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14 Capítulo 14 - Scott
Notas iniciais
Eu ainda não acredito que, depois de anos, eu consegui finalmente trazer Lily à minha casa novamente. Ela não se lembra da sua infância, mas eu me lembro da nossa. Eu era seu melhor amigo, apesar de ela ter se esquecido completamente de mim e ter começado a me odiar no fundamental.
Eu tomei um banho rápido e vesti uma bermuda e uma camisa. Preparei um lugar no jardim para que pudéssemos gravar o vídeo ao ar livre. Já eram 3:45 e tínhamos combinado de começar a gravar pelo menos às 4 horas. Agora faltam 15 minutos e eu já estou ansioso. Na verdade, o simples fato de estar perto dela já me deixa num estado natural de alerta e, ao mesmo tempo, de relaxamento.
Ding-dong.
A campainha tocou. Minha mãe já foi abrindo a porta da casa. Lá, bem em frente à porta, estava Lily, com um vestido amarelo estampado com uns passarinhos aqui e ali e que dava a impressão de que ia voar. Ela estava nada menos totalmente deslumbrante nesse vestido. Fui para a porta, a fim de ser um bom anfitrião, coisa que minha mãe já estava sendo.
– Olá, Lily. Sinta-se em casa. — minha mãe estendeu uma mão para dentro de casa, como que convidando-a para entrar.
– Obrigada, senhora Rivers. — ela foi entrando e franziu a testa, como se minha sala de estar lhe intrigasse. Então me viu no canto da sala. — Ah, oi, Scott.
– Oi, Lily. — apertamos as mãos, apesar de eu querer bem mais. Um abraço está bem abaixo do que eu quero, mas já seria um bom começo. — Melhor começarmos logo, para aproveitar a luz solar ao máximo.
– Concordo. — ela respondeu fria.
– Vamos para o jardim.
Fomos seguindo lado a lado e, devo admitir, tive que me controlar muito para conter meu impulso inicial, que era pegar em sua mão. Eu não podia estragar tudo. Não hoje.
– Sobre que livro vamos falar? — perguntei quando nos sentamos nas cadeiras do conjunto de jardim.
– O Pequeno Príncipe. — ela respondeu retirando um exemplar de dentro da bolsa.
– Hum. Legal. Mas porque você o escolheu? — ela me fuzilou com o olhar e ia começar a despejar palavras em mim, mas eu a cortei. — Porque esse livro é ótimo, mas existem outros tão bons quanto esse. Então eu queria saber se tem algum motivo especial.
– Bem, — ela começou a falar. — na verdade tem. É porque, enquanto meu avô ainda era vivo e morava na minha casa, havia uma espécie de tradição: eu só dormia depois que ele lesse um trecho do livro para mim. Eu era muito pequena quando ele morreu, mas esse livro é um tipo de conexão com ele. Um jeito de eu me sentir mais próxima, sabe? — ela olhou nos meus olhos. — Mesmo ele estando morto. — então ela sacudiu a cabeça. — Nem sei porque eu estou contando isso. Eu deveria ter dito que é esse livro porque eu o adoro ou simplesmente porque eu quero que seja esse livro. Mas, isso ia gerar uma briga e eu...
– Não quer mais brigar? — completei.
– Exatamente.
– Eu também não quero. Vamos dar uma trégua. Pelo menos por hoje.
– Certo. — ela suspirou. — Amigos? — ela estendeu a mão.
– Amigos.
Apertei aquela mão delicada e macia. O momento durou bem menos do que eu esperava, já que Lily se levantou abruptamente e começou a falar.
– Agora vamos fazer logo isso, que estamos perdendo tempo. E luz.
– Verdade. — sorri. Eu adoro as atitudes dela, seu temperamento, seu corpo, cabelos e mesmo os dedos dos pés. Ela é simplesmente perfeita a meu ver.
– Vamos gravar nesse conjunto, ok?
– Certo. Vou pegar a filmadora.
Voltei para dentro de casa, procurando pela filmadora, que geralmente está no escritório. Acho-a rapidamente com Peter, meu irmão mais novo.
– Peter, eu quero a câmera. — eu disse num tom decidido.
– Eu também quero. Preciso gravar um vídeo pro meu vlog no YouTube. — ele disse. Que tipo de juventude é essa onde pirralhos de 10 anos gravam vídeos e postam no YouTube? Eu cresci brincando com as outras crianças na rua ou no parque. — Eu já tenho 3 inscritos no meu canal! Eu preciso gravar esse vídeo, Scott.
– Olha só, eu preciso mais dessa câmera do que você. — puxei a camisa dele. — Está vendo aquela garota sentada no quintal? — apontei para Lily pela janela de vidro. — Ela veio para gravar um trabalho importante comigo. E nós vamos precisar dessa filmadora. Quando terminarmos, você pode gravar quantos vídeos idiotas quiser. Entendido?
– Sim. Mas você não vai receber a filmadora. Só a moça.
Bufei. Sério mesmo que ele ia me obrigar a apresentá-la para ele?
– Você não aceitaria dez dólares ao invés dela vir para cá?
– Não. E eu quero conhecer sua namorada.
– Ela não é minha namorada. — retruquei imediatamente, muito provavelmente, com as bochechas vermelhas.
– De qualquer forma, só entrego a ela. — ele cruzou os braços em cima da pança dele, parecendo que tinha o dobro de sua largura já considerável.
Bufei mais uma vez. Ele ganhara, mas seria a única vez.
– Certo. Vou chamá-la. Fique aí.
Volto para o jardim com as mãos abanando.
– Não achou a câmera? — ela me perguntou.
– Achei. O problema é que ela está com um pirralho que acha que seu vlog exibido para três pessoas é mais importante que um trabalho.
– Pode deixar, Scott. Eu trouxe a minha filmadora também. — ela sorriu para mim, enquanto pegava a filmadora dentro da bolsa.
– Ainda bem. Aquele pirralho irrita.
Ela sorriu novamente. Esse sorriso me hipnotiza.
– Vamos gravar? — ela chamou, ligando a filmadora.
– Certo. — sentei ao lado dela.
– Oi. Sou Lily Tanner. — ela ficou em silêncio e eu também, após algum tempo, ela falou. — E você, Scott? Quem você é?
– Ah. Sou Scott Rivers. E isso tá uma bosta.
– Concordo. — ela riu. — Making off. Vamos tentar de novo. — ela ligou a câmera de novo. — Oi. Eu sou Lily Tanner e esse — ela apontou para mim. — é o Scott Rivers.
– Vamos falar do livro o Pequeno Príncipe, que é um dos livros favoritos da Lily. Bem, eu falaria um pouco da história, mas eu sei que ela com certeza sabe explicar bem melhor de que eu.
– Você também saberia explicar.
– Mas você com certeza explica melhor de que eu. — sorri para ela.
– Bem, o livro fala da história de um príncipe que morava em um mini-planeta... — então se virou pra mim. — Eu posso falar assim?
– Acho que pode. Dá pra entender o que é.
– Enfim, é a história de um príncipe que morava num mini-planeta com uma rosa e três vulcões, sendo dois extintos e um ativo. Então o príncipe resolveu conhecer o universo e saiu da segurança de seu planeta para conhecer os outros, incluindo a Terra. Enfim, o pequeno príncipe aprendeu muitas coisas e acabou voltando para casa.
Chegou a minha vez de explicar o porque de o livro ser do gênero que é.
Terminamos de gravar e resolvemos assistir o vídeo.
– Isso tá... er,... — Lily começou.
– Uma bosta? — completei.
– Exatamente.
– Vamos tentar de novo. Até fazer qualquer coisa mais ou menos decente.
●●●
Terminamos de assistir o vídeo, já editado, pela vigésima vez.
– Eu gostei. — afirmei. — Dessa vez, ficou bom.
– Também, se não conseguíssemos gravar após 25 tentativas falhas, eu diria que não sabemos fazer nada. — ela riu baixinho.
– Realmente. — concordei sorrindo. — Já somos idiotas o suficiente para ter que gravar isso 25 vezes.
– Muito! — ela riu de novo. Meu Deus como eu adoro essa risada.
Olhei para o relógio.
– Já são mesmo onze horas??? — perguntei meio assustado com a hora.
– Ah, meu Deus! Eu prometi que estaria em casa para o jantar! — ela dizia jogando as coisas dentro da bolsa. — Eu tenho que ir, Scott. Minha mãe deve estar preocupada.
– Você vai voltar a pé a essa hora da noite?
– Sim.
– É perigoso, Lily. Deixe que eu te levo pra casa.
– Scott, eu agradeço a gentileza, mas você já está em casa. E eu não quero que saia da segurança da sua casa por mim.
– Mas você não estaria nem um pouco segura andando sozinha a essa hora da noite. É um bairro perigoso, Lily. E você sabe disso.
Ela revirou os olhos.
– Isso é por causa do que aconteceu no shopping, não é?
– Em parte sim, e em parte porque as ruas são mais perigosas a essa hora da noite de que o shopping.
Ela bufou.
– Você sempre quer dar uma de cavalheiro, não é? — ela disse sarcástica.
– Caso ainda não tenha percebido, eu sou um cavalheiro, minha querida. Sem armadura, mas ainda assim um cavalheiro. — sorri para ela, que me lançou um olhar de desprezo. Nesse momento, eu soube que ganhara a discussão.
Ela pegou sua bolsa e foi descendo as escadas, comigo logo atrás. Peguei as chaves do meu carro no pote em cima da mesa. Fomos para a garagem e eu abri a porta do carona para ela, que apenas me encarou, levantando uma sobrancelha e dizendo:
– Você é cavalheiro com todas ou só comigo?
Contornei o carro e sentei no banco do motorista.
– Se houvesse qualquer outra, talvez eu fosse cavalheiro com ela. Ou, mesmo que houvesse outra, talvez esse seja um lado meu que só pertence a você. — olhei para ela, que apenas abaixou a cabeça, tentando esconder as bochechas perceptivelmente vermelhas.
Sorri para mim mesmo. É esse o efeito que eu causo nela? Se for... ah, meu Deus. Eu definitivamente preciso dessa garota.
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