Moon's Secret
1 O Relicário
Notas iniciais
16/01/17
*CAPA FEITA POR MIM, S
— Maryanne Moon, por meio deste testamento, seus pais, Agatha e Jason Moon lhe deixaram uma conta bancária, muito bem abastecida, diga-se de passagem, e uma carta, além de todas as suas propriedades, sendo apenas cinco por cento destas destinadas à sua tia, Joanne Lancaster. Eles também dão ordens expressas para que eu dê início ao processo de emancipação para você. Lamento por sua perda, querida. Espero que seja forte para conseguir passar por esta fase de sua vida. Boa sorte.
Esse é um modo meio macabro de se iniciar uma história, mas foi como começou a minha, com a leitura do testamento dos meus pais. Depois disso, minha vida desceu ladeira abaixo.
Vocês devem estar pensando: "Ah, agora que ela está rica e sem pais, vai poder curtir e fazer o que quiser. O luto sempre passa.". Mas não é bem desse jeito que a "banda toca". Meus pais estão mortos, e tudo o que me restou foi uma quantidade de dinheiro tão grande, que eu não precisaria trabalhar o resto da vida se quisesse; e uma tia amarga e gananciosa.
Apesar de estar emancipada, eu resolvi que viveria com tia Joanne, pois ainda tinha apenas dezesseis anos e não me sentia completamente segura morando sozinha, eu ainda não estava ciente de seu verdadeiro caráter. Mudei-me para sua casa um mês após a leitura do testamento. Como tia Joanne morava em outra cidade, também tive que passar pelo desafio de readaptar-me a uma nova cidade. A escola era a última coisa em que eu pensava, e me surpreendeu que tia Joanne não fosse contra a eu tirar alguns meses de férias para descansar.
Sua verdadeira natureza só começou a se revelar depois de alguns meses morando juntas. Tia Joanne não era descarada no começo, ela sugeria curtas viagens para cidades próximas, ou passeios em shoppings com longas sessões de compra e paradas em restaurantes exorbitantes.
Eu não percebi o que ela estava fazendo até que ela nos sugerisse mudar de casa.
— Esta é muito pequena – alegou, encarando contraria sua mobília. – Acho que você merece uma casa um pouco maior.
Quando respondi que estava bem como estava e que não queria me mudar, tia Joanne me pôs de castigo e se tornou grossa comigo durante uma semana, até que tentasse mais uma vez:
— Maryanne querida! Que tal ir a Paris? Umas feriazinhas cairiam muito bem. E que tal Milão depois?
Nesse ponto eu já morava com ela a quase um ano, e durante todo esse tempo eu não havia voltado a estudar, então já achava que era ora de retornar meus estudos. Usei isso como uma desculpa para ver se seu mau-gênio aparecia novamente, e não deu outra!
— Para que estudar? – perguntou enojada. – Se você tem essa fortuna infinita, não precisará nunca trabalhar!
Era a primeira vez que ela mencionava minha ostentosa fortuna. Depois disso, comecei a negar cada coisa que ela sugeria. Viagens caras, passeios inovadores, roupas usadas por modelos, comidas exóticas, e mais e mais coisas sem fim. Eu vinha negando cada uma delas, reparando sua natureza amarga surgindo de pouco em pouco, seu olhar rancoroso ganhando brilho sempre que olhava para mim, suas atitudes e palavras se tornando mais frias sempre que conversávamos. Até que um dia ela explodiu e me deu um tapa no rosto, alegando que eu era uma vagabunda...
— Igualzinha a sua mãe! – gritou ela, enquanto eu segurava meu rosto, sem reação. – Duas mãos-de-vaca, que não ajudam nem a família. E o seu pai também! – completou. – Se não vai me ajudar, fora daqui! Cansei de te sustentar.
E eu fui. Fui embora de sua casa sem peso na consciência e retornei à casa que cresci, a qual não visitava desde a morte de meus pais.
O fato de ter que morar sozinha ainda me assustava, e aquela era uma casa grande, onde o eco de meus passos podia se tornar a trilha sonora de um filme de terror dependendo do horário. No fim das contas, não fiquei por lá muito tempo. Mas antes de ir, fui atingida por uma forte saudade de meus pais e, com um sentimento de nostalgia me rodeando, decidi rever a última coisa que me deixaram. Uma carta, dada para mim através de seu testamento. Eu nunca havia lido ela, esqueci com o passar do tempo, imersa demais em minha própria dor para querer relembrar da morte de deles, então a deixei aqui, em nossa casa, e esqueci de pegar antes de ir embora. Já passava da ora de lê-la.
"Querida Anne, é com o coração partido que lhe escrevemos esta carta, supondo que um dia você a receberá por meio de nosso testamento. Independente de quando for, ainda será cedo demais.
Antes de lhe dizermos o que há para ser dito, queremos, seu pai e eu, que saiba que te amamos demais. Você foi a melhor coisa que um dia já surgiu na nossa vida, e não teria sido mais perfeito se fosse combinado. Contudo, devemos lhe dizer que você não é verdadeiramente nossa.
É duro dizer, mas você é adotada, Anne.
Não, nós não sabemos quem são seus pais. Sim, Maryanne foi o nome que eles escolheram. E não, você não pode mudá-lo agora que sabe disso.
Você não passava de um bebe recém-nascido quando foi deixada a nossa porta, jovem demais para saber o que acontecia. Estava em uma cesta de palha, com uma manta rosa e um cartão. Como era época de Natal, lhe atribuímos à data festiva como dia de nascimento. Não existia presente melhor para nós, pois havíamos acabado de perder um filho. Não fui capaz de gerá-lo, e os céus me deram você em troca.
Nunca entendemos o que realmente aconteceu naquela noite, mas depois dela, tomamos todas as precauções para que você se tornasse nossa legalmente. Era tão real, que nem sua tia Joanne sabia que você não saiu do meu ventre.
E, enquanto crescia, você se mostrou uma criança excepcional. Acho que você não sabe, querida Anne, pois quando completou oito anos seus atos fantásticos pararam. Mas até essa idade você não era como as outras crianças. Você era veloz – muito, muito veloz -, você tinha um equilíbrio e agilidade que jamais vimos, e você também era esperta, matreira e sagaz. No entanto, o que mais nos impressionava eram seus olhos, que mudavam de cor durante algumas semanas a cada mês. Eles se tornavam amarelos, de um tom vibrante e quente. Suas pupilas, jamais esquecerei, tornavam-se pequenas fendas, tão escuras quanto dois buracos-negros agrupados, capazes de sugar tudo ao redor. Eram olhos animalescos.
Levamos você em alguns médicos no começo, mas nenhum deles entendia o que estava acontecendo, até que desistimos, e te aceitamos do jeito que é. Sem perguntas ou resposta. Afinal, aquilo não importava para nós, pois tínhamos você.
Mas caso se sinta curiosa pelo que revelo a você nesta carta, guardamos o cartão que trouxe quando chegou, ele está no escritório de seu pai, dentro do cofre, atrás da pintura de nós três. A senha é o seu aniversário.
Te amamos querida, desculpa nunca termos contado sobre isso, e esperamos que tenha sorte, caso queira buscar respostas.
Com amor, Mamãe e Papai.
P.S.: Você tornou a nossa vida completa."
Terminei de ler, atônita. Incapaz de acreditar naquilo e sentindo como se uma bola de boliche estivesse deitada contra meu peito. Não era apenas uma despedida, ou um desejo de boa sorte, ou até uma declaração de amor. Era uma pancada abrupta em tudo o que eu conhecia, um abalo sísmico sem reparos em meu mundo.
Reli a carta diversas vezes, até conseguir assimilar aquilo tudo. Eu era adotada, aquele não era o meu lugar, e aquelas pessoas que tanto amei não eram meus pais de verdade.
Me encarei no espelho. Então de quem eram os meus olhos, a cor azul-anil, o formato deles? De quem puxei meu nariz esguio, ou os meus cabelos pretos? De que parte da família eu herdei minha marca de nascença em forma de lua crescente, fixada eternamente abaixo e na lateral do meu olho esquerdo? Ou os meus tiques e trejeitos.
Não, aquilo estava errado.
Já fui uma aberração, já fui de outra família que não me quis mais. Eu já fui.
Ainda meio anestesiada, caminhei em direção ao escritório de papai, que ficava no primeiro andar. Rodei a maçaneta com cuidado, sendo recebida por uma lufada de ar parado quando adentrei o cômodo escuro com passos incertos. Sentar-me à sua mesa de escrivaninha me trouxe lembranças de quando eu era criança e gostava de brincar ali, simplesmente pelo fato de não poder. Meu pai gostava de manter seu escritório devidamente fechado a chave e na mais completa ordem, e era um grande desafio conseguir invadi-lo, apenas pela sensação de estar fazendo o que não devia, porque, o que realmente me divertia era quando eu conseguia sair e entrar sem ser vista. E eu era muito boa naquilo. Nunca me surgiu a curiosidade de olhar os papeis sobre a escrivaninha imponente, ou o nome dos exemplares sobre as imensas estantes sem fim.
Eu entrava, girava em sua cadeira até ficar zonza, ou até ouvi-lo se aproximando, e depois saia. Sem deixar rastro algum, afora quando ele reparava na cadeira que ainda não havia parado de girar sem controle pela sala ampla.
Lembrei-me de uma ocasião em que, enquanto girava descontroladamente pela sala, divertindo-me à beça, uma das rodinhas da cadeira se prendeu na ponta do tapete, parando abruptamente e me lançando para longe em um voo sem paraquedas direto para o chão. Papai entrou logo que ouviu o estrondo, e ao invés de gritar comigo, como era esperado, se concentrou em meu primeiro osso quebrado.
— Sabe, Anne, espoleta como é, estava demorando pra você quebrar algo que não fosse a mobília da casa. – disse entre risadas, enquanto amparava meu braço machucado.
Depois desse, vieram muitos mais. Pernas quebradas, um tornozelo torcido e outro fraturado, um ombro deslocado e até mesmo três dedos quebrados! Em retrospecto, eu era sim um pequeno animalzinho, correndo desenfreado pela casa, sem saber controlar sua força ou seu próprio corpo. Não me lembrava da tal agilidade e o equilíbrio que mamãe mencionou, pois sempre fui muito amiga de meus tombos, éramos companheiros inseparáveis, correndo pelos prados e corredores.
Só pela nostalgia, girei algumas vezes na velha cadeira de couro, mas não demorou muito para que eu me sentisse enjoada. A infância se foi, e com ela a minha habilidade de girar horas a fio sem vomitar meu almoço.
Olhei em volta, distraída, observando as poltronas de leitura e os abajures antiquados. Pesadas cortinas de veludo cobriam as janelas e impediam que a luz do sol poente penetrasse o ambiente. Ao invés de paredes, o que me cercavam eram imensas estantes, abarrotadas de livros com capa de couro, que incontáveis vezes eu escalei, fingindo ser meu Evereste particular.
Avistei sobre a lareira o mencionado quadro de família de nós três, quando eu ainda tinha dez anos. Meu cabelo estava na altura dos ombros naquela época, e eu sorria um sorriso banguela, já que meu último dente-de-leite caiu depois de um encontro entre a minha cara e a parede após uma imitação de Tarzan, O rei da floresta. Sorriamos todos felizes, naquele nosso mundo particular que não era nada menos do que perfeito.
Como puderam me amar tanto, mesmo eu não sendo deles? Aguentar defeitos que não eram da incumbência deles? Minhas atitudes estranhas, será que não lhes deixaram assustados, enojados?
A única resposta que me vinha era que eram pessoas com corações bons demais.
Afastei o imenso quadro com cuidado, ele tinha dobradiças que o ligavam à parede, o que acabava funcionando como uma porta suspensa no ar. As dobradiças rangeram levemente pela falta de uso, mas não se opuseram ao movimento, e logo estava revelado o secreto cofre de papai. Claro que eu já o conhecia, por ventura, vi papai mexendo nele, anos atrás.
Tive que empurrar a cadeira de rodinhas até a lareira, pois não alcançaria a fechadura do cofre nem que pulasse o mais alto que eu conseguia. O cofre era um objeto grande e velho, semelhante àqueles que vemos em filmes de espiões. Achando divertido, encostei meu ouvido no metal frio enquanto rodava o segredo, ouvindo um estalo quando completei. Afastei minha cabeça do trambolho e encarei maravilhada enquanto seus segredos eram revelados... Dois grampos de papel, uma teia de aranha e uma caixa de tamanho médio.
Era decepcionante.
Estiquei rapidamente a minha mão na direção da caixinha, tomando o cuidado de não encostar na teia de aranha e sua moradora esquecida. Saltei para o chão, observando aquele pequeno e curioso objeto. Soprei a poeira sobre a tampa e a abanei para longe de meu rosto. Depois de colocar a cadeira no lugar, me sentei atrás da mesa novamente, pronta para abrir a caixinha.
Esta era de veludo vermelho, muito semelhante às que carregam joias caras, e como esta tinha um tamanho grande, supus que no passado abrigara um colar e talvez um par de brincos. Quando finalmente a abri, não pude estar mais enganada.
Sobre a almofada preta dentro da caixinha, havia um relicário de ouro, preso a uma corrente de mesmo material. No centro do relicário havia algo que se assemelhava a um olho, com íris amarela e quente, que escurecia para um vermelho leitoso no centro, contornando a pupila. A pupila. Era negra, em formato fenda, como os olhos de um felino selvagem.
Lembrei-me do que mamãe havia escrito sobre meus olhos na carta.
"... amarelos, de um tom vibrante e quente. Suas pupilas, jamais esquecerei, tornavam-se pequenas fendas, tão escuras quanto dois buracos-negros agrupados, capazes de sugar tudo ao redor. Eram olhos animalescos".
Animalesco.
Aquela era a palavra perfeita para descrever o olho, que parecia atuar como guardião do pequeno relicário. Sempre vigilante, permitindo que apenas os dignos abrissem e olhassem seus segredos.
Logo de cara soube que aquele colar me pertencia. E apesar de me assustar um pouco, peguei-o com reverência, logo o envolvendo em meu pescoço fino. Ele se encaixava com perfeição, pousando pouco acima de meus seios, aquecendo-os com um calor familiar e desconhecido ao mesmo tempo. Pareceu sempre pertencer àquele lugar.
Tentei abri-lo, forçando ambas as metades para fora, mas a trava estava emperrada. Talvez estivesse quebrado, ou talvez ele realmente só se revelasse aos merecedores.
De volta à caixinha de veludo, estranhei não encontrar o cartão, mas depois de revirá-la um pouco, e até remover a delicada almofada, o encontrei. Era um cartão envelhecido pelo tempo, e seu texto, escrito em uma caligrafia elegante e ligeira, não era muito elaborado.
"Por favor, cuidem dela. É uma garota muito especial, seu nome é Maryanne. E apesar de amá-la demais, não posso protegê-la. Que Deus ajude vocês e amem-na como não pude."
Dezembro, 1999.
E isso era tudo. Com este curto pedido fui largada à mão de minha própria sorte. Não havia remetente, então não poderia saber se quem escreveu era minha mãe ou meu pai biológico. Mas se tivesse que apostar, diria que aquela letra era feminina. Roendo-me por mais informações, girei o verso do cartão, e fui saudada com o cupom de desconto de uma loja de roupa feminina. La Marie Carie. Também tinha o endereço, mas não reconheci o nome da rua, e muito menos o da loja, então recorri ao bom e velho Google para me elucidar sobre isso.
A busca pelo nome da loja se mostrou infrutífera, mas tive mais sorte com o endereço. Eden Praire, Minnesota. Minhas respostas talvez estivessem lá.
Eu não sabia por que as queria, por que queria tentar saber de onde vim, ou entender o que mamãe disse sobre minha infância significava. E essa atitude parecia muito arriscada para se tomar quando eu estava feliz com a vida que tive com meus pais. Mexer no passado podia ser arriscado, e uma vibração misteriosa me dizia que eu podia não gostar do que encontraria.
Mas eu já ia me mudar mesmo.
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