More Than A Friendship
1 I don't wanna go
Notas iniciais
Aqui estou eu, fugindo de algo. Ou melhor, de alguém. Meus pulmões estão prestes a explodir, quando finalmente paro. Não paro porque esse alguém cansou de me seguir, paro porque outra coisa me chamou atenção. Um barulho, que não me parece estranho, ao contrário, é bem familiar. Após alguns breves segundos quebrando a cabeça para reconhecê-lo, percebo que é a música que me acorda desde alguns meses atrás. Set Fire To The Rain.
Acordo pronta para desligar o despertador, mas deixo a musica tocando porque de algum jeito ela me acalma. Levanto da cama e ando calmamente para o banheiro, onde paro e me encaro no espelho. Não estou com paciência, mas tenho que me arrumar para a viagem.
Daqui há algumas horas estarei embarcando em um avião. Irei para a Califórnia, que apesar de ser o lugar onde quero fazer faculdade, não gostaria de ir agora, no meu último ano do Ensino Médio. Quero passá-lo com os meus amigos que me aturam desde sempre. Mas não, tenho que ir com a minha família para outro país, pois meu pai foi transferido.
— Giulia, desce logo que já estamos atrasados. – grita minha mãe.
— Já estou indo! Só preciso pegar minhas malas! – eu digo enquanto me despeço brevemente do meu quarto e pego as malas, levando-as para o táxi.
Passaram-se mais ou menos trinta minutos e chegamos ao aeroporto. Respiro fundo e, sem a mínima vontade, desço do taxi. Dirijo-me até o porta-malas e puxo a minha mala com dificuldade, já que a maioria de meus pertences está ali, trazendo-a para perto de mim. Quando olho para a entrada do aeroporto, esperando encontrar desconhecidos que entram e saem a todo o momento, encontro pessoas que eu não espero. Meus amigos. Meus olhos enchem-se de lágrimas e eu largo a mala. Corro para perto deles e abraço cada um como se nunca mais fosse vê-los novamente – o que é capaz de acontecer. Àqueles que não estavam chorando antes, agora choram como criancinhas. Quando toda a cerimônia termina, respiro fundo, na tentativa de acalmar-me, ao menos, um pouco.
– Sentirei falta de todos vocês! – eu digo a eles enquanto seguro lágrimas.
– Nós sentiremos sua falta também! – eles falam em coro. Percebo que todo estão chorando de novo.
– Não chorem. Vocês vão me visitar nas férias e podemos passear em Hollywood! – falo entre risos. Quero acalmá-los, mas não sou muito boa com essas coisas.
– Ok, meninas e meninos... – diz minha mãe enquanto se aproxima – Nós estamos atrasadas e temos que ir. Ela vai sentir muito a falta daqui... Mas daqui a pouco vocês se falam pelo Skype. – por fim, enxuga minhas lágrimas.
E aqui estou eu, me despedindo pela última vez. Daqui a pouco estarei em um avião, indo para longe de todos que eu amo; exceto por meus pais. Como eles podem fazer isso comigo? Estão me levando embora, contra a minha vontade, enquato o que eu mais quero é ficar aqui, em São Paulo, e me formar com os meus amigos.
Desperto de meus pensamentos quando percebo que estou andando. Não sei para onde estou indo, só sinto que minha mãe está segurando o meu braço e guiando-me para algum lugar. Finalmente, percebo que já estamos dentro do aeroporto. Não estou sorrindo, porém não tenho mais a mesma feição de quando saí do taxi, pois, de qualquer modo, terei de ir para a Califórnia, então penso que a melhor forma é aceitar. Meu pai chama por minha mãe, que solta o meu braço e diz para que eu siga em frente até chegar ao portão 7. Finalmente chego ao meu destino. Minhas pernas estão me matando. Deparo-me com várias poltronas e suspiro, aliviada. Enquanto caminho entre elas para me sentar e esperar, decido ouvir música. Considero-a como uma espécie de psicóloga, porque tem o dom de me acalmar. Quando agacho para pegar meu iPod na mala, lembro que deixei-a com meus pais, que estão fazendo o Check In. Quero correr atrás dela para poder ouvir música, mas sei que é tarde demais, pois neste momento ela já deve estar deslizando por uma esteira para ser deixada no avião. Sento em uma das poltronas, apoio as mãos sobre minhas pernas e começo a batucar, acompanhando o ritmo da música que estou cantarolando baixinho.
– Última chamada para o voo 1254 de São Paulo para Los Angeles, Califórnia – uma voz feminina, que não se parece nem um pouco com a de minha mãe, anuncia, despertando-me.
– Para de "brisar" e venha logo, Giulia! – desta vez, a voz é dela.
Ensinei para a minha mãe o que "brisar" significa há duas semanas, e desde então ela não pára de usar essa expressão.
– Estou indo, mãe! – grito em resposta. Pego as minhas coisas na cadeira e corro ao seu encontro.
Meus pais já estão na fila. Como esta não se encontra muito longe da poltrona onde eu estava sentada, chego rapidamente. Minhas pernas e meus braços estão trêmulos; ou melhor, meu corpo todo está trêmulo. Essa fila não é apenas uma fila normal, daquelas que você tem de enfrentar quando vai ao banco. É a fila que me levará até o avião. E, então, o avião me levará até outro país, onde a minha vida será totalmente diferente. Estremeço com tal pensamento. Confesso que, apesar de todo o medo, uma onda de excitação percorre meu corpo. Começo a pensar que a vida não será tão ruim na Califórnia; talvez até seja boa. Instantaneamente deixo um sorriso escapar. Ao perceber que minha mãe está olhando para mim, escondo o sorriso rapidamente, desviando o olhar para meus pés.
– Filha, você está um pouco distraída hoje, não acha? – pergunta minha mãe.
A pergunta parece um pouco irônica, pois ela a faz como se não soubesse o motivo da minha distração. Isso me irrita profudamente.
– Estou, né? Acho que estou assim porque sinto muitas saudades da vida que eu tinha aqui... até você tirá-la de mim. – digo, olhando fixamente em seus olhos.
– Minha querida, sei que você não quer ir, mas nem partimos ainda para você sentir saudades!
Ela me abraça como se fosse apenas uma viagem de férias, e eu fosse uma menininha que tem medo de voar de avião. Respiro fundo, tentando manter a calma, porque uma das coisas que eu não quero fazer é brigar com alguém. Principalmente com a minha mãe.
– Mãe, eu sei que ainda não saímos, mas sinto que não estou mais aqui desde que vocês me contaram que iríamos mudar, há 3 meses atrás...
–Ah, filhinha... – Filhinha? Acho que ela não notou que já tenho 16 anos.
A fila está andando depressa e já estou a duas pessoas para chegar ao corredor que me levará ao avião. A única coisa boa dessa viagem é que como a empresa de meu pai que está pagando, nós vamos de primeira classe. Eu nunca voei de primeira classe, então, de certa forma, isso me anima.
Me distraí tanto em imaginar o avião por dentro, que nem percebi que as duas senhoras que estavam em minha frente já embarcaram e um homem está pedindo a minha passagem.
– Moça, sua passagem, por favor. – diz ele, educadamente, enquanto me olha dos pés à cabeça.
– Claro. Aqui.
Estou andando em um enorme corredor. Um longo carpete azul-marinho cobre o chão, e lindas imagens de casais apaixonados em viagens pelo mundo cobrem a parede. Consigo identificar apenas alguns lugares, como: Paris, Disney, Roma, algum lugar da Grécia, Lisboa e finalmente Califórnia. Meu novo lar.
Sigo em frente, ainda prestando atenção nas fotos. Quando não há mais nenhuma delas para ver, ergo o olhar e encontro a porta do avião. Duas belas comissárias de bordo estão esperando. Ambas sorriem feito bonecas e aquilo me irrita, pois eu sei que aqueles sorrisos não são verdadeiros, elas são pagas para sorrir.
Quando estou a passos de entrar no avião, toda aquela excitação some. Eu não tenho mais aquela ansiedade, curiosidade... Minhas pernas param imediatamente. Tento forçá-las a andar novamente, mas elas se recusam a fazê-lo. Eu sinto medo. Àquele medo de entrar em um novo lugar, onde você não conhece ninguém. Sinto como se fosse a menininha que tem medo de entrar na escola e precisa agarrar à mãe.
– Mãe, ainda posso desistir? – indago.
– Filha, você sabe que essa nunca foi uma opção. Agora, vamos! Estamos atrasando a fila. – ordena ela, puxando-me pelo braço.
Eu sei que ela não vai sentir falta de São Paulo, pois nunca gostou daqui, ou ao menos pareceu gostar. Sempre disse que é muito trânsito e poluição para pouca paciência. Ela nem sequer nasceu aqui. Para ela tudo que está acontecendo é mais fácil.
– Giulia, vai ficar tudo bem. – acho que é a primeira vez que meu pai dirige-se a mim desde que chegamos ao aeroporto.
Olho para os dois com o mesmo olhar que crianças mimadas lançam aos pais quando querem algo, esperando que eles desistissem de me levar e me deixassem para trás, mas percebo que isso não vai acontecer.
– Sejam bem-vindos! Entrem! A primeira classe é logo ali na frente. – diz a aeromoça. Ela parece ser simpática e traja o mesmo uniforme, porém o modelo feminino, que o homem que pegou minha passagem. Até que ele não era feio... Quem sabe não está trabalhando nesse voo.
Desperto de um belo sonho com a minha mãe me chamando para o café da manha. Meus olhos ainda estão relutantes em abrir, mas já estou conseguindo ver o avião. Ele é bonito, pelo menos na primeira classe. Tem carpete azul igual ao do corredor e longos espaços entre os passageiros.
– Giulia, você está dormindo desde que saímos de São Paulo. Trate de acordar! – diz minha mãe enquanto me balança.
– Já acordei, mãe! Quanto tempo para a viagem acabar? – finjo estar feliz com a aproximação da Califórnia, mas acho que acabei de falhar nessa tentativa.
– Ainda temos 40 minutos nesse voô. Vamos tomar café da manhã logo porque eu estou faminta. – ela sorri, o que me deixa feliz.
40 minutos para aproveitar antes de chegar ao meu destino. As coisas estariam bem piores se eu não soubesse falar inglês, mas meu pai fez questão que eu aprendesse logo cedo e isso seria bem util agora.
– O que tem para comer?
– Não sei. Vamos perguntar ao comissário de bordo? – ela responde com um tom irônico, o qual eu não gosto muito. – Moço, você poderia trazer o cardápio para nós? – fala, agora, com o tom de voz mais gentil e doce possível. Fico me perguntando como ela consegue ser tão gentil com outras pessoas e tão grossa e irônica, às vezes, comigo.
O comissário de bordo aproxima-se e quando nossos olhares se cruzam, percebo que o conheço de algum lugar... É o mesmo homem que pegou a minha passagem! E, eu tinha razão, ele não é nem um pouco feio. Desperdicei mais de 13 horas dormindo, agora só tenho 40 minutos pra dar em cima dele.
–– Só um minuto, senhora. – responde ele.
Meu olhar cruza com o dele novamente, e ele nem tenta desviá-lo. Ele é alto, tem cabelos bem pretos e lindos olhos cor de mel, sua pele é bronzeada pelo sol e parece estar prestes a descascar. Eu poderia ficar o dia todo olhando para ele, mas isso não vai acontecer, então contento-me com um simples café da manhã.
Perco-me em meus pensamentos mais uma vez, e quando retorno àquele momento, ele já está parado na minha frente esperando que eu faça o meu pedido.
– Eu vou querer... um suco de laranja e um misto quente. – não estou com fome, mas decido pedir algo só para vê-lo trazendo meu café da manhã.
– Ok! Vollto daqui a pouco com a comida. – diz ele, lançando um olhar meigo e carinho, que eu tenho certeza que está me deixando corada.
Eu tenho certeza que ele me examinou do mesmo jeito que eu examinei ele. A grande diferença é que ele está bem penteado, bem vestido e eu acabei de acordar. Se eu queria pelo menos virar amiga dele, minhas chances acabaram no momento em que ele me viu descabelada. Meu cabelo de manhã é um ninho de rato e o meu rosto não colabora muito.
– Giulia? Giulia? – ouço a voz de minha mãe. Pelo seu tom de voz, perceboque já deve ter me chamado várias vezes.
– Tô aqui! – respondo, mas depois percebo que a resposta não fez muitosentido.
– Coloque o cinto, filha! Já vamos pousar. – ordena.
– Ah, tudo bem. – respondo enquanto a obedeço.
É oficial, estou na Califórnia! Lá se vai minha vigem de formatura junto a meus amigos, lá se vai minhas idas à praia... Tudo deixado para tráz, tudo deixado no Brasil.
– Filha, você está tão animada quanto eu? – pergunta minha mãe.
Seu tom de voz excitado me irrita. Como ela pode me perguntar isso? Eu juro que não sei o que passa na cabeça da minha mãe, acho que ela esqueceu que eu estou aqui contra a minha vontade.
– Muito animada! Melhor dia da minha vida! – respondo ironicamente.
– Giulia, eu sei que você vai amar aqui! É uma pena você não ter vindo conosco comprar a casa, já teria se apaixonado pela ensolarada Califórnia. – ouço, pela primeira vez em horas, a voz de meu pai
.– Claro...
Sinto que o avião já está descendo, o que faz com que eu sinta uma sensação estranha na barriga. Eu tenho que confessar que morro de medo da descida, é como se eu estivesse caindo.
– Senhores passageiros, bem-vindos a Los Angeles. São 14h e está 33 °C lá fora. – Se aqui são 14h lá no Brasil são 18h, e isso quer dizer que a primeira coisa que eu irei fazer quando chegar em “casa” é ligar o Skype.
Apesar de ter passado frio no voo por causa da minha roupa (♣), fico aliviada por estar com uma roupa leve, pois se não morreria de calor.
– Senhores passageiros, pedimos que os senhores aguardem sentados até a abertura da porta.
Em menos de 10 minutos estarei literalmente pisando nos solos americanos. Caminharei em direção a uma nova vida... Eu acho que agora não tem volta. A única coisa que tenho a fazer é aceitar que eu estou aqui e nunca mais vou voltar.
– Nós agradecemos a sua preferência e boa estadia! – a mesma voz irritante que anunciou a nossa chegada, agora agradecia.
– Filha, vamos indo?
"NÃO MÃE! EU NÃO QUERO IR! QUERO VOLTAR AGORA!" — penso comigo mesma.
– Sim, vamos indo. – respondo com um sorriso forçado, quando a minha maior vontade era voltar para o Brasil.
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