Monochromatic
6 Capítulo 6 - Am I Pretty?
Será que as pessoas ainda gostam de mim?
É uma festa? Estou convidado?
É uma pena
Ninguém me adora ainda
Max se apoiou na cerca de arame atrás da balada, arrastou Lagarto pela gola da camisa e esperou o amigo terminar de vomitar. Max sentiu o celular vibrar com a chegada de uma nova mensagem e abriu o aparelho enquanto Lagarto fazia barulhos nojentos, de quatro no chão. A mensagem era de Isa.
‘Acho que estou ficando louca’
‘Por quê?’
‘Falei para Thomas ir na festa de Vanessa. Falei para ele tentar seguir em frente.”
Lagarto parou de vomitar e limpou a boca com o braço. Max o puxou para cima novamente. -Da próxima vez, coma alguma coisa antes de vir. -Ele deu um tapa fraco no rosto do amigo. -Olhe para mim. E não beba tão rápido. Quer morrer? Não misture tantas bebidas.
Lagarto fez um barulho de entendimento e Max o largou, fazendo o garoto quase cair novamente.
—Vou te levar pra casa. Não vomite no meu carro. Da próxima vez, vou chamar seu pai para ele te dar uma surra. — Max mandou uma última mensagem para Isa. Ele é Lagarto tinham ido para uma balada sozinhos, já que Pedro tinha um trabalho para finalizar e Nik estava com o pai no quartel ou algo do tipo. Max não tinha bebido, já que estava com o próprio carro. Lagarto, por outro lado…
‘Você mesma vai conseguir seguir em frente?’
‘Acho que não. Por isso acho que estou ficando louca.’
Ele guardou o celular no bolso e arrastou Lagarto até o jipe preto que Max dirigia. Abriu o carro e largou o amigo no branco traseiro, deitado. Lagarto subiu a barra da camisa até o rosto para cobrir os olho da luz do carro. Max sentou-se no banco do motorista e colocou uma música do Arctic Monkeys em volume alto para tocar enquanto dirigia, sem prestar atenção às reclamações do amigo no banco de trás. Era pra isso que serviam os amigos. Lagarto era o que mais precisava dos cuidados dos outros, já que era o que tinha menos controle sobre o que estava engolindo. Pedro normalmente não perdia o controle, ele odiava esquecer das coisas. Max, por outro lado, bebia para esquecer. Mas só fazia isso quando Nik estava por perto. Ele não arriscaria ficar bêbado e sobre os cuidados de Lagarto e Pedro, a não ser que quisesse acordar em um lugar completamente louco, como outro país que fizesse fronteira com o Brasil, ou na prisão. Ele preferia não arriscar.
Isa tinha ido para os Estados Unidos, iria ficar lá cerca de três meses na casa de Luke. Ela estava tentando evitar Thomas, mas o garoto insistira tanto mandando mensagens falando o quanto sentia falta dela e ligando continuamente para o celular dela que Isa simplesmente cedeu. Ela atendeu as ligações e respondeu algumas mensagens. Max tentava acompanhar o ritmo das notícias, mas os dois pareciam estar sempre fazendo novas burradas e consertando as antigas.
Miranda deitou-se de barriga para cima na cama de Thomas e pegou o celular do garoto para jogar algum dos jogos que ele tinha baixado no aparelho. Sem querer, viu uma notificação que avisava Thomas sobre a festa de próxima semana. Ela franziu a testa e fez um bico. Ela estava muito curiosa sobre como seria uma festa daquele tipo. As luzes ficavam acesas ou apagadas? Até que horas as pessoas ficavam? Elas pagavam para beber? Que tipo de música tocava? Todos dançavam? Ela não fazia ideia. Thomas saiu do banheiro vestindo uma camiseta de time de futebol, uma bermuda azul, meias brancas e chuteiras estilosas.
—Saia da minha cama, preguiçosa. -Ele disse, andando até o espelho do quarto para arrumar o cabelo.
—Aonde você vai?
—Com essa roupa? Pescar, óbvio. -Ele riu. -Vou jogar uma partida de futebas. Quer assistir?
—Não. Não vai ter ninguém que eu goste jogando. -Ela disse, ainda procurando algum jogo no celular dele.
—Que absurdo. Seu noivo vai jogar, sabia?
—Ele não é meu noivo. Não fui pedida em casamento ainda.
—Sorte a sua. Quem, em sã consciência, se casa aos dezesseis anos?
Ela levantou os olhos do celular. -Tecnicamente eu me casarei aos dezessete. Que nem minha mãe.
Thomas pareceu pensativo. -Bem, isso faz sentido. Por isso seu pai está tão obcecado em te casar. Mas, mudando de assunto, eu estarei jogando. Já é um bom motivo para você assistir. Vamos logo ou eu vou chegar atrasado.
Miranda se levantou da cama e arrumou o vestido cor de pêssego, com a saia bufante. Ela foi até Thomas e colocou o celular na mão dele antes de sair do quarto do garoto. Aquele seria o último dia de Thomas no hotel, e Miranda estava melancólica. Ela não conseguia lidar com o fato de ter ficado tão próxima dele em tão pouco tempo, e mesmo assim ele voltaria para a casa dele à horas de distância do hotel, e provavelmente nunca mais veria Miranda. Thomas trancou o quarto atrás de si e olhou para o celular mais uma vez. -Putz. A festa de Vanessa.
—Você vai? -Miranda perguntou, andando na frente dele no corredor. Isa, a ex, tinha falado para Thomas tentar ir na tal festa e se divertir. Thomas estava receoso. Ele achava que ela o estava testando. Thomas não queria se divertir sem ela.
—Não sei ainda. Não quero ir sem ela, mas não quero não ir, já que ela disse para eu ir.
—Você pode ir e não ficar com ninguém. -Miranda disse como se a solução fosse óbvia.
—É, claro, mas e se eu ficar? Isa nunca vai me perdoar. Mesmo que ela tenha falado para eu ir. Viu? É tudo um grande teste.
Miranda suspirou. -Você tem que ir e não ficar com ninguém! -Ela repetiu. -Assim passará no teste!
—Mas existe a possibilidade de eu não passar. -Ele disse quando eles chegaram no elevador. Thomas o chamou.
—Se você ficar com alguém que não seja ela, quer dizer que você não gosta dela de verdade.
—E você sabe tudo sobre isso, né? Porque Miranda é especialista em relacionamentos. -Ele disse ironicamente. Os dois entraram no elevador. -Se liga. Você nunca ficou com ninguém.
—Nunca fiquei com ninguém porque nunca gostei de ninguém. Se você gosta de Isa, não fique com mais ninguém. Na verdade é bem simples.
—Você claramente não entende. Eu estou triste, ok? Deprimido. Carente. Isa me deixou aqui sozinho e agora está praticamente me dizendo para seguir em frente.
—Mas você não vai. -Miranda disse, guiando Thomas em seus pensamentos. -Porque ama ela. Certo?
—Certo.
—Então!
Thomas revirou os olhos. -Quando você levar um pé na bunda vai entender do que eu estou falando.
—Eu não vou levar um.
—Você é bem confiante. -Os dois chegaram ao térreo e andaram um ao lado do outro até a quadra de futebol.
Miranda não se sentia confiante. Ela só achava que nunca levaria um pé na bunda porque não se apaixonaria por ninguém. Em dezesseis anos isso não tinha acontecido, apesar de ela ter conhecido inúmeros garotos bonitos e ricos, por quem era esperado que ela se apaixonasse. Mesmo assim, ela ficava envergonhada por nunca ter ficado com nenhum garoto. Por nunca ter beijado. Tinha curiosidade em saber como era fazer esse tipo de coisa que garotas da idade dela faziam. -As pessoas ficam nesse tipo de festa né?
—É. É a coisa que mais tem, tirando bebidas. -Thomas falou. Eles passaram pelo campo onde a casa na árvore de Miranda e Victor estava escondida e pela piscina. Thomas abriu a porta do ginásio, onde homens e alguns jovens usando chuteiras e camisetas coloridas se aqueciam para o jogo.
—Quero ir. -Miranda disse.
—Aonde?
—Nessa festa.
—Você está louca. -Thomas disse, não dando importância para o pedido da garota. Ela não conseguia se controlar. O desejo de ir a uma grande festa, tomar alguma bebida alcoólica que não fosse uma taça de vinho isolada, ouvir músicas que pessoas da idade dela ouviam, e talvez conhecer um garoto com quem valesse a pena passar um tempo era grande. Mesmo sabendo que o pai não iria deixá-la ir com Thomas, ela queria muito. Começou a bolar planos e desculpas para convencer o pai. Ele gostava de Thomas e de Christopher. Quem sabe? -Pare de pensar nisso. Seu pai não vai deixar. Daniel está ali, naquela arquibancada. Você não vai cumprimentá-lo?
—Eu não. -Ela disse, se pendurando no braço de Thomas, que tentava se aquecer.
—Vai logo e me deixa em paz por um instante. Seu pai ficar sabendo se você for mal educada com ele.
Miranda resmungou em resposta e largou Thomas pra ir arrastando os pés até a arquibancada onde Daniel estava, sentado e tomando um gole de energético em uma latinha. Ele estava vestido para a ocasião, com sua camisa de time estrangeiro e chuteiras que aparentavam ser caras. -Oi Daniel.
Ele sorriu. -Olá Miranda.
Ele não ficava tão bem com sua roupa de futebol como Thomas. Thomas ficava bem em qualquer roupa, e Daniel só ficava bem com seus trajes sociais, mesmo que eles sempre parecessem meio sujos, como se ele os usasse para jogar futebol também. –Como está a hospedagem?
—Impecável, como sempre. Adoro esse hotel. –Ele disse. Para Miranda ele estava apenas sendo puxa-saco. –Não sabia que você vinha assistir ao jogo.
—Vim com Thomas. –Ela falou, sentando-se na arquibancada de maneira preguiçosa. Daniel inclinou a cabeça para olhar Thomas, que dava voltas em alta velocidade no ginásio antes que o jogo começasse.
—Ah sim. –Ele disse, parecendo frustrado. Desde o jantar do primeiro dia de Thomas, quando ele e Miranda haviam fingido serem namorados para incomodar Daniel, o garoto havia implicado com Thomas, mesmo depois de Miranda falar que era apenas uma brincadeira. –Mas vou ganhar dele no jogo de hoje.
—Tem certeza? –Ela perguntou.
—Tenho. Eu sempre ganho no futebol. –Ele disse, parecendo confiante. –Você vai ver.
O juiz, um dos hóspedes adultos, com um boné enfiado na cabeça e um apito pendurado no pescoço, apitou e Daniel se despediu e foi para o centro do ginásio para que os times fossem separados. Daniel fez questão de ficar no time oposto ao de Thomas. Thomas fez dois gols para o time, e em um deles fez um sinal apontando para Miranda, como se o gol tivesse sido para ela. Miranda sabia que ele estava fazendo aquilo para deixar Daniel irritado, mas riu e acenou para ele, sentada da arquibancada. O time de Thomas ganhou.
Miranda entrou no escritório do pai com os argumentos prontos para convencê-lo a deixá-la ir com Thomas para a festa. Ele não teria como recusar. Claro que não.
—Papai. -Ela chamou. Ele olhou para Miranda e sorriu. Ótimo. Estava de bom humor.
—Que bom que chegou. Tenho uma notícia para lhe contar.
—Tudo bem. Mas eu gostaria de fazer um pedido antes.
—E o que seria?
—Bem, Thomas é Christopher Parker estão indo embora amanhã, e eu estava pensando em ir com eles passar alguns dias na casa deles. Talvez dois ou três dias. Sabe? Thomas vai a uma festa e eu gostaria muito de ir com ele…
—Não. -Ele disse antes que Miranda terminasse de falar. O coração dela murchou. Ele nem havia deixado ela explicar mais. -Veja Miranda, não posso deixá-la ir passar um tempo na casa de Thomas ou de Victor.
—Por quê?
—É nessa parte que a notícia que eu queria te dar entra. Você irá se casar com Daniel.
Miranda piscou. Uma, duas, três vezes. Tinha chegado. A notícia do casamento. Miranda sabia que ela estava vindo, mas ela demorou tanto que ela imaginou, e torceu, para que nunca viesse. Mas lá estava ela. Acabando com qualquer chance de Miranda de se apaixonar por alguém de verdade. -Casar?
—Sim. Ele a pedirá em casamento amanhã, no jantar, antes de embarcar de volta para o Rio de Janeiro. Você deve aceitar.
—Eu vou com ele para o Rio de Janeiro?
—Não ainda. Somente depois do casamento.
—Quando vai ser?
—Logo que você completar dezessete anos. É só isso que eu tenho a comunicar. Volte para seu quarto. E esteja bonita amanhã. Aceite o pedido como se nunca tivesse sabido dele.
—Não quero me casar.
Ele olhou para Miranda e suspirou. -Entendo seu desejo. Mas sei o que é melhor para você e essa união será beneficiaria para todos.
—Menos para mim.
—Não gosta de Daniel?
—Não. Eu o odeio agora. -Miranda disse. -Não quero me casar. –Ela repetiu.
—Vá para o seu quarto. -Ele pareceu sombrio de repente. -E aceite o pedido de Daniel amanhã.
Max deixou Lagarto em casa, depois passou no próprio apartamento para pegar suas coisas. Já eram quase duas da manhã, mas como era sexta-feira, ele se permitia fazer esse tipo de coisa. Colocou uma regata preta com uma enorme caveira branca na frente e uma bermuda leve também preta, além de tênis esportivos azul marinho. Passou uma grande quantidade de desodorante e pegou suas luvas e uma garrafa de água antes de sair de casa novamente. Ao sair do prédio, cumprimentou o porteiro com um aceno de cabeça e passou pelo portão que dava na rua. Respirou fundo e começou a correr. Correu por cerca de vinte minutos, desacelerando apenas para olhar para os lados antes de atravessar as ruas, apesar de àquela hora a cidade estar praticamente deserta. Encontrava alguns grupos de jovens como ele no caminho, rindo e com bebidas nas mãos. A iluminação não era muito boa, mas a lua e as estrelas ajudavam. No entanto, mesmo se estivesse completamente escuro, Max seria capaz de chegar ao depósito abandonado. Quando parou na frente do portão trancado, deu uma ombrada com força no cadeado, que abriu sem muita resistência. Max o guardou no bolso da bermuda e entrou no ambiente escuro. Era um quadrado relativamente grande e bem alto, com poucas lâmpadas penduradas no teto. Max as acendeu e colocou as luvas e a garrafa de água pela metade no chão. Foi até um armário enferrujado em uma das paredes e tirou de lá um velho saco de areia vermelho pesado. Ele o pendurou entre duas lâmpadas e se agachou para colocar as luvas nas mãos calejadas. Max gostava da sensação de se exercitar. Gostava de sentir o suor escorrendo da testa e nas costas, da ardência nos músculos e da dolorosa lembrança que tudo isso deixava no dia seguinte quando ele fazia o menor movimento, como descer as escadas do prédio para comprar pão para o café da manhã. Ele tinha achado aquele galpão seis meses depois de se mudar para a cidade, enquanto caminhava em busca de um posto de gasolina após o carro morrer em uma esquina. Achou o lugar trancado com um cadeado, mas a estrutura estava tão decrépita que Max quis saber se tinha alguma coisa lá dentro. O cadeado cedeu depois de dois empurrões e ele viu que dentro devia ser uma espécie de ringue abandonado. Tinha armários com sacos de areia e luvas de boxe, além de vestiários sujos e chuveiros que não funcionavam mais. A única coisa que funcionava era a torneira do banheiro, que Max usava para lavar o rosto e o excesso de suor do corpo depois que terminava. Ficou duas horas lá dentro, e quando se sentiu descarregado o suficiente, tirou a regata, ficando com o peito nu, tomou o resto da água que lhe restava, apagou as luzes e trancou o depósito de novo com o cadeado falho. Então voltou para casa andando, apreciando a lua cheia e o vento que batia em seu rosto.
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