Monsul Academy: Verdades
20 Christabell Holter: 20ºCapitulo
“A morte apenas se torna má, se tu a tornares má. Não tenhas medo se eu morrer. Aqui estarei sempre, apenas basta fechares os olhos e sentires. Não te deixarei, nunca.”
Capitulo 20
Os olhos de Aires tinham uma força que ninguém conseguia entender. Ele possuía todo o mal dentro dele. O mal que ele possuiu durante anos.
–Estou errada?– Pergunto e vejo suas mãos se cerrarem.
–Não. Melanien estava grávida de mim. Era meu filho. E eles o mataram.- Aires ri sem qualquer humor no rosto.- Só que lhes correu mal, porque com a morte de meu filho, mataram também a mulher. Argos jurou matar-me naquele dia. Mas nunca conseguiu.
–Para quê derrotar a família Real?–Cristo pergunta.
–Porquê?– Aires ri.- A família Real é a maior possuidora de magia do mundo. A sua magia pode derrotar milhares num segundo. Eu quero esse poder. Eu quero o trono que é meu por direito.
–Não tens direito a nada aqui.– Digo e Aires ri me olhando.
–Agora é a minha vez de contar uma história minha doce Christabell. O pai de Argos ainda era um homem mais cruel que ele, sabias? O Rei Zael “Coração Cruel”.– Aires ri.- A maior parte apenas o chamava de Cruel, mas nunca á frente dele, claro. Mas adiante. Zael estava noivo com a Princesa Lianora de Handroi, mas uma semana antes do casamento, ouve uma batalha contra as Slamfires e ele foi capturado. Slamfires são mulheres poderosas, é difícil resistir-lhes. Até mesmo impossível. Numa simples noite vieram muitas mais. Zael ficou preso durante um ano. E foi nesse ano que eu nasci.
Aires sorri para a minha surpresa mas desvio os olhos para meu pai que parecia tão apático como eu.
–Quando Sazien, minha mãe, soube ficou radiante, nos sonhos daquela mulher Zael era seu para sempre. Ela até lhe pediu para ele abdicar do trono e ficar com ela para sempre, mas ele não aceitou. Isso deixou minha mãe mal. E na mesma semana eu quase morri. O poder dentro de mim era forte demais para meu coração. Entre o desespero e a dor, minha mãe implorou a Zael para me salvar. Ele ainda pensou em negar, quase que o fez, mas o fez dizendo que era a última coisa que ele faria por ela, que me salvaria apenas para ela não sofrer.
–Então…
Tentei juntar as peças mas era demais para mim.
–Foi Zael que me tornou o que sou hoje, Christabell.
–Mas não faz sentindo! Tu eras um bebé, devias permanecer bebé para sempre, não?
–Não, a magia dele não chegou a tanto. Eu cresci até aos meus 17 anos, mas depois, quando consegui aprender o suficiente de magia que herdei de meu pai, me imortalizei. Afastei-me de todos e vivi durante dois anos numa aldeia qualquer. Foi onde descobri que meus filhos quando nascem tornam-se iguais a mim. As mulheres humanas morrem, logicamente, mas meus filhos não. São fortes, quase tão destrutíveis como eu. Depois as coisas foram correndo com os tempos. Eu tenho um filho, Azal, se o vires dizes que ele é meu pai, mas é contrário. A magia que apliquei em mim passa para meus descendentes, mas não é certa. Eles podem ficar com uma idade superior a mim ou mais novo que eu. E claro que são mais fracos. E tornara-se nos Strigois que conheces hoje e que adoras matar.
–E Zael?– Pergunto.
–Zael voltou para Árgon conhecido como um herói. No ano em que ele foi mantido preso tinham proclamado um primo para Rei, mas a coroa depois voltou para Zael e ele se casou com Lianora. Na qual teve filhos, sendo um deles Argos. Por isso tu vês, Christabell, o trono é meu por direito, mas nunca me o deram, porque oficialmente, Argos era o herdeiro legítimo e eu um mero bastardo. Eu!– Aires bate com força na parede invisível.- Eu que possuía mais poder que aquele reles de meu irmão! Eu é que devia ter sido o rei desde o início!
–Matas-te teus sobrinhos.– Sussurro e Aires ri.
–Aqueles garotos eram tão estúpidos como meu irmão. A única que servia para alguma coisa ainda era Anastácia. Mas infelizmente, ela teve de morrer também.- O sorriso de Aires se tornou obscuro, nojento.
O quadro da parede tremeu conforme Anastácia se enervara. Mas isso apenas fez Aires rir.
–Matas-te sangue do teu sangue.– Cristo diz enjoado.
–Argos também matou meu filho!– Aires grita batendo de novo na força.- Aquela criança me iria levar ao trono e Argos a matou. Nada mais justo que matar sua última filha e então ele. Infelizmente não consegui matar o filho de Anastácia.
–Nem conseguiste fazer mais nada depois disso.- Meu pai se prenuncia e Aires se vira para ele.
–Eu ainda estou vivo.
Revirei os olhos e o fiz contorcer-se no chão. Seus gritos de dor soaram pela capela e quase que podia ouvir Anastácia rir.
–Sim, mas isso vai mudar.
Levanto-me do trono e caminho até ele sorrindo. Encolhido de joelhos no chão, Aires levanta o rosto e me olha.
–Vais mesmo matar teu tetra-tetra-tetra-tetra tio?
Minha resposta é seu grito de dor mais uma vez. Aires rosna e coloca a mão na cruz que brilhava com força. Meu coração saltava de dor. Eu tinha que o matar, mas sabia que isso significaria que eu também sofreria por isso.
–Achavas mesmo que eu ia ser tão estúpida ao ponto de trocar minha família por ti?
–Família.- Aires fala olhando-me.- Uma palavra forte para alguém como o Rei não achas? Ele nunca quis saber de ti. Queres saber uma verdade, pequena? Ele nunca mandou procurar.
–Isso é mentira!– Meu pai grita aproximando-se Aires ri levantando-se com dificuldade.
–Foste um Rei muito mau, Leonardo. Teu pai ficaria desiludido.
–Cala-te!
–Porque não lhe contas a verdade, Leonardo? Oh, espera, eu sei porquê! Christabell nunca te perdoaria. Quer dizer, a menina nem tua filha queria ser, nem o trono queria assumir, e muito menos isso aconteceria se soubesse que tu nunca a procuras-te.
Franjo minha testa e olho meu pai que parecia vacilar. Sua postura alta e forte tremia.
–É verdade?
–Eu procurei-te.– Meu pai sussurra olhando o chão.
–Sim, ele procurou, mas parou de o fazer quando soube que tua mãe se escondeu com Connor Holt. Ele pensou que tua mãe o estava a enganar. Que tu eras filha de Connor e não dele.- Aires explica sorrindo.
–Você sempre soube onde nós estávamos?
Ele tentou falar mas se calou e apenas assentiu.
–O orgulho é mais forte que o amor.- Aires ri e meu pai o fuzila.- Quando descobriste que Katherina nunca te tinha mentido, hem, Leonardo? Quando viste a garota pela primeira vez, não? Christabell Holt, o sobrenome do cara que mais odiavas no nome na menina que possuía o mesmo rosto que a mulher que amavas. Deixa-me adivinhar, descobriste a verdade quando viste teus olhos nos dela.- Aires ri.- Deixa-me dizer-te uma coisa, meu sobrinho, os olhos dela são muito mais bonitos que os teus.
–Não me chames disso.– Meu pai rosna e Aires sorri cruzando os braços sobre o peito.
–Que momento de família tão amoroso, não achais?
–Cala-te.– Digo e ele me sorri.
–Para que fique esclarecido, meu amor, tu foste a mais bela rapariga que me apareceu na vida. Só é pena seres minha sobrinha.
Ergo minhas sobrancelhas e o vejo cair ao chão com dor.
–Palerma.- Bufo e ando até Cristo e Bia cruzando os braços.
–O que vais fazer agora?– Bia pergunta-me.
–Acabar com isto.
–Chris, nós vamos achar outra solução. Estivemos a falar os dois e não vamos deixar que te aconteça nada.– Cristo diz e seguro suas mãos sorrindo.
–Eu já escolhi meu destino, Cristo.
–Christa, não faças isso.- Bia me implora.
–Fazer o quê?
Viramo-nos para Liam que sorrindo me abraça segurando meu rosto com uma mão e beija minha testa.
–Liam.
–Ei, sua maluca. Para a próxima é melhor contares-me tudo. Meu coração já não aguenta mais isto.
–Precisava que parecesse real, desculpa.
–Tudo bem.
Sorri olhando seus olhos verdes que eu amava. Senti-o aproximar-se como se uma corrente nos puxasse um para o outro. Nossos lábios mal se tocaram quando Cristo limpou a garganta nos separando.
–Não quero ser rude, mas nós estamos aqui.- Fala sorrindo e ri-o deitando minha cabeça no ombro de Liam.
–Sim, e por falar nisso, porque eles sabiam?- Liam me questiona erguendo as sobrancelhas.
–Eles são Oráculos, Liam. Eu não lhes contei nada, eles viram pelas visões deles. Eu não tinha a certeza se eles viam ou não, mas rezei para que sim.
–Entendi.
–Ainda bem porque temos que acabar isto. Tirai toda a gente daqui.
Cristo e Bia assentem e saem para o público. Olho Liam que os via ir e bati-lhe no braço.
–Ai! Para que foi isso.
–Tu também seu preguiçoso.
–Eu quero ficar contigo.- Sussurra beijando meu pescoço me fazendo tremer.
–Liam! A sério, quanto mais rápido melhor.
–Ok, ok, ok. Mas depois és toda minha.- Beija minha testa e sai para o público também.
Suspiro e olho para Aires que me olhava com raiva. Como a boa rapariga que sou, deito-lhe o dedo do meio sorrindo.
–Que adulto.- Connor fala e ri-o o abraçando com força.- Minha princesinha.
–Desculpa, Connor, era preciso.
–Tudo bem, pequena. Não te rales com isso.
Segura meu rosto enquanto me sorri. Meu coração dolorido corou-se um pouco, mas temia por não o voltar a ver.
–Connor, sabes que eu te amo, né?
–Claro que sei, princesa. Eu também te amo.
Beijo seu rosto e olho a capela quase vazia.
–Tendes que sair todos.
–O que vais fazer?
–Acabar de uma vez com isto.
–Tu consegues.
Assinto sorrindo um pouco.
–Posso pedir-te um favor, Connor?
–Mas é claro.
–Toma conta das crianças por mim.
–Tudo bem, mas despacha-te.
Assinto e ele me pisca o olho sorrindo e saindo. Fiquei a ver a capela toda ser despejada e finalmente permanecer vazia. Cristo ia a fechar a porta mas se conteve abrindo-a de novo e me olhando. O receio em seus olhos era enorme.
–Eu não vou perder-te, Chris.
–Eu fico bem, Cristo. Vai.
–Christa…
–Eu fico com ela.- Liam apareceu por trás dele entrando de novo na capela.
Cristo olhou-me e então para Liam. Ele pareceu hesitar mas assentiu. Aproximou-se do loiro e lhe sussurrou algo que não entendi e só então saiu. Liam ficou a olhá-lo ir antes de se virar para mim caminhando.
–Que romântico. O mágico de quintas tentando proteger sua donzela sanguinária. Merece um livro.- Aires diz com nojo.
–E tu mereces morrer.- Liam contra-ataca sorrindo antes de me abraçar beijando minha testa.- Vamos acabar com ele juntos, meu amor.
–Liam, não. Eu quero fazer isto sozinha.
–Bell, eu posso ajudar-te.
–Eu sei que sim, mas preciso fazer isto sozinha.
–Bell…
–Não ouviste tua donzela? Ela não te quer.
Reviro os olhos e Liam bufa olhando Aires.
–Se ela não quer alguém é a ti.
–Olha aqui seu palhaço…
Aires não acabou, pois não o permiti. Forcei Liam a olhar-me olhos nos olhos.
–Sai daqui, Liam.
–Não vou, Bell. Cristo me fez prometer que não sairia perto de ti, aconteça o que acontecer.
–Cristo.- Bufo.
“Tinha de ser.”
–Liam, esquece o que Cristo te disse e sai daqui, por favor.
–Porquê? Lá fora ou cá dentro é o mesmo.
–Liam!
–Bell, esquece. Eu não vou.
Bufei olhando para o lado controlando meus nervos. Eu não queria gritar com ele, mas ele tinha de sair e não tardava nada eu ia explodir com ele! Então, só se soou a risada de Aires.
–Não entendes, pois não?
–Não entendo o quê?- Liam pergunta com nojo o olhando.
–Ela não te quer aqui, para tu não a veres morrer.
–Ela não vai morrer!
A afirmação de Liam não fez meu coração abrandar. Meus olhos captavam os de Aires que sorria por todos os lados. Ele sabia que meu ponto fraco era Liam, assim como eu sabia que o dele era o pequeno papel em minhas mãos.
–Não? Se eu morrer, ela morre. Como pretendes salvá-la disso?
Senti os olhos de Liam em mim mas não consegui olhá-lo de volta. Eu não sabia bem como lhe explicar mas… era verdade.
–Bell? Não é verdade, pois não?
–É complicado.- Limpei minha garganta.
–Complicado? Isto não é complicado é um absurdo!
–Liam…
–Diz-me que não é verdade!- Pediu firmemente segurando meu braço com força me forçando a olhá-lo.
–Não posso fazer isso.
–Como? Como é possível?!
–É simples, meu palerma.- Aires começou sorrindo.- Eu bebi o sangue dela quando a ataquei e dei-lhe do meu sangue a beber. Isso faz com que estejamos ligados para sempre. Por isso é que eu conseguia entrar em seus pensamentos.
–Então este era o teu plano o tempo todo. Morreres?- Liam sussurra depois de um tempo olhando o chão.
–Sim.
O vejo fechar os olhos e abanar a cabeça com força. Sua mão apertou meu braço com mais força quase me magoando.
–Não. Não. Não. Não. Não! Isso não vai acontecer.- Seus olhos verdes se abriram para mim.- EU não vou deixar que tu faças isso.
–É a única hipótese, Liam.
–Merda, arranjaremos outra. Mas tu não vais morrer!
–Lamento, Liam, mas Anastácia não aguenta com ele muito tempo.
–O quê?
Sua confusão foi resolvida quando eu inspirei e o lancei contra a porta para longe da capela. Talvez ficasse um pouco ferido, mas ficaria bem. Fechei as portas com força e virei-me para Aires.
–Vais mesmo acabar com isto?- Pergunta-me.
Pela primeira vez, sério. Nenhum rasto de divertimento ou raiva em seu rosto.
–Sim.
–Tens muita coragem para alguém como tu.
–Que queres dizer?
–Tua família tem muita história, Christabell.
–Minha família não é apenas a parte de meu pai. Tem minha mãe e Connor. As famílias deles, são a minha família também.
Os olhos negros da escuridão me olhavam sério, sem expressão. Eu desejava poder saber o que se passava dentro daqueles olhos. O porquê de eles serem tão rancorosos.
–Vais deixá-los a todos eles, apenas por mim?
–Sente-te comovido.- Sorri-o e ele sorri também.
–Pelo menos terei o prazer de morrer ao teu lado, minha bela Christabell.
Ri-o sem prazer algum e olho o papel lendo as pequenas letras escritas. Cada palavra lida era uma força tirada de meu corpo. Cada som proferido era a vida sendo sugada. Os olhos de Aires ficaram arregalados com a dor que o preencheu. Senti a capela toda tremendo. Pilares cedendo. Meus próprios joelhos cederam me derrubando no chão.
Soltei um último suspiro antes de proferir…
–O mal será derrubado e as trevas devolvidas ao inferno, agora!
A capela desabou. O único som era os gritos de Aires e até mesmo os meus. Vi de novo os olhos da escuridão me esperando, mas desta vez não eram os olhos de Aires. Eram de algo muito maior.
Os olhos da Morte.
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