Monsters In The Woods
3 Back To Nothingness
Notas iniciais
Caçadores
Annalisy Mc’Bleiy estava em cima de um galho, atenta a qualquer ruído. Ela queria ficar um pouco longe da Família, então resolvera sair para caçar. Quando voltasse estaria mais calma e com um pouco de comida a mais. Dois coelhos com uma tacada só.
Ela tinha cabelos castanhos e compridos, levemente ondulados, mas não tão brilhosos quanto podiam, já que isso pedia um bom banho, e não havia nenhum lago ou rio nas redondezas. Ela teria que esperar mais umas semanas, no mínimo, até encontrarem algo assim.
Era uma adolescente de 16 anos, bem bonita na verdade. Os olhos eram penetrantes, em um verde acinzentado, a pele branca estava um pouco avermelhada por causa da exposição ao sol. Ela era considerada gostosa entre os Caçadores, e algumas Caçadoras tinham certa inveja dela, chamando-a no único apelido que ela odiava na vida, “baixinha”.
Usava umas calças jeans claras, meio desgastadas pelo tempo e uma blusa verde escura de mangas curtas, além de um all star. No pescoço, seu medalhão de prata, com a foto de seus falecidos pais, Elizabeth e Joseph, e outra da sua irmã, Selena.
Ouviu um barulho, e girou 180º graus, já com o arco e flecha posicionado, mas surpreendeu-se ao ouvir, não um animal, mas alguém, gritando.
Foi se aproximando devagar, vários metros ainda a separavam do som. E então, quando chegou a orla da floresta, a viu.
Uma mulher, aparentemente exausta, estava ajoelhada. Usava um vestido negro até um pouco abaixo dos joelhos, a pele bronzeada e os cabelos tão pretos quanto o vestido. Ao seu lado havia um balde de metal cheio de água. O chão sob ela parecia ensanguentado, e ela olhava carinhosamente para um embrulho em suas mãos. Era um bebê. Ela o limpava com um pedaço de pano molhado.
Mas então pareceu ter uma tontura, estava pálida. Anna continuou se aproximando, parando de fazer tanta pressão na corda. Estava a apenas 10 metros dela.
Reconheceu-a. Não exatamente quem ela era, mas o que ela era. Um monstro. Nunca tinha visto um pessoalmente, e, sinceramente, Anna pensou que ela parecia com qualquer um da Familia.
Então ela a notou. Com um movimento rápido colocou o bebê em um amontoado de folhas e se posicionou entre os dois.
Anna se assustou com a intensidade dos olhos da mulher. Eram de um azul elétrico. Suas sobrancelhas estavam franzidas em uma careta de raiva. Ela mostrou os dentes.
Em qualquer pessoa isso seria absolutamente ridículo, mas Anna se arrepiou de medo, apesar de não demonstrar. A mulher rosnava, igual a um lobo.
Anna se moveu para a direita. A mulher a seguiu, ainda mantendo a mesma distância do bebê. Ela parecia desesperada, cada vez mais pálida. Encarava Anna, olhava para o bebê por alguns milésimos de segundo e voltava a encarar Anna.
Então seus joelhos tremeram e ela caiu de joelhos, arrastando-se para mais perto do bebê. Anna chegou mais perto, a mulher ficou possessa, e rosnou mais ainda, mas deitou-se, exausta. Passou os braços protetoramente sobre o bebê, arfando em busca de ar, tremendo e encarando a jovem Caçadora pelo canto dos olhos.
O bebê começou a chorar. A mulher o abraçou mais forte, sussurrando algo que Anna não entendeu. Então ela começou a chorar também, e Anna sabia que a mulher ia morrer.
Alguns minutos se passaram. A Caçadora olhou para o céu e soube que em mais ou menos uma hora o sol já teria se posto. Quando voltou a olhar para a mulher, esta tremia violentamente, fazendo caretas de dor.
Aproximou-se, com cuidado, e sorrindo tristemente para o bebê. Ele era um humano, afinal de contas. E a mulher era uma mãe tentando proteger seu filho do perigo eminente.
– Eu vou cuidar dele. — Ela disse, mas a mulher não entendeu, e rosnou quando a mão da Caçadora chegou perto. Ela apontou para o bebê, depois para ela mesma e sorrio, tentado soar tranquilizadora. Ela nem ao menos sabia porque estava agindo assim, mas acho que essa era única magia que os monstros não tinham: a de ser capaz de mudar seu jeito de agir diante de certas situações. — Eu vou cuidar dele... -
E então se lembrou de um fato que seu pai tinha dito anos atrás.
“Só existem quatro palavras em comum entre Caçadores e Monstro. Dois substantivos e dois verbos. Guerra, paz, odiar e amar.”
Anna respirou fundo, e olhou para a mulher.
– Eu — ela apontou para si mesma — vou amar seu bebê. — ela apontou para o recém nascido. E depois sussurrou. — Paz.
A mulher assentiu, e sussurrou "Paz".
Beijou a testa do bebê. Depois falou para Anna algo que ela não entendeu, mas captou o nome Peter várias vezes no meio. Pensou se esse não seria o nome do bebê.
Estendeu os braços, e pegou a criança, segurando-a com cuidado no colo. A mulher começou a gritar, em parte de tristeza, mas principalmente, de dor.
Anna pegou sua faca, e a colocou levemente no peito da mulher. Ela assentiu, e Anna respirou fundo, afundando a faca exatamente sobre o coração já fraco da mulher. Ela morreu em segundos.
Olhou para bebê, e a ficha caiu. O que diabos ela tinha feito?! A Família mal tinha comida para todos, e ela ainda resolve adotar um bebê?!
Ouviu um ruído e saiu correndo em direção ao norte, o bebê entre os braços.
Quando já estava perto do acampamento, olhou para o bebê. Ele tinha olhos azuis elétricos e o cabelo negro como a mãe.
Seu pensamento voou e ela lembrou da mulher, e então da própria mãe, que também morrera ao dar a luz Selena, sua irmã.
– Onde você arrumou esse bebê??
Anna dá um pulo de susto.
– Não faz mais isso, Lena!
Selena Mc’Bleiy era a irmã de Annalisy. Tinha dez anos, os cabelos loiros compridos e lisos, os olho iguaizinhos aos da irmã, e a pele alva. Uma autêntica boneca de porcelana. Pequena e frágil.
Ela podia ser aparentemente adorável, mas também era esperta, marota e levada. E particularmente adorava assustar a irmã.
– Onde você estava? — Lena perguntou. Anna revirou os olhos.
– Na floresta, oras.
– E achou o bebê lá?
– Sim. O nome dele é Peter. Não sei o sobrenome...
– Ele parece aquele lobo que você matou semana passada... — Lena sussurrou, pensativa. E então sorriu. — Que tal Peter Wolf?
– Ótimo. Agora precisamos ir para o acampamento, precisamos de leite para ele.
Elas foram andando e conversando, e enfim chegaram ao acampamento.
O nome “Familia” não era assim à toa. Eram poucas as pessoas com laços sanguíneos ali, mas todos se comportavam como parentes. Ajudavam uns aos outros, se apoiavam nas horas difíceis, comemoravam nas horas boas.
E todos queriam manter viva a memória dos que viviam antes do mundo acabar. A maioria ali nem ao menos conhecera os avós, mas não queriam abandonar tudo o que seus antepassados batalharam para construir a séculos atrás.
Apesar de tudo, viviam felizes ali. Tinham amigos, pessoas em quem confiar. Apesar de não ter muita comida, sempre tinha um pouco para cada um. E viajavam para diversos lugares, por serem nômades.
E eram humanos. Eram seres humanos como os monstros, mas tinham o que os monstros não tinham: humanidade.
Caçadores ainda conservavam a chama da humanidade viva, ao contrário dos Monstros, que decidiram se deixar levar pelo lado mais selvagem de sua mente.
Não agiam instintivamente, mas pensavam em suas ações, mesmo quando agiam por impulso. Não se prendiam a um único jeito de pensar e agir. E lutavam com unhas e dentes para proteger o que tinham de mais precioso, suas histórias.
– O que é isso, Anna? — O tom de voz rouco e ameaçador a atinge por trás.
– É um bebê, Tiberious. É só um bebê.
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