Morango
1 Único
Notas iniciais
A luz suave do fim da tarde atravessava as cortinas da cozinha, tingindo a madeira da mesa com reflexos dourados. O aroma dos morangos ainda pairava no ambiente misturado ao perfume doce da torta recém-finalizada, enquanto a louça usada permanecia esquecida na bancada, abandonada em favor de algo muito mais importante.
— Tudo isso é para mim? — sussurrou Sasuke, lambendo o glacê nos lábios do marido.
— Talvez… — suspirou Gaara, com as mãos apoiadas na mesa.
Sasuke sorriu, roubando um beijo rápido, o gosto doce se misturando entre as línguas excitadas. Quando se afastou, um fio de saliva ligava ambos os lábios.
— Você fica lindo assim — sussurrou ele, descendo para o queixo delicado, deixando uma mordida leve.
Gaara gemeu baixo, o corpo aquecido pelo estímulo.
— Era… para você estar comendo a torta — resmungou, apertando o ombro do Uchiha.
Uma risada rouca escapou dele.
— Ah, mas eu quero a torta que está na minha frente. — Seus dedos deslizam pela lateral da coxa pálida, as íris bicolores brilhando por trás da franja.
Gaara quis reclamar, mas nada tinha saído como planejado.
Em algum momento entre servir o chá, cortar a primeira fatia e ouvir Sasuke afirmar que a torta estava perfeita, simplesmente aconteceu. Agora observava o marido parado entre suas pernas, com as roupas desalinhadas, uma das mãos apoiada ao lado de sua coxa enquanto a outra pegava um pequeno pedaço de morango.
— Ainda está me olhando desse jeito — comentou Sasuke, chupando a ponta da fruta.
O ruivo mordeu o lábio, estremecendo com a visão.
— Q-Que jeito?
O sorriso malicioso aumentou no rosto do Uchiha, uma nova mordida foi dada no morango, lenta o suficiente para que o ruivo pudesse ver seus dentes e língua se movendo antes de responder.
— Como se estivesse desesperado por mim.
O vermelho em sua pele vibrou mais e Gaara desviou os olhos por um instante. No fundo, talvez estivesse esperando por um momento como aquele — desde que ambos começaram a trabalhar, havia se tornado difícil encontrar um momento só deles. Além de que passara horas preparando aquela torta. Horas escolhendo ingredientes, testando proporções e brigando com uma decoração que continuava parecendo melhor em sua imaginação do que na realidade.
Não era pelo sexo, mas ele queria que Sasuke pudesse entender seus sentimentos — fosse eles honrosos ou não.
— Não seja tão convencido — resmungou, pouco disposto a admitir.
— Você casou comigo sabendo que sou convencido. — Mesmo com Gaara não o encarando de volta, Sasuke compreendia o pensamento antes mesmo que ele fosse verbalizado. Ambos, naquele sentido, eram parecidos.
— Você é ridículo — grunhiu baixo, empurrando levemente o Uchiha.
Uma tentativa infrutífera, já que o moreno era um armário com 1,82 de altura e ombros largos. Embora silenciosamente não reclamasse dessa dominância, ele só queria implicar um pouco mais com o outro. Enquanto Sasuke sorria pequeno, entendia as entrelinhas como se estivesse com um livro aberto em suas mãos.
Devagar aproximou o morango da boca do marido, apreciando a tensão evidente nos ombros estreitos e o rubor que subia lentamente por sua pele.
— Abra, Gaara.
Uma ordem, baixa e direta.
E ele voltou a encará-lo no mesmo instante. A excitação queimou silenciosamente sob sua pele, fazendo seu coração acelerar ainda mais. Gaara ainda tentou pensar em uma resposta, mas diante da intensidade do olhar do marido tudo que conseguiu foi revirar os olhos para então abrir os lábios numa obediência falsamente irritada.
No primeiro toque, o sabor doce da fruta espalhou-se pela língua seguido dos resíduos singelos do glacê. Seu olhar suavizou de uma forma quase instantânea, ao mesmo tempo em que observava o Uchiha tão próximo. Próximo o suficiente para notar os fios escuros caindo sobre a testa, o brilho discreto das íris que o devoravam sem pudor e o modo como aquele sorriso permanecia ali.
— E então? — perguntou Sasuke, rouco.
— Bom… — murmurou, extasiado.
— Só bom, Gaara? — Sua pergunta soou baixa, provocante. Seus dedos tocam a bochecha quente, observando o marido engolir o restante do morango. — Tenho certeza que pode melhorar essa resposta.
A sensação de estar sendo provocado naquele nível lento quase tirou o melhor da dignidade de Gaara, ainda assim não havia mais espaço para mantê-la enquanto estava à mercê das carícias do marido. Uma indignação fingida atravessou seu olhar, arrancando uma risada baixa do outro.
— Vamos lá, querido. — Ele se abaixou ligeiramente, deixando um beijo na curva do maxilar, descendo para o pescoço delicado. — Eu quero ouvir você.
Um gemido escapou, os dedos esguios agarraram o corpo maior com uma fúria letárgica. Gaara queria reclamar, queria bater no marido, empurrá-lo e ignorá-lo só para fazer com que ele também implorasse. Entretanto, Sasuke ainda era o primeiro e único a desarmá-lo sem esforço. Forçando-o a falar o que desejava, quando preferia que ele só aceitasse seus gestos em vez de suas palavras.
Um segundo em silêncio.
Sasuke se ergueu pronto para provocá-lo mais um pouco até que viu as íris esverdeadas cheias de lágrimas cintilantes, o rosto vermelho de vergonha e excitação.
“Ele continua tão lindo quanto na primeira vez que o vi,” pensou ele, “mas ainda tão difícil de se expressar.”
Foi nesse momento em que abriu a boca para falar que Gaara o interrompeu:
— E-Estava… estava muito bom…
Ah.
O esforço estampado para admitir algo tão simples, mas que para Sasuke era mais precioso do que a torta ao lado.
— Tudo que você faz é bom — completou Sasuke, esfregando o nariz contra a bochecha macia. — E sempre será.
Gaara fungou irritado, sentindo o coração aquecer de forma irritante ao mesmo tempo em que pensava como era injusto — injusto como Sasuke conseguia dizer aquelas coisas com absoluta naturalidade enquanto ele passava a tarde inteira preocupado com detalhes que ninguém além dele notaria. Mesmo assim, seus braços se mantinham firmes em torno do marido, abraçando-o como se já não precisasse explicar mais nada porque tudo tinha sido dito naquela mísera frase — e talvez fosse.
Por outro lado, Sasuke permaneceu em silêncio, deixando que o outro respirasse um pouco.
Foram segundos até que o olhar de Gaara caísse brevemente para a torta ao lado deles. A fatia removida deixava o recheio exposto. Os morangos brilhavam sob a luz suave da cozinha. O chá inacabado ao lado. Ainda acreditava que não estava perfeito, mas naquele instante parecia suficiente.
Quando voltou a erguer os olhos, encontrou Sasuke observando-o em silêncio.
Sem pressa.
Sem desviar.
A proximidade difícil de ignorar.
Gaara então sentiu os dedos do outro repousarem de leve sobre sua cintura, um gesto simples, mas firme, capaz de acelerar seu coração e renovar a expectativa para o que viria.
— O quê? — perguntou baixo.
— Nada. — Sasuke riu brevemente.
Mentira.
Conhecia o marido bem demais para acreditar. O brilho malicioso voltou a cintilar nas íris bicolores, denunciando os pensamentos nada puros do mesmo — não que os dele também fosse diante de todas aquelas carícias. Logo a ideia de revanche cruzou sua mente e, assim como o Uchiha, abraçando a cintura do mesmo com suas pernas
— Sasuke.
— Hm?
— Você disse que iria comer a outra torta de morango — sussurrou, o sorriso sugestivo crescendo em seu rosto. — Estou esperando.
Uma gargalhada rouca foi sua resposta.
Gaara sabia que o outro pretendia retomar o comando da situação, então se inclinou mais para frente. Os rostos tão próximos que o mesmo desejo irradiava das íris coloridas para a esverdeada. As respirações se cruzavam lentamente, pesadas, tensas. Naquela pequena distância, ambos se encararam uma última vez como se tivessem todo o tempo do mundo.
— Desculpe querido — sussurrou Sasuke, puxando a cintura fina para si. — Irei fazer isso agora.
Gaara sorriu antes de seus olhos se fecharem e o primeiro toque em seus lábios levar o restante de seus pensamentos. O beijo não era rude, mas havia fome e também era carregado daquela familiar tranquilidade que sempre parecia existir entre eles. Um beijo que logo se tornou um pouco mais demorado, onde as línguas se entregavam ao deleite da doçura e as mãos se mantinham seguras no corpo do outro.
Ofegos ressoavam baixo em meio ao som molhado, aquecendo o silêncio ao redor enquanto o aroma dos morangos permanecia suspenso no ar. Quando se afastaram, nenhuma palavra foi necessária, apenas o sorriso que surgiu nos lábios de Gaara quando foi tirado daquela mesa e jogado sobre o ombro do marido.
E a certeza de que, no fim das contas, a torta nunca precisou ser realmente perfeita.
A única coisa que realmente importava já estava ali.
Seu Sasuke.
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