Monsul Academy: Verdades
19 Christabell Holter: 19ºCapitulo
“Quando a verdade se torna verdade, não pode haver maior verdade que a própria verdade.”
Capitulo 19
A maior parte dos meus sonhos era com meus amigos gritando. Liam. Eles odiavam-me. Eu sabia que sim. Até era melhor assim.
–Alteza, está pronta?
Viro-me para trás e suspiro assentindo para Ilda. A única ali dentro que não me olhava com raiva ou nojo. Fora a única durante a semana que se passou, que sempre estivera aos meus lados, sem contar com as crianças. Aires desaparecia de tempos em tempos. Dizia que estava preparando algo especial para nosso casamento. Mal sabia ele que eu também tinha uma surpresa.
–Estou pronta, Ilda.
A velha mulher me sorri e me entrega o buquê. Eu mal conseguia respirar com o vestido de tão apertado. Mas valeria a pena.
–Então vamos. Vosso pai está á nossa espera.
Sai com Ilda até ao encontro de meu pai. Parado, olhando um dos retratos do corredor, meu pai, o Rei, permanecia com uma postura dignada de um Rei. Estável. Firme. Dura. Confiante. Como se não tivesse sido traído pela sua própria filha.
–Meu Senhor, a Rainha está pronta.- Ilda avisa e vejo meu pai suspirar antes de se virar para mim.
Seu olhar permaneceu em mim durante muito tempo. Seus olhos cansados como se não dormisse á horas, dias.
–De certeza que é isto que queres, Christabell?
–Eu sei o que faço.
–Muito bem. Eu confio em ti. – Estende-me o braço que eu aceito.- Estás linda.
–Obrigado.
O caminho até á capela era sinal de morte. Tenso. Morto. Até as flores pareciam querer fugir daquele ambiente. Ilda seguia atrás de nós calmamente. Meu pai olhava o caminho em frente sem se importar com mais nada. Eu… apenas desejava que tudo corresse como planeado.
Encontrámos as crianças no lado de fora da capela brincando. Só o riso deles me fez sorrir. Só me mantive firme por eles.
Assim que Gemma me viu a menina sorriu ainda mais e entendeu seus bracinhos para mim. Abaixei-me até ela e fechei meus olhos enquanto a abraçava.
–Estás linda.
–Tu também, princesinha.
Acaricio seus cabelos e olho Brade que sorria envergonhado.
–E aí, vossa alteza? Está pronto para entrar ao lado de sua irmã?
–Estou!
Brade fala com convicção me fazendo rir. Despenteio-lhe os cabelos e me levanto suspirando.
–Está na hora.
As portas se abrem e os primeiros a entrar são as crianças com Ilda atrás. A mulher ainda me sorri encorajando-me antes de entrar. Olho meu pai que me estende o braço e então pudemos entrar. A música radiava por toda a capela. Mantive meus olhos fixos na frente. Em Aires.
Não olhei para mais ninguém, se não para ele.
No centro da cruz vermelha, ele brilhava como o mal. Seu fato negro brilhava com as luzes que entravam pelas janelas. E seu sorriso combinava na perfeição com toda a figura negra dele. Sombrio.
A cada passo que dava podia sentir os olhos de todos em mim. Meu coração corroía por dentro. Talvez desistir não faço tão má ideia assim… mas então olhava Gemma e Brade. Era por eles que estava fazendo isto. Não importava as consequências.
Era a vida deles.
–Minha Rainha.– Aires fala pegando minha mão.
Meu pai se afasta sem dizer mais nada nos deixando sós naquela cruz vermelha. Olhava os olhos de Aires como se pudesse encontrar ali o meu caminho. Mas era impossível. Nada se via naqueles olhos negros.
–Pudemos começar?– O padre pergunta e ambos assentimos.- Meus irmãos! Hoje é um momento especial. Estamos todos aqui reunidos para unir este casal aos olhos de Deus. A vossa Rainha, hoje aqui proclamada, Christabell Elixa de Abnara Hamilton com o vosso futuro Rei, Aires Soir Balcon Schmotwez.
As palavras o padre foram soando. O sorriso de Aires sempre presente. Minha cabeça estava pesada, doía, e desta vez não tinha sido Aires.
–Quem tiver algo contra, fale agora ou cale-se para sempre.
Eu temia aquela frase. Temi ainda mas o riso cru que se ascendeu depois disso. Abaixei minha cabeça conforme Aires olhava na direção do público. Eu sabia que ele ia falar alguma coisa.
–Eu tenho. Mas isso não interessa, pois não?
–Pela primeira vez disseste algo de jeito, miserável.- Aires rosna e viro meu rosto para o de Liam.
Seu rosto belo estava duro, sujo, destroçado. Olheiras negras não tiravam sua beleza. Seus olhos verdes não mudaram um segundo que fosse. Ainda era o meu Liam.
Nossos olhos se encontraram e se enfrentaram. Parecia uma eternidade. Não faço ideia o que ele viu em meus olhos, mas algo o fez mudar aquela expressão dura. Passou a ficar… preocupado? Sim, talvez seja isso.
–Bell…Ele está a obrigar-te, Bell? Eu posso acabar com a raça desse cretino se ele estiver a obrigar-te a fazer alguma coisa!– Liam gritou a última parte tentando soltar-se das correntes.
Em vão.
Aires revirou os olhos rosnando. Ele ia até Liam mas o segurei.
–Não. Eu trato disto.
Aires sorriu e deixou-me passar. Meus passos eram contados por todos. Liam não tirava os olhos de mim e isso me deixava aflita por dentro. Até que parei á sua frente.
–O que vais fazer, hem? Matar-me?– Liam ri abanando a cabeça.- Não consegues. Eu conheço-te, Bell. Tu não consegues magoar-me sequer.
–Acaba logo com isso, Christabell. Temos de continuar a cerimónia.– Aires fala atrás de mim.
–Bell, diz-me a verdade. Tu não queres isto! Tu não o queres a ele! Tu não estás feliz.- Liam segura minha mão e me puxa para ele.
Naquele instante meu coração vacilou. Voltar a tocá-lo.
–Eu conheço a minha Bell.
Olhei nossas mãos. Meu coração ainda acelerava. Mal consegui prestar atenção no que sucedeu a seguir.
–Tira as mãos de cima dela!
O rosnado de Aires soou por todas as paredes. Ele tentou vir até nós mas algo o impedia. Aires estava preso dentro da cruz vermelha.
–O que é isto?! Que merda é esta?!
Liam, e todos os outros, o olharam confusos. Apertei sua mão trazendo sua atenção para mim.
–Eu disse-te para confiares em mim.- Sorri e o larguei indo até Aires.
Ele batia com força na força invisível. Não tinha hipóteses. Ele não sairia dali.
–Ei, querido. O que fazes aí?– Zombo e noto seus olhos negros cada vez mais negros e meu sorriso cada vez maior.
–Foste tu que fizeste isto?
–Eu? Tens a certeza?
–Guardas!– Aires grita furioso mas ri-o quando os seus homens Strigois caem todos ao chão, mortos.
–Parece que eles não te vão ajudar, hem?
–Como é possível!– Pergunta para si e sinto Cristo e Bia aproximarem-se de mim.
Olho para eles e sorri-o assentindo.
–Resultou.
–Ainda tinhas dúvidas?– Cristo ri e sorri-o o abraçando e lado.
–Alguém me explique o que se está a passar aqui!-
Aires exige e reviro os olhos soltando-me de Cristo e andando até ao trono sentando-me.
–Eu vou contar-te tudo. Relaxa. Então foi assim.- Dobrei meus pés debaixo de mim e sorri deitando minha cabeça de lado.- Era uma vez, um belo dia de verão quando um idiota qualquer pensou que podia controlar-me.… Ok, é mentira. Era inverno. Mas o idiota existia mesmo! E eras tu. Mas continuando. Eu sabia que estava a perder. Sabia que mais cedo ou mais tarde tu irias conseguir controlar-me de vez então… tive de arranjar maneira de isso não acontecer. Lembras-te no dia em que eles me apanharam na biblioteca? O livro? Tudo fez sentido para mim quando Kota falou nas 9 vidas de Alá. Se havia livro que tinha o feitiço para te derrotar, era um daqueles livros que vi quando estive de castigo ajudando na biblioteca. Os 55 livros.
“55 foi o que mais me chamou a atenção. Sr. Broner tinha dito que existiam 55 livros. Sendo assim, aquele era o último.
Folheio-o o livro até que minha cabeça começa a dor me fazendo gemer segurando minhas têmporas.
“-Para que precisas disso, minha Princesa? Lembraste que não precisas de derrotar-me? Nós os dois somos um só. Não é assim?
–Sim.- Sussurro num suspiro e sinto a dor se ir.
“-Coloca isso no lugar, Princesa. Não precisas disso. Não vais matar-me, vais casar comigo. Não é?”
–Claro que sim. Mas precisamos acabar com a Realeza. Como pensas fazer isso?
“-Eu tenho um plano, meu amor. Não preocupes essa tua cabecinha linda. Na hora saberás.”
–Como quiseres, meu Senhor.
–Bell?
Levanto meus olhos encarando os verdes de Liam e logo em seguida a de todos os outros. Um a um me olhava, confusos, questionadores.
–O que estás a fazer aqui?
A surpresa fez-me levantar com força deitando a cadeira ao chão. Pude sentir Aires saindo da minha cabeça então aproveitei e arranquei a folha sem eles se aperceberem.
–Pensei ter descoberto alguma coisa.
–E descobriste?- Jack pergunta ansioso e nego.
–Não. Não encontrei nada. Foi uma má teoria.- Digo fechando o livro com força.
–Não te preocupes. Havemos de o encontrar.- Bia me diz carinhosa e sorri-o assentindo.
–É.”
Tiro o papel da manga do vestido e o desdobro-o olhando as pequenas letras pintadas. Olho Aires e balanço o papel.
–Tará. A tua vida está nas minha mãos.
–Dá-me isso.– Rosna cruelmente e sorri-o deitando-me para trás no trono.
–Não queres ouvir o resto da história? É muito mais engraçada.– Ele bufa e ri-o.- Então, eu tinha o feitiço, mas tu ainda conseguias entrar em minha cabeça e saber tudo o que eu pensava, então não podia lê-lo. Tive de me forçar para pensar em outras coisas que não fosse no maldito papel no meu bolso. E até foi fácil.- Olhei Liam nessa parte.
Ao compreender o vi sorrindo de lado como sempre fazia. O seu fiel sorriso maroto.
–Até que viemos para aqui. E eu estava andando pelo jardim quando decidi entrar aqui dentro.
“Eu tinha muito para fazer!
Ok, era mentira. Eu não tinha nada para fazer. Pela primeira vez na vida, não me apetecia treinar. Então vaguei pelos cantos da Mansão. Parei em frente á grande capela brilhante. Meus pés pareciam ter vida própria. Apenas me deixei levar por eles.
Dentro da capela uma aura forte emergia das paredes. Como se a capela tivesse vida própria. Os quadros pareciam que olhavam para mim conforme avançava. Parecia que me olhavam atentos, silenciosos, apenas esperando minhas próximas ações.
Paro no meio da grande Cruz pintada no chão. Parecia mesmo sangue.
Levanto meus olhos e olho o quadro da família Real. Sorri ao ver os rostos de meus avós. Nem eles sabiam que tinham começado uma nova Era para Árgon. Se soubessem, tudo seria diferente.
–Christabell…
Olho em volta da capela tentando encontrar a dona daquela voz arrastada.
–O quê?
–Christabell…
–Isto não tem graça!- Digo irritada e então a voz ri.
Era diferente de quando Aires entrava na minha cabeça. Esta voz… ela falava, mas parecia tão real quanto eu. Como se estivesse ali.
–Christabell…
–Quem és tu?!
Grito ecoando pelas paredes da capela.
Espero alguns segundos, mas não obtenho resposta. Bufo e me viro para sair dali. Quando estou perto da porta…
–Christabell…
–O quê?!- Grito furiosa mas minha raiva desaparece quando vejo a Cruz vermelha no chão brilhar.
Caminho até á Cruz lentamente analisando-a. Pequenas letras apareciam no centro da cruz. Uma caligrafia simples mas delicada. O vermelho da cruz parecia que desaprecia formando as letras que juntas formavam uma única palavra.
“Anastácia”
–Anastácia. É esse o teu nome?
As letras da cruz desaparecem formando uma outra palavra.
“Sim”
–Não podes falar como uma pessoa normal?
“Não”
Bufo cruzando meus braços sobre o peito.
“Eu não sou uma pessoa normal”
–Quem és tu, então?
“É complicado”
–Não é não. Basta falares.
“É mais fácil mostrar-te”
–Ah?
Sinto minha cabeça girar e a escuridão me cegar. Senti-me cair e quando o chão me atinge já meu coração batalhava dentro de meu peito á horas.
Abro meus olhos e levanto-me no centro da Capela olhando em volta. Estava praticamente tudo igual, tirando as cadeiras brancas, as flores e todas as decorações para a Coroação de Juliana. Não haviam qualquer decorações, era apenas uma sala vazia e fria.
–Olá, Christabell.
Assusto-me e olho para a mulher em frente ao trono que me olhava sorrindo. Era uma mulher de mais ou menos 23 anos. Cabelos ruivos como o fogo e olhos grandes e cinza. Bela. Seu vestido era vermelho escuro, comprido, com uma faixa na vertical desde seu pescoço até ao final do vestido. As mangas de renda mostravam sua pele clara. Uma fita negra apertava sua cintura fechando-se num laço atrás das costas.
–Anastácia.
–És inteligente, Christabell. Fico feliz por isso.
Poderia ter suado como gozo, mas ela estava a falar aquilo de verdade. Não era uma provocação, ela estava realmente feliz por eu ser “inteligente”.
“Estou a ficar louca”
–Ah.
–Deves estar confusa. Mas eu te explicarei tudo.
–Podes começar agora. Fizeste-me passar por tudo aquilo e voltámos ao mesmo sítio.
–Não é o mesmo sítio. Esperava mais atenção de ti, Christabell. Aires está a dar-te volta á cabeça.- Suspira a última parte infeliz.- Mas mudaremos isso. Agora, olha para o quadro, Christabell.
Levanto meus olhos dela para o quadro da família Real que… desparecera. No lugar, havia o quadro de um casal, um homem de aparência forte, rude. Seus cabelos eram negros como a noite e seus olhos iguais. Mas em comparação, ao seu lado havia uma mulher alta, de longos cabelos ruivos e olhos azuis. Não era Anastácia.
Anastácia era a menina á frente deles com um sorriso enorme no rosto. Não devia ter mais de 8 anos. De cada lado dela haviam dois rapazes, mais velhos. Um de cabelos negros e olhos azuis, que era o mais alto e mais velho de todos. E o outro de cabelos ruivos e olhos negros como os de seu pai.
–São meus pais e meus irmãos.
–Tu eras da família Real.- Suspiro chocada e ela sorri assentindo.
–Eu sou da família Real.
A olho confusa e ainda em choque.
–Compreenderás tudo. Meu pai, o Rei Argos, era um homem poderoso. Muito poderoso… e temido.- Começa sentando-se no trono olhando-me.- Todos sabiam que seu coração era frio e cruel. Todos tinham medo dele, graças á sua força. Ele não hesitava quando tinha de matar alguém. Era um grande guerreiro. Com imensos inimigos. O queriam morto, e ele sabia disso. Ele orgulhava-se disso! Um dia conheceu minha mãe, Melanien. Ela era o oposto dele. Doce, delicada, bondosa, apaixonada pela vida. Ninguém sabia como aquele amor acontecera. Mas aconteceu! E se casaram. Minha mãe tinha conseguido mostrar um pouco do amor existente na terra para meu pai. E isso o deixou desprevenido. Quando meu irmão mais velho, Glorin, nasceu, o Reino todo estava entusiasmado. Glorin tinha nascido para governar. De um jeito diferente de meu pai, claro. Glorin tinha a coragem e bondade de nossos pais. Ele fez 17 e meu pai decidiu que era altura de ele lutar. Em campo. De alguma forma, meu pai o perdeu de vista durante o combate e quando o encontrou… meu irmão estava morto. Sua cabeça fora cortada sem dó nem piedade. Quando meu pai chegou a casa, estava furioso, destroçado, mas principalmente furioso. Minha mãe chorara durante dias. Jaydes, foi proclamado o próximo Rei, visto que era o segundo e o único rapaz. Meu pai queria vingança. Ele queria matar quem lhe matara seu herdeiro. Foi inevitável. No aniversário de 17 anos de Jaydes, fomos atacados e o mataram. O Castelo se tornou frio de novo. A luz que minha mãe trouxera se tinha evaporado. Apenas restava eu, mas era uma rapariga. Não podia herdar o trono, naquela época. Minha mãe ficou grávida de novo. E a esperança de que fosse um rapaz, fez meu pai criar os Guardiões. Eles serviriam para matar nossos inimigos. Proteger a família real.- Anastácia suspira cansada.- Mas nem tudo corria bem. Meu pai se tornara frio de novo. Minha mãe não conseguia chegar-se perto dele sem lhe gritar. Ela o culpava de ter destruído sua família. Seus filhos. Então ninguém se atrevia a chegar perto dele. Tirando eu.
As portas da Capela se abrem assustando-me e me viro para trás vendo um homem caminhar por ela furioso. Era o mesmo homem do quadro, mas mais velho, mais cansado, mais furioso.
Tentei recuar conforme ele avançava mas foi mais rápido e me atravessou. Olhei-me antes de o voltar a olhar.
Anastácia tinha saído do trono e olhava o homem sentar-se no trono. Inclinou-se sobre seus joelhos e escondeu a cara entre as mãos.
–Papá?
Olho para a voz da menina que entra tímida e o mesmo faz Argos. A Anastácia de 13 anos entra olhando atentamente seu pai, o Rei. Havia medo no olhar dela, mas determinação.
–O que tu queres?
Cerro meus olhos para o tom grosso do Rei e vejo Anastácia velha rir de mim.
–Eu…Queria saber se estavas bem.
Isso tocou o velho Argos, notou-se, mas ele suspiro deitando isso de lado e levantando-se até á parede a olhando.
–Estou bem. Se era só isso, podes ir. Quero ficar só.
–Não queres vir comigo brincar?
Senti alguém se aproximar e olhei para um velho homem que caminhava olhando para a menina e o Rei. Suas barbas brancas escondiam seu rosto, mas dois olhos verdes apareciam.
–Não. Já disse para te ires embora!- A voz trovão do Rei fez a garota se encolher mas o velho homem segurou seus ombros a fazendo-a olhá-lo.
–Não devias falar assim com tua filha, Argos. É tua única filha.
Sua aparência desgastada era diferente da sua voz viva. Aquele homem era mais forte do que aparentava.
O Rei o ignorou bufando.
–Não me trates por tolo, meu rapaz! Eu conheço-te, Argos.- O velho refilou e surpreendi-me por alguém tratar aquele homem com tanta finidade.- Sei que passaste por terríveis momentos, Argos, mas tem uma nova esperança nascendo no ventre de tua mulher.
–Mulher essa que não olha sequer em minha cara!- O Rei grita virando-se para o velho e a menina.- Não me surpreenderia que esse filho fosse de outro.
–Olha o que dizes, Argos. Melanien te ama, tu sabes disso. Ela nunca te trairia.
–Mas fê-lo! Tu sabes disso, Victis. Aquela criança não é minha!
–Mas Anastácia é.
Sempre calma, a voz de Victis parecia acalmar aquele ar de trovão lançado pelo Rei. Victis não tinha medo de Argos. Ele enfrentava-o sem medo da morte.
–Anastácia é tua filha. Nunca pensaste que eles fizeram de propósito, Argos? Nunca pensaste que eles querem aquela criança no trono?
–O quê?- Argos pergunta confuso e eu mesma o fico.
–Melanien, está diferente, Argos. Ela mal come. Mas no entanto sua aparência é de uma mulher saudável. Algo está mal aqui, Argos. E temo que tudo isto seja culpa deles.
–Deles? Strigois?
–Exato. Eles são perspicazes, Argos. Eles sabem o que fazem.
–Estás a insinuar que Melanien está grávida de um deles? Isso é absurdo!- Argos grita.- Minha mulher nunca se deixaria cair nos braços de alguém tão nojento. Tu conhece-la!
–Conheço. Conheço bem, Argos. Por isso eu digo, que alguém a tramou. Tudo isto foi plano deles. Eles querem que aquela criança nasça, Argos. Eles querem alguém que governe para eles.
–E conseguiram se aquele bebé nascer.- Argos diz e Victis confirma.- Como fazemos para impedir isto?
–Põe Anastácia no trono.
–O quê? Estás louco, homem?
–É a tua única hipótese. Coloca-a no trono e não haverá hipóteses de aquela criança governar.
–O que digo aos meus súbditos? Que fiquei louco como tu?
Victis sorri.
–Diz-lhes simplesmente que uma nova Era irá renascer.
Victis, a menina e até o Rei evaporam e olho Anastácia que se sentara no chão ao lado do trono olhando o chão em baixo de meus pés. Olho meus pés e noto que a Cruz desaparecera.
–Meu pai o fez. Colocou-me no trono. Eu tinha 13 anos e estava a governar. Claro que meu pai ajudava-me em tudo. Ele estava de volta para mim. Apenas para mim e Victis. Mas ele ainda tinha medo de meu destino ser igual ao de meus irmãos. Então Victis fez algo para ele ficar mais descansado. Arranjou o sangue de cada uma das espécies do mundo. Dragões, Slamfires, Humanos, Castores, Tigres, Leões, Strigois… tudo. E pintou uma cruz nesta capela. Essa Cruz que existe no presente. E acrescentou algo extra.- Ela levanta a cabeça e me olha.- O sangue da família Real. O Sangue de meus irmãos. Futuramente o sangue de meu pai e o meu. Todos os que morrem se juntam a essa Cruz. A tornando mais forte. Eu estava protegida, Christabell. Dentro desta capela. Não havia magia alguma que entrasse por estas paredes. É por isso que Aires não pode entrar na tua cabeça enquanto aqui estás dentro. Porque a magia da capela o impede. Aqui, a única magia que reina, é a da Família Real. A tua magia.
–Porque me estás a contar tudo isto?
–Porque Victis se enganou. A nova Era não estava a acontecer quando eu herdei o trono. Não. Longe disso. Foi apenas uma gota num oceano inteiro. Victis tinha um dom. Ele previa profecias. E ele previu a Profecia da Luz. Ele dizia que quando a Luz assumisse o trono, seria o fim de todos os Strigois. Quando a Herdeira assumisse o trono.
–Tu eras a Herdeira.
–Eu era a Herdeira, mas apenas porque meus irmãos morreram. Eu também me enganei e pensei que Juliana poderia ser essa Herdeira, mas me enganei. Ela não era a Herdeira Principal. Tu és.
–O quê?- Pergunto rindo.- Estás enganada.
–Não, não estou, Christabell.
–Qual é? O que tens tu a ver com a minha vida?!- Pergunto irritada e ela se levanta sorrindo.
–Eu sou tua tetra-tetra-tetra-tetra avó. Ou seja, eu tive um filho, Anthony, que teve um filho, o teu avô, que teve teu pai, que te teve a ti. Tu és minha descendente, Christabell. Tu és a Herdeira Principal do Trono. Tu… és a Luz.”
O silêncio se instaurou. Os olhos todos estavam atentos em mim, mas os meus, eles apenas olhavam uma pessoa. Aires.
–Mas tu já sabias disso.– Digo calmamente.- Porque tu estavas lá naquela altura.
O olhar de Aires parecia mortal. Como se toda a raiva do mundo estivesse dentro dele. Como se todo o mal, fosse ele.
–Porque o filho que a mãe de Anastácia esperava, era teu.
No próximo capitulo de Monsul Academy: verdades...
– Era meu filho. E eles o mataram.
–Para quê derrotar a familia Real?
–Para quê? EU quero o trono que é meu por direito!
–Não tens direito a nada aqui.
–Agora é a minha vez de contar uma história minha doce Christabell.
–Mas não faz sentido!
–Matas-te sangue do teu sangue.
–Foste um Rei muito mau, Leonardo.
– Eu ainda estou vivo.
–Sim, mas isso vai mudar.
–Ela não vai morrer!
–Bell?
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