Moribundo
1 Moribundo - Capítulo Único
Era uma tardezinha de quarta-feira. Daqueles dias, em que todos estão de mau-humor, preocupados demais com os afazeres particulares para notarem qualquer outra coisa além de si mesmos. Foi nessa tarde, com o passar de carroças e civis, que observei o que todos procuravam não perceber. Um moribundo ensanguentado no meio da praça central.
O infeliz clamava por piedade, por socorro. Gemia amargamente com a dor dos ferimentos.
Trabalhava no bar, limpava os inúmeros copos de cachaceiros, que iam se multiplicando conforme chegava a noite. Olhava abismado a reação das pessoas. Nenhum movimento, nenhum olhar de compaixão. A clássica brincadeira urbana de "fingir-que-não-vê" impedia-os de moverem-se contra a rotina. Mais abismado ainda, estava eu com a minha própria reação. Não me movia. Assistia aos gemidos do morimbundo ensanguentado. Às suas súplicas por socorro.
Enxugava os copos, lavava os pratos e me perguntava quanto tempo demoraria para ele morrer de uma vez.
Nunca havia visto o homem. Não sabia se era bom ou ruim. Talvez fosse só um miserável. Não adiantaria em nada socorrê-lo. Iria ele fazer o mesmo por mim? Provavelmente não. Iria assistir tudo de camarote, assim como faço agora. Passaria apressado sem se importar, assim como as pessoas na praça estão fazendo. Não havia motivos para remorso. Fazia somente o que era habitual. Cabia a ele apenas se conformar. O sofrimento alheio é o nosso extase. Não há sentido em uma platéia se não fossem seus palhaços e de de nada serviriam os palhaços se não fosse sua platéia. Um se sustenta no outro. Todos já foram platéia assim como um dia serão palhaços.
E foi tentando me convencer da certeza daquilo que fazia, que meus olhos cruzaram com os do moribundo.
De todas as pessoas que passavam por ali, de todas as carroças que desviavam de seu corpo, esse maldito palhaço olhou justamente para mim, como se percebesse o meu remorso indesejado. Em meio à ofegante respiração, às tosses de sangue de um ser à beira da morte, o infeliz clamava por vida. Em seu olhar havia apenas o desespero, a súplica inconformada. Exigia piedade. Não foi preciso sequer uma palavra para que eu soubesse ou percebesse o seu desespero. Bastou o encontro de meus olhos com os sofridos do moribundo.
Não tive coragem de me aproximar. Só observei, calado, como o desprezível humano que sou. E, aprisionado em seu olhar de decepção, acompanhei seu último suspiro, presenciei seu último movimento, quando, deitado em praça pública, faleceu na frente de todos, sem deixar seu mínimo vestígio ou lembrança de existência neste mundo. Abismado com o ocorrido, continuava olhando o corpo estendido no chão enquanto a platéia ia desaparecendo com o anoitecer. Era tarde demais para qualquer reação.
Enxugava os copos, lavava os pratos; e me perguntava quanto tempo demoraria para que eu estivesse em seu lugar.
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