Monossacarídeo

4 O Enfermo e a Enfermeira


Alguém... Me arranja... Um fósforo!



14 de abril de 2004



- Matt, acorde.

Ah! Era uma voz tão doce quanto a voz de Shiva.

- Vai logo ruiva, acorda!

Mamãe?

- ACORDA LOGO PORRA!

Tá. Essa, definitivamente, NÃO É a minha mãe.

- Ai Mello, tenha dó! A cama desabou no meio da noite e agora minhas costas estão doendo.

- Deixa de ser frouxo! É só ir lá à enfermaria e pegar um analgésico.

É porque não era ele que estava todo entrevado. Se estivesse, não ficaria saltando entre a [ruína] mobília que nem a Tinker Bell com aquela roupa de contorcionista de circo.

- Vai pra onde?

- Resolver umas coisas.

Geralmente quando alguém usa a expressão “vou resolver umas coisas” você pensa: “Ah! Vai ali na cidade pagar as contas” ou “Resolver a cara dele! Esse cara é mol vagabundo”. Quando Mello falava isso eu costumava pensar: “Cadê o detector de metal quando a gente precisa dele?”

- Enquanto isso você vai no refeitório passar o radar nas mãos da geral. Se alguém ali estiver sem unha, amanhecerá sem cabeça.

- Não posso. Tenho que limpar essa Mesopotâmia que virou o nosso quarto.

- Relaxe. A Linda se prontificou a ajudar e prometeu que não ia contar nada a Roger.

A Linda?

- Vê se não demora ruiva.

A LINDA?

Tipo assim... A Linda odiava o Mello porque, segundo ela, ele era o anarquista daquele orfanato e, óbvio, o arquiinimigo do Near – que era o queridinho dela. Então aquilo era meio Guerra dos Mundos, por assim dizer.

Sabe aquele dia que você acorda, escova os dentes, troca de roupa e sai do quarto com uma vontade incontrolável de matar alguém a lá Dexter? Pois é, esse era um dia daqueles. Em vez de zerar Final Fantasy no único Nitendo DS que não foi estrebuchado no chão eu teria de procurar unhas. PROCURAR UNHAS!

Quando eu ia saindo, Linda estava quase entrando, então a gente meio que quase se estapeou sem querer. Relaxem, não houve nenhum momento Barbie e Derik – até porque eu odeio essas meninas tiradas a princesinhas simples. Ela sorriu, eu mandei um olhar tipo: “I’m hot dog no”, e daí sai andando.

- Matt! – ela me chamou quando eu já estava quase do outro lado do corredor.

Eu olhei.

- Obrigada por ficar com o Near esses dias. Foi muito gentil de sua parte.

Motivo da bondade descoberto.

Dei um sorrisinho amarelo para ela e tomei o rumo. Se Mello sequer imaginasse que eu andava visitando o Near, o inferno ia congelar.

O refeitório do orfanato estava cheio de gente (samba no Complexo do Alemão não era nada comparado aquilo). A razão era porque na última semana a Inglaterra resolveu dar uma trégua na tortura dos órfãos e começou a gastar a verba na cozinha. Foram só as panquecas e waffles entrarem no cardápio que aquilo ali virou arrastão em Copacabana.

Como Mello havia pedido, passei o radar nas mãos da geral, mas não encontrei nada. Todos os órfãos estavam com todas as unhas nos dedos e isso acabou por me fazer perguntar se era bom ou ruim. Ainda cheguei a dar um rolé pelos corredores, pelo jardim, mas nada. Até que, puto da vida como eu estava, vim a socar os sofás macios da sala de jogos, onde aquela putaria havia começado.

- Hei ruiva! Se bater demais vai acabar perdendo a unha. – era a voz de Sophia.

- Desculpe. Você disse “unha”?

Ela deu uma risadinha.

- O Mello contou para o Guga, que contou para o Alex, que contou para a Linda, que me contou o que houve no quarto de vocês.

Eita povo fofoqueiro viu!

- Você não achou nada, não é?

- Tá tão na cara assim?

Sophia Gumps era mal-humorada, rabugenta e até meia rude, mas não havia ninguém que não gostasse dela porque, apesar de ser muito gente ruim MESMO, quando nós estávamos na pior, era sempre ela que dava um help. Infelizmente eu não irei encontrá-la aqui no céu. Não mesmo.

- Sabe... Se houver a possibilidade de não ser um órfão, pode ser uma pessoa que trabalha aqui.

Olhei para a cara dela como quem diz: “Tá maluca mulher?”

- Pensa comigo. – ela continuou – As cozinheiras usam luvas e a manga do sobretudo dos monitores são longas demais. É perfeito para esconder a mão.

- É! Faz todo sentido! Mas por que alguém que trabalha aqui faria isso?

- Acha que as pessoas que trabalham aqui são mais inocentes que crianças órfãs?

- Claro. Graças a você e ao Mello que deturparam a minha visão.

Ela riu novamente.

E bem... Falando em Mello...

- Sophia, eu preciso ir AGORA! – falei, já começando a correr – Valeu pela dica!

- Conta comigo ruiva!

Acho que foi nessa época que essa coisa de “ruiva” começou a pegar. Tsc...!

Voltando a história.

E lá fui eu, correndo que nem a Lindsay Lohan fugindo da polícia, procurar o Mello. Tecnicamente não era difícil saber onde ele estava, mas o fato de que se eu errasse sua exata localização um certo cara que de sortudo não tem nada ia acabar tendo a pele arrancada do corpo, o que me preocupava bastante.

Assim que cheguei no corredor onde ficava o quarto de Jack Sortudo e assim que vi o Mello andando tranquilamente nele com uma cara a lá Esther de A Órfã, com um chocolate na mão, eu soube que alguma coisa muito errada estava acontecendo. E quando ele sorriu para mim como o gato de Cheshire eu tive a autêntica confirmação.

- Hei ruiva!

- O que você fez?

- Eu? Nada!

- Mells, é sério!

Naquele momento o tempo passou como em um segundo. Jack Sortudo saiu do quarto que nem um touro na arena. Seu rosto tinha tantas rugas que eu poderia confundi-lo com um buldogue. Em sua testa havia uma tatuagem onde se lia: “Suíno”. Seus passos eram tão pesados que ecoavam no chão como uma manada de elefantes e passo ante passo ele chegou até Mello e quando Mello ia virar para saber quem estava à suas contas, ele o socou em cheio no nariz. Eu pude ouvir em detalhes a respiração intensa de Jack e o tombo oco de Mello antes de correr para ajudá-lo.

A algazarra atraiu monitores dos corredores vizinhos que vieram apartar a briga – já que Mello, depois de derrubado, ainda ficou trocando socos. A metade dos monitores o carregou até a enfermaria enquanto a outra metade acompanhava Jack até a diretoria de Roger.

Na enfermaria, Mello sentou-se em uma das camas. A Sra. Giddens foi a primeira a analisar o nariz dele.

- Está quebrado. – ela disse – Agüente firme Mello. Eu vou pegar alguns algodões para limpar isso.

Foi só as enfermeiras se dispersarem que eu já comecei o sermão.

- Mello, pelo amor de Deus, me diz que aquela tatuagem não é de verdade.

- Que tatuagem?

- Mello!

- Não sei. Não fui eu que fiz.

- Mells... FALA LOGO INFELIZ!

- Calma ruiva! É de henna. O Jack achou que era caneta.

- Quem foi que fez?

- A Sophia.

...

Aquela... Diaba!

- Vai sair daqui a uns quinze dias, tudo bem? Não precisa se preocupar.

De repente nós ouvimos um barulho vindo da sala da Sra. Giddens. Aparentemente o Simon havia caído da cama com Near e tudo junto. Eu até perguntaria o que havia acontecido, mas é ruim que eu ia fazer isso na frente do Mello.

A Sra. Giddens repôs o nanico na cama e falou alguma coisa com ele. Ela parecia brava. Depois ela veio com as gazes, algodões, esparadrapos e toda aquela miséria de primeiros socorros.

- SAI DA FRENTE IMBECIL! – foi exatamente esse o modo que a Sra. Giddens pediu licença.

Acho que ela tinha brigado com o namorado.

Com cuidado, ela começou a limpar o sangue com a gaze. No entanto não era bem nisso que eu estava prestando atenção.

Mello quicou daquele jeito que fazem as pessoas quando tomam um susto – ou quando estão com soluço – e, com os olhos, apontou para a mão enluvada da enfermeira. E foi aí que, com certo terror, eu percebi que havia uma perfeita marca de sangue numa de suas unhas (ou na falta dela), provavelmente causado com a pressão do momento.

E é aí que eu digo meu povo: não confie nas camisinhas porque elas entregam a gente que nem as luvas.

Tá... Eu posso ser processado por isso.

E como se não bastasse o cabaré que tava virando aquilo ali, ainda chegou a Emma com Penélope Sharp a tira-colo gritando como se estivessem visto purpurina enlatada.

Como assim você não grita por purpurina enlatada?

Desde o lançamento de Crepúsculo purpurina enlatada virou a última moda.

- Mello, meu querido, você está bem? – perguntou a chata/sem sal/cara de pão/retardada/insuportável/jamanta/anta da Emma enquanto praticamente o asfixiava de tanto carinho.

- Jovens vocês não podem ficar aqui dentro. – disse a atual vadia Sra. Giddens.

- Ah Mello! Me desculpe, eu nunca te trairia!

- Acho que o waffles que eu comi de manhã está brigando com o cheiro de pântano.

Porque aquela menina era uma C-O-B-R-A.

- Matt! – e a culpa ainda era minha.

- Licença, eu vou ali pegar o meu analgésico.

Eu sei que estava super na cara que eu não ia pegar porra de analgésico nenhum, até porque analgésico a gente pede no balcão, mas por mais que Mello não fosse burro esse era justamente o seu maior defeito: ser inteligente demais para achar que todo o resto é otário. Então, como eu era o ser com QI inferior, errar onde pedir remédios era algo totalmente normal.

Isso fora o fato indiscutível de que ele estava enfeitiçado temporariamente pela cobra-sereia.

- É na sala onde fica o Near? Então eu vou! – preciso dizer quem disse isso?

Saí de fininho antes que a ficha caísse e Mello resolvesse me dar um tiro. Quando eu entrei na sala da Sra. Giddens o Near estava com exatamente a cara que ele devia estar: “Caí”.

- Oooooooooi Near.

Assim que a Penélope disse isso mudou para: “Quem deixou a Legalmente Loira entrar?”

- Então Penélope... – segurei o riso até o talo – Eu vou deixar você as sós com o Near.

Depois dessa o Near me mandou um olhar a lá Ulquiorra prestes a sugar a sua alma.


Naquela tarde eu e Mello vagamos pelo orfanato em silêncio. Primeiro porque o nariz dele estava doendo nele e em mim, de tão feio que era; segundo porque estávamos perplexos com a possibilidade de ter sido a Sra. Giddens então, por um tempo, resolvemos não acreditar e continuar procurando.

No fim da tarde voltamos ao quarto sem ter achado nenhum órfão e nenhum funcionário com um dos dedos sem unha ou pelo menos machucado. Só que, como alegria de pobre dura pouco, assim que chegamos no quarto aconteceu o seguinte:

- Mello, eu serei obrigado a te castigar por sua irresponsabilidade.

Misteriosamente, Roger havia descoberto sobre o quarto, pois, enquanto ele gritava com Mello, Linda, quase chorando, me disse:

- Eu estava arrumando o quarto. Ele entrou aqui com mais dois inspetores, como se já soubesse.

Logo depois ela foi para o quarto dela borrar a maquiagem – se é que a dona freira usava isso.

- Roger, eu me recuso a responder ao castigo já que eu não tive a mínima culpa quanto a isso aqui. – falou muito bonito, o Mello.

- Se não foi você, então quem seria?

Mello olhou de Roger para os monitores, dos monitores para mim.

- A Sra. Giddens.

Um leve som de “Oh” ecoou pelo cômodo.

- Mello, percebe que a sua acusação é muito séria?

- Senhor, eu sou um homem sério. – respondeu Don Mello.

- E por que a Sra. Giddens faria isso?

- Eu não sei senhor, mas pode perguntar isso a ela antes de perguntar como ela perdeu a unha. – ele caçou a unha pelo chão, perto da porta, e depois a pegou, mostrando para todos os presentes.

- Como pode saber se essa unha é a da Sra. Giddens? – perguntou um dos monitores.

- Eu não sei. Mas eu sei de uma coisa: se num lugar há uma unha solta e alguém com uma unha faltando, com certeza há uma relação.

Roger olhou Mello com olhos estreitos. Suspirou uma vez. Suspirou duas vezes. Passou as mãos pelos cabelos (ou a falta deles)...

- Hector, informe a Sra. Giddens que estou solicitando a sua presença na minha sala.

- Sim senhor.

- Espero que esteja certo Mello.

O velhote o encarou enquanto Mello sustentava um sorriso vitorioso.

Afinal ser sucessor de L tinha lá as suas vantagens.


Notas finais
Tantan tatan tantantantantantantantantantaaaaan *musiquinha do Pantera Cor de Rosa* xD
Afinal, o que deu na ditadora Sra. Giddens? Será que Jack Sortudo se deu mal? Quem dedurou o quarto... Digo, o Mello para Roger?
Isso e muito mais no próximo capítulo de Monossacarídeo #levapedrada
E, a pedidos da Hality (a mal comida), L e BB vão dar as caras daqui a dois episódios então peguem as suas geladeiras e seus potes de açúcar e fujam para o Sudão.