Monster
1 I wanna be sedated
Notas iniciais
Carl estava sentado no terceiro degrau da pequena escada que dava acesso ao bloco E, ele observava o pátio da prisão e irritava-se consideravelmente com a felicidade que emanava das crianças que brincavam ali.
Tão alheias ás preocupações que ele também não deveria ter. Mas tinha.
O olhar do garoto se prendeu em uma das garotas que mais o incomodavam – mesmo sem se quer falar com ele: Lizzie Samuels.
A menina estava junto com Mika e Patrick perto da cerca onde se aglomeravam algumas dezenas de errantes e o pequeno grupo parecia conversar sobre algo animadamente.
Carl voltou sua atenção ás outras crianças, mas em pouco tempo ele voltou a olhar para as três pessoas, que agora apontavam para os errantes e riam.
Carl ficou curioso, mas não iria se juntar a eles. Eles eram apenas crianças e ele já se considerava um adulto.
Carl já havia passado por muita coisa.
Começando pelo fim do mundo infestado de errantes que querem fazer de qualquer ser vivo sua próxima refeição. Depois ele teve que presenciar a morte de tantas pessoas, Sophia, Dale, Jacqui, Edwin, Jim, Ed... E teve que matar outros. O que mais o marcou foi Shane, sem dúvidas.
Carl sabia, ele iria levar a imagem de Shane como um errante para sempre.
Havia também o fato que Carl presenciou a morte de Lori, a própria mãe. Ele viu o pai enlouquecer e isso afastou tristemente os dois Grimes.
Mas Carl era forte. Ele não estava abalado – ao menos por fora.
Porque pelo lado de dentro, ele podia sentir aqueles pensamentos insanos tomando conta de si.
Desde a morte de sua mãe, Carl não conseguia dormir sem ter pesadelos e eram os dos piores tipos. Ele mal conversava com as outras pessoas, preferia se isolar daquele mundo. E havia uma voz em sua cabeça que como um despertador programado, repetia a mesma coisa em intervalos regulares:
“Quebra tudo. Acabe com eles. Agora. Vai, vai, vai!”
E sempre que essa voz surgia em sua mente, ele lutava contra ela, fazendo bem mais esforço do que se lutasse contra errantes.
Carl desviou sua atenção desses pensamentos, não querendo se lembrar de tudo isso.
Seu olhar voltou a se focar em Lizzie quando a mesma gargalhou alto.
— Essa garota não sabe que o som atrai os errantes? – Carl perguntou para si mesmo enquanto se levantava e andava pisando firme com as botas no chão.
Lizzie ainda ria quando Carl se postou a sua frente, ficando lado a lado com Patrick.
— O que você pensa que está fazendo? – O olhar duro e frio como pedra do garoto fez Lizzie parar de rir imediatamente e assumir uma expressão séria.
— Estou me divertindo, não percebeu? – Ela ergueu uma sobrancelha em desafio.
— Eu percebi muito bem, mas se você quiser continuar viva, aconselho a se “divertir” – Carl jogou aspas no ar com os dedos. – mais baixo.
— E se eu não quiser? – Lizzie sorriu ironicamente para ele.
— Eu faço você se arrepender por não ter me obedecido! – Carl deu um passo á frente, mas parou quando sentiu uma mão puxando-o pelo casaco.
— Ei, vamos com calma, pessoal. – Patrick falou nervosamente. Carl se virou e percebeu que era ele quem o segurava. – Não precisamos brigar.
— Me solta! – Carl exigiu sem dar atenção ás palavras do garoto. – Agora!
— Eu solto se você se acalmar... – Patrick engoliu em seco quando Carl fuzilou-o com o olhar.
— Eu não preciso me acalmar. – Carl sussurrou, sua voz estava tensa. – Agora me solte, seu idiota.
Patrick hesitou em soltar a jaqueta de Carl e esse foi o seu erro.
Carl não exigiu novamente para que Patrick o soltasse e antes que tivesse consciência do que estava fazendo, seu corpo já havia feito o trabalho.
Ele havia pegado Patrick pelo colarinho da camisa e o empurrado até que ele estivesse no chão frio e molhado de concreto.
— Eu mandei você soltar. – O rosto de Carl estava a poucos centímetros do garoto no chão, os narizes quase se tocando.
— Deixe-o em paz! – Lizzie mandou, mas a voz da garota vacilava com o medo. – Pare com isso, imbecil!
— Me solte... – Patrick implorou, arfando quando Carl sentou em cima de seu peito, dificultando sua respiração.
— Viu, não é bom quando pedimos algo e não somos atendidos. – Carl sorriu diabolicamente para o garoto sob si.
— Por favor, Carl. – Patrick tentou novamente. Mas o ele que recebeu o deixou sem fala.
Carl fechou o punho direito e rapidamente golpeou o rosto de Patrick, fazendo-o se contorcer no chão.
O segundo soco foi mais forte, sendo seguido por um grito de Lizzie implorando-o para parar.
Mas Carl não pararia.
A voz em sua mente o dizia para continuar.
“Mate ele! Acabe com tudo, vamos lá. Dane-se tudo, mate-o!”
No fundo da mente do jovem Grimes, sua verdadeira e antiga consciência gritava para que ele parasse de bater no garoto que agora sangrava, sujando suas próprias roupas com o líquido vermelho escuro.
Os gritos de Lizzie agora estavam longe, apenas um fio de voz.
Carl só parou de bater em Patrick quando alguém o puxou pela parte de trás do casaco, jogando-o no chão a menos de um metro de Patrick que tossia sangue no concreto.
Levou uma fração de segundo para Carl perceber que era Rick quem o havia tirado de cima de Patrick.
Rick estava ajoelhado ao lado do garoto que tossia e se esforçava para limpar o sangue das lentes de seus óculos quebrado.
O xerife se levantou e virou-se para o filho – que ainda estava no chão, olhando atônito a cena a sua frente – e encarou-o firmemente, os olhos em chamas mostravam raiva. Rick sem pensar a respeito apontou a arma que tinha em mãos para Carl.
— O que foi isso, Carl? – A voz de Rick continha mais raiva do que o seu olhar, isso fez Carl estremecer.
— Eu... – O garoto tentou formular uma frase coerente que explicasse sua atitude, mas a verdade era que nem ele mesmo sabia o que havia o levado a agir daquela forma.
Carl tentou se levantar, mas o máximo que pode com a cabeça girando foi ficar de joelhos.
Ele olhou para o pai e soube que aquela voz em sua cabeça havia ultrapassado suas barreiras e o dominado.
— Por favor. – Carl implorou. Os olhos marejados do garoto estavam focados no cano da Colt Python apontada para sua cabeça. – Acabe logo com isso! Por favor, pai.
A expressão de Rick passou para horrorizada enquanto ele observava seu filho, que estava ajoelhado na sua frente, enquanto ele apontava a arma na direção dele.
— Por favor. – Carl insistiu.
O som de um tiro ecoou pela prisão.
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