O rapaz caminhava pelas noites da vida.

Procurava algum sentido para suas caminhadas

Ao menos era o que dizia.

Só queria era ter motivos para não voltar para casa.

sozinho.

Toda noite passava em frente a um prédio antigo

Ficava no final da cidade, num lugar meio caído

E ali observava tudo que havia passado

Tudo que havia andado, tudo que havia deixado.

sozinho.

Porém, do alto do prédio, na única janela iluminada

Folhas de papel flutuaram até a calçada.

Confuso, parou para ler os tristes textos,

E ficou perdido naqueles versos.

Sozinho...?

Toda noite voltava para baixo da janela

esperando por mais pedaços daquela novela.

Aquelas palavras ásperas e sofridas

daquela escritora desconhecida.

Sozinho.

Dias se passavam e os textos se fincavam em sua memória.

Voltava sempre com uma curiosidade avassaladora

não necessariamente pela continuação da história

Mas pela identidade de sua criadora.

Sozinho.

Eis que em uma noite, após meses de leitura,

Nenhum texto veio. Nem uma folha. Nenhuma aventura.

Somente um gesto sutil e inesperado.

A porta do prédio se abriu e ele se sentiu convidado.

A entrar.

Acompanhado.

Lá dentro encontrou um belo apartamento

Grande, bem arrumado e com cômodos bem iluminados

Porém com um estranho sentimento de vazio e sofrimento.

E a mulher dona deste lar ficava sentada, refazendo versos inacabados

Sozinha.

Se aproximou com cautela, sem saber o que fazer,

Falar, olhar, tocar. Decidiu por esperar.

E esperou por horas a fio, lendo tudo que ela lhe passava.

E enquanto o sol raiava iluminando o que lia, chorava.

Acompanhado.

Passou os próximos dias ali com a desconhecida.

Sem conseguir trocar uma palavra sobre nada de sua vida

Mas pelo menos conseguiu se aproximar mais

Da mulher que escrevia versos sobre a vida sem paz.

Sozinha.

Colocou-se a escrever ao lado da Morena com temor

Mas ela o deixou seguir suas vontades com prazer

Empurrando-lhe uma caneta e mostrou o que fazer

E começou a escrever versos de amor.

Acompanhada.

Não sabia seu nome, nunca soube e nem ligava.

Ela também não o conhecia fisicamente

Digo, conhecia, mas mais intimamente.

E ambos sabiam quem cada um amava.

Acompanhados.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!