Money
4 Domingo no Parque - Primeiro Encontro
PV — Luna
O domingo amanhece silencioso. A casa ainda dorme, exceto pelo som de alguém batendo a porta do banheiro lá embaixo. Visto um moletom, prendo o cabelo de qualquer jeito e desço as escadas com minha câmera pendurada no pescoço.
Preciso respirar.
Digo para minha tia que vou caminhar um pouco e ela sorri com leveza:
— Vá sim, o parque da rua principal é lindo pela manhã. Seus pais costumavam ir lá quando eram jovens.
A menção deles aperta meu peito, mas assinto. Saio. O ar é fresco e o céu começa a se abrir, entre nuvens claras e finas. Sigo a rua com passos lentos, observando casas diferentes das que eu via nas viagens, pessoas caminhando com cães, o som distante de uma fonte.
O parque é simples, mas acolhedor. Árvores altas ladeiam as trilhas, bancos de madeira estão espalhados entre flores. Um pequeno lago espelha o céu. É tudo calmo, quase como um cenário de lembrança.
Caminho por ali com a câmera nas mãos, tirando fotos de detalhes — folhas com gotas, uma senhora alimentando pombos, uma bicicleta abandonada sob uma árvore.
Então vejo um garoto.
Sentado num banco, meio inclinado para frente, com um caderno no colo e um lápis entre os dedos. Ele parece desenhar ou escrever, não sei ao certo. Está com capuz cinza, mas parte do cabelo castanho escuro escapa pela lateral. O rosto dele está sério. Triste.
Eu paro por um segundo, observando de longe.
Não sei por quê, mas... sinto algo. Uma sensação de que ele entende o que eu estou sentindo, mesmo que nem me veja. Mesmo que eu nem o conheça.
Ele ergue o olhar. Nossos olhos se encontram por um instante. Rápido. Como se ele tivesse sentido o peso do meu olhar. Mas logo abaixa novamente e volta ao caderno, como se aquele momento nunca tivesse existido.
Eu fico ali mais um pouco. Fotografo uma flor caída próxima a ele, discretamente. E sigo em frente.
Talvez ele só estivesse ali, como eu, tentando respirar.
E talvez, só talvez... esse não seja nosso último encontro.
PV — Noah
Domingo.
O único dia que me permite respirar sem olhar o relógio. Mesmo assim, acordo cedo, como sempre. O pesadelo foi mais leve desta vez. Sem sangue, sem gritos. Só o vazio.
Visto meu moletom cinza, pego meu caderno e saio de casa antes que meus pais acordem. Gosto das manhãs silenciosas. Do som das folhas, dos passos leves de quem também tenta esquecer.
Vou ao parque. O banco de sempre. À esquerda do lago, onde o sol bate meio torto entre as árvores. Ali, tento desenhar o que não consigo dizer. Às vezes escrevo. Às vezes só risco o papel.
Hoje eu só rabisco. Formas que não fazem sentido. Minha cabeça ainda está longe. Está sempre longe. Alex. As lembranças. O caderno. O que ele sabia. O que eu nunca soube.
Passos. Discretos.
Não olho de imediato, mas percebo. Alguém parou ali perto. Mulher, talvez. Passos leves demais para serem do Trevor ou de algum idiota da escola. Viro o rosto só um pouco.
É uma garota.
Sozinha. Tem cabelo escuro preso no alto, e uma câmera pendurada no pescoço. Ela observa tudo com atenção. Não parece perdida, mas também não parece à vontade.
Por um segundo, nossos olhos se encontram.
Eu não estava preparado. É estranho... o jeito como ela me olha não é de curiosidade ou julgamento. É... reconhecimento?
Viro o olhar de volta para o caderno antes que ela pense que estou encarando. Rabisco qualquer coisa. Não quero parecer um estranho estranho. Mas por dentro, algo pulsa. Um incômodo bom. Ou talvez perigoso. Não sei dizer.
Sinto que ela ainda está ali. E depois, que foi embora.
Não olho de novo.
Só quando já estou sozinho, solto o lápis e fecho os olhos por um instante. É só uma garota. Nova na cidade, talvez. Nunca a vi antes. Mas… alguma coisa naquela troca rápida ficou presa.
Como se ela soubesse o que é estar sozinho, mesmo rodeado de gente.
Talvez eu a veja de novo.
Ou talvez não.
Mas por algum motivo... espero que sim.
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