Monsters In The Woods
7 Ugly Story
Notas iniciais
Caçadores
Tiberious só foi capaz de se acalmar quase uma hora depois. E não acreditou no que tinha feito. Quando o ruivo saiu daquela floresta, a única coisa que ele queria fazer era abraçar a jovem e educada Claire e lhe implorar um “Por favor, me perdoe”.
Três quilômetros longe do guerreiro, no acampamento dos Caçadores, Claire Adams só conseguia chorar deitada em sua barraca e repetir para si mesma que Tiberious estava oficialmente morto para ela.
— Posso entrar, minha querida?
Claire se sentou e limpou os olhos imediatamente, assentindo para Stuart, que apesar de já não ser mais o Chefe da Família ainda era o mais respeitado.
— Claro…
— Diga-me… O que aconteceu? – Perguntou, sentando-se ao lado dela. Claire não conseguia encara-lo, sabendo que em pouco menos de 72 horas ele estaria morto. – Teve algo a ver com nosso armário de cabelo vermelho? – ele sorriu.
Claire voltou a chorar, e lhe contou o que acontecera, omitindo certas partes, como o discurso sobre Stuart e as ofensas dirigidas ao senhor de 35 anos. Stuart não alterou sua expressão, concentrado na jovem de cabelos cacheados, mas por fim suspirou.
— Entendo que tenha sido um choque, mas convenhamos que isso não foi algo muito inesperado, tendo em conta o temperamento do rapaz em questão. Acredito que ele deve estar arrependido… — Ele limpou uma gorda lágrima que lhe escorria pela face. – Somos uma Família, Claire. Não temos esse nome a toa. Temos nossos desentendimentos, somos humanos e erramos… Mas cuidamos uns dos outros, amamos uns aos outros.
Claire assentiu, limpando o rosto, e saiu da barraca após agradecer as palavras do mais velho. Andou um pouco, e logo viu o rapaz.
Ele pareceu automaticamente aliviado. Então seu rosto se tornou uma mistura de dor, arrependimento e vergonha, e quando ele ia falar a garota levou a mão a sua boca, calando-o e pegando sua mão em seguida.
Em silêncio, ele a seguiu de volta a floresta, longe dos olhares alheios. Andaram alguns metros, até encontrarem um grande tronco velho que caíra no chão e agora provavelmente apodrecia. A árvore devia ser muito velha, porque tinha um diâmetro de quase 5 metros.
Escalaram e se sentaram lá em cima. O sol já tinha nascido, e o céu tinha muitas nuvens. Era provável que chovesse.
— Claire, olha eu não f…
— Eu tinha 10 anos. – Ela olhava nuvens, mas não as via. A sua frente se desenrolava uma cena que ela via em seus pesadelos todas as noites. Tiberious apenas se calou. – Bem, meu pai me chamava de princesa desde que eu era pequena. Eu era a única criança daquela Família, e todos me tratavam muito bem. Um dia ele achou uma tiara de plástico, parcialmente enterrada, perto de umas ruinas. Ele me deu, e eu passei os anos seguintes sem nunca tira-la.
“Então, como eu disse, eu fiz dez anos. Eu e meu pai estávamos andando, indo pegar água. Eu não soube o que aconteceu, de repente meu pai estava no chão e tinha uma flecha no pescoço dele. E tinha sangue… muito sangue.”
“Deixei cair meu balde e gritei, me ajoelhando perto do meu pai, que já não estava vivo. Mas eu gritava por ele. Eu pensava que se pedisse com muita força ele ia voltar e me chamar de princesa de novo.”
“Um braço passou pela minha barriga e me puxou, me levantando no ar. Então tudo aconteceu muito rápido… eu não entendia porque eles estavam me machucando… eles me prenderam contra o chão e levantaram minha saia… e doeu tanto…”
“Quando terminaram me deixaram lá sozinha. Começou a chover, mas eu não conseguia me mexer. Tinha muitos machucados, e eu só queria morrer. Quando finalmente consegui me levantar e me arrastar até ao Acampamento, eles me expulsaram. Disseram que não queria uma garota inútil e estúpida.”
“Andei sozinha depois disso. Quase morri de fome. Encontrei duas pessoas meses depois. Eram adolescentes, os dois. Jake e May. Viramos uma família. Eu continuei usando minha tiara, e May fazia vestidos para mim. Por anos foi assim. Mas fomos crescendo, e… Jake…” ela engoliu em seco, falando com certa mágoa. “Bem, Jake preferiu May, e eles se casaram e ela ficou grávida. Eles tinham uma verdadeira Família, e eu me senti deslocada pela primeira vez. Eu fugi.”
“Eu tinha vinte anos. Estava acampada perto de um lago, e fui surpreendida por um homem. Tentei lutar contra ele, minha tiara caiu na água… Pensei no que tinha acontecido à uma década atrás e me preparei para a dor de novo, e foi tão horrível quanto a primeira vez. Sangue respingou em mim, na minha roupa, no meu rosto. Mas o sangue não era meu.”
Claire sorriu minimamente. Tiberious sabiam bem essa parte.
“E o homem estava caído no chão com um machado no meio da cabeça, e em pé a minha frente estava um monstro ruivo. Ele me pegou no colo, falou que tudo ficaria bem e sussurrou algo em uma língua que eu não entendi.”
Ela finalmente olhou para ele. O rapaz não sabia o que falar. Claire nunca tinha falado sua história a ninguém. Ele sabia que a atingiria falando o que falou à algumas horas atrás, por causa das condições em que a encontrou, mas não sabia que mexeria tão fundo em suas feridas.
Ele suspirou.
— Você não precisa saber que língua foi. E você também não entenderia se eu traduzisse.
— O que você disse?
— “Acho que os deuses me deram uma Adaga afinal”.
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