Morangos No Jardim
1 Primeiras Impressões
“Jamais fui de me encantar pelo sexo oposto. Para ser franca, achava que o melhor a fazer era manter-me distante de qualquer cavalheiro que demonstrasse interesse por mim; porque por mais belo que ele fosse, poderia me machucar facilmente — tal como poderia a uma borboleta ao sentir o leve toque de dedos curiosos sobre as suas asas tão delicadas.
Mas as coisas geralmente não acontecem como realmente desejamos, e eu vacilei ao me apaixonar.”
Mariane era apenas mais uma frágil borboleta voando não-totalmente-sem-rumo pelo jardim florido em tons pastéis quando conheceu o ser mais fictício que já vira na sua pacata vidinha. O dito cujo era charmoso como todo personagem de um romance deve ser, seus olhos pareciam duas amazonitas e seu cabelo louro e cacheado lembrava-lhe o miojo que ela havia negado naquele dia quando o querido pai ofereceu-lhe o almoço.
Quando esse misterioso jovem apareceu entre os arbustos completamente perdido e um tanto sujo — pois havia chovido na véspera e a grama alta ainda estava úmida e lamacenta —, Mariane colhia morangos para a geleia do café-da-tarde. Como não era normal surgir homens do nada no jardim, a sua reação, claro, foi gritar loucamente:
– Socorro! — abanava as mãos. – Pervertido! Alguém me ajude! Socorro!
O louro aproximou-se dela com um semblante assustado, e disse: – A senhorita não está em perigo — gesticulando que se acalmasse. – Sou apenas um nobre rapaz perdido em um jardim absurdamente grande. Cheguei a pensar que eu estivesse em Wonderland e que por algum engano eu fosse a Alice! — Riu.
Mariane colocou a cesta no chão e limpou as mãos sujas de terra no avental. – Hm... — murmurou, o queixo tão elevado que parecia equilibrar uma taça sobre ele. – Talvez você não seja um pervertido, afinal.
– Creio que fui bem educado, senhorita — seus lábios finos desenharam um sorriso encantador. Havia um sotaque na sua voz que a moça não conseguia identificar — certamente não era um brasileiro nato, pensou —, mas que o deixava estranhamente atraente.
– Pois, então — perguntou ela, mantendo-se séria -, o que o senhor fazia no jardim do meu pai? — Fez uma pausa para refazer a pergunta. – Digo, está perdido, mesmo?
– Oh, sim, sim! Mais perdido que uma barata tonta! — Riu novamente, mas recompôs a postura rapidamente ao notar que até aquele momento a moça não havia dado um riso sequer. Perguntava-se se já não havia visto ela em algum outro lugar, pois seu rosto sério lembrava-lhe uma pessoa muito querida e a semelhança era tamanha que ele começou a achar que não fosse uma simples coincidência. – Estou procurando por um amigo. Juro que não sabia que no final da minha aventura encontraria algo melhor do que esperava — colocou as mãos na cintura para admirá-la. – A senhorita é filha do dono dessa terra?
A jovem dos cabelos e olhos negros assentiu com um leve balançar de cabeça, sua pele branca como marfim iluminada pelo sol do meio-dia. – Meu pai adoraria saber mais sobre a MARAVILHOSA aventura que tivera em nossa propriedade — deu-lhe finalmente um sorriso, embora tenha estremecido o rapaz da cabeça aos pés. – Por que não entra para conhecê-lo, senhor...?
– Woodhouse... Thomas Woodhouse, ao seu dispor — fez uma reverência desnecessária e voltou a olhá-la, esperando que se apresentasse também — como são os velhos costumes da retribuição.
Não obstante, Mariane pouco se importava com os bons modos e não lhe deu uma letra sequer do seu nome. – Ok, Sr. Woodhouse... — ela disse, por fim. – Percebo pela palidez do seu rosto e pelo tremor das suas mãos que o senhor não deseja conhecer o meu pai. Por acaso o senhor está com medo?
O tal do Casa de Madeira comprimiu os lábios nervosamente. O jeito como a moça falava era nostálgico para ele. Algo nela realmente lembrava-lhe outra pessoa. – Seria um honra conhecê-lo — admitiu -, mas devo continuar a minha busca por um certo sujeito. Nos veremos novamente, senhorita? — E ele sabia que sim.
– Talvez sim, Sr. Woodhouse, talvez não — Mariane pegou a cesta de morangos. – Quem sabe na próxima o senhor esteja menos preocupado e fique para tomar uma xícara de chá?
Thomas Woodhouse deu-lhe um sorriso afável e arriscou-se: – Pressinto que nos veremos ainda hoje, senhorita — e foi-se embora com as mãos nos seus devidos bolsos.
– Sujeito estranho — murmurou ela, de quando em quando olhava para trás para checar se ele fazia o mesmo. E ele fazia.
Quem dera se a nossa garota tivesse tido mais tempo para pensar no caso, mas não demorou muito para que Mariane ouvisse o pai chamá-la feito um louco que fugiu do hospício. Com uma mão segurando a cesta de morangos, com a outra ela ergueu um pouco a barra do vestido para que pudesse correr sem se sujar.
Ao chegar em casa tratou logo de subir ao quarto do pai, onde ele estava perdido em seus pensamentos como era costumeiro.
– Aconteceu alguma coisa, papai? — indagou calmamente ao vê-lo sentado em frente à lareira, imóvel.
– Não, querida — respondeu o pai docemente. – Está tudo bem. Apenas gostaria de saber por onde esteve. Não dissera que iria ao jardim e que voltaria o mais rápido que suas pernas aguentassem?
– Sim, papai, mas——
– “Mas” o quê? — interrompeu olhando-na firmemente. – Quantas vezes terei que lhe dizer que é perigoso ficar fora de casa por tanto tempo? Ainda mais no jardim, longe o bastante para eu não saber o que está fazendo! Sem contar que não é a hora adequada para ficar exposta ao Sol, sua pele é sensível demais para essa doce estrela que nos aquece todos os dias.
– Peço perdão pela demora, papai — Mariane ajoelhou-se ao seu lado e beijou-lhe a costa da mão direita, levando-na de modo delicado ao seu rosto. – Eu juro que estava apenas a colher alguns morangos para fazer geleia. Veja — mostrou a cesta -, não estão com uma aparência apetitosa?
Sr. Cromwell deu um sorriso não muito digno de assim ser chamado e a puxou para perto dele. – Tudo bem, tudo bem... Agora vá ver o seu irmão, pois ele voltou da Inglaterra e deseja conversar com a senhorita.
A filha imediatamente mudou o semblante nervoso e preocupado para imensamente feliz e ansiosa. – Richard voltou?
– Foi o que ouviu — disse o pai secamente. Gesticulou que fosse vê-lo imediatamente antes que mudasse de ideia e mandasse-na para a cozinha. Mariane deu-lhe um beijo no rosto e retirou-se aos pulinhos, o farfalhar do seu vestido dando graça ao ambiente monótono que é o quarto do pai.
Como se estivesse prestes a rever o seu bem mais precioso, Mariane foi até os aposentos do irmão cantando baixinho What A Wonderful World. Para a sua surpresa o quarto estava demasiadamente silencioso para quem acabara de chegar de uma longa e cansativa viagem, teve de bater na porta três vezes até ser atendida. A porta destrancou-se, no entanto, ninguém surgiu pelo vão dela – presumiu que era um convite para que entrasse.
Embora estivesse demasiado escuro, como já bem esperava uma vez que há anos aquele cômodo não recebia visitas, ela continuou a adentrar tateando o que conseguia enxergar. – Richard, você está aí? Richard, eu——
De repente, como num filme de terror, uma mão fria como gelo tocou-lhe o ombro e uma voz sussurrou ao pé do ouvido: – Mariane... Eu quero o seu sangue!
Mariane sobressaltou-se levando a mão ao peito. – Richard, seu idiota! — gritou ao reconhecer a voz do irmão. – Quase que o meu coração para de funcionar!
– Mil perdões, minha querida irmã — desculpou-se aos risos. – Nada como um bom teste para saber se o seu coração está fazendo o trabalho que lhe foi incumbido. Sentiu a minha falta?
– E como não poderia senti-la? É o meu irmão favorito!
– Mas você tem apenas um irmão, Mari!
– Vê? Por isso mesmo.
Se abraçaram.
Richard contou as suas aventuras em Londres e como por muito pouco não foi preso por dizer ao cavalo de um guarda que ele era gay.
– É claro que eu inverti a situação — explicou ele -, pude me defender dizendo que o animal era irracional e que não se importaria em ser tachado como tal se entre as suas pernas havia algo maior que ele. O guarda acabou por rir achando que eu fosse algum comediante em ascensão e que estava apenas a praticar.
– Oh, Richard! — exclamou a caçula, abraçando-no com força. – Como é bom tê-lo de volta. Tudo é tão chato sem a sua presença. Papai quase não fica em casa—— Bem, hoje é uma exceção, está bem-humorado, da sua maneira. Talvez seja porque o seu filho tenha finalmente voltado, huh?
– Que bom, que bom — Richard retribuiu o abraço e levou a irmã a uma cadeira próxima à janela do quarto. – E quanto à você, Mari, o que fez durante a minha ausência?
– Nada que valha a pena contar — ela respondeu encolhendo-se no assento. – Mas aconteceu uma coisa...
– Mari, pode dizer o que bem vier à sua cabecinha quando estivermos tendo as nossas conversas privadas de irmã para irmão. Sabe que são os únicos momentos em que não somos vigiados pelo papai ou pelos empregados; portanto, aproveite!
– Ok, Richard — Mariane respirou fundo e prosseguiu: – Agora a pouco eu estava colhendo morangos——
– Típico da senhorita, não? — Riu. – Embora o nosso enorme jardim só tenha morangos e flores para admirarmos—— Oh, perdão!
Mariane continuou, ignorando a interrupção: – Desta vez algo atípico aconteceu: surgiu um rapaz entre os arbustos. Ele estava vestido pobremente, mas disse ser um “nobre rapaz” quando tentou se explicar. Será que ele realmente é nobre ou é apenas distinto, tem uma moral elevada e tal?
Richard pousou as mãos sobre os ombros da irmã fixando o olhar ao jardim que era perfeitamente visível de onde estavam. – Não sei dizer, irmã. Ele chegou a se apresentar? Eu espero pela visita de um amigo e talvez seja ele.
– Disse que se chamava Thomas William Woodhouse.
O homem dos cabelos de nanquim e olhos azuis ultramarinos levou a mão na boca, completamente surpreso. – Não creio! — bradou alegremente elevando os braços para o alto. – Então o Tom realmente veio para o Brasil?
– “Tom”? — Mariane arregalou seus olhos acastanhados, mas manteve-se quieta no seu assento. – Você o conhece?
– Com certeza! — Respondeu o irmão alegremente. – É um inglês que tive a sorte de conhecer quando mais precisei. Lembra-se de quando fui à Inglaterra pela primeira vez? Eu mal sabia pedir uma cerveja na língua deles! Foi então que conheci o Tom em um pub onde eu era o único estrangeiro e também o único que tinha os dentes brancos — deu um belo sorriso para mostrar os dentes brancos como leite. – Ele me ofereceu uma rodada por sua conta, aceitou muito bem as palavras que eu pronunciava erroneamente e eu fiquei eternamente agradecido por ele ter entrado exatamente naquele pub. Ah, Tom! Então ele realmente apareceu por aqui?
– Sim, sim. E eu acho que ele não sabia que estava no jardim do seu pai ou que eu fosse a sua irmã, Richard. Pelo menos não demonstrou.
– Que estranho... Eu cheguei a dar o meu endereço quando nos despedimos. Talvez ele tenha se enganado ou não tenha visto a casa, mas com certeza está me procurando. Você disse que ele apareceu no jardim, certo? Olha o tamanho desse lugar! Até nós que nascemos e crescemos aqui podemos nos perder se não tomarmos cuidado. Ele chegou a dizer que estava procurando alguém?
– Sim, claro.
– Bem, então, obviamente esse alguém sou eu. E dele não saber que você era a minha irmã, disso eu tenho que concordar. Ao contrário do que se pensa, não dei detalhes sobre você e o papai – e vice versa, pois eu mal sei da vida dele.
– Então vocês tiveram uma amizade “light”?
– Quase isso. Faz quatro anos que o conheci, e apesar de sabermos pouco um do outro, na Inglaterra fomos grandes companheiros.
– Bem — Mariane levantou-se da cadeira, ajeitou o vestido e deu um beijo no rosto do irmão -, para a sua felicidade, eu espero seja o seu amigo. Vou para a cozinha, tenho uma geleia para preparar.
Richard retribuiu o beijo e voltou ao que estava fazendo — levando as roupas da mala ao guarda-roupa e tal.
“Então ele é inglês...”, pensou Mariane enquanto ia à cozinha. “Como já não bastasse o bocado de atores ingleses que gosto, ainda por cima tenho o azar de encontrar um da laia deles bem no meu jardim! Ele não pode jamais entrar no meu quarto... Jamais... Há fotos de celebridades o bastante para ele ficar com medo de mim.” Pegou uma panela grande e despejou os morangos nela; depois, com uma xícara, adicionou o açúcar e, então, acendeu o fogo. “Ele tem um sorriso tão encantador... Mas parece que de fato nos encontraremos novamente, já que tudo indica que ele seja o amigo do Richard.” Estava prestes a bater com a colher-de-pau na cabeça para esquecer do inglês quando o seu pai apareceu vestindo um avental rosa com babado escrito em letras garrafais “I'm the best cook in the world and if you deny it... I put some poison in your food.”
Mariane tampou a boca para ele não vê-la rir. – Posso dar a minha opinião sobre o seu avental?
O Sr. Cromwell gesticulou que prosseguisse — embora soubesse o que iria ouvir —, pegou uma frigideira e parou em frente da filha.
– O seu avental grita “Sou gay, mas nem tanto”. Tire isso, por tudo o que há de mais sagrado. O que os vizinhos irão pensar?
– Nada, é claro — respondeu o pai com um semblante sério.
– Não tenho tanta certeza assim. Vão pensar que o senhor esperou a mamãe falecer pra soltar a franga.
– Pois se alguém pensar isso eu juro que ficarei muito magoado.
– ... Ok, Sr. Ficarei Magoado. “Ele realmente ficou estranho com a ausência da mamãe.” Enfim, o que está fazendo por aqui?
– Vim ajudá-la a—— Hey, quem é aquele sujeito vindo para cá? — apontou com a frigideira para a janela.
Mariane empurrou o pai DELICADAMENTE para olhar pela grande janela da cozinha. – De quem o senhor está falando?
Ao longe, um jovem caminhava pelo jardim com um sorriso ridículo estampado no rosto, admirando a natureza à sua volta. Seus cabelos pareciam fios de ouro e sua pele era tão branca que era impossível olhá-lo diretamente. Era ele... Era o tal do Casa de Madeira, e estava vindo até eles segurando um pedaço de papel amassado nas mãos de dedos longos e nodosos.
Por dentro, Mariane gritava para todos os seus miolos para não entrarem em pânico. – Ah... — murmurou evitando demonstrar qualquer interesse. – É o amigo do Richard, papai.
Robert Cromwell olhou para a filha confuso. – E desde quando o Richard tem amigos? Ele foi chamado de girafa e nariz pornográfico até entregar o TCC. Passou a vida inteira sozinho, só teve a família e——
– Ele foi à Inglaterra. Lá os homens preferem ficar com os homens...
As reticências deixaram-no ainda mais confuso. – Ficar com os homens em QUÊ SENTIDO?
– No sentido da camaradagem, papai, claro. Como o detetive Sherlock Holmes e o seu fiel companheiro de casos, o Dr. Watson, sabe?
– Sei... Pois bem, vamos até lá conhecer esse “amigo” do Richard. Espero que ele seja super másculo.
Mariane ficou em silêncio vendo o pai sair de avental e segurando uma frigideira e disse para si mesmo: “Definitivamente ele não é a pessoa certa pra exigir masculinidade dos outros.”
Sr. Cromwell foi calmamente até a entrada onde encontrou o filho que já aguardava pelo amigo. – A sua irmã disse que vocês já se conhecem, Richard.
– Sim, nos conhecemos em Londres. Ele é parente da realeza em, sei lá, centésimo grau? Brincadeira, é neto da rainha. Durante o tempo em que estive por lá, eu via ele pra cima e pra baixo com o príncipe Harry. — Richard não havia sequer olhado para o pai até aquele momento, mantinha-se com o olhar distante, para além do jardim, até onde os seus olhos azuis alcançavam; mas quando virou-se e viu os trajes do pai, não aguentou e pôs-se a rir colocando a mão na barriga. – P-pai... O que é isso? Está se revelando?
– Não sei por que você e a sua irmã ficam encrespando com o que visto ou deixo de vestir — tirou o avental colocando-no sobre o ombro, mas continuou segurando a panela. – Pensam que é fácil criar dois filhos teimosos sem uma mulher para governar a casa? Continuem assim e os dois não receberão herança alguma.
– Pai, sério, o senhor precisa descansar. Logo mais verei o senhor com uma peruca idêntica ao cabelo da mamãe. Tire umas férias, eu cuido da Mariane. Só viajarei daqui três meses.
– É... — respondeu pensativo. – Talvez eu vá mesmo. Você tem certeza que não precisará viajar por enquanto?
Richard assentiu, dando-lhe um sorriso de quem estava convencido a ficar.
– Richard...
– O que foi, pai?
– Eu estava com fortes esperanças que você voltaria noivo da Inglaterra. Não encontrou nenhuma moça que lhe agradasse nos quatro anos que se passaram?
O filho manteve-se em silêncio. Gostaria de dizer a verdade ao pai, que todas as mulheres que conheceu só estavam interessadas no seu dinheiro e status social, mas sabia que não seria compreendido.
Quando Sr. Cromwell estava pronto para refazer a pergunta, Thomas W. Woodhouse aproximou-se com cautela. Não tinha certeza se era a casa do amigo, mas ao ver Richard ele acelerou o passo, exclamando: – Meu bom e velho Richard Cromwell! — deu-lhe um abraço apertado.
Seu pai fitou-os desconfiado, fez um barulho com a garganta e estendeu a mão. – Boa tarde, Sr....?
– Woodhouse — acrescentou o inglês apertando-lhe a mão, ignorava os trajes do Sr. Cromwell ao máximo. – E o senhor deve ser o pai do Richard, estou certo?
– Treze centímetros de altura A MENOS, mas sou, sim, o pai dele. Sua mãe era ainda menor, não sei de onde veio essa girafa.
Tom riu. – Bem, Sr. Cromwell, seu filho e eu somos da mesma altura. Eu ficarei um tempo por aqui, neste país agradável, terá que se acostumar com a presença de mais uma girafa.
– Sem problemas — disse o Sr. Cromwell, relutante a dar um sorriso ao visitante -, pelo menos tenho a minha doce filha para me consolar. Ela não é alta como vocês, o que já me alegra. Aliás, Richard, vá chamar a sua irmã!
Richard obedeceu o pai e adentrou a casa correndo — quase derrubou uma empregada que passava pelo corredor carregando roupas e lençóis limpos —, indo ás pressas até a cozinha onde a irmã despejava cuidadosamente a geleia de morango em um frasco.
Mariane, a pobre coitada, não teve tempo de raciocinar. A gravidade ordenou que o frasco e a panela caíssem e, sem entender o que estava acontecendo, a moça foi arrastada até a entrada da casa.
– Tom... — apresentou Richard. – Essa é a minha irmã: Mariane Cromwell.
Mariane ofegava curvada com as mãos sobre o joelho. Ergueu-se lentamente para olhar diretamente para o rapaz e o cumprimentou com falso desinteresse: – Ah, oi.
Inconformado pela falta de educação da filha — afinal, um parente da realeza deve sempre ser tratado com o maior respeito —, Sr. Cromwell empurrou-a para perto do convidado, deixando-os assim bem próximos um do outro. – Apresente-se adequadamente, menina!
Mas Mariane levou alguns segundos para formar um sorriso no rosto. Não estava acostumada a receber visitas e detestava a obrigação de ter que se socializar. – Seja bem-vindo, Sr. Woodhouse, à nossa humilde casa — olhou para o pai e fez uma cara do tipo “satisfeito?”
Surpreso, mas nem tanto, pela presença da moça que vira mais cedo, Tom arregalou os olhos e abriu a boca para avisar o pai dela que já se conheciam. Ao notar que os olhos da moça estavam mais arregalados que os olhos dele, pensou: “Talvez não seja uma boa ideia”, e manteve-se quieto e a cumprimentou com um beijo na mão. – Srta. Cromwell. Não sabia que Richard tinha uma irmã...
– Richard faz muito bem em não dar informações de graça à estranhos — atropelou o Sr. Cromwell rapidamente, embora estivesse gostando do leve interesse do inglês para com a sua filha. – É perigoso demais.
– Mas eu não sou um estranho, Sr. Cromwell. Não, muito pelo contrário, sou um grande amigo do seu filho.
– E neto da Rainha Elizabeth II — salientou Richard para que o pai parasse de ser ranzinza.
– Aliás, Richard — Tom dirigiu-se ao dito cujo -, podemos conversar a sós? Há um assunto importante a ser discutido.
– Meu Deus! — exclamou Richard. – Mas é claro que podemos. Venha, siga-me!
Mariane estava congelada em frente ao convidado inesperado — na verdade, ela sabia que isso viria a acontecer, só não sabia que seria tão cedo —, virou lentamente a cabeça para o irmão e depois para o pai, não sabia mais o que dizer.
O Sr. Cromwell apontou para a porta de entrada com a frigideira e deu um sorriso forçado aos rapazes.
– Com licença, Sr. e Srta. Cromwell — Tom tirou o chapéu reverenciando a moça e adentrou com Richard para se aventurar na grande casa dos Cromwell. Não deixando, é claro, de olhar para trás para checar se a moça dos morangos fazia o mesmo. E ela fazia.
Thomas Woodhouse esperou que ficassem distantes dos ouvidos alheios para perguntar algo que lhe intrigara desde os poucos minutos que chegara: – Por que não me contou que tinha uma irmã, Richard?
– Acho que ficar em Londres por tanto tempo fez-me esquecer da vida que tenho aqui em Campo Silvestre — respondeu Richard, pensativo. Guiou Tom às escadas e foram ao terceiro andar, onde ficam o seu quarto e o da irmã e a biblioteca. – Você vai adorar essa parte da casa!
Entraram na biblioteca, que não era tão grande como Tom imaginara do lado de fora, mas possuía tantas estantes que deixava-na parecida com um labirinto — invés de arbustos, pilhas de livros cheirando à mofo. Acomodaram-se em um canto mal-iluminado, camuflados entre “n” romances onde não poderiam ser vistos ou ouvidos e começaram a conversar.
– Antes de eu ir à Inglaterra — Richard inclinou-se um pouco e abaixou o tom de voz — a minha doce e querida mãe pegou uma infecção nos pulmões — uma bactéria chamada, grosso modo, pneumococo foi a causa —, mas dissera que iria melhorar e que eu não deveria me preocupar. Pois bem, ela não melhorou! Começou com uma simples tosse, depois veio a maldita febre de quarenta graus, os calafrios, as dores torácicas, a falta de apetite, os catarros esverdeados, as náuseas excessivas, a diarreia e, daí em diante, a situação só piorou. Como moramos longe da cidade, o único médico que pudemos pedir ajuda foi o menos capacitado para lidar com essa doença. Foi eu colocar os pés no navio que ela faleceu.
– Sinto muito, meu caro.
– Não sinta, Tom. Já faz anos que ela se foi.
– E como a sua irmã lidou com tudo isso?
– Ela não sabe que a mãe sofreu tanto. Esteve na casa da minha tia, no Rio de Janeiro, fazendo um curso de culinária quando tudo aconteceu. Ao voltar o meu pai apenas disse que a mamãe teve um enfarto, mas que o seu semblante estava calmo e sereno. Os únicos que sabem a verdade são o meu pai e eu. Recebi uma carta dele ao desembarcar na Inglaterra — não foi nada fácil manter-me em pé.
– Imagino — Tom deu-lhe uns tapinhas amigáveis no ombro.
– Mas então eu conheci você, Tom, e pude me distrair em um momento tão complicado. E quanto à minha irmã: o meu pai tem medo de perdê-la pra qualquer um, sempre me obrigou a ficar quieto sobre ela quando eu estivesse com os meus amigos. E como não tenho muitos amigos foi fácil não quebrar a regra.
– Compreendo — disse Tom perguntando-se qual teria sido a primeira impressão que o Sr. Cromwell tivera dele. – Bem, eu também tenho uma irmã.
– Sério? — Richard sacudiu-se de curiosidade. – E qual o seu motivo para não ter me contato?
– Júlia tem vinte e um anos atualmente. Ela era um doce quando pequena, lia muitos livros e gostava de músicas eruditas. Éramos apenas nós dois — meus pais morreram quando ainda éramos pequeninos e indefesos, ficamos sob os cuidados da nossa avó —, logo, eu a tratava como uma joia rara que ninguém podia tocar. Mas então ela cresceu e tornou-se uma adolescente insuportável! Aos dezesseis anos começou a namorar e após três anos ela engravidou. Houve uma desordem na nossa família, é claro, a minha avó soube do desastre — ela queria enforcar o pai da criança, o meu primo Harry também queria enforcá-lo, EU QUERIA ENFORCÁ-LO. Apesar da pressão, o canalha fugiu, desapareceu da face da Terra deixando a minha irmã desamparada e sem um tostão para sustentar a criança. Como somos parentes da realeza, tivemos que esconder o assunto. Júlia perdeu duas maravilhosas primaveras, minha querida vovó não permitiu que ela ou a criança saíssem de casa — pelo menos até agora. O resultado de todo esse reboliço? Minha irmã não abriu a boca para mais nada desde que foi colocada, digamos assim, de castigo.
– O que quer dizer com “não abriu a boca para mais nada”?
– Ela decidiu por livre e estranha vontade silenciar-se. Não troca uma palavra sequer com ninguém, muito menos comigo — exceto com a filha, mas esta não diz muito sobre o que conversam. Minha vovó se arrependeu do que fez... — Tom suspirou esfregando o rosto, os olhos verdes úmidos. – Assim que você foi embora, Richard, convenci a minha tia a me deixar levar Júlia e a pequena Ellie para o Brasil, onde poderiam viver tranquilamente sem ninguém importuná-las com perguntas ou olhares cheios de críticas. Estamos dormindo em uma casinha perto daqui, mas realmente precisamos de um lugar melhor. É por isso que eu precisava conversar com você particularmente.
– Então você tem uma irmã que é mãe-solteira? Imagino como deve ter sido difícil e compreendo perfeitamente o por quê de ter me escondido tal coisa. Vocês três podem ficar em nossa casa por quanto tempo desejarem. Tenho certeza que o meu pai e a Mariane irão adorar.
Tom abriu um largo sorriso, nunca imaginara que seria tão bem recebido. – Agradeço infinitamente pela sua bondade, Richard. Você é um amigo e tanto, não sei como o retribuirei.
– Saberá — Richard levantou-se e pegou um dos romances da Jane Austen que estava próximo de suas cabeças — quando chegar o momento certo — e entregou o livro para o inglês. – Tenho certeza que a sua irmã irá gostar daqui, há muitos livros que toda moça bem-aculturada gosta. Quem sabe ela até não volta a falar quando conhecer a Mariane?
– Está fora de questão! — Tom empurrou o livro de volta para o amigo. – Júlia não vê mais alegria na vida, seu coração anda tão fraco para sentimentos que eu duvido que um romance irá retornar suas faces rosadas — sobrara apenas a sua filha para amar e isso ela faz de corpo e alma, esgota-se diariamente e desmaia na cama. Às vezes eu me pergunto no silêncio perturbador da noite se ela encontrará alguém que aceite as suas atuais condições. Além do mais, peço que não conte a ninguém que ela é a minha irmã.
Richard ficou intrigado com aquele pedido. – Oras, posso saber a razão de mantermos isso em segredo?
– Certamente — respondeu Tom. – Mas não agora — apontou com os olhos que havia alguém se aproximando. – Com o tempo você entenderá — sussurrou. – Só peço que seja gentil e tenha paciência conosco.
Richard olhou para trás e viu a irmã indo de encontro a eles segurando uma bandeja com um bule de chá e um menor contendo leite, algumas torradas e geleia de morango.
Mariane ficou curiosa sobre o que o seu irmão e o amigo tinham para conversar de tão importante que não puderam na sua pura e simples presença. Oras!, ela não diria nada a ninguém — sua boca seria um túmulo onde nem mesmo um ladrão ousaria invadir para roubar algum dente de ouro.
Sem mais nem menos ela entrara na biblioteca com um belíssimo banquete da tarde. Deixou sobre a mesa onde os rapazes segredavam e retirou-se após o irmão agradecer.
Bem, pelo menos foi isso o que eles pensaram. Mariane fez a curva para a direita e escondeu-se atrás das colunas feitas de madeira transbordando livros empoeirados.
– Quantos anos tem a srta. Cromwell? — Tom fingia admirar as cópias das obras de Van Gogh expostas pelas quatro paredes — embora do seu ponto de vista só pudesse ver duas — para esconder a timidez. Mal sabia que estava sendo observado.
Já Richard olhou para o teto tentando recordar a idade da irmã. – Vinte e um anos — disse por fim -, eu acho.
– Engraçado, elas têm a mesma idade.
– Um pouco engraçado, meu caro Tom, um pouco. Elas são diferentes, mas ambas sofreram. Pra falar a verdade, não vejo a hora de conhecer a sua querida—— Não vejo a hora de conhecê-LAS. Quantos anos tem a pequena?
– Dois anos. Muito em breve fará três!
Mariane, que estava atrás das colunas feitas de madeira transbordando livros empoeirados, paralisada pelas recentes informações que o seu cérebro processava, ficou boquiaberta sem encontrar palavras para se expressar. Para ela, toda aquela conversa só significava uma coisa: alguém já havia roubado o coração de Thomas Woodhouse, e esse alguém não era ela. E quem era a pequena que o seu irmão se referia? Seu sorriso de satisfação por estar ouvindo conversas onde não foi convidada foi-se embora tão rápido que ela nem teve tempo de dizer adeus. Com passos leves e programados, Mariane retirou-se da biblioteca. Seu coração batia mais rápido e mais forte na medida que distanciava-se daquele que outrora, mesmo que por pouco tempo, fê-la mudar de ideia quanto a manter-se longe do sexo oposto. A pressão arterial subiu e o sangue desceu para as extremidades para que ela pudesse fugir o mais rápido possível antes que alguém notasse a sua presença.
Esgotada, no seu quarto Mariane cai ofegante na cama, sua cabeça latejando com a falta de oxigênio. “Eu não devia ter dado uma de espiã e escutado a conversa do meu irmão com ele.” Seus fluidos lacrimais aumentam — um composto de água, sais minerais, algumas proteínas e até gordura escorrendo pelas bochechas vermelhas por serem pressionadas contra o travesseiro; a única maneira de abafar os soluços. Lágrimas que nem mesmo por sua mãe ousou derramar.
Envergonhada por sentir mais por um desconhecido que pela morte da mulher que a carregou no ventre por nove meses, Mariane deixou-se levar e chorou a noite toda.
Notas finais
Enfim, este foi o primeiro capítulo. O segundo já está sendo feito e eu pretendo postá-lo o mais rápido possível. Agradeço àqueles que perderam alguns minutos das suas vidas para ler o meu romance. Deixem reviews, por favor e obrigado!
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