Mortíferos
15 Capítulo XIV – Nós podemos viver juntos
Notas iniciais
A ruiva encontrava-se no local em que os magos até algumas horas atrás, eram condenados acusados de assassinatos em série.
Estava esperando seus amigos, sentia-se tão esperançosa em reencontrá-los que nem ao menos considerou a hipótese de estarem mortos. Depois de alguns minutos, notou que um pequeno grupo de magos se aproximava, e então ela os viu.
— Senti tantas saudades! — Exclamou Sophie abraçando o trio.
— Vai ter que nos aguentar por mais um tempo, ruivinha. — Disse Thalia bagunçando seus cabelos ruivos.
— E quanto à Sally e Lizzie? — Indagou Alec.
— Espero que estejam bem. — Disse James preocupado.
Sophie não havia se esquecido do beijo de James, claro que não. Contudo evitava pensar nisso o máximo possível, afinal, sua mente já estava atordoada demais. Então, achou que evitar contato visual seria a melhor opção no momento.
O grupo viu um guarda correndo entre a multidão para alcança-los.
— São Sophie, James e Alec?
— Sim, pois não? — Perguntou Sophie apreensiva.
— Lamentamos informá-los, mas duas garotas chamadas Sally e Lizzie sofreram um grave acidente ao tentarem fugir de nós e caíram de um penhasco após adentrarem uma floresta. Encontramos o corpo da mais velha com o pescoço quebrado e o da mais nova com uma estaca em seu peito. Lamentamos muito a perda. Ofereceremos um velório se quiserem, ao invés de nossa tradicional queima para se tornarem cinzas.
Todos estavam em choque com a notícia e mal conseguiam respirar. Mas uma voz se pronunciou dentre eles:
— Aceitamos a oferta, faremos um velório. Elas merecem isso. — Disse James.
— Certo então. Irei providenciar. — Disse o guarda se afastando.
Após aquele velório de suas tão queridas amigas, cada um seguiu um destino. Havia coisas que precisavam ser resolvidas.
Ao chegar a sua antiga casa, centenas de lembranças vieram a James. Como sentia falta daquela casa e de sua família.
Parado em frente à entrada, James buscava coragem para encarar seus pais. Isto teria de ser feito algum dia. E o dia era aquele.
Ao entrar na casa e passar pela sala, deu de cara com uma mulher pálida com cabelos escuros segurando uma xícara de chá que foi interrompida em seu percurso à boca da mulher pela entrada súbita do garoto.
— Quem é você? Saia de minha... — A frase foi interrompida quando a mulher reconheceu a face do garoto a sua frente. Afinal, como poderia esquecer-se. — James! — Exclamou a mulher deixando a xícara cair de suas mãos.
— Olá mãe. Resolvi fazer uma visita.
— Que bom que está bem. Quando soube que estavam os exterminando, entrei em pânico. — Disse a mulher com lágrimas caindo de seus olhos. — Como você cresceu. — Acrescentou.
— Não nos vemos desde que tinha nove anos.
— Eu sei. Sofri amargamente por ter ido. Seu pai te levou sem meu consentimento.
— Quem está aí, Lenna? — Perguntou uma voz masculina vinda da cozinha.
— Por que não vem até aqui e vê você mesmo, Peter? — Sugeriu Lenna.
— Você sempre fala isso. Queria ver como você se sentiria estando em meu lugar... — A frase foi interrompida quando Peter viu o garoto diante dele. Não havia dúvidas que era seu filho. Era uma cópia sua.
— James? O que faz aqui?
— Vim lhes visitar depois de tanto tempo.
— Você deveria estar na instituição agora.
— Está tudo um caos no momento. Então não.
— Peter, não seja tão grosso com ele. Ele é nosso filho.
— Um filho que desenvolveu um poder sombrio. Nem ao menos podemos tocá-lo.
— Na verdade, podem sim. — Disse James.
— Claro que podemos, mas iremos morrer logo em seguida.
— Não vão! Aprendi a controlar meus poderes. Posso tocar em seres vivos sem que os matar. Tudo é questão de prática.
— Está blefando! — Rebateu o pai.
— Eu acredito nele, Peter. Se ele diz que consegue, eu acredito. — Disse Lenna se aproximando dele. — Eu acredito. — Disse para seu filho. E então ele a abraçou e mataram a saudade guardada em seus corações por tanto tempo.
— Mas como fez isso? — Perguntou Peter.
— Eu disse que podia controlar.
Peter se aproximou de seu filho. Não sentia repulsa. Sentia medo. Medo de ser morto, de ser humilhado por seus conhecidos. Mas amava seu filho, e isso era maior que seu medo. Para superá-lo, pediu permissão para abraçar seu filho e ele concedeu. Havia sentindo uma falta imensa de James. Aquele era o seu único filho.
— Me desculpe James. — Disse Peter se separando do abraço. — Por duvidar de você, te abandonar... Tudo. — Acrescentou.
— O tempo cura tudo, pai. Até mesmo ressentimentos e tristezas.
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Ao entrar em sua casa, Sophie notou um clima mais tenso que o normal. A casa estava mais silenciosa do que nunca. E ela sabia o por quê.
Ao se aproximar da sala, viu uma sombra masculina sentada no sofá com as mãos sobre o rosto. Aquele era seu pai. Não conseguia se mover, não sabia o que fazer com ele em sua presença. No entanto, nem tempo de pensar teve, o homem olhou em sua direção e tomou um susto ao vê-la.
Estava surpreso.
— Sophie! — Sussurrou seu pai, no entanto Sophie o escutou.
— Me desculpe. Não deveria estar aqui. — Disse dando meia volta.
— Do que está falando? Está é sua casa também. É direito seu estar aqui. E agora que perdi uma filha, não quero perder outra. — Disse seu pai levantando e a encarando. — Me desculpe por ter te ignorado todos esses anos, por te deixar trancada naquele quarto sem ao menos falar com você. Por ter te abandonado. Nunca fui um bom pai para você ou até mesmo para Alicia. Sem sua mãe tudo se torna difícil. Até mesmo interagir com vocês. Sei que isso não é desculpa pelo o que fiz, mas quero recompensar o tempo perdido. Quero fazer o que sempre quis, mas que nunca tinha coragem. Interagir com minhas filhas. Ou filha, no caso. — Disse abaixando a cabeça. — Só espero que possa me dar essa chance. — Olhou novamente para ela.
— Todos merecem uma segunda chance. Mesmo que fosse a pior das pessoas. — Sophie disse o encarando. — Por isso te dou uma nova chance, só peço que confie em mim.
— Claro, minha filha. — Seu pai disse já mais aliviado.
— Confia em mim o bastante para eu te abraçar agora?
— Mas isso não iria me matar?
— Nada irá lhe acontecer, pai. Eu te prometo. Você só tem que confiar em mim.
— Tudo bem. — Seu pai cedeu emocionado por ela ter lhe chamado de pai. Nem mesmo Alicia o chamava assim.
Sophie o abraçou, e como prometeu nada lhe aconteceu. Seu pai estava admirado por não estar morto. Estava orgulhoso de sua filha.
— Mas como isso aconteceu?
— Controle, pai. Apenas controle. Disse que só precisava confiar em mim. — Disse Sophie piscando um de seus olhos. — Eu apenas queria fazer a rainha entender isso.
— Por que não tenta? Isso é incrível! Ela verá que vocês podem viver entre nós sem ser em uma ameaça. Irei com você.
— Verdade?
— Verdade.
— Então, o que estamos esperando? Vamos lá!
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— Gostaria de falar com a rainha. — Disse Sophie para os guardas do palácio.
— E o que a faz pensar que pode entrar assim sem explicação, mocinha?
— Tudo bem, ela está comigo. — Disse seu pai aparecendo e ficando ao seu lado.
— Tudo bem, então. — Os guardas concederam passagem.
O palácio era enorme. Cristais eram vistos por todos os lados, assim como objetos feitos em ouro. Ao chegar à sala do trono, viu apenas a rainha sentada em um deles.
— A que devo suas visitas? — Perguntou a rainha após Sophie e seu pai se curvarem em reverência.
— Gostaria de conversar com vossa majestade sobre os magos com o toque da morte. Queria dizer que existe um meio de controlar nossos poderes, fazendo assim, com que não matássemos seres vivos quando os tocamos. Se vossa majestade permitisse-nos ensinar aos novatos a controlar seus poderes poderíamos viver juntos sem complicações. Viveríamos em paz.
— O que está insinuando?
— Gostaria de ensinar junto com meus amigos a esses magos. É possível controlar este poder. Se a instituição passasse de prisão para escola, seria bom para todos.
— Mas como irei saber se o que diz é verdade? No entanto, acho sua ideia excelente.
— Posso fazer uma demonstração. — Sophie ficou abraçada ao seu pai. — Tenho certeza que com o aprendizado correto, esses magos poderão viver livremente.
— Acho a ideia esplêndida, senhorita. És uma Brafman também, não? — Perguntou a Sophie. — Olá soldado. — Disse ao pai de Sophie.
— Olá majestade. — Respondeu o pai de Sophie curvando-se novamente.
— Sim. Sou uma Brafman. — Respondeu Sophie.
— Não é difícil de perceber que és uma garota determinada. Permito que os magos com o toque da morte aprendam a controlarem seus poderes na instituição. Se tudo correr bem, após terminarem o aprendizado, serão livres.
— Muito obrigada, majestade. — Agradeceu Sophie se curvando em reverência.
— Por nada, senhorita. Mas, querida! — A rainha lhe chamou.
— Sim?
— Não acha que está na hora de um medalhão de servo leal? Normalmente damos após fazerem o prometido, porém vejo que você fará acontecer. Tenho certeza que tudo se acertará. — Disse a rainha colocando o colar no pescoço de Sophie com cuidado para não a tocar.
— Muito obrigada novamente, majestade.
— Você merece querida.
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— Não acredito que você convenceu a rainha a tornar a instituição em escola. E ainda mais com nós como professores. Melhor ainda, conseguiu um medalhão de servo leal ainda não tendo feito nada.
— Sou Sophie Brafman. Faço coisas acontecerem.
— Claro que faz. — James riu. — Por que estava me evitando? — Perguntou.
— Achei que seria melhor não nos falarmos por um tempo. Queria organizar minha mente.
— Entendo. Mas não é legal enganar os outros. — Disse James empurrando Sophie levemente.
— É sim! Chato é ser ignorado. — Disse Sophie estirando a língua.
— Sabia que quem dá língua pede beijo, senhorita Brafman?
— Oh! Não sabia disso. — Disse estirando a língua novamente.
— Você fez de novo, Brafman!
— Fiz? — Perguntou fingindo não ter percebido e estirando a língua novamente.
— Assim vou achar que está querendo que eu te beije.
— Entenda como quiser Stein.
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— Como assim vai embora, Alec? — Perguntou Thalia.
— Indo embora. Quero ficar sozinho de agora em diante.
— Você tem problemas. Quer ir embora logo quando tudo se resolve.
— E é isso que me faz ser charmoso.
— Ainda por cima, tem um ego enorme.
— Faz parte de ser eu.
— Vai mesmo embora?
— Vou sim.
— Sem volta, mesmo?
— Mesmo.
— Você é um idiota, Alec. — Disse Thalia o abraçando enquanto chorava.
— Sei disso. Mas você não passa disso também. — Disse bagunçando o cabelo da morena.
— Você é mau! — Disse Thalia fazendo bico.
— Obrigado. Mas, por favor, não acrescente nada no que falei. Fale exatamente o que eu te disse para os outros. Apenas preciso ficar só.
— Claro senhor “Quero tudo do meu jeito”.
— Adeus, birrenta.
— Adeus. — Sussurrou Thalia.
Cada um seguiu seu caminho, um caminho resultante de suas escolhas, escolhas que fizeram conscientemente ou não, mas que fariam seu futuro acontecer. Mais escolhas viriam pela frente e cabia a eles optar pela a que julgavam ser a melhor. Estavam em frente à porta do destino e diriam para si mesmos e para ao mundo “Não tenho medo de entrar”.
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