Monocromo
1 Capítulo Único
Notas iniciais
E as luzes coloridas, vejo em tom de monocromo.
Já tive dias felizes, dias em que eu me curvei de tanto rir, em que tive dores abdominais por causa disso. Esses dias são azuis, porque azul é minha cor preferida e portanto meus dias preferidos são azuis.
Já tive dias monótonos, em que as horas se passavam como séculos e os segundos se demoravam anos a mais em suas posições no relógio. Eu ficava sentado, entediado, tentando pensar em algo que preenchesse as horas, obviamente sem nenhum sucesso. Esses dias são amarelos, porque amarelo é uma cor enjoativa e cansa minha vista.
Já tive dias tristes, em que minha alma saía do corpo, ansiosa por alguma ajuda, enquanto eu mesmo ficava imóvel e dissimulado. Meus olhos implorando por algum choro, meus medos rondando as felicidades, mas minha face tão impassível quanto a de um juiz de tribunal. Esses dias eram vermelhos, pois eu sangrava.
Agora, vejo em tom de monocromo.
Talvez isso seja um sinal claro de que minhas emoções acabaram. E isso é bom? Perder a tristeza é. Mas e a felicidade? Perder a saudade, os corações quebrados, os temores, o nervosismo, seria algo racional se ao mesmo tempo o riso, o amor sincero e a bondade secassem dos nossos corações para sempre? Valeria perder tudo em troca da indiferença eterna?
Loucuras minhas. Olho para baixo: meu café está na metade. Sentado à mesa, vejo a rua se movimentar além da vidraça. Pessoas com olhares vidrados, pessoas introvertidas, sozinhas. Andando, telefonando, falando. Uma delas chorando, ao longe, não sei o porquê. Deve estar em seus dias vermelhos.
Termino minha bebida. Saio para fora, o ar fresco atinge minha cara e meus pensamentos. Tudo está ensolarado. O céu deve estar azul. Mas não o vejo, pois minha visão está em tons monocromáticos, como se fosse um dia de chuva. Que vida triste.
Mas você provavelmente já sabe disso.
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