.
Estávamos num quarto não muito pequeno, com uma cama de casal desarrumada, e varias roupas femininas – e peças íntimas- sobre ela, em frente a uma janela, uma porta que levava ao banheiro, um enorme guarda-roupa, uma mesa cheia de papéis espalhados, uma estante de livros velhos com alguns caídos no chão. O quarto era, de certa forma, modesto, tirando alguns objetos valiosos que se encontravam num baú aberto.
Até que um ruído vindo da porta de madeira e ferro seguido de uma batida forte me chamou a atenção. Lá estava a garota dos cabelos azuis com expressão raivosa e quando percebeu nossa presença se assustou.
– Ah! Megan você está aqui... Eu disse para não entrar no meu quarto sem eu saber. – Disse procurando esconder o rosto.
– Desculpa Ly. – Abaixou a cabeça fofamente.
A bruxa suspirou.
– Você e suas carinhas fofas. Está tudo bem. – Acariciou o cabelo roxo da menina. – Eu vou descansar agora, poderia ir brincar lá fora? Sua irmã deve estar te procurando.
– Ta. – Disse me deixando no tapete e indo até a porta, quando parou e olhou por trás do ombro. – Você está bem mesmo Ly?
A outra apenas assentiu sorrindo e logo a pequena se retirou.
A azulada tirou o manto negro e o jogou sobre a cama, revelando um vestido azul cinzento preso com uma armadura prateada na cintura com alguns cintos, luvas de caçador longas seguido de cotoveleiras também prateadas e botas pretas até as coxas. Percebi que seu rosto e braços estavam com marcas profundas e avermelhadas em formato de dedos.
– Você foi espancada? – Questionei, afinal antes ela não tinha essas marcas.
Não me respondeu, e continuou prendendo seu cabelo em um coque, ignorando-me, e por fim ela me fitou com o semblante sério.
– Vai ficar olhando? – Foi então que percebi que ela estava retirando sua roupa.
Virei rapidamente meu rosto para o outro lado do quarto, envergonhado. Era uma cena constrangedora, e azulada ao notar minha vergonha começou a me provocar jogando suas peças íntimas para perto de mim, e com isso eu me encolhia. Pude ouvir risadinhas abafadas. Ela acha divertido? Calma, Jack! Não pense besteiras. Não seja tão baixo senão a Deusa irá te castigar.
– Haha! Você é um sujeitinho engraçado. – Riu. – Pode virar. Eu já estou vestida.
– Eu vou te arranhar. – Ameacei irritado ao olhar a garota debruçada na cama já devidamente vestida.
– Ui! Que ameaçador! – Exclamou debochadamente.
– Agora me diga... Por quanto tempo vai me aprisionar?
– Hm... Não sei. Por bastante tempo talvez? – Deu de ombros. – Ah, não se preocupe, você logo irá se acostumar com a rotina daqui. Então a partir de hoje, alteza – Ridicularizou. — Você irá dormir no tapete.
– O QUE?!
– Ao menos que queira dormir comigo na cama. – Sorriu maliciosamente.
Afastei-me para um canto do quarto.
– Não. Tapete. – Abracei o tapete.
A azulada gargalhou.
– O que é engraçado? – Perguntei emburrado.
– Provocar inocentes. – Rolou na cama. – Bem, então durma aí sem reclamações.
– Me responda outra coisa. – Ela olhou pra mim. – Você vai me manter nessa forma por quanto tempo?
– Você mesmo pode cancelar, ué. – Respondeu como se fosse óbvio.
– Mesmo? Mas como?
– Minha Deusa! Os elfos não sabem nada mesmo de magia. – Caminhou até o guarda-roupa. – Basta desejar... Mas espere!
– O que foi?
– Não é como se você voltasse pra forma élfica que suas roupas magicamente surgirão do além.
– Está dizendo qu- A bruxa tacou roupas masculinas do guarda-roupa.
– Não ache estranho, eu uso disfarces masculinos ás vezes. Agora vá se trocar no banheiro e coloque isso – Jogou uma corrente aparentemente mágica para mim.
– O que isso faz?
– Apenas coloque e pare de questionar sobre tudo! Está até parecendo um daqueles filósofos. – Desligou a luz estralando os dedos e deitou-se na cama.
Peguei com dificuldade as peças de roupa e a corrente usando a boca, afinal eu era um gato azulado que pode ler mentes, ou um gaft, na linguagem da azulada e fui até o banheiro. Depois de muitas tentativas, finalmente consegui voltar a minha forma original, vesti as roupas que serviram quase que perfeitamente, apenas ficando um pouco apertada nos braços e tórax. Coloquei a corrente em meu pescoço que imediatamente brilhou e ao tentar retira-la percebi que era impossível, ela ficara presa com algum encantamento. Mas que ótimo. Saí do banheiro irritado com tudo o que estava acontecendo, principalmente pelo fato que dormirei pela primeira vez no chão.
– Você ainda vai se arrepender. – Murmurei para ela me ajeitando inutilmente no tapete.
– Veremos. – Murmurou de volta em desafio.
Continua...
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