Moon Society: The lighthouse.

8 Capítulo seis: As piores coisas nas melhores pessoas.


Notas iniciais
A história trata de transtornos mentais, exposição a grandes traumas, situações de crise, abuso de substâncias e álcool, não recomendado para o público mais sensível ou para pessoas com histórico de transtornos PODE APRESENTAR GATILHOS.

Acho que pensei em todas as coisas que haviam acontecido, em todo o tempo em que permaneci na escuridão e no silêncio do meu quarto, meu único arrependimento foi não ter conseguido controlar os meus impulsos, eu não gosto de não controlar a mim e as situações, essa é a principal causa das minhas crises de ansiedade, mas não sinto pelo resto dos acontecimentos, aquela garota mereceu o que recebeu, Lucylla sempre diz que nós colhemos o que plantamos... Não me lembro de ter plantado tantas coisas ruins para colher tudo o que está acontecendo comigo.

Nunca me senti tão traída, não sei como eu e Joseph vamos passar por isso, ele não deveria ter contado a ela, não às partes sobre mim, sobre o que acontece com ele, Lucas e Kyle, é uma coisa, agora passar a diante as coisas que eu digo a ele... Os segredos... É completamente diferente.

A pior parte das relações humanas é a decepção, não existe nada que o prepare para uma decepção e a pior coisa nas decepções é que elas sempre vem de quem mais amamos e de onde menos esperamos... Como com Joseph, meu irmão, meu melhor amigo desde que usávamos fraldas.

Eu não queria falar com ninguém, nem ver ninguém, nem poderia contar aos meus pais por que briguei com aquela garota, não podia contar que Joseph havia contado a ela todas aquelas coisas, porque meus pais ficariam extremamente decepcionados com ele, isso abalaria a relação e a confiança deles em Joseph, também abalaria a amizade dos meus pais com tio Benji e tia Ayden, no fim todos estariam decepcionados por uma coisa que começou comigo... Eu terei que guardar tudo, as vezes é necessário sofrer para proteger as pessoas que amamos, mesmo que elas não mereçam, como Joseph.

Gostaria que Morgh pudesse estar aqui, ela saberia o que fazer, saberia exatamente o que dizer, Mirella faria uma piada maldosa que me faria rir e me sentir melhor.

Eu estava sem telefone, sem computador, sem poder sair de casa, então não teria como falar com Morgana a menos que fosse pedir a minha irmã, mas assim ela saberia que eu estou burlando a ideia de não fugir mais, jogando as decisões para Morgana e isso é algo com que vou ter que lidar sozinha.

Eu passei a maior parte do meu dia lendo e me desfazendo das coisas no meu quarto que eu gostaria de nunca mais ver, quando eu desci porque meu estômago protestava pela falta de alimento desde o café da manhã fiquei surpresa ao ver Joseph na cozinha com Malloney e minha mãe.

― Cadê o papai? ― Perguntei.

― Ele foi ao hotel, por quê?

― Eu e ele temos um trato, eu pensei que meu castigo poderia abrir uma exceção para minhas horas de trabalho no hotel.

― Vai trabalhar no hotel? ― Malloney perguntou estreitando os olhos.

― Eu vou, você me ouviu ontem, eu estava falando sério.

― Você não está falando comigo? ― Joseph perguntou.

― Olá Joseph ― Falei sem desviar os olhos da minha mãe ― Então...

― Vou conversar com seu pai quando ele chegar, assim podemos coordenar seus horários para se encaixar com os meus, então você vai e volta comigo.

― Mas

― Isso ou nada feito e você segue em seu castigo.

― Sim senhora, com licença ― Falei saindo da cozinha.

Por que Joseph está aqui? Será que veio fofocar para minha mãe os detalhes do que aconteceu? Que tipo de amigo ele é?

Fique repassando em minha mente os motivos pelos quais eu não poderia entregar a traição de Joseph aos meus pais, lembrando-me das coisas boas que ele já fez, para sentir que ele merece ser protegido, porque nesse momento eu só gostaria de bater nele com um taco de Hurling, com toda força bem no meio dos olhos.

De onde veio esse pensamento? Eu gostaria mesmo de machucar meu melhor amigo? Eu gostei de machucar aquela menina? Eu acho que não.

― O que está acontecendo comigo? ― Disse a mim mesma.

Eu já tinha impulsos assim antes, Mason e Sarah me ajudavam com isso, controlar a raiva, a ansiedade e todos os sentimentos dentro de mim e canalizar todos para coisas boas, junto com a medicação, mas depois eu me recusei a continuar tomando qualquer uma daquelas pílulas.

Eu ouvi cinco batidas ritmadas na minha porta e minha expressão se fechou, ele é corajoso, tenho que admitir, ou então muito cínico.

Eu abri a porta e o puxei pela gola da blusa ao mesmo tempo em que minha mão estalou bem no lado direito do rosto dele, deixando a marca dos meus dedos em vermelho vivo.

― O que... Por que diabos você fez isso? ― Joseph perguntou lacrimejando ― Está ficando louca?

― Ficando louca? Eu achei que já estivesse completamente louca, não é? Segundo a sua namorada, aquela vagabunda ruiva alcoólatra ― Eu gritei irritada.

― Eu não sei do que está falando ― Ele disse segurando a minha mão me olhando com os olhos arregalados ― Por que você bateu nela? Sabia que ela levou pontos e que ela quebrou o nariz? Tem um vídeo na internet, e se essa merda se espalhar? Por que fez isso?

― Vai se foder, Joseph, você é uma porra de um traidor, cínico igual a ela e vocês dois se merecem, como você pode contar a ela todas aquelas... Tudo que você disse a ela... ― Eu comecei a chorar, mas dessa vez era de raiva, eu estava me sentindo tão decepcionada e irritada.

― Eu... Não... Tem como ela ter feito isso, ela... Ela não faria, ela é uma pessoa.

― Ela é uma porra de uma vagabunda, ela estava bêbada, muito, caindo de bêbada e gritou para quem quisesse ouvir Joseph, gritou que você disse a ela que eu deixei sua irmã morrer afogada, que eu sou louca, que eu estive em uma clínica psiquiátrica e que eu usava medicação... Você é a porra de um traidor, nojento, ela não tinha que saber de nenhuma dessas coisas, ninguém tinha... Todo mundo sabe de tudo... Você acha que foi a minha culpa? Melinda morrer afogada... Você disse... É minha culpa, Joseph, eu quem deveria ter cuidado dela... Eu...

― Não é sua culpa, eu não disse isso a ela, eu nunca...

― Foda-se você e ela, eu quero que você vá embora agora ― Falei abrindo a porta ― Eu não quero ver a sua cara nunca mais.

― Você não está pensando direito, está muito nervosa, vou deixar você se acalmar e aí nós conversamos.

― Não quero falar com você nunca mais, nunca, vá ficar com ela, você é um traidor.

― Está enganada.

― Não seria a primeira vez, eu também achei que éramos amigos, terrível engano.

Quando ele saiu eu bati a porta com força, me sentei no banheiro e continuei chorando tanto que minha cabeça começou a doer muito.

Eu tentei não me concentrar nas coisas em volta, sempre que eu estou triste, eu não consigo controlar os impulsos... Um monte de vozes invadem a minha cabeça, é como se todas as luzes de todas as coisas se tornassem ainda mais brilhantes, eu vejo a luz entorno das pessoas...

Sentada no chão do banheiro eu senti todos os pelos do meu corpo se arrepiarem, um frio tomou conta do meu corpo, eu senti o suor frio escorrendo por minha nuca e estava morrendo de medo de levantar a cabeça, porque eu sei que vou ver coisas que eu não quero, que eu não deveria ver.

Eu apoiei a minha cabeça nos joelhos e comece a chorar, soluçar alto, eu abri os olhos e vi de relance a luz do banheiro piscar três vezes e apagar, escuro... frio...

Eu senti algo como mãos sobre os meus ombros e comecei a chorar, eu estava paralisada, não conseguia me mexer, nem respirar ou levantar a minha cabeça.

De repente a luz se acendeu.

― Ei chega de chorar por causa desse babaca ― Mall falou se ajoelhando a minha frente ― Ei, levanta, você tá toda gelada e tremendo... O que houve? ― Perguntou olhando envolta ― Por que está tão gelado aqui? Vem, vamos descer, se os pais te virem com os olhos inchados vão saber que você chorou e vão ficar fazendo perguntas.

― Você tem razão... Vocês ouviram...

― Só os palavrões, não se preocupe, mamãe acha que é briga de casal, estamos bem.

― Eu não estou bem, não quero ninguém achando que aquele egoísta traidor é meu namorado ― Falei magoada.

Minha irmã gargalhou.

― Essa é a minha irmã falando, gosto quando você é durona assim ― Ela admitiu e eu ri.

As semanas seguintes passaram rápidas, estávamos a um mês do início das aulas, hoje eu e minha mãe saímos para buscar meu novo uniforme, já que a Lun Evanic mudou suas cores, depois de 50 anos de escola, o blazer vermelho mudou para preto, a gravata azul mudou para vermelha e todo o resto permanece preto.

É um uniforme bem antiquado, mas o que me consola é que é obrigatório e eu não vou passar vergonha sozinha, minha irmã estudou todo o ensino fundamental na Lun Evanic, mas decidiu fazer o ensino médio na escola cristã no outro lado da cidade, a ST. Patrick, eu sempre fiquei curiosa, se ela havia saído da escola porque realmente gostaria de estudar na escola católica conservadora ou se ela tinha vergonha de mim e dos boatos pelos corredores sobre minha internação.

Porque ninguém em sã consciência sai de uma escola laica para estudar em um colégio católico conservador, as escolas onde moramos são bem pequenas, a escola onde minha irmã estuda tem no máximo 200 garotos e 230 garotas, são divididas entre católicas para meninas, católicas para meninos, católicas mistas, administradas por outras religiões protestantes, também tem as academias e as escolas preparatórias e por último, mas não menos importante a única escola laica da cidade.

A Lun Evanic tem 300 garotos e 325 garotas, divididos entre os prédio do elementar, seis prédio do ensino fundamental e nove prédios do ensino médio.

Eu já estava a meia hora parada na frente do espelho pensando em como deixar meu uniforme mais legal, sem me fazer parecer um bebê e que minha mãe me vestiu, quando eu olhei para o espelho e vi minha mãe parada sorrindo eu dei um salto.

― A senhora me assustou ― Falei colocando a mão sobre o peito.

― Desculpe, só estava admirando você, está indo para o ensino médio... meu bebê...

― Ah mãe, não, sem essa, não vale chorar agora, como ficou? O que acha das cores novas?

― Um tanto quanto escuras, mas estou feliz que você pareceu gostar, está linda ― Falou ajeitando a minha gravata.

― Pode trançar o meu cabelo daquele jeito legal no meu primeiro dia? ― Pedi.

― Sim, vamos testar, sente-se ― Pediu.

Eu puxei minha cadeira e me sentei, de lado esperando minha mãe, ela caminhou até a penteadeira e voltou com a escova de cabelos de prata em mãos, e alguns elásticos de cabelo no pulso esquerdo.

― Eu fiquei com medo de que eu nunca mais pudesse fazer isso, sabe, eu tive muito medo de perder você ― Ela disse enquanto penteava o meu cabelo para trás.

Eu engoli em seco essa informação, mas assenti.

― Não pense que eu não percebo quando sua cabeça está fora de órbita e quando você está guardando algo que não deixa você dormir, você fica com os ombros curvados quando está estressada ― Ela disse descendo as mãos pelos meus ombros e apertando eles ― E fica com essa ruguinha entre os olhos quando está chateada ― Falou me olhando pelo espelho ― São aqueles pensamentos sobre Melinda? Você ainda sente que tem culpa sobre o que aconteceu? Está tendo aqueles pensamentos sobre se machucar de novo?

Eu desviei meus olhos e minha mãe se ajoelhou ao meu lado, segurando o meu queixo.

― Você sabe que não foi sua culpa, não é? Já falamos sobre isso...

Eu apenas assenti

― Você precisa me contar o que está deixando você assim, olha para mim filha...

Eu levantei meus olhos apenas o suficiente para ela.

― Eu não posso...

― Você pode me contar qualquer coisa, não ouça essa voz ruim dentro da sua cabeça, eu sei que às vezes ela ainda fala essas coisas para você, que você nunca vai ficar bem, que você machuca as pessoas e que o que houve com a sua amiga Melinda foi culpa sua, mas não é verdade, nada disso é verdade.

Eu apenas assenti.

― Você não precisa me dizer, só assentir, com a cabeça, se você não consegue falar, sim?

Eu assenti.

― Tem algo que está deixando você triste de novo? Não é?

Eu assenti.

― Triste a ponto pensar que vai machucar a gente se você contar?

Eu balancei a cabeça positivamente.

Minha mãe suspirou.

Eu comecei a sentir as lágrimas escorrendo por minhas bochechas.

― Triste a ponto de pensar que estamos melhores sem você? E de querer se machucar?

Eu apenas fiquei sem silêncio, cutucando as minhas cutículas em carne viva.

― Ei não quero que você faça mais isso com os dedos, estão muito machucados, olha isso filha ― Minha mãe disse me mostrando as minhas mãos machucadas ― Quando você ficar ansiosa quero que arranje outra distração, venha falar comigo, sempre que quiser, não faça mais isso com os seus dedos, entendeu? Achei que você tinha parado.

― Me desculpa.

― Não precisa se desculpar, olhe... Tem haver com Joseph? Com a namorada dele?

Eu apenas assenti.

― Mãe!

― Tem não é? Eu preciso saber, Joseph falou algo inapropriado?

Eu apenas fechei os olhos e assenti.

Minha mãe apenas suspirou.

― Joseph tocou você de um jeito inapropriado?

Eu arregalei os olhos.

― Não mãe, não tem nada a ver com isso, não foi nada disso, Joseph jamais faria uma coisa dessas.

― Joseph disse algo que magoou você?

― Mãe, eu não posso falar sobre isso.. É só… Eu vou ficar bem, prometo.

― Eu quero que você volte a ver Mason, mas não porque é a minha vontade, porque tem coisas que você não pode falar comigo, certo? Apenas pense sobre isso.

Eu assenti e sorri de lado.

― Eu amo você, você sabe disso não é? Que eu e seu pai amamos você e que você é importante, nossa vida não seria a mesma sem você, quando aqueles pensamentos sobre se machucar e pensar que estaríamos melhores sem você voltarem a sua cabeça, se lembre disso, você é amada, é importante, é necessária e o meu mundo é um lugar melhor porque eu tenho você, a melhor parte do nosso dia é quando eu e seu pai voltamos para casa para você e sua irmã, me entendeu? Sim?

Eu apenas assenti.

Logo depois de sair do meu quarto eu tentei me esconder na biblioteca para passar algumas horas tocando piano, mas a minha mãe não tinha os mesmos planos para mim.

― Não, nada de se esconder lá na biblioteca, você não comeu nada durante todo o dia.

― Mas...

― Sem mas, eu mando você obedece, isso não é uma democracia ― Falou arqueando a sobrancelha.

― Hey leprechaun ― Minha irmã saudou quando entrei na cozinha.

― Hey ST. Patrick, ouvi dizer que não podem usar celulares nem maquiagem no campus, o que vai fazer?

― Mamãe olha ela...

― Mamãe olha ela ― Imitei mudando minha voz ― Você começou.

― Comecei nada!

― Chega, às vezes parece que vocês duas tem cinco anos!

― Ela quem...

― Você tem dois ― Meu pai se corrigiu apontando para Malloney.

Eu comecei a rir alto.

― Podemos comer sem brigar como uma família normal? ― Minha mãe pediu.

― O que é isso? Normal? É de comer? ― Perguntei rindo

Os três começaram a rir alto.

― Sua idiota ― Malloney falou jogando o guardanapo de pano em mim.

Morgh e Mirella estão voltando, então nós vamos estar juntas logo e tudo vai ficar bem de novo e eu me sinto… Normal, parte de algo quando estou com ela, não são a minha família perfeita onde eu preciso me esforçar para me encaixar, onde eu sinto que eu preciso ser a melhor para merecer a atenção deles.. Com elas eu posso apenas ser eu mesma e isso é o suficiente.

Morgh me ligou na quinta-feira de manhã me dizendo que eles vão chegar na sexta à tarde, mas só vou poder vê-la no sábado de tarde, injusto, mas não há nada que se possa fazer.

Morgana é melhor do que todos os terapeutas por quem eu já passei, ela entende e se importa, Mirella, ah, o que dizer de Mirella Rodrigues, ela vê o mundo de sua forma totalmente única e me faz ver o mundo das formas mais loucas que existem e isso me faz sentir viva

Então na sexta de manhã minha mãe me informou que estávamos indo a o consultório do Dr Mason em um par de horas.

Não havia nada que eu pudesse fazer, apenas a ideia de que eu iria novamente a aquele lugar me dava crise de ansiedade e calafrios, porque antes de ser internada ver Mason era a última opção.

― Eu ainda vou ver Demétrio Mason?

― Você preferia que fosse com Sarah?

― Não… Eu não sei… Por que? Prefere que eu fale com Sarah?

― Não, é sua escolha, Mason, Sarah, eu apenas… Imaginei que você gostaria de falar com ela, sabe… Você é uma mocinha agora, pensei que gostaria de falar com elas coisas sobre… Você sabe, Joseph, você…

― Ah não mãe, isso… ― Eu olhei para fora da janela do carro ― Não existe Joseph e eu mãe, só… Somos amigos, eu nunca pensaria nele de outro jeito seria… Nojento e doentio e ughh ― Falei fazendo careta ― Podemos por tudo o que é sagrado não falar disso?

― Como preferir, mas quero que se lembre que essas coisas são normais, essas conversas, nós vamos ter que falar disso, você sabe.

― É sei, mas não agora ― Pedi.

― É, não agora ― Concordou.

Mamãe dirigiu até um endereço diferente do que eu me lembrava, agora o consultório do Dr. E da Dra. Mason ficava na parte leste da cidade, era um pequeno prédio de quatro andares de tijolos vermelhos, com um belo gramado e um playground em frente.

O interior parecia acolhedor, não era branco nem depressivo como antigamente, não haviam mais crianças pálidas com cara de quem está sendo atormentado por transtornos mentais, havia uma placa em preto e branco na parede escrito “WI-FI ZONE” Uma bela televisão e um Xbox.

Na recepção estava sentado em frente a um computador um senhor de 40 e poucos anos que começava a perder os cabelos, que me conhecia desde que eu tinha 11 anos.

― Esse não é um rosto que eu vejo todos os dias, olá senhorita Brown.

― Olá Charlie, bom, está me vendo agora, se estou aqui significa que as coisas não vão bem hein ― Brinquei.

― Brieanna ― Minha mãe repreendeu.

― Tudo bem, senhora Brown, é só a adolescência, então senhorita Brown, espero que agora as coisas fiquem bem, vou avisar Mason que você chegou.

Eu apenas assenti indo me sentar ao lado da minha mãe nas cadeiras de espuma azul.

Demorou apenas alguns minutos até que Charlie nos mandou entrar e o ruivo gigantesco surgiu na porta.

― Olá senhorita Brown.

― Com todo o tempo que nos conhecemos você pode me chamar pelo primeiro nome Demétrio.

― Está bem espertinha, como está Brie?

― Na pior, eu até fiquei de castigo, três vezes em dois meses, supera essa careca ― Falei divertida.

Mason e minha mãe começaram a rir.

― Gosto do seu bom humor para passar pelo castigo, vamos desenvolver isso e eu não sou careca.

― Está ficando ― Retruquei.

― Esse é o novo humor, se acostume, ela também aprendeu a xingar, preciso admitir, aprendi alguns palavrões novos ― Minha mãe falou.

― Zona de perigo ― Mason fez uma voz engraçada ― Você está xingando em casa hein, péssima ideia.

― Foi uma briga com Joseph.

― Muita informação, vamos devagar, por que você decidiu voltar a me dar a incrível honra de sua visita?

― Quem disse que eu escolhi?

― Touché!

― Eu pedi que ela viesse porque ela começou a fazer isso de novo ― Minha mãe disse mostrando meus dedos machucados ― O humor também anda bem oscilante, ela saiu de madrugada com Kyle, invadiram uma pista de skate, fumaram e beberam.

― Kyle não fez nada disso, só eu e os outros, esquece.

― Então deixamos ela ir a uma festa e ela brigou com uma garota, a namorada do Joseph por isso esse lindo olho inchado e essa cicatriz no lábio ― Minha mãe falou ― O motivo pelos quais ela anda fazendo tudo isso e por que ela andou brigando, são desconhecidos para mim, ela não dorme, não come direito, já que ela não se sente confortável para conversar sobre isso comigo ou Eleazar, decidi que ela viria vê-lo.

― Uau, é realmente, sua vida anda bem movimentada hein, o que mais me preocupou, não me leve a mal Olívia, mas todos os jovens acabam bebendo e fumando e fugindo de madrugada para aprontar, até certo ponto é saudável, o que me preocupou foi você não dormir e não comer, a condição para você voltar era que você não faria mais isso ― Ele disse apontando para os meus dedos em carne viva ― E que você iria manter uma alimentação saudável e dormiria.

― Não posso controlar as vezes eu fico ansiosa e acabo deslizando, nem estão tão ruins assim ― Falei escondendo meus dedos embaixo das mangas do casaco.

― Tudo bem, vamos conversar sozinhos agora, você pode ficar por aqui ou esperar na sala ao lado Olivia, Brie vem comigo, vou te mostrar um lugar muito legal que temos nesse prédio novo.

Mason seguiu comigo pelo corredor onde haviam várias fotos, certificações e desenhos das crianças com quem Mason trabalhava, nós entramos em um elevador e fomos até o último andar.

Eu comecei a morder o canto dos lábios e cutucar as minhas cutículas de ansiedade.

― Eu estou vendo você fazer isso, pode parando espertinha.

Mason abriu uma porta preta com uma tranca maneira que nos levou a uma grande sala com proteção acústica cheia de instrumentos, tinha um piano, algumas guitarras, ukulele, um banjo, dois violões… Uau.

― Seus olhos estão brilhando, preciso admitir, quando fiz essa sala eu estava pensando em você me lembrei de como música ajuda você a colocar para fora as suas emoções mais profundas e que talvez eu pudesse usar isso com outros jovens ― Mason disse tocando meu ombro ― Joseph e os garotos também tiveram essa reação.

Eu o olhei confusa.

― Sim, eles ainda vem me ver, duas vezes por semana, Joseph vem só uma vez, acha que todo aquele controle e estabilidade veio do nada? Todo mundo precisa de alguém para desabafar, vem, escolha algum instrumento.

Eu obviamente me sentei no piano e comecei a dedilhar uma peça de Beethoven.

― Não nada de coisas velhas, quantos anos você tem? 300 ― Mason me provocou.

Ele começou a tocar alguma coisa dos Beatles que eu não consegui reconhecer de imediato, mas logo o acompanhei.

― Você fala enquanto toca, por que não me diz por que quis sair de casa de madrugada ?

― Eu só precisava de um tempo, tinha acabado de voltar, isso foi depois de uma crise na casa dos Wenders, acho que não estava pronta para ir lá, são muitas lembranças e também foi depois de uma festa que nós demos, sabe, nos juntamos no jardim da mãe do Paul, levamos os violões, era meio que uma comemoração por eu estar de volta ― Eu parei de falar e continuei tocando don’t let me down.

― Um… Antes disso, no dia anterior, eu tive essa crise na casa dos Wender, eu já estava tendo pesadelos, então eu… Eu vi Aquelas coisas que não estão lá, como antes, minha cabeça interpretando as coisas errado… Eu já falei sobre isso

― E eu disse a você antes e vou repetir agora, quando você não dorme, seu cérebro tem esses pequenos blackouts, começa a ver coisas que não estão lá, está exausta Brieanna.

― Depois disso eu desmaiei, acho que tem haver com a exaustão, ou foi um ataque de pânico, então meus pais começaram a brigar por minha causa, então teve esse dia no jardim da mãe do Paul.

― Todos estavam lá? Paul, Kyle?

― É, Carrie, a namorada de Lucas, eu gosto dela, Também tinham alguns amigos da rua de Joseph e da minha rua, mas tipo, antes de ir para o jardim, Malloney me levou para a casa do Joseph, e aí nós dois tomamos café e ele ligou para todo mundo, mas então… Ele chamou uma garota, Helena… Elaine, eu não me lembro

― Joseph já me falou dela

― É só que… Eu queria que fosse como antes de Melinda morrer, eu e meus melhores amigos, e… Eu nunca havia visto essa garota, eu estava em um péssimo momento e Joseph nem me perguntou o que eu achava de chamar alguém desconhecido para me ver daquele jeito…

― Já pensou que talvez Joseph precisava dela naquele momento?

Eu parei de tocar.

― Por que você sempre faz parecer que eu sou egoísta?

― Essa é sua consciência e não a minha ― Mason disse dedilhando no violão sem me olhar ― Possivelmente foi o que aconteceu, Joseph precisava dela naquele momento, talvez precise dela e pronto.

― Esse não é o ponto.

― Então é tudo sobre você hanm?

― Não, não é isso.

― Então por que essa situação desencadeou as outras? Sem meio termo, seja direta, sabe que comigo não precisa ficar dando voltas Brieanna, não sou seus pais, nem vou te deixar de castigo.

― Joseph chamou essa garota e ela ficou me tratando super mal e ele nem fez nada.

― Então é disso que se trata? Joseph não ter defendido você? Você não tratou ela mal primeiro? Vamos lá, conheço você, uma desconhecida não convidada por você chega do nada...

― Eu não preciso dele para me defender e talvez eu tenha mostrado um pouco de descontentamento, mas foi de forma muito polida e não é esse o ponto.

― Então o que é?

― Você quem tem as respostas, me diga você doutor.

― Desculpe, se você está atrás de respostas, do caminho mais fácil, não vai conseguir comigo, eu não tenho respostas, apenas as perguntas certas, as que você não consegue fazer a si mesma, as respostas estão aí dentro, você só precisa encontrar e aceitar elas.

― Foda-se isso Mason, não pode dar uma de mestre dos magos da psiquiatria quando eu preciso da sua ajuda.

Ele deu uma risada alta.

― Isso, raiva é melhor do que a apatia das últimas vezes que nos vimos.

Conversamos sobre minhas crises no tempo que nos restava e Mason tentava me convencer sobre a medicação.

― Você não faz nenhum sentido careca.

― Talvez na próxima, baixinha, vamos, já acabou o seu horário, te vejo novamente daqui dois dias, nem tente fugir, sei onde você se esconde e vou te buscar, lembre-se disso.

― É o fim mesmo ― Reclamei.

Nós dois seguimos pelo corredor e descemos pelo elevador e eu encontrei minha mãe novamente na sala de espera.

― Então, como foi? ― Minha mãe perguntou sorrindo esperançosa.

― Mãe, não pode perguntar ― Falei baixo.

Ela fez uma careta.

― Preciso combinar com você os horários dela, Olívia, quero ver essa mocinha três vezes por semana ― Mason falou.

― Ah não careca, três vezes é o mesmo de antes, eu estou bem melhor, não precisa tudo isso.

― Brieanna ― Minha mãe reclamou.

― O que?

― Olha o respeito com o DR. Mason

― Está tudo bem Olivia, só quero ver você três vezes por semana porque sinto falta de falar com você baixinha.

― Qual é Demetrio...

― Tudo bem, apenas por duas semanas vamos ficar com três vezes por semana, você fugiu de mim por um bom tempo, parceira, tem muita informação para colocar em dia.

― Que saco ― Falei cruzando os braços.

― Brieanna ― Minha mãe repreendeu.

― Desculpa, olha vou esperar no carro ― Falei pedindo a chave a minha mãe ― Está um saco aqui, ficou chato ― Falei e sai batendo os pés.