Montre - A Sinfonia do Tempo
16 Plateaux
Crawford estava atirando contra as folhas que o perseguiam sem nem se quer olhar para elas. Suas balas pareciam ser infinitas, o que era uma boa coisa, mas os tiros não estavam adiantando em nada: as folhas, aparentemente, eram indestrutíveis. Alistair e Louis vinham logo atrás, tentando não esbarrar em nenhuma árvore branca, já que a vegetação era afiada como lâmina.
– Porque essa folhagem demoníaca está me seguindo?! – reclamava Lorde Crawford indignado, sem parar de correr.
– Deve ter um motivo – respondeu Louis, que agora parecia estar se divertindo com a cena – E é melhor você adivinhar logo, porque elas estão ficando mais próximas a cada segundo!
Passaram correndo por entre as árvores e acabaram interceptando um fino rio dourado que cortava a floresta. As folhas perderam um pouco de distância quando Crawford fez a curva para desviar do rio, e a situação parecia mesmo sem solução. Alistair se perguntava se talvez sua própria imaginação não tivesse sido responsável pela floresta branca, mas ainda não havia encontrado uma razão para isso, e tampouco um meio de livrar o colega das folhas-navalhas.
Foi difícil acompanhar Crawford quando ele virou bruscamente outra vez, passando por cima do pequeno rio e saindo do outro lado da floresta. Esse movimento inesperado fez com que o mecanismo de uma de suas pernas — já injuriado da queda do trem — falhasse, fazendo o inventor perder um pouco do equilíbrio. O curto tempo que levou para retomar sua velocidade foi suficiente para que pelo menos três folhas conseguissem passar por ele, criando um corte consideravelmente grande em seu braço direito, e indo quebrar-se em mil pedaços ao chocarem-se com uma das largas árvores esbranquiçadas.
Alistair ia perguntar se Crawford estava bem, mas estacou quando viu o outro parar repentinamente. As folhas, entretanto, não diminuíram nem um pouco sua velocidade e Louis já esboçava um sorriso, quando Crawford rapidamente abaixou-se — fazendo os inúmeros cristais cortantes passarem reto por ele e baterem todos nas árvores a sua frente.
– Essa foi por pouco... – suspirou o inventor, recostando-se na árvore mais próxima, para voltar a respirar com normalidade.
Louis pareceu entender:
– Só um material tão resistente quanto às próprias árvores seria capaz de quebrar essas coisas... Bom para você, Lorde Crawford – e deu de ombros.
Alistair agora olhou em volta e sentiu que reconhecia os arredores de Greenshire naquela floresta. E talvez entendesse porque o lugar parecia tão hostil. Mas não ficou pensando muito sobre o assunto: depois de dar algumas explicações, disse de uma vez à Lorde Crawford que deveriam sair dali o mais rápido possível, e o outro rapidamente concordou, embora tenha praguejado contra Louis inúmeras vezes durante a história.
Estavam se levantando para retomar a jornada, quando viram Lady Catherine sair de trás de um grupo árvores. Louis provavelmente foi o único que compreendeu o que aquilo significava, porque antes que alguém tivesse tomado alguma decisão, com um estalo dos dedos, desapareceu de perto de Alistair e Crawford, e reapareceu ao lado de Catherine. Os dois rapidamente sumiram de vista, embora a mulher tivesse parecido consideravelmente confusa no pouco tempo em que estivera ali.
...
Quando Blackwood, Astaroth e Garrett chegaram a Clarence tudo parecia extremamente tranquilo; as pessoas conversavam nas portas das lojas, havia gente tomando café e lendo jornais, e um ou outro instrumentista tocando na calçada — nada fora do normal, a não ser talvez, por algumas nuvens um pouco mais escuras na direção oeste. E todas essas pessoas pararam o que estavam fazendo para observar o trio que passava: tinham se acostumado a prestar atenção em tudo acontecia na cidade desde que Sr. Laynon voltara contando histórias inacreditáveis sobre a Rosa Escarlate, e estavam todos preocupados que voltassem para pegá-lo.
O grupo passou correndo (não sem pouco estardalhaço) pela cidade e alcançou o castelo de Alistair em poucos minutos — onde então puderam perceber o motivo das nuvens. O portão do castelo estava aberto e quebrado, como se algo muito grande houvesse passado por cima dele e, de onde estavam, podiam ver que na beirada da sacada mais larga da construção, o relógio do Duque jazia despedaçado. Era bastante absurdo, mas não tiveram tempo para refletir sobre o que aquilo significava, pois logo ouviram um som estranho ecoar atrás deles e viraram-se.
Rhea ria uma risada aguda e sonora. Estava mancando e segurando o canto direito da cintura onde fora atingida por um dos tiros de Crawford. Howell e os outros colocaram-se em guarda:
– Se Rhea está aqui é provável que Victor e os outros também estejam, fiquem alertas – disse para os companheiros, mas não se fazia necessário avisar: todos já estavam preparados para serem atingidos por qualquer lado, embora Rhea andasse vagarosamente e não parecesse ser realmente uma ameaça.
– Ah, não... – falou ela, quando pareceu entender o Howell havia acabado de dizer. Sua voz soava como se estivesse atravessando metal – Não estão... Eu... o quebrei.
Hector estremeceu, e Garret conseguiu olhar para o céu a tempo de ver um relâmpago cortar as nuvens que ficavam cada vez mais negras e estavam tornando difícil a tarefa de enxergar Rhea de onde ela estava. A mulher continuou:
– Eu sou... mais rápida. – e tentou dar mais um passo à frente, mas sua perna machucada pareceu quebrar de vez e ela tombou, com o retinir de aço contra o chão. Ainda tentou dizer mais alguma coisa, mas caiu inconsciente onde estava.
Não tinham mais tempo para Rhea: já sabiam que ela não sairia dali tão cedo, e naquele momento algo estranho estava acontecendo. Os relâmpagos que até então estiveram emitindo trovões ruidosos, de repente se silenciaram e começaram a convergir para um único ponto, próximo ao jardim do castelo. Um conhecido disco branco surgiu no ar e puderam ver Catherine e Louis sair de dentro dele.
Hector pareceu ter alguma ideia porque imediatamente conjurou um disco semelhante, entrou nele e desapareceu. Howell fez sinal para Garrett fazer silêncio e os dois se aproximaram para poder ouvir o que os recém-chegados diziam. Catherine, descabelada, parecia próxima a ter um colapso:
– O quê... o relógio...não era?... onde... ah, sim, acha que sou idiota?... – não estavam próximos o suficiente para entendê-la e o barulho das trovoadas recomeçara, cortando suas frases ao meio. Talvez toda essa atividade mágica no mesmo lugar estivesse mexendo com a situação do céu... Catherine saiu de perto do mago e entrou pela porta quase derrubada do castelo. Louis então correu para a direita e desapareceu no jardim.
Howell e Garrett começaram a se mover.
...
Victor de Constance parecia ser realmente outra pessoa. Alistair e Crawford haviam o encontrado logo depois de começarem a seguir o caminho pelo qual Lady Catherine viera e o homem estava, no mínimo, muito perturbado. Mal terminaram de contar a ele sobre o tempo que dispunham para sair dali que Victor surtara. Olhava o relógio que carregava consigo com uma frequência absurda, e dizia algo como: “Isso deve estar quebrado, raios!”, ou em momentos mais extremos: “Nós vamos todos morrer aqui!”, o que não era nem um pouco animador para a situação em que estavam.
Tinham decidido seguir o curso dos pequenos rios dourados depois que encontraram uma porta de vitral fechada no lugar em que as pegadas de Catherine terminavam. De acordo com Crawford, o ouro podia ser uma indicação de boa fortuna, e talvez da saída. Victor já estava resmungando novamente (“Só mais quinze minutos, seus imprestáveis”) quando finalmente encontram a nascente do rio – que, por desventura, dava em outra porta de vitral completamente lacrada.
– Será que já passamos do tempo? – pensou alto Alistair – Talvez estejam bloqueando as saídas de propósito...
“Passamos do tempo”, entretanto, fora uma escolha infeliz de Alistair para se expressar, pois Victor, que já estava impaciente, lutando para ficar no mesmo lugar, finalmente perdeu as estribeiras:
– Passamos do tempo?! Eu herdei a fábrica de relógios Chamberlain! De relógios, ora essa! Nunca passo do tempo! Vocês é que são estúpidos demais para acharem uma solução! — Victor continuou dizendo coisas do tipo enquanto pegava sua arma e atirava freneticamente contra o vitral. Era difícil dizer se estava mais preocupado com ficar preso ali ou simplesmente se lembrar de ter estourado o tempo de alguma coisa — ou ambos os casos. Como suas balas parecessem ser infinitas também, a porta só parou de receber impacto quando o homem se cansou de atirar.
E quando finalmente desistiu, não havia sequer um risco nos vidros coloridos — o vitral parecia se transformar em líquido quando recebia os tiros, e havia engolido todas as balas que atiraram contra ele. Quando Victor parou por fim, a porta começou a cuspir de volta os projéteis, que saiam coloridos, de acordo com a tonalidade do vidro por que passavam. Uma bala vermelha explodiu em uma das árvores:
– A maldita porta está atirando de volta! – gritou Crawford que reconheceu o projétil explosivo semelhante ao de Amaranth, ao mesmo tempo em que empurrava Victor para longe de um tiro de deixar inconsciente que a porta acabara de cuspir.
– Cinco minutos! – berrou Victor, levantando-se e pondo-se a correr. Outro tiro transformou o chão logo atrás deles em água.
A porta ficava cada vez mais longe, mas os tiros alcançavam distâncias infinitas e só paravam ao bater em alguma coisa. Algumas explosões, mesmo quando não os atingiam, chegavam a jogá-los alguns metros para frente. Quando a porta finalmente parou de disparar já haviam percorrido quase todo o caminho de volta ao local onde viram Catherine desaparecer com Louis. Caíram ao mesmo tempo, ofegantes, mas Victor parecia inconsolável:
– Ótimo! O tempo acabou! – e atirou seu relógio com tamanha força em uma das árvores, que o objeto se espatifou em mil pedaços.
...
O relógio do Duque estava despedaçado, mas era impossível que alguém, a não ser um mago suficientemente poderoso, fosse capaz de fazer algo assim. O céu ficava cada vez pior, relampejando e trovoando sobre um fundo púrpuro e negro. Catherine segurava nas mãos a lingueta do relógio que encontrara facilmente no castelo e olhava para os pedaços de madeira e metal a sua frente. Precisava consertá-lo, e sabia como fazê-lo. Pôr o relógio de pé novamente não seria tão difícil quanto torna-lo indestrutível, e ela só precisava que o objeto durasse o tempo necessário para girar a lingueta... Então, percebeu que havia alguém a observando e virou-se: era Lenore.
O vento estava tão forte e carregava tanta poeira que era realmente difícil enxerga-la — mas Catherine poderia reconhecer sua antiga colega em qualquer lugar. Os cabelos prateados de Lenore esvoaçavam e seus olhos azul-escuros brilhavam por trás deles.
– O que veio fazer aqui? – resmungou Catherine com desdém – Achei que tinha mandado você e De Winter para tomar conta de Howell – suspirou – Bem, mas já devia ter suspeitado...
– Eu vim, Catherine, porque Winter está ocupado. Mas, ah – disse, vendo que Lady Catherine esboçava um sorriso – não me subestime. Nunca me envolvi nessas coisas, mas não significa que não seja capaz.
– Uma ameaça? – Catherine concluiu seu sorriso – Vamos ver...
Lady Catherine virou-se com enorme rapidez em direção ao relógio e dizendo alguma coisa inteligível apontou para as peças espalhadas, que no mesmo momento, juntaram-se todas próximas ao pedaço principal.
Lenore estava prestes a fazer um movimento em resposta, quando de súbito foi jogada para trás. Uma figura humana acabara de se materializar, fazendo com que quase tudo ao seu redor fosse lançado em outra direção com a circulação do vento. O céu pareceu ficar ainda mais furioso.
...
“Achar uma carta? Só pode estar de brincadeira!”, Garrett vinha praguejando alto enquanto procurava pela porta do castelo de Alistair que poderia leva-lo a biblioteca. “Por acaso está tentando se livrar de mim só porque pareço velho?”.
Howell havia dito que iria averiguar o que ocorrera com o relógio enquanto daria a Garrett uma tarefa importantíssima: Alistair provavelmente teria guardado uma carta que recebera de Catherine em algum lugar do castelo, e era imprescindível que Garrett a achasse, e logo. O mecânico já havia procurado em alguns quartos e na cozinha, e imaginou que talvez, por ser de papel, pudesse estar na biblioteca.
O prédio estremeceu quando alguma coisa extremamente pesada pareceu cair no topo do castelo e Garrett suspirou de alívio, quando, quase ao mesmo tempo encontrou a porta para a biblioteca. Entretanto, sua opinião mudou drasticamente ao perceber que quase todos os exemplares estavam jogados por todos os lados, e havia papéis espalhados por toda parte. Achar uma carta ali seria uma tarefa impossível.
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