Morbidez - one shot

1 Morbidez - One Shot


Notas iniciais
Ol, espero que gostem.Beijo ;*

As lágrimas escorriam do meu rosto e tinham um gosto salgado. De repente, espantei-me comigo mesma.

Adentrei o apartamento em busca de algo que explicava toda a situação que me cercava. Tudo o que encontrei foram montes de lixo, sujeira. Avancei mais alguns passos e encontrei um maço de cigarros em cima da mesa. Agarrei-os com voracidade, quase um desespero e tornei á fumá-los, buscando aliviar a minha ansiedade. Queria descarregar as minhas angústias num tabaco. Quanto terminei o cigarro, joguei a bagana ali mesmo, no chão da sala. Fui em direção da porta e fechei-a atrás de mim, afinal eu tinha que ignorar aquela situação e buscar o conforto. Eu era egoísta.

Peguei meu carro no estacionamento do prédio e me encaminhei para a clínica de reabilitação. Ignorei o terceiro sermão da médica naquele mês, passei reto pelos corredores compridos, lotados de pessoas fingindo serem animadas apenas para “contagiarem os seus filhos com felicidade”. Assim que me deparei com a porta do quarto, encarei-a. Repousei a mão na maçaneta, aguardei alguns segundos. Meu coração me entregava. Entrei no quarto e fechei a porta.

Aqueles olhos verdes e frustrados me encaravam, mas eu sabia que ela era fraca demais para se manifestar. “Não tenho o rosto tão lindo quanto o seu”. “Bajular agora não é a melhor alternativa”.

Sim. Eu estava com medo exatamente disso. O meu coração pressentia isso, parecia até que desejava esse momento com tanto afinco que agora ele pulava dentro do meu peito, de alegria.

“Como assim?”, perguntei surpresa. “Estou dando apenas um nome a essa sua visita” “Mas eu venho aqui desde que você entrou pela porta dessa clínica” “Pois saiba que tenho pavor das suas visitas, tenho nojo de ter de ouvir essa tua voz, esse som grave que sai da tua garganta me provoca arrepios, sinto que eu não sou nada tua, nem mesmo que eu tenho o teu sangue”.

Fazia alguns bons meses que eu não me injetava que não sentia a droga em meu organismo. Estava indo à loucura, eu precisava sentir o torpor.

Ignorei o sermão da médica quando passei pelo corredor para ir embora, estava livre para sair apenas nos finais de semana. Entrei no apartamento podre de novo.

Corri até o armário e peguei o meu estojo preto. Ainda tinha uma boa quantidade de heroína. Pelo menos o bastante para me colocar de volta ao mundo das fantasias obscuras.

Apliquei. Não me dando por vencida com os resultados, apliquei mais uma dose dobrada. Larguei tudo no chão e fui para o carro de volta. Acelerei até o hospital. Quis chorar e gritar, mas calei. Subi os andares até o quarto, novamente. Não troquei nenhuma palavra com a superfície rígida. Apenas observava.

Agora, parecia que tudo se encaixava. Olhei novamente para a imagem em minha frente: Eu mesma me encarando, os olhos verdes frustrados, chorosos, pedindo socorro, clamando uma oportunidade, mas não era ouvida. A superfície dura continuava a me olhar, mas agora sentia pena de mim mesma, queria que ela não olhasse mais, mas eu queria continuar olhando. “Pare”, ordenei. “Só quando você parar”.

Eu odiava que as pessoas mandassem em mim. Não suportava aquilo. Sentia-me suja, me sentia louca. Queria sanar aqueles sentimentos dentro de mim, mas ela não parava de me encarar. Peguei a tesoura que a enfermeira esqueceu sobre a bandeja dos curativos. Não tive escolha, eu queria parar de enxergá-la, e eu sei que ela também.

Saquei a tesoura e enterrei nos olhos. Já sentindo o próprio sangue escorrer, não me importava mais. Estava completamente feliz: Já não conseguia mais encará-la. Senti-me realizada. Ainda eu podia ouvir os seus suspiros, sentir o seu cheiro, e quase tocar o seu corpo rígido e frio, mas decidi deixar para mais tarde começar a arrancar os pedaços dessa pele que a envolve com os pedaços rígidos do espelho que eu acabei de quebrar. Eu precisava arrancar os meus próprios pedaços com os pedaços dela: a minha personalidade.

Notas finais
Espero que tenham entendido a mensagem final :)Beijos, até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!