Moon Society: The lighthouse.

11 Capítulo nove: Eu Sou uma bagunça.


Notas iniciais
A história trata de transtornos mentais, exposição a grandes traumas, situações de crise, abuso de substâncias e álcool, não recomendado para o público mais sensível ou para pessoas com histórico de transtornos PODE APRESENTAR GATILHOS.

Eu realmente estava me saindo uma ótima mentirosa, eu consigo enrolar minha mãe com sorrisos, consigo enrolar Malloney, Lucas, Kyle e Joseph, eu quase consigo enrolar Morgana.

Meus pesadelos pioraram há algumas semanas, pioraram muito, então à noite eu fico ouvindo música alta nos fones, lendo, andando pela casa quando eu deveria estar dormindo, eu fico pensando em todo mundo, suas vidas, nas coisas que fazem por mim as informações que preciso esconder apenas para mim para não machucá-los, nas informações que eles estão escondendo para me manter sã e não consigo desligar, eu simplesmente fico pensando em tudo ao mesmo tempo.

Algumas semanas sem dormir cobraram seu preço, os efeitos foram devastadores, porém silenciosos.

Eu não me alimentei direito porque todas as vezes que tentei comer parecia que meu estômago iria virar do avesso, minha garganta estava fechando, minhas amídalas estavam tão inchadas que eu mal conseguia falar alto e claro, minha ansiedade chegou a níveis nunca antes atingidos, a ponto de me fazer sair da cama e ficar andando pelo bosque perto de casa até amanhecer porque se eu continuasse no meu quarto, ficaria muito tentada a me machucar gravemente.

Eu estou me esforçando para melhorar, eu realmente estou, acontece que eu simplesmente não consigo ver melhoras, tudo continua girando, é como se eu estivesse presa e um looping eterno de melhora, crise, decadência, felicidade, depressão, uma repetição eterna de um padrão tóxico do qual eu já deveria ter me livrado, eu não consigo sentir vontade de fazer nada.

Então essa manhã, uma crise de labirintite, uma crise de asma, que não acontecia desde que eu tinha nove anos e meu sistema imunológico já era.

Bem, mas agora estou indo para um hospital porque tem algo errado com minha cabeça e os meus pulmões.

― Brieanna! Desça aqui, papai chegou ― Malloney berrou do hall.

Desci devagar sentindo tontura, náuseas e me escorando nos móveis.

― Oi ― Falei baixinho me sentando nos degraus mais baixos.

― O que você tem ahnm? ― Papai perguntou colocando as costas das mãos na minha testa.

― Nada, de verdade, não... Não precisava sair do trabalho, já estou me sentindo bem melhor ― Falei tentando sorrir mas meus pulmões deram de um jeito desesperador.

― Precisa dizer a verdade, o que está sentindo?

De que adiantava mentir se eles me levariam de qualquer jeito?

― Eu estou enjoada e com dor de cabeça, estou com dor no corpo e quando eu respiro ― o Eu parei quando uma fisgada no peito me deixou ofegante ― Os meus pulmões doem ― Falei fechando os olhos.

― Está queimando de febre ― Meu pai disse preocupado ― Fique com ela um segundo, sim? ― Pediu a minha irmã.

Eu apoiei minha cabeça entre os joelhos para conter a ânsia de vômito que me atingiu em cheio.

― Você acha que vai desmaiar? ― Minha irmã perguntou com a voz embargada me segurando pelos ombros meio desajeitada.

Eu tentei focar meus olhos nos dela, mas focar no que ela estava tentando me dizer mas fui apagando gradativamente.

Malloney teve um segundo para segurar-me pelos ombros e impedir que meu rosto batesse no piso de madeira.

― Papai ela vai desmaiar! ― Malloney berrou apavorada.

Meu pai voltou rapidamente e me pegou no colo.

― Oli pegue as coisas da Brieanna, estamos indo para o carro.

Eu não me lembro de todo o percurso até o hospital, mas devo ter sonhado porque a minha irmã estava chorando e isso só podia ser alucinação.

Acordei com mãos me segurando, sirenes, luzes e correria, muito barulho e sendo colocada em uma maca.

― Pai ― Eu tentei me levantar, mas a dor insistente na minha cabeça e nos meus pulmões estava me deixando louca.

― Estou aqui, vamos cuidar de você, vai ficar tudo bem, não se preocupe.

Eu apaguei de novo e não tenho certeza de quanto tempo se passou até que eu acordei em uma cama, com olhos pesados demais para se abrirem totalmente, com o corpo muito dolorido para conseguir me levantar, pessoas em vestes brancas voavam para dentro e fora do meu quarto, eu senti que uma, duas, seis picadas de agulha por meus pulsos e braços.

Dessa vez eu já conseguia abrir meus olhos, meu corpo ainda estava pesado, mas não tão dolorido que eu não pudesse me sentar.

Meu quarto estava escuro, mas era um quarto branco, e tinha um aparelho irritantemente bipando minha frequência cardíaca e no ar um cheiro nojento de éter comum nos hospitais.

― Ei, fique deitada ― uma voz me disse.

Eu imediatamente abri meus olhos e me sentei.

― Quem é você, onde estão os meus pais? ― Perguntei sentindo um pânico me atingir.

Será que eu estou no San Catherine de novo? Eu estou de novo no hospital psiquiátrico...

― Onde eu estou?

― Ei calma, seus pais estão com o Doutor Tucker.

― Quem é você?

― Sou Jillian, o residente, estou acompanhando seu quadro.

― Sou Brieanna.

― Eu já sabia ― Ele falou divertido.

Eu dei de ombros me olhando para um inventário completo, eu ainda sinto dor de cabeça, dor no corpo, dor ao respirar, tenho duas agulhas enfiadas em mim e um tubo de oxigênio, a sensação de estar do avesso e de querer apagar para sempre.

― Quantos dias eu apaguei?

― Um dia e meio normalmente e mais um por conta da medicação.

― Me sinto esquisita

― É normal, não está totalmente curada.

Curada... O que diabos há de errado comigo?

― Curada, o que eu tenho?

Ele suspirou.

― Talvez devesse esperar por doutor Tucker, que é o seu médico.

― Acha que meus pais vão demorar?

― Acho que estão assinando suas ordens de exames, da cirurgia, não esperávamos que fosse acordar tão cedo.

― Exames? Cirurgia? Eu fiz uma cirurgia? Você pode por favor me pegar água? Eu estou morrendo de sede.

Ele sorriu e assentiu saindo do quarto e retornando em seguida com uma pequena garrafa e um canudinho.

Eu bebi todo o conteúdo da garrafa, apesar da dor na minha garganta estar desesperadora, eu sabia que precisava me manter hidratada, depois de alguns minutos meus pais e Tucker entraram pela porta do quarto.

Meus pais se sentaram nas beiradas da cama em ambos os lados e me beijaram no rosto.

― Bem vinda de volta, achei que tinha me prometido que não nos veríamos tão cedo...

― Erro de percurso, destino é uma vadia má.

― Brieanna ― Minha mãe repreendeu.

― Você apagou por dois dias, como se sente? ― Tucker perguntou.

― Ótima, de verdade, já posso ir para casa ― Falei , minha voz saiu afetada graças a dor ― Eu posso sair dessas agulhas? É uma sensação horrorosa e esse lugar tem um cheiro esquisito ― Choraminguei.

― Você não vai embora ainda, por isso vamos conversar sobre como as coisas vão ser, por que não diz como está se sentindo?

― Só com dor de cabeça, meus olhos estão ardendo e eu realmente gostaria de que retirassem essas agulhas e eu realmente preciso de oxigênio?

Tucker ouviu tudo atentamente.

― As agulhas ainda são necessárias. Estão levando a medicação para sua dor de cabeça que está causando a ardência nos seus olhos, vou aumentar a dose ― Ele disse mexendo em uma espécie de controle ligado a bolsa de soro ― O oxigênio é necessário porque você teve uma crise de asma, tem uma infecção nos pulmões, sua contagem de plaquetas deu um resultado bem menor do que deveria ser o normal, por isso o seu sistema imunológico está em colapso... A quanto tempo você não está dormindo e se alimentando Brieanna?

Eu me mexi desconfortável e abaixei os olhos.

― Precisa nos dizer, para que possamos ajudá-la, sabe disso, antes que as coisas fiquem realmente feias.

― Nada errado com meu sono doutor.

― Sabe que eu só quero ajudá-la, tem que ser honesta comigo se está tendo problemas.

― Nada errado ― Falei insistente.

― Quer saber o que eu acho? A fragilidade do seu sistema imunológico é causadora das coisas que estão acontecendo com seu corpo, os sintomas que você apresenta são os mesmos de um médico com tantas horas de plantão que o corpo dele tem um colapso, aposto o que quiser, sua memória está bem oscilante e suas habilidades motoras já estão começando a ser afetadas, segure isso ― Ele disse me dando um copo de água ― Seus sintomas parecem com o de médicos que ficam três semanas fazendo plantão direto, então deve ser mais ou menos o tempo que você está sem dormir.

Eu peguei o copo e tentei fechar os meus dedos simplesmente não me obedeciam.

― Vê? Se continuar assim, se não me deixar ajudá-la, você vai morrer, tem consciência disso? As pessoas morrem quando elas não dormem, aconteceu com pessoas jovens como você.

― Quatro semanas e meia, mas não foi direto, só... Eu dormi tipo umas dez horas nessas quatro semanas e meia.

― Por que você não está conseguindo dormir?

Eu dei de ombros.

― As vezes é por que tenho pesadelos, então não consigo voltar a dormir, outras noite é por que eu simplesmente não consigo parar de pensar em tudo e...

― Falou sobre isso com o Demétrio? ― Tucker perguntou.

Eu neguei.

― Por que você não me contou isso? ― Minha mãe perguntou ― Ficar todo esse tempo sem dormir não é saudável Brieanna.

― Deveria ter nos procurado, dito o que está acontecendo, eu teria trazido você a um médico antes de você ficar doente... Deus! ― Meu pai disse passando a mão pelo cabelo.

― Me desculpa ― Falei sentindo meus olhos encherem de lágrimas ― Eu achei que isso passaria logo é só que... Vocês já se preocupam com Malloney, ela é muito difícil e tem os hotéis, os empregados, a casa e eu não queria preocupar vocês nem... Eu não quero que me mandem de volta para aquele lugar porque não posso melhorar.

― Você é a minha filha, é da sua saúde que estamos falando, você acha que eu penso que você é menos importante do que os meus empregados, do que os hotéis e a sua irmã? Deus Brieanna, você é tão absurda ― Meu pai falou.

― Eu quem decide com quanto posso me preocupar, quando algo assim está acontecendo, você vem até mim ― Minha mãe disse ― Você me entendeu?

― Sim senhora, me desculpa.

― Não se desculpe, isso só me deixa mais furiosa com você.

Eu baixei os olhos e fiquei cutucando os meus dedos.

― Pare com isso ― Minha mãe disse segurando os meus dedos.

― E que história é essa de nós te mandamos de volta se você não melhorar, quem inventou isso?

Eu desviei meus olhos, não podia contar, eles ficariam furiosos com ela.

― Não precisa responder ― Meu pai falou.

― Não quero que você brigue com ela, não é culpa dela, ela tem razão, talvez eu devesse voltar, talvez eu não tenha conserto.

― Não existe essa coisa de que você não tem conserto, você não está quebrada ― Minha mãe disse.

― Mason está por aqui, você gostaria de falar com ele?

― Eu vou poder ir para casa?

Tucker me olhou.

― Vamos precisar retirar as suas amídalas.

― Por que? Elas sempre desincham... Eu posso ter hemorragia, eu já li sobre isso.

― Não fique pensando no pior, eu sou um bom cirurgião, você não vai ter hemorragia.

― Certeza? 100%?

― Brieanna, você não vai ― Tucker falou ― Preciso que você melhore antes da cirurgia, sua saúde está muito debilitada, estou tentado a te internar, porque estou com medo de que você continue...

― Eu vou fazer tudo direito, por favor, não quero ficar aqui tem um cheiro esquisito, eu não vou me sentir bem aqui.

― Brieanna...

― Eu juro, até durmo no primeiro andar, não quero ficar aqui.

― Tudo bem, mas preciso fazer outra bateria de exames com você, então prescrever os medicamentos e você vai falar com o Dr. Mason então talvez você pode ir embora.

― Não tem necessidade disso, não preciso ver o careca do Demétrio, qual é...

― Brieanna ― Meus pais repreenderam.

― Tudo bem, mas bem rápido, porque quero ir embora logo.

Eu fui colocada em uma cadeira de rodas porque eu continuava tonta, então, depois de choramingar muito para que me deixassem vestir as minhas próprias roupas, eu fui levada até uma sala muito fria, aparentemente eu estava normal, a não ser por minha frequência cardíaca que havia caído e minha atividade cerebral que estava baixa, depois fui até a sala onde eu deveria ter uma tomografia, mas quando eu me sentei na maca eu me senti muito enjoada e a enfermeira precisou me ajudar a voltar para a cadeira.

― Está se sentindo bem? ― A enfermeira perguntou.

Eu apenas neguei com um aceno.

Eu nem me lembro de como foi o percurso até meu quarto porque ainda estava confusa.

― O que ela tem? ― Minha mãe perguntou quando me viu na cadeira.

― Está apenas um pouco tonta ― A enfermeira a tranquilizou.

Apenas naquele momento eu entendi a gravidade da situação, porque meu quarto não era um quarto normal, era um quarto de isolamento e meus pais estavam com luvas e máscaras cirúrgicas.

― Minha cabeça está doendo muito ― Falei de olhos fechados.

Meu pai me tirou da cadeira e me colocou novamente na cama.

― Vou administrar um calmante, ela vai dormir longas horas, então podemos

― Você disse que eu poderia ir embora ― Choraminguei.

― Eu disse que talvez você pudesse, vamos ver como estará essa dor quando você acordar.

Meu pai segurou a minha mão.

― Vou estar de volta antes que você acorde. Eu amo você Boo Butterfly.

― Eu amo você ― Minha mãe disse beijando minha bochecha.

Eu contei de 10 a 0 e apaguei.

Depois que eu acordei novamente, e estava com a boca seca, meu quarto estava escuro e meu pai estava dormindo em uma poltrona reclinável, eu me senti péssima por meus pais novamente estarem passando por isso por minha culpa, simplesmente porque minha cabeça é fodida.

Tucker me mandou para uma nova bateria de exames na manhã seguinte, que nos revelou que a medicação estava dando resultado esperado, então, depois que voltei ao meu quarto onde o Dr. Demétrio Mason me esperava ansiosamente para a nossa conversa especial.

Eu me sentei na cama com Demétrio Mason me olhando preocupado.

― Como está se sentindo querida?

― Mason...

― Eu não deveria perguntar?

― Eu estou me sentindo bem melhor.

― Essa é a verdade? Ou é o que você acha que é o que queremos ouvir? Ou o que você vai dizer para poder ir para casa?

Eu não respondi nada, apenas abaixei meus olhos e fiquei cutucando meus dedos.

― Conheço você a tempo o suficiente para saber que esse é um gesto nervoso e quando você está mentindo ― Mason falou segurando as minhas mãos ― Achei que você iria se empenhar em melhorar, que iria ser totalmente honesta comigo, eu prometi não tratar você como criança, mas você está agindo igual a uma.

― Ai! ― Falei o olhando magoada.

― Estou falando sério, como não contou aos seus pais ou me contou que não estava conseguindo dormir? Que não conseguia comer?

Eu suspirei, não adiantaria nada ficar dando voltas com Mason, ele me conhecia, Morgana tinha razão, eu precisava me empenhar em melhorar e toda ajuda é bem vinda.

― Eu achei que iria melhorar, não queria preocupar vocês e não queria que me mandassem de volta ― Admiti.

Mason suspirou, balançando a cabeça.

― Sua irmã foi quem disse que você não deveria contar? Não é? Seu pai acha isso ― Mason me disse.

― Ela não tem culpa, eu... Eu estraguei a vida dela, eu não deveria ter nascido isso... Ela só queria que eu fosse normal, eu queria ser normal e então ela não teria que mudar de escola e não teria que dizer às pessoas porque a irmã dela foi para um hospício ― Falei chorando.

― Ei... Você se preocupa muito com o que é bom para as pessoas e esquece a pessoa mais importante ― Mason falou tirando um lenço do bolso do paletó e me entregando.

Eu continuei o olhando confusa, porque realmente não sabia do que ele estava falando.

― Você, Brieanna, você é a pessoa mais importante, você é a única pessoa com quem você precisa se preocupar, não que você não vá dar a mínima para as outras pessoas, Deus sabe que você não conseguiria

Eu entortei os lábios para a escolha de expressão que Mason decidiu usar e ele riu.

― Não vai mais colocar em risco seu progresso, sua saúde mental e sua saúde geral para deixar todo mundo feliz para parecer bem quando você não estiver, não importam as outras pessoas, não importa se vão achar que você é fraca, me entende? Precisa saber quando é o momento de pedir ajuda para que você esteja bem, saudável e consiga quando for a hora de lutar sozinha ― Precisamos trabalhar nesse hábito pouco saudável que você tem de se fechar em uma situação de conflito, como as suas crises de ansiedade e sobre essa coisa de ser normal... Criança, nós já conversamos sobre isso, você não é normal e nunca vai ser, você é totalmente especial e única, é a jovem mais brilhante com quem já tive o prazer de trabalhar Brieanna, sua cabeça nunca vai funcionar da mesma forma que a da sua irmã ou a das suas amigas, achei que tivesse sido claro quando eu expliquei isso aos seus 11 anos, ser normal é chato, é sem graça e normalidade não atrai nada, de ninguém é normal, pare de tentar se encaixar aos padrões delas, sim? Só vai fazer com que você perca as coisas especiais e bonitas que fazem você ser desse jeito, que fazem você ser quem é.

Eu refleti sobre tudo o que ele havia dito e percebi que era exatamente o que eu estava fazendo.

― Como eu vou saber quando...Tem essa versão terrível de mim mesma que gostaria de ser aceita e a outra que realmente gostou de tudo o que você ouviu, as honestamente, eu não consigo ver todas essas coisas especiais e bonitas que vocês veem, você, meu pai, tia Emily... Eu não sei fazer nada sobre isso, minha cabeça fica funcionando 24 horas pensando no que já aconteceu, no que está acontecendo agora e em todas as possibilidades de tudo o que pode acontecer com todas as pessoas ao meu redor e eu nem consigo passar uma semana sem uma crise de ansiedade, como eu vou enfrentar o mundo lá fora?

― Sua cabeça funciona assim porque você é muito inteligente, observadora e se concentra nos detalhes, precisamos condicionar sua energia e atenção para apenas uma coisa de cada vez, você sabe que a medicação te ajudava a focar... Mas eu sei que sua condição para a terapia era, nada de medicação... Mas saiba que isso apenas dificulta tudo.

― Quero conseguir o controle sem muletas ― Falei irritada ― Nada de medicação, não quero ser dependente disso.

― Nobre, mas um esforço desnecessário ― Demétrio observou ― Isso vai tomar muito mais tempo e esforço.

― Esforço não me assusta ― Falei ― O fracasso no entanto...

― Não vamos começar nada pensando na possibilidade de fracasso, me entendeu mocinha, de você só aceito o sucesso, porque sei que você pode fazer isso.

― Vou te decepcionar, sou boa nisso.

― Vamos fazer um trato ― Demétrio falou.

― Continue...

― Você vai para casa hoje, você vai se empenhar em melhorar, até a cirurgia, depois da cirurgia vamos trabalhar sobre as coisas que conversamos e, você acha que não vai conseguir, eu tenho certeza que você irá, se eu ganhar, você volta a sua antiga medicação, se você ganhar, nunca mais falamos sobre isso.

― Parece um bom acordo.

― É porque é, fechado?

― Fechado ― Falei apertando a mão dele.

― A propósito, quando você voltar para casa, não dê ouvidos a sua irmã, não é porque ela é sua irmã mais velha que está certa em tudo o que diz, você não tem que obedecer a ela integralmente, estou pensando em aconselhar ao seu pai que ela faça terapia, ela está arruinando seu progresso.

Eu fiz uma careta assentindo.

Tucker me liberou horas mais tarde com uma longa lista de recomendações, sem se expor a friagem, sem comer besteiras, como doces e frituras, sem comer sal em excesso, sem bebidas ou cigarros, sim meus pais contaram a ele sobre as minhas contravenções, sem se levantar por muito tempo, repouso absoluto, não gritar, não falar muitas horas, usar uma máscara cirúrgica porque meu sistema imunológico ainda está fragilizado e tomar a medicação no horário correto é extremamente importante, se minha cabeça e os meus pulmões voltarem a doer eu preciso voltar imediatamente.

A volta para casa foi terrível, todos os dias, eu estava me sentindo sufocada e deprimida, fiz questão de dizer isso a eles.

Minhas consultas com Mason agora eram em casa, , minha mãe liberou duas visitar, então Morgh veio na segunda, com Nath e Mith, Kaleb e April eles ficaram por cerca de uma hora, porque minha mãe os informou que eu não deveria me esforçar .

Na terça Lucas, Kyi, Joe e, surpreendentemente Arian vieram me ver.

Isso me deixou extremamente confusa porque nós duas não éramos assim, realmente tão intimas e eu não queria ninguém desconhecido me vendo desse jeito.

― Oi ― Falei sorrindo sem graça.

― Oi ― Disseram em coro.

― Não reparem meu look ― Falei apontando para a máscara cirúrgica no meu rosto ― Eu preciso usar quando tem muita gente porque estou com o sistema imunológico baixo e uma infecção pulmonar ― Expliquei.

― Tudo bem ― Lucas falou.

― Podemos abraçar? ― Kyle perguntou.

― Pode, não vou quebrar, parem de me olhar assim ― Falei.

― Você está bem mesmo? ― Joseph perguntou se jogando na minha cama ao meu lado esquerdo.

― Você é tão folgado ― Xinguei.

Eu suspirei o olhando, ótimo momento para perdoar as coisas que ele fez, porque eu não sei o que vai acontecer nessa cirurgia…

― Vocês só tem uma hora, ela não pode se esforçar.

― Eu prometo que estou bem ― Falei para ele.

Eu fiquei em silêncio olhando para Kyle e Arian.

― Ah, eu e Arian iríamos andar de Skate e eu achei que não se importaria se ela viesse comigo.

― Eu… ― Arian ficou em silêncio.

― Não, está tudo bem é só que… Eu estou doente e feia e não queria que ninguém me visse assim ― Admiti.

― Posso me sentar? ― Arian perguntou.

Eu apenas assenti e ela se juntou a mim, Kyle, Lucas e Joseph na minha cama.

― Você continua linda ― Ela falou segurando a minha mão, eu senti um choque quando ela me tocou e uma imagem de um arco de flores e um espelho veio até minha mente, ela fez uma careta engraçada e soltou minha mão meio sem graça ― É só que suas bochechas estão sem aquela coloração vermelha de sempre ― Falou rindo.

― Você está parecendo melhor do que quando fui te ver no hospital ― Joseph falou, de repente me senti desconfortável por ele ter me visto quando eu não estava acordada.

― Você pode entrar?

― Seus pais me deixaram eu fiquei com medo de...

― Eu morrer brava com você? ― Perguntei.

Ele assentiu.

― Eu nunca quis magoar você.

― Você já fez, não dá para desfazer, vamos seguir em frente.

― É, mas...

― Sem mas, Joseph, o mundo não gira em torno de você ― Falei rude.

― Para com isso ― Lucas falou socando o ombro dele ― Está estressando ela e ela não pode se esforçar, acho melhor você ir embora.

― Não, eu vou ficar em silêncio ― Joseph prometeu.

Eu e eles ficamos jogando conversa fora por um tempo até a minha mãe vir estragar tudo.

― Vamos crianças, Brie precisa descansar.

― Qual é mãe, não estou me esforçando.

― Mas está falando, não pode falar, tem que se recuperar o máximo para a cirurgia.

― Já disse que não quero fazer essa droga de cirurgia.

― Brieanna...

― É verdade.

― Precisa fazer, não posso mais aguentar você sempre ficando doente com isso.

― Ei, é uma cirurgia bem tranquila, Tucker é bom nisso, qual é ― Lucas falou.

― Ele retirou meus apêndices ― Kyi disse.

― Vai dar tudo certo, tenho certeza, posso ir com você se quiser ― Joseph falou.

Eu tentei não sorrir para ele, mas não consegui, minha ligação com ele sempre foi a mais forte.

Eu apenas assenti e ele me abraçou apertado.

― Vamos estar juntos, como sempre, vou estar lá antes, e quando você acordar da cirurgia vou estar lá também, okay?

― Tudo bem ― Falei baixinho sem soltá-lo realmente.

― Preciso ir boo ― Joseph disse beijando minha bochecha.

― Você vai…

― Vou voltar depois ― Ele confirmou sorrindo.

Eu apenas assenti.

― Vocês se importam se hunm… Nós duas nos falarmos, tipo… Sozinhas? ― Pedi a todos gesticulando para mim e Arian.

― Vocês nem são amigas, não sei o que você tem para falar com ela ― Joseph falou olhando Arian meio frustrado.

― Está bem, agora você está começando a me dar nos nervos, estou cansada do seu ciúme ridículo, o que vamos falar não é da sua conta, você deveria ter ciúmes da sua ruiva, não é? Elena…

― É Elizzy e você não está pensando direito porque está doente ― Ele falou baixo.

― Cala a boca e cai fora daqui já ― Resmunguei mandando Lucas e Kyle o arrastaram para fora.

Minha mãe arqueou as sobrancelhas e assentiu.

― Eu achei que você iria me ligar, tipo… Fazem semanas. ― Arian falou olhando para os próprios dedos.

― Me desculpa, eu… Eu não estava muito bem e eu não queria te dispensar, eu fico maio instável nessas horas.

― Eu entendo.

― Nós duas podemos fazer outra coisas juntas, quando eu estiver melhor ― Joguei.

― Promete? ― Perguntou se sentando na minha cama de frente para mim e segurando a minha mão.

― Eu prometo ― Falei sorrindo sem graça.

― Me senti muito mal por não poder ir ver você e seu amigo Gunther…

― Hunter, aquele era um show teste, na verdade, vamos tocar lá três sábados por mês, vão ter outras oportunidades ― Me animou ― Ele está juntando grana para uma faculdade de arte em NY.

― Isso é muito legal.

― É mesmo ― Falou.

Eu a olhei fixamente, era a primeira vez que eu a via sem maquiagem, os olhos dela tinham um tom de castanho acinzentado, eram lindos.

Arian se inclinou e um segundo antes de os lábios dela tocaram os meus eu entendi o que estava acontecendo e virei meu rosto, os lábios dela pressionaram minha bochecha por alguns segundos antes de ela se afastar.

Eu a olhei sem graça me dando conta de que essa é a segunda vez que ela quase me beija, não sei como me sinto sobre isso.

― Eu te vejo por aí, vou fazer questão de incluir você nas minhas preces.

Eu dei uma risada.

― Eu nunca imaginaria que você é religiosa, te vejo por aí, ou não...

― Pensamentos positivos, vai dar tudo certo nessa cirurgia.

― Espero mesmo ― Falei divertida.

Depois que ela saiu do meu quarto, eu me deitei e fiquei olhando para o teto totalmente confusa, nem me dei conta de que minha irmã havia entrado.

― Desde quando é amiga da O’Grady?

― Oi?

― Arianrhod O’Grady, não se faça de sonsa ― Mall falou.

― Ela é amiga do Ky na verdade, por que? Ela é meio... Estranha ― Admiti.

― Estranha é você, ela é problemática ― Malloney falou ― Eu não sei se ela é uma boa amizade para você, então fique longe dela ― Falou deitando ao meu lado.

Eu virei de lado para olhar minha irmã, pela primeira vez ela estava sem maquiagem, com olheiras fundas de manhã e ainda de pijamas.

― Por que?

Minha irmã suspirou passando a mão pelo cabelo.

― Porque... Porque... Porque as pessoas falam coisas dela... Sobre... Ela... Não quero nenhum idiota falando merdas de você ― Ela falou se sentando de novo.

― Mas você me disse que a opinião das pessoas não importa ― Falei confusa.

― Sobre você não importa, não sobre andar com uma...

― Uma...

― Apenas não ande com ela, sou sua irmã mais velha, eu sei o que é maior para você.

Eu apenas assenti.

― Tudo bem, vou ignorar ela se você acha melhor, mas eu realmente não entendi nada.

― Não precisa entender disso agora, só me obedeça.

― Tudo bem.

― Estou muito feliz e aliviada que você está bem porque... Eu não sei mais ser filha única e nós precisamos de você ― Falou desviando os olhos de mim.

Eu mordi os lábios para não chorar.

― O que quero dizer é que... Eu...

― Eu também ― Falei abraçando ela.

― Ei! Nada de chorar como um bebê, estou tentando me manter aqui... Você está bem, em casa, viu seus amigos, nada de chorar.

― Obrigada, você é uma irmã terrível, mas é uma amiga maravilhosa ― Falei .

― Você é uma irmã maravilhosa... Você esteve tão perto de... Nem se atreva a bater as botas.

Duas semanas em casa, foi o período mais longo e desesperador, a única coisa que me consola é que meus amigos fizeram questão de aparecer todos os dias para me animar, então mais duas semanas se passaram até o dia em que eu teria uma consulta pré-operatória com Tucker.

Se tudo estivesse bem com a minha saúde, a operação aconteceria hoje.

Joseph foi o que mais me visitou, não saia do meu pé por nada, me pergunto o que Elaine... Elena sei-lá-o-que achava disso, mas a verdade é que eu não dava a mínima.

Cumpri minha promessa a Lucas de consertar as coisas com Joseph e praticamente bati com a cabeça dele na parede enquanto perguntava que porra ele queria de mim, deixei claro que não aguentaria mais as imbecilidades dele, suas oscilações de humor e que não tinha nada além da minha amizade a oferecer, ele chorou feito uma garotinha.

Agora estava no carro com meus pais, Malloney e Joseph indo para o hospital.

― Quais são as chances de você nunca mais falar? ― Malloney perguntou.

― Malloney ― Meu pai repreendeu.

― Que coisa horrível de se dizer ― Minha mãe reclamou.

― Vamos dizer 50 a 50, eu estou mais preocupada em ter uma hemorragia que Tucker não possa conter ― Admiti.

― Pare agora, não vou deixar você entrar naquela sala de operação pensando no pior ― Minha mãe disse.

― É ciência, é exata, se Tucker está certo que está segurada, então será ― Meu pai falou.

― E se eu não puder mais cantar? ― Perguntei preocupada.

― Não vamos pensar assim ― Meu pai disse.

― Vai dar tudo certo e você vai sair de lá cantando feito um passarinho como sempre ― Minha mãe disse.

Chegando ao hospital eu fiz cada um dos exames que Tucker me pediu e então soube que tudo estava bem e me mandaram mudar minhas roupas pelo look terrível com a logo do hospital.

Eu estava agora deitada em uma maca com meus pais e de um lado e Joseph e Malloney no outro.

― Vamos estar aqui quando você acordar, vai dar tudo certo, vou rezar o tempo todo, eu amo você ― Minha mãe disse beijando minha testa.

― Em apenas quatro horas você vai estar acordada, é uma cirurgia simples, eu amo você ― Meu pai falou beijando minha mão.

― Vai ser como um passeio no arco-íris, não se divirta muito sem mim ― Joseph disse divertido ― Eu amo você.

― Ei, vai dar tudo certo, vou esperar ansiosa ― Malloney falou se inclinando para beijar minha bochecha ― Não se atreva a bater as botas e me deixar sozinha aqui pirralha, eu amo você.

Depois, eu apaguei, fiquei tendo um monte de sonhos, não sei quantas horas se passaram até que eu acordei em um quarto com meus pais, Joe, Mall e tia Em.

Meus olhos estavam ardendo e doloridos e minha garganta estava em chamas.

― Ei! Bem vinda de volta ― Minha mãe falou beijando minha bochecha.

― Você não deve se mexer muito ― Meu pai falou.

― Você parecia estar tendo um sonho maluco ― Joseph falou divertido e eu apenas assenti.

― Você não vai poder falar agora então arranjamos isso ― Malloney falou dando a mim uma lousa e uma caneta.

“ Quando você chegou e quando vai embora? “

Perguntei apontando para Emily.

― Cheguei pouco depois do início de sua cirurgia e vou embora na segunda de manhã.

“ Quando vou poder falar e ir embora? “

― Assim que Tucker te examinar saberemos.

“ Tenho uma pergunta importante “

― Qualquer coisa, pode perguntar ― Minha mãe falou.

“ Eu não posso xingar, mas então eu não estou tecnicamente xingando, estou escrevendo, então posso xingar? “

― Você é inacreditável pirralha.

― Boa ― Joe disse se acabando de rir e secando uma lágrima.

― Não pode xingar agora ― Em falou brava.

― Não pode xingar agora, nem nunca, seja por escrito ou oralmente ― Minha mãe disse divertida.

Depois que Tucker me liberou eu fui para casa com uma centena de restrições e recomendações, mas dali duas semanas e tomando todos os remédios eu poderia ter tudo normalmente.

Era o fim de semana dos pais e eu estava totalmente animada já que Emily estava aqui e eu poderia fazer algo com as minhas melhores amigas no mundo e a melhor tia que se pode querer ter.

Tia Em veio para o fim de semana do dia dos pais, uma vez que meus avós estavam viajando em uma espécie de 4ª lua de mel.

Eu queria sair com tia Em para comprar o presente do meu pai na melhor loja de instrumentos de Waterford, eu queria parecer ser tão bonita quanto minha irmã e Emily, deixei Malloney escolher o que eu vestiria, ela me colocou um vestido, dos que ela havia escolhido quando compramos roupas em Waterford, era azul com mangas curtas, ia até meus joelhos e tinha detalhes em preto, com meias finas e uma bota dela que ia até meus joelhos.

Quando eu cheguei a o primeiro andar elas me atacaram com um kit de maquiagem e um batom vermelho sangue, eu protestei e quase chorei, mas Emily me prometeu que eu poderia retirar tudo se eu não gostasse.

Quando Emily me estendeu o espelho eu fiquei com medo de ver o resultado, mas o que eu vi no espelho foi uma divisão entre uma Emily mais jovem e uma Jaqueline Rutherford com olhos verdes.

― Por que eu me pareço mais com você?

― São traços de família ― Em falou.

― Parece com Jaqueline Rutherford ― Malloney falou.

Eu fiz uma careta, não gostava de parecer com aquela mulher que abandonou meu pai ainda bebê em um orfanato.

― Não fala isso alto ― Emily falou.

― É tão injusto só eu me parecer com ela.

― Sua beleza é sua meu amor, não pense nessa mulher.

Eu, Emily e minha irmã tivemos um dia muito leve, fazia tempos que eu não me divertia com Em e Malloney.

― O que você vai dar a ele? ― Malloney perguntou enquanto nós andávamos pela loja de quatro andares que deixaria qualquer músico de queixo caído.

― Um violino, ele fez aulas, mas nunca comprou um, por isso vou dar um a ele.

― Eu nunca soube que ele tocava violino ― Malloney falou.

― Você não sabe muita coisa ― Falei .

Ela deu de ombros.

Um cara com cabelo e barba compridos nos atendeu, ele era gentil e sorria o tempo todo para Emily, ele estava usando uma camisa de uma banda com nome engraçado.

― Ele parece um pirata ― Falei a Emily e Malloney que riram discretamente, diferente de mim que me acabei de rir com minha própria piada.

― São bons instrumentos, os violinos ― Ele disse abrindo o mostruário ― Temos em diversas cores, vermelho, preto, dourado, roxo, cinza chumbo.

― Quero vermelho ― Falei .

Ele trouxe um violino na caixa, dois arcos, um jogo de cordas novas e uma bag para colocar ele.

― Espera eu pegar algumas partituras? ― Pedi a Emily.

Ela apenas assentiu.

― Quer que eu pague?

― Não, obrigada, eu tenho dinheiro ― Falei .

Ela apenas assentiu confusa.

Escolhi dez partituras de violino, duas novas de piano para mim e quando estava voltando vi um livro com mais de 100 músicas para violino.

Eu e Emily fomos até o caixa pagar.

― Você não deve andar com todo esse dinheiro ― Minha tia Em disse ― Por que sua mãe não abriu uma conta? É mais seguro andar com cartão do que dinheiro.

― Ela só me dá dinheiro, não pensei em conta bancária... Acabei de sair do hospício Em.

― Não fale assim... Quanto eles estão dando de mesada a vocês?

― Eu ganho mil libras...

― Eu ganho um pouco mais do que isso porque eu sempre gasto mais do que eu ganho ― Malloney falou.

― É por isso que eu vou administrar o Hotel no futuro ― Falei a Emily.