Montecchio
1 O sorriso da Flor.
Notas iniciais
Ariel detestava quando isso acontecia, toda vez que seu pai chegava em casa, de madrugada, bêbado, era um pesadelo. Ele queria fazer alguma coisa, mas para um garoto de sete anos é impossível, tudo que restava era ficar escondido embaixo da cama, ouvindo os gritos de sua mãe, rezando para que isso algum dia parasse. A primeira vez que ele tentou embater uma discursão ele tinha apenas nove, mas o pai descontrolado o bateu, deixando uma marca em seu rosto por uma semana. Fruto de um casamento desafortunado, nunca foi uma criança muito sociável, mas desde pequeno era um mentiroso nato, manipulava os seus colegas e professores, mas nunca trilhou um caminho obscuro.
Apesar de toda a sua frieza, ele era uma criança, e como toda criança ,ele necessitava da atenção de seus pais, mas não era assim que acontecia. O sonho de sua mãe quando jovem era ser uma famosa atriz de teatro, mas o mais próximo que chegou de um palco, foi quando um cliente encomendou um figurino para uma peça que acontecera, tentava ganhar sua vida como costureira, mas por tantas frustrações em sua vida, acabava se drogando quase todos os dias. Já o seu pai era um viciado em apostas, apostava a sua alma em jogos de azar, nunca teve planos reais, era desleixado e não tinha propósitos, se meteu várias vezes em encrencas, e acabava bebendo para esquecer seus problemas. Era um canalha, gastava o único dinheiro que a sua mulher ganhava com apostas, bebidas e prostitutas. E quando chegava tarde em casa, descontava em sua mulher, a batia, molestava e a torturava fisicamente e mentalmente.
Quando tinha 15 anos, após chegar em casa, descobriu que o seu pai havia sido assassinado por uma gangue local. Aquilo foi um choque. Por mais desgraça que aquele homem trazia para sua família, era o seu pai. Mas também foi um alivio, isso significava que a dor de sua mãe iria parar. Sua mãe também ficou em choque, e entrou em depressão algumas semanas depois do ocorrido. Seis meses depois, três dias antes de seu aniversário de 16 anos, Ariel encontra a sua mãe afogada na banheira de casa, com um bilhete de despedida de seu lado.
Sozinho, sem saber o que fazer, Ariel passa o seu primeiro aniversario completamente sozinho. Algumas semanas depois ele se mudou para outra cidade, para viver com sua tia Alice.
Naquele momento, ele jurou, que nunca iria formar uma família. Pois na sua opinião o que corrompia as pessoas, são exatamente as outras pessoas, o contato humano.
*
Ariel era inteligente e calculista, dono de uma beleza formidável. Por todo lugar que passava atraia os olhares de jovens moças que estavam por perto. Nos seus primeiros meses na escola, e na cidade nova, era vitima de assédios por parte de professores. Era aluno exemplar, sempre tirava notas máximas. Mas nunca conversava com ninguém, não fazia amizades, nem mesmo com os profissionais da área. A cidade em que morava, os boatos corriam rápido, todos sabia do ocorrido, cochichavam pelos corredores, e olhavam com pena para ele. Algo que ele odiava. Nunca esquecera dos olhares das professoras quando ele chegava com marcas roxas no braço quando criança.
Ariel já tinha um ciclo naquela cidade pacata, acordava, tomava café da manhã, ia andando para escola, voltava para a sua nova casa, mas certamente não considerava um lar, apesar que nunca teve um. Normalmente não falava nenhum “bom dia”, nem mesmo apara a sua tia. Passava dias sem abrir a boca para falar nada.
Na volta para casa, sempre passava por meio de um pequeno bosque, onde havia um lindo banco, debaixo de uma arvore. Um lugar perfeito para ele, adorava ir para lá e observar os pássaros, e ler trechos de seu livro preferido “Romeu e Julieta”. Por mais que ele não acreditasse no amor, era o livro preferido de sua mãe, que lia para ele antes de dormir. Ela sempre contava que o sonho dela era interpretar a bela Julieta em uma peça. Toda vez em que lia esse livro ele se sentia mais próximo da sua mãe. E toda vez que pensava nela, ele sentia um aperto em sua garganta.
*
Quando Ariel acordou aquela manhã, ele se sentiu diferente, não sabia o que era, apenas diferente. Levantou, tomou banho, escovou os dentes e se arrumou para ir para escola. Olhou seu reflexo no espelho, e ajeitou seus cabelos pretos no seu habitual gorro de lã, presente de aniversário de sua tia. Sentiu cheiro de panqueca vindo do andar de baixo, pegou sua mochila e desceu as escadas.
Sentados na mesa havia Alice, o marido dela, Fábio, e a filha do casal ,Melissa. Eram aparentemente uma família feliz. Alice, uma jornalista de sucesso na região, era a irmã mais velha de Amanda, a mãe de Ariel. É uma mulher doce e otimista, fazia anos que não falava com sua irmã mais nova, quando descobriu a tragédia. Fábio, um homem sério e com um espesso bigode, mantinha uma firma de advocacia. E Melissa, uma criança de uns 10 anos, rechonchuda e rosada, e tinha a língua mais suja para uma menina daquela idade.
- Bom dia, Ariel! – Alice disse ao ver o sobrinho.
-Bom dia – Respondeu para a surpresa de todos, fazendo o seu tio engasgar. Talvez até para a surpresa de Ariel, ele não costumava ter diálogos com as pessoas, tentava ao máximo não falar muito.
Comeu a sua panqueca com calda, e seu suco de laranja em silencio. Enquanto Alice contava os planos do dia para Fábio, que lia com desdém um jornal com uma xicara de café. E Melissa tagarelava solitariamente, e cantava uma música um pouco depravada para idade. Pediu licença e saiu da mesa. Ao caminho da porta, esbarrou com Forbes, o cachorro da família. Um buldogue francês tão gordo quanto Melissa, o cachorro passava tanto tempo parado, que diversas vezes Ariel tropeçou nele pensando que era da mobília.
O caminho para a escola foi normal, como todos os dias. Ele gostava de observar as pessoas, e já sabia da rotina de alguns vizinhos. Como a Dona Maria, uma senhora de idade da rua 23, todos os dias, no mesmo horário ela regava as suas plantas, e pegava o jornal. Na mesma rua, o Doutor Hugo, o médico da cidade, casado e com filhos, colocava o lixo para fora, mas sem antes de observar pela janela a bela vizinha, que sempre saia do banho, e esquecia de fechar a cortina. Cada pessoa tinha seu fetiche, o seu jeito.
*
As aulas foram monótonas, Ariel sempre se sentava na última cadeira, da primeira fila, era um bom lugar para observar o comportamento dos seus colegas de classe. Existia grupos espalhados pela sala de aula, como em toda turma.
Havia os superdotados, três ou quatro alunos “CDF” que sempre sentavam nas primeiras fileiras. Os ficção-cientifica, viciados em todo tipo de high tech, estórias de abdução alienígenas e fãs de Doctor Who ou Star Trek. As pink, normalmente “garotas-frescas”, patricinhas e loiras, onde todo santo dia usavam roupas e assessórios cor-de-rosa. Outros grupos como: O clube literário, reggaeton, rockeiros, desenhistas, atletas, músicos, e vários outros. E claro, as pessoas que se encaixavam em quase todos os grupos, os populares.
Ariel não se encaixava em nenhum desses grupos, nem mesmo no dos antissociais. Pois ele nunca dirigiu uma única palavra a ninguém. Já surgiu até o boato que ele era mudo. Quando o sinal tocou na ultima aula, Ariel levantou e se dirigiu a porta. Quando um dos Atletas, Jorge, nadador medalha de Ouro, aparece na sua frente.
-Ei, sereia. – Disse ele em tom alto, fazendo os seus companheiros rirem. – O peixe comeu tua língua?
Ariel tentou passar por eles, mas acabou sendo empurrado. Ele detestava essa de “sereia”, maldito filme da Disney. Apesar que ele adorava a película. Suas coisas caíram no chão, inclusive o seu livro de “Romeu e Julieta”.
-Olha,- começou outro atleta, Rafael, — A princesinha gosta de contos de fadas. “Oh Romeu, me beije!” – disse ele, fazendo uma voz esganiçada, imitando uma voz feminina, enquanto Rafael e Jorge fingiam um beijo, de novo fazendo o grupo rir, e indo embora.
Ariel respirou fundo e juntou suas coisas quando uma mão pegou o seu livro.
-Eu amo esse livro! É o meu preferido – Disse uma garota. Iris D’Fleur. Ele já tinha observado aquela garota antes. Uma menina linda e simpática, inteligente e culta. Amiga de todas as pessoas, e bela como uma flor. Por isso o seu nome “Fleur”. Seus cabelos eram longos e castanhos, assim como os seus olhos. Uma pele pálida e um sorriso que parecia abraçar o mundo. Ela se ajoelhou e entregou o livro em suas mãos. – Você está bem? Esses meninos são uns babacas, mesmo! Não se preocupe, eles são assim o tempo todo. – Sorriu e se levantou. – E a propósito, eu amo seu nome, é muito bonito! – Ela deu um beijo na bochecha dele, fazendo-o corar.
— Obrigada, Iris. – Ele falou. A garota fora tão gentil, não havia como ser grosso com ela.
— Não há de que! – Sorriu. – Ah, você pode me chamar de Fleur, se preferir. Te vejo amanhã?
-Acho que sim.- Ele retribuiu o sorriso.
— Nunca te vi sorrir, você devia sorrir mais vezes, tem um belo sorriso. – Ela disse. E saiu. Ao contrário dele, ela sorria o tempo todo, como uma criança com um doce.
No caminho para casa, parou no habitual banco, e tinha algo mais para pensar. No sorriso de La Fleur.
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