Morena caleidoscópica
1 MORENA CALEIDOSCÓPICA
Nós estávamos a toda velocidade. Nada podia nos parar. A estrada estava livre para nós e antes do pôr do sol estaríamos fora do país e bem longe da investigação policial. James e eu estávamos na boa. Com uma maleta cheia de garoupas que iam se transformar em charutos strippers e algumas garrafas de Jack Daniel’s.
De repente “ela” apareceu na beira da estrada com aquele corpo avantajado, aquela cor de bronze e aquela cabeleira Black Power. Eu queria uma noite com aquela mulher, meu amigo James queria uma noite com aquela mulher, até os militantes neonazistas queriam uma noite com aquela mulher. E ela estava há cinquenta metros do nosso carro acenando com a sua mãozinha de palma branca.
James parou o carro. Eu olhei pela janela e perguntei:
— Aonde você quer ir, doçura?
— A um lugar onde o sol nunca se ponha. — ela respondeu.
— É exatamente pra aonde nós vamos, doçura — eu falei. — Entre no carro e avise se o ar não estiver entrando nas suas narinas. Gostamos de dirigir bem rápido.
Ela entrou e sentou aquele traseiro cheinho de carne no nosso banco de trás. Esperei ela ficar distraída e ajustei o retrovisor pra poder enxergar entre as suas pernas. Ela usava um vestido hippie, todo colorido, com um enorme caleidoscópio que cobria a roupa inteira. Quando estava sentada eu podia se ver completamente o par de cochas esculpidas por Rodin. Com um pouco de paciência, eu poderia ver o que se escondia entre elas. Com apenas um pouco de paciência.
James dirigia e, de vez em quando, bicava uma garrafa de uísque. Perguntou se a morena caleidoscópica estava interessada. Eu quase o repreendi por oferecer bebida alcoólica à garota, mas ela aceitou sem hesitar. Pegou a garrafa e deu quatro goladas como se fosse apenas água gelada. Depois disso a morena ficou mais relaxada. Tão relaxada que resolveu se acomodar melhor no banco, deixando os joelhos caírem para os lados. Meus olhos quase caíram para fora do rosto quando vi pelo retrovisor o tecido branco de algodão apertando a virilha da moça. Pedi também um gole de uísque pra não engolir em seco. Depois devolvi a garrafa ao motorista e a morena abriu a boca:
— quanto dinheiro vocês estão levando no porta-malas?
A pergunta abalou nossos nervos, mas não deixamos transparecer.
— Não muito. — contou James. — Talvez uns 600 reais. Nós nunca estamos preparados quando iniciamos uma viajem. Contamos sempre com a ajuda de pessoas que conhecemos na estrada. Nossa vida é assim.
Ela sabia que era mentira.
— Sei — disse ela. — Vocês estão deixando o país em um carro sem placa a uma velocidade absurda e não tem nenhum bom motivo pra fazerem isso?
Eu não estava a fim de conversa fiada então contei logo tudo para ela.
— São cinquenta blocos com notas de cem. E daí? Você vai denunciar a gente?
— Eu poderia, mas não gostaria.
— Então é assim que vai ser? — perguntou James, já prevendo a resposta. — Nós deixamos você em algum lugar do paraíso e seguimos em frente com o nosso dinheiro roubado?
— Não. Não foi assim que imaginei — ela respondeu. — Eu pensei em vocês seguirem em frente depois de me deixarem em algum lugar do paraíso com 30% do dinheiro roubado.
— E se a gente te pusesse pra dormir embaixo da terra e seguisse em frente com 100% do dinheiro roubado? — Propôs James sarcasticamente.
— Vocês não matariam nem uma barata. — provocou a garota.
James parou o carro e todos saímos de dentro. Ele estava segurando o trinta e oito que ganhou de seu pai quando era criança. Ordenou que a morena ficasse de costas pra ele na beira da estrada. Mandou que ela olhasse para o horizonte, para o ponto mais longe que ela conseguisse divisar.
Ela foi obediente. Estava tranquila. Tão certa quanto eu de que James estava encostando o cano da arma em sua cabeleira Black Power apenas para parecer machão.
Ele ficou ali segurando aquela arma enquanto a sua mão tremia e não tinha nenhuma coragem de atirar.
— E então? — perguntou a morena. — Mudou de ideia? Eu não vou mais morrer ou você não tem coragem de atirar?
— FIQUE CALADA! — ele ordenou, meio nervoso. — Eu não posso mata-la, mas posso fazer outra coisa.
James segurou a borda do vestido colorido da morena. O suor começou a escorrer no seu rosto. A mão do idiota tremia e tremia. E finalmente o vestido começou a subir. De repente eu podia ver as linhas côncavas que separavam as nádegas das cochas reluzentes da moça. A borda do vestido subiu mais um pouco e logo estávamos olhando abasbacados para o traseiro gigante daquela morena, toldado apenas pela pequenina calcinha branca que ela usava. Nós queríamos tocá-la, apertá-la, mordê-la, mas isso seria crime.
Ééé... Nós éramos uma dupla de ladrões, mas nunca havíamos matado alguém e tampouco cometido a imoralidade de estuprar uma mulher. Então, o que fizemos foi abrir o porta-malas, pegar a bolsa de dinheiro, e entregar a porcentagem que ela exigira, mas não concordamos em leva-la a parte alguma. Quanto a isso ela disse que tudo bem. Guardamos a bolsa no porta-malas, entramos no carro e saímos cantando pneu.
Nós ainda tínhamos muito dinheiro e sabíamos que logo haveria um harém de strippers dançando para nós, mas a imagem daquela grande bunda de chocolate havia ficado impregnada em nossas cabeças. Se fechássemos os olhos ainda podíamos ver aquela imagem nitidamente.
Não muito depois de deixarmos a morena sozinha na estrada, James parou o carro, dizendo que precisava urinar. Eu falei a mesma coisa e nós saímos ás pressas do carro e nos metemos no mato, bem longe um do outro.
Eu sabia que James não estava urinando porque para isso não é preciso se afastar da estrada. Eu sabia que, assim como eu, ele estava segurando a própria salsicha e repetindo:
— Ah, morena safada! Ah, morena safada! Ah! Morena safada!
E, por falar no diabo, ouvi o som de uma caminhonete parando ali perto e, quando olhei para ver, a morena caleidoscópica desceu do veículo. Ela sorriu para mim e acenou como se fosse minha amiga. Depois, entrou no nosso carro e saiu dirigindo com a gente do lado de fora.
James correu atrás do carro ainda com a braguilha aberta e a mandioca fora da calça. Berrou mil vulgaridades e atirou inutilmente contra o carro até se cansar de correr e se ajoelhar no chão.
Parei logo atrás dele, olhando apenas a poeira que a garota deixou para trás e repeti outra vez:
— Ah, morena safada!
FIM
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