O castelo de Alistair era realmente grande. Contava com uma porção de salas, quartos e salões, e não era muito difícil se perder por alguns momentos entre todos aqueles corredores. Lilet havia entrado em uma ala empoeirada do castelo, que parecia não ser usada há um bom tempo. As amplas janelas do corredor onde estava davam uma vista muito clara do que acontecia na sacada, e as janelas da passagem anterior mostravam a entrada do castelo sem obstruções — o que fazia daquela ala um bom lugar para se ficar, caso alguém quisesse apenas assistir o que estava se passando do lado de fora, sem precisar tomar partido em nada.

Lilet não queria só assistir as coisas sem tomar partido em nada, mas era exatamente isso que estava acontecendo enquanto ela procurava por um corredor que pudesse a levar de volta para a entrada do castelo. Havia visto tudo desde quando Rhea chegara, saindo do portal. Tinha visto a mulher derrubar o portão principal e arrastar o relógio para a sacada, e depois despedaça-lo com a ajuda de alguma coisa parecida com um colar. Lilet tentara alcançá-la, mas acabara voltando para onde havia começado e só pôde chegar a tempo de ver, pelas janelas, Catherine e Louis se aproximando e encontrando o relógio quebrado. De Rhea não havia mais nem sinal.

Viu Louis voltar para o portal. Viu Hector voltar para lá também. Viu Garrett, Victor de Constance, Howell e os outros entrarem no castelo, mas ainda não havia encontrado ninguém lá dentro. Só conseguia ouvir um estrondo de vez em quando, o murmurinho das pessoas que ainda estavam aglomeradas no portão, e agora, de onde estava, conseguia ver algo que a incomodava imensamente: Catherine ao lado do relógio totalmente reconstruído. A mulher de cabelos prateados que estivera tentando impedir aquilo parecia não ter sido de muita ajuda, e Lilet sentia que precisava rumar para lá o mais rápido possível, mesmo que não tivesse ideia do que fosse fazer quando chegasse.

Caminhou mais um pouco para ver-se novamente em um corredor conhecido. Estaria andando em círculos? Não era possível que o lugar fosse tão grande. Virou-se para trás para calcular de onde tinha vindo, quando sentiu algumas gotas de água caírem do teto.

– Está chovendo aqui dentro? – disse para si mesma.

– Também não entendo... – ouviu alguém responder, e rapidamente virou-se na direção do som, bem a tempo de reconhecer Alistair.

– Alistair?! O que faz aqui? – exclamou, ainda surpresa.

– Eu moro aqui, ora – respondeu ele, dando de ombros – Mas parece que não estou conseguindo encontrar o caminho para minha própria sala de estar...

Lilet não sabia dizer se aquilo era realmente algo fora do comum, já que podia imaginar Alistair se perdendo dentro do castelo com grande facilidade, por isso perguntou:

– Quer dizer que não sabe o caminho de volta?

Alistair pôs a mão na cabeça e olhou pelos corredores, parecendo um pouco indignado:

– Naturalmente que sei – disse – Não é tão complicado, na verdade. Tenho certeza que se pegássemos aquele corredor das cortinas azuis, — apontou — chegaríamos diretamente à entrada, mas parece que acabo sempre saindo em um lugar diferente quando tento passar por ele.

Lilet olhou para onde ele estava indicando e percebeu que ela mesma tinha acabado de sair dali — era justamente aquele corredor que dava uma boa visão da sacada, o que ajudava a tornar a situação ainda mais incômoda.

– E toda essa água? – perguntou ela em seguida, olhando para o teto – Não parece que está chovendo lá fora, embora o céu não esteja muito bonito... – disse, mas estava falando sozinha, já que Alistair havia sumido novamente. “Francamente...”, pensou.

A garota ia dirigir-se para a passagem das cortinas azuis outra vez quando percebeu Alistair voltando pelo corredor à sua direita.

– Não disse? – reclamou ele – Há algo muito errado por aqui!

– Sim – respondeu Lilet de mau-humor – Catherine acabou de refazer o relógio e parece que não há ninguém para impedi-la; não sabemos o que aconteceu com os outros, não conseguimos nos localizar dentro desse castelo, e como se não desse para piorar, está chovendo aqui dentro! É quase como se essa chuva tivesse começado propositalmente para...

Lilet ia dizer mais alguma coisa, mas acabou interrompendo a si mesma quando se lembrou:

– Ah, não... Alistair, temos que correr!

...

Há muito tempo, nos primórdios da Ordem os Séculos, seus únicos poucos integrantes se resumiam a Oliver Blackwood e seu irmão Howell, Lorin Maverick, Eleanor Lillywhite, Catherine Rosenthal e Nerina Vholes. O grupo havia se formado das maneiras mais improváveis, mas só depois da entrada de Eleanor é que a organização havia começado a tomar forma. Assim, os seis integrantes passaram a procurar incorporar os outros Séculos, o que mais tarde resultaria na formação da Ordem que ficou conhecida no ataque à Mansão.

Depois de algumas pesquisas, Oliver concluíra que o provável número de Séculos existentes se igualaria ao número de horas do dia: vinte e quatro, e a partir disso criou uma numeração para designar cada integrante, começando por si próprio. Essa numeração arbitrária mostrou-se equivocada alguns anos depois, quando começaram a associar os números, não mais com o relógio, mas sim com o próprio Duque, o que significava que haveria, na verdade, vinte e cinco séculos e cada um deveria receber uma numeração de acordo com o desenvolvimento de características específicas. Howell foi o primeiro a receber um título, O Tempo, e consequentemente se tornou o Século Primeiro. Oliver, A Fortuna; Catherine, A Esperança e Nerina, o Medo, foram os que vieram em seguida. Nem Lorin nem Lenore tiveram títulos durante um bom tempo.

Depois de reunidas as informações, o grupo começara a procurar por toda a parte por histórias de pessoas incomuns. Uma dessas histórias havia ocorrido em uma pequena vila, nas fronteiras de Verre. As pessoas do lugar estavam falando sobre um demônio que assombrava o vilarejo e existiam relatos dos mais diversos tipos: desde indivíduos que foram à loucura, atormentados por visões terríveis, até crianças que juravam ter cavalgado em cometas, por isso era bastante complicado definir quais depoimentos tinham mais relevância que os outros.

A investigação ia de mal a pior e teria sido abandonada se, em uma noite, Nerina não tivesse avistado o tal demônio. Era uma figura solitária recortada em um céu de chuva, e não ficou visível por mais de um minuto. No outro dia, a Ordem finalmente havia encontrado algo em comum entre os vários relatos: em todas as vezes em que o demônio fora avistado, chovia. O que tornava o fato mais curioso ainda, era que a pequena vila se localizava em uma área bastante ensolarada e seca, o que fazia da chuva um evento não muito comum. Mas, a partir dos depoimentos, era possível supor que chovera pelo menos duas vezes por semana nos últimos meses.

A Ordem decidiu então esperar por uma próxima noite de chuva, que não tardou a chegar. O povo da vila insistiu para que levassem com eles um rapaz grandalhão, de nome Lucas Dunne, como uma espécie de guarda-costas, e como não parecessem aceitar um não como resposta, o jovem teve de acompanha-los na investigação. Estavam separados em pontos diferentes da vila, e Lucas havia ficado sob os cuidados de Lorin, quando puderam ouvir um grande estrondo vindo da igreja da cidade. Lenore e Howell eram os que estavam mais próximos e foram os primeiros a chegar. As portas de madeira do templo haviam sido derrubadas e uma sombra se movia por trás do altar. Howell, se aproximou da entrada e tentou perguntar:

– Quem está aí?

A sombra, em resposta, se moveu muito rapidamente em direção ao teto e desapareceu. Howell e Lenore lentamente começaram a entrar e perceberam que, mesmo dentro da igreja, ainda chovia. Quase todas as velas estavam apagadas e a maior parte da luz vinha difusa de algumas tochas do lado de fora. Lenore ouviu um barulho de passos rápidos no fundo da igreja, e estava pensando em falar para Howell que ambos deveriam esperar pela chegada dos amigos, quando percebeu que ele não estava mais lá.

Uma sensação de terrível vazio apoderou-se dela quando constatou que estava completamente sozinha, e teve um calafrio quando um vento gelado, vindo do fundo da igreja apagou as tochas da entrada. Havia apenas duas velas tremulantes no altar, e todo o resto estava imerso na mais completa escuridão. Lenore deu um passo para trás, na tentativa de voltar pela porta de entrada, mas sentiu os pés vacilarem: era como tivesse se esquecido de um degrau, ou que o chão tivesse simplesmente deixado de existir, e ela não pôde continuar para tentar descobrir. Estava insegura sobre se mover, mas um som de madeira quebrando no seu lado direito colocou seus pensamentos de volta no lugar.

Lenore avançou cautelosamente em direção ao altar e percebeu que a figura se encontrava agora muito próxima a uma gravura na parede do fundo, quase invisível em meio às sombras, e pela primeira vez, pensou que talvez a criatura pudesse estar mais assustada do que ela mesma:

– Qual o seu nome? – perguntou, com a voz menos confiante do que tinha planejado que fosse. A sombra não se moveu – Porque invadiu a igreja?

A chuva ainda caia e o ambiente estava muito frio. Lenore sobressaltou-se quando a criatura virou lentamente a cabeça e ela pode distinguir seus dois olhos vermelhos como rubis brilharem na escuridão. O ser não disse nada, mas Lenore pôde ouvir claramente em sua cabeça, várias conversas de aldeões sobre igrejas, e entendeu que a Sombra havia ido para o único lugar onde imaginava que pudesse conseguir ajuda. Lenore sentiu-se aliviada:

– Viemos para aju...

Não teve tempo de completar a frase, entretanto. De súbito toda a escuridão, a chuva e o silêncio se dissiparam, e ela pode ver Howell acertar o ombro esquerdo do monstro com uma lança improvisada. Ouviu-se um som muito alto, quase como um rugido.

– Howell, pare! – Lenore gritou o mais alto que pode, mas já era tarde. A sombra havia se levantado e tornara-se extremamente alta. Howell fora jogado para trás e sua lança derretia-se e desprendia-se do ombro do demônio conforme ele ficava ainda maior.

– Ele está criando ilusões, Eleanor, não se engane! E vá para trás! – gritou Howell de volta.

Lenore não ouviu, estava com uma gaita nas mãos e já havia aprendido a controlar raios com bastante habilidade. Ia impedir que alguma coisa ruim acontecesse, quando, antes que ela pudesse agir, algo ruim aconteceu.

Lucas Dunne apareceu na porta da igreja carregando uma enorme besta, Catherine vinha logo atrás. Tudo aconteceu rápido demais – a flecha foi lançada em direção ao coração da Sombra, que grunhiu de dor quando foi atingida. Lorin chegou a tempo de impedir que o rapaz lançasse uma segunda flecha, tirando a arma de suas mãos, mas Lucas estava com outros problemas. Sua própria sombra havia se estendido rapidamente até juntar-se com a do demônio que ainda cambaleava. A madeira, já frágil da igreja, cedeu quando a criatura tentou apoiar-se nela. Mesmo caído, o demônio teve tempo de lançar um olhar para o rapaz assustado, e a sua sombra já conectada com a do monstro, repentinamente começou a subir, chegando rapidamente até a altura do joelho do jovem.

– Não se mexa! – gritou Lorin, mas o rapaz caiu, com os ossos da perna aparentemente quebrados. A sombra continuava a estender-se.

– Pare com isso! – gritou Lenore, que não sabia o que fazer. Não queria que ninguém mais se machucasse, mas tudo que tinha era uma gaita. O demônio respirava com imensa dificuldade e o som era horrível. Lenore estava olhando para tudo que conseguia na esperança de encontrar algo com alguma utilidade, quando percebeu que as sombras de Catherine, Lorin e a sua própria, também haviam começado a subir. Então fez a única coisa que podia, tocou.

O som da pequena gaita se espalhou por todo o local, abafando até a respiração ruidosa do demônio e o choro de Lucas. Ela queria que a criatura entendesse que estava tentando ajudar, e pôde perceber que as sombras começavam a recuar com a melodia. Estava quase sorrindo novamente quando Howell, que estivera procurando uma arma, conseguira acertar mais uma vez o demônio com um pedaço de candelabro, cravando o objeto em seu peito. A criatura soltou um rugido alto e desvaneceu-se por completo. As sombras de todos voltaram ao normal e Catherine correu para socorrer o rapaz machucado, mas Lenore estava incrédula:

– O que foi que você fez?! – disse quase que desesperadamente.

– Se não o tivesse atingido todos teriam morrido! – respondeu Howell.

– Mas as sombras estavam baixando!

– Não estavam – disse ele – Estava criando ilusões...

Lenore olhou para trás na esperança de que alguém mostrasse algum apoio, mas Catherine já havia saído, e a expressão de Lorin indicava que ela concordava com Howell.

O desfecho do caso deu-se da seguinte maneira: uma vez que a Ordem tinha sido incapaz de dizer o que a Sombra realmente era, julgaram que se tratava de algum tipo de magia que dera errado, e mesmo com os corações pesados, partiram da vila. Lucas foi deixado num hospital em uma cidade grande para se recuperar e Nerina, que havia sido atingida por uma bala de um aldeão enquanto procurava pelo demônio, ficou bem em poucos dias. Oliver, que havia ouvido o tiro e ajudara a mulher, pouco sabia sobre o que havia acontecido. Lenore, entretanto decidiu abandonar a Ordem, extremamente rancorosa de Howell e das pessoas que não confiaram em seu julgamento. Não se sabe o que fez até ter decidido instalar-se na igreja branca com De Winter, ficando lá por muito tempo. Foi só quando a Ordem já estava quase inteiramente completa que ela recebeu seu título: Vigésimo Segundo Século, A Determinação.

Lenore já havia esquecido isso há bastante tempo, e não nutria mais nenhum tipo de sentimento, negativo ou positivo, em relação a Ordem. Mas Catherine, Howell e Oliver ainda se lembravam, e qualquer um dos três poderia apontar as inúmeras semelhanças entre a Sombra e o Vigésimo Terceiro Século, De Winter.

E agora quase todos os antigos membros estavam reunidos novamente, depois de muito tempo, na sacada do castelo de Alistair.