Notas iniciais
Música do capítulo: Bishop Briggs - River

Elizabeth Cooper

Me encarei no espelho do banheiro da escola com Verônica ao lado rindo.

— Você viu só a cara dele? – ela me encarava pelo espelho divertida enquanto arrumava o meu cabelo sem necessidade.

— Verônica, você viu a cara de todo mundo? – eu disse desesperada – Fiquei tão nervosa que só sabia olhar para frente com medo de tropeçar em meus próprios pés!

— Oi priminha biscate. – Cheryl entrou no banheiro me analisando – Vejo que você surtou finalmente. Mas gostei, combina mais com seu lado vadia. – revirei os olhos enquanto ela se observou no espelho – Bom, passar bem.

Cheryl Blossom era a prima desnecessária que eu não gostaria de ter nenhum tipo de contato. Entretanto, após a fuga de Polly e Jason, nossas famílias se estranharam e em meio a uma discussão o segredo dos Coopers e Blossoms surgiu, desmascarando um laço de sangue que estava sendo mantido em sigilo entre os patriarcas das duas famílias a muito tempo. Talvez Cheryl soubesse de algo sobre o irmão, talvez ele pudesse ter deixado alguma pista e eu cogitava a ideia de que juntas, não por afinidade, poderíamos descobrir para onde foram.

Contudo, desisti disso no mesmo momento em que a rivalidade entre as famílias surgiu e a discórdia propagou-se até mesmo nela com relação a mim. Era certo o fato de que não conseguiria enfrentá-la com todo o seu vão rancor, mas após o desaparecimento de minha mãe tudo era realizável.

Eu e Verônica fomos para a sala assim que o sinal chamou. Me sentei ao lado de Sweet Pea que me encarava intensamente, da mesma forma que todos na sala.

— Oi. – sorri gentil como sempre.

— O que aconteceu com você Fada? – ele perguntou confuso analisando meu rosto.

— Se lembra do que te disse sobre minha mãe? – ele afirmou com a cabeça – Preciso entrar nos serpentes para investigar algumas coisas. – sua expressão ficou dolorosa.

— Tem certeza disso? – ele sussurrou enquanto Jughead entrava na sala e se sentava próximo à janela com Fangs – Quer dizer... Seria ótimo te ter lá, mas é perigoso para você.

— Tenho certeza que o perigo sou eu Swee Pea. – sorri maldosa – Além do mais, você não vai precisar ter vergonha em ser meu amigo mais.

— Como assim? – ele pareceu surpreso.

— Acha que eu não percebo que só me cumprimenta às escondidas e nunca conversa comigo fora da aula de química? – expus.

— Não é isso... – ele suspirou enquanto passava a mão pelos cabelos antes penteados.

— Ok, então me prova que é meu amigo. Me ajuda a entrar para a gangue! – sussurrei no momento em que o professor entrou na sala.

— Tudo bem, mas você não vai gostar nada de tirar a roupa. – ele riu tímido olhando para o professor.

— O que?? – nossa conversa foi interrompida quando o professor começou a dar orientações para a prova a ser distribuída.

Percebi Jughead me olhando por cima do ombro duas ou três vezes durante a prova. Talvez estivesse analisando a possibilidade de aceitar o meu pedido, mas ainda assim, eu teria mais uma superação a enfrentar. Subir em um palco de pole dance em um bar do lado sul e tirar a roupa. Pensei que Sweet Pea estivesse zombando de mim ou me colocando a prova quando encontrei com Toni no banheiro e decidi confirmar.

— Toni, oi... – me aproximei, minha voz soava doce demais para a figura que me era refletida ao espelho – Eu queria me desculpar por te encarar daquela forma ontem. — ela se virou para mim erguendo uma sobrancelha.

— Desculpas aceitas loirinha. – se encostou na pia – Então, qual é a do visual?

— Eu na verdade queria confirmar uma coisa com você. – troquei o peso do corpo para a perna esquerda – O que uma garota precisa fazer para se juntar a vocês? – ouvimos uma descarga e ela apontou a porta com a cabeça.

— Vamos para outro lugar. – andou até a saída e eu a segui.

Nos sentamos em uma mesa do lado de fora do refeitório, o inverno já estava no fim, mas o clima ainda era um pouco frio. Toni retirou tranquilamente seu lanche da mochila, chá quente e bolo.

— Você aceita Cooper? – ela ofereceu e eu neguei com a cabeça – Acha que eu não percebi o quanto você emagreceu esses dias?

— Eu simplesmente perdi o apetite... – expliquei – Mas então vamos ao que interessa.

— É uma prática sexista arcaica – ela serviu o chá para si enquanto estalava a língua no céu da boca – Eu venho tentando mudar isso há anos, em vão, é claro. – assoprou – As mulheres iniciadas na gangue devem fazer a dança serpente.

— E o que exatamente é essa dança? – esperei apreensiva.

— Stripe-tease e pole dance no refúgio das cobras. – ela suspirou mordendo seu bolo com um meio sorriso – Em cima de um palco – completou erguendo as sobrancelhas.

— Mas é toda a roupa? – esclareci colocando as mãos sobre a mesa, ela sorriu, eu claramente demonstrava nervosismo.

— Não tudo. – mordeu outro pedaço – Conhece o Whyte Wyrm? É onde nós nos reunimos, principalmente em comemorações. Se certifique de que a casa esteja cheia. Jughead não poderá te recusar na gangue se gostarem de você. – ela piscou – Só dê o seu melhor Cooper, vai dar certo.

— É claro que vai. – suspirei deitando a cabeça sobre os braços cruzados na mesa – Porque eu não sei o que fazer caso não dê.

Toni terminou seu lanche e de repente me olhou com compaixão. Nós nunca havíamos trocado uma palavra, mas mesmo assim senti que ela era uma amiga adorável.

— Eu ainda não entendi direito, como exatamente entrar na gangue vai te ajudar a encontrar sua mãe? – perguntou.

— Como você sabe o motivo pelo qual quero entrar Toni? – estranhei, em momento nenhum havia dito à ela a relação entre os serpentes e minha mãe.

— Jughead estava falando sobre você para mim ontem. – esclareceu finalizando com um bico – Ele não vai permitir tão facilmente sua entrada, acho que você vai ter que provar a ele que merece isso. – riu – Não que entrar para uma gangue seja lá essas coisas.

— Esse é o ponto Toni! – concordei gesticulando – Porque Jughead faria tanto caso em não me deixar entrar se sempre vejo novos serpentes todo mês? – disse exasperada sem entender.

— Olha, talvez... – ela disse lentamente sorrindo maliciosa – Ele tenha uma queda por você. Precisava ver a forma como ele te olhou hoje. – riu de novo – Não vou negar que também te acho uma gracinha, mas normalmente serpentes preferem ruivas.

— O que? Toni, você é lésbica? – arqueei as sobrancelhas com a resposta óbvia, ela apenas tombou a cabeça com um sorriso.

É claro que sim, mas eu era inocente demais para saber. Toni e eu conversamos ainda por um longo tempo, sem perceber que o sinal já havia tocado, nos chamando para a aula. Pela primeira vez, como uma nova garota eu tinha matado aula, sem querer.

Ela me contou sobre como perdeu os pais quando tinha treze anos em um acidente de moto. Os dois eram serpentes, donos de uma loja de peças automobilísticas, humildes e companheiros. Percebia em seu olhar o orgulho com a qual dizia a respeito de sua linhagem serpente e como queria que seus futuros filhos também participassem disso. Hoje ela morava com o avô, cuja saúde já estava debilitada por conta da idade.

— Eu tenho que cuidar dele... — deu de ombros.

— E eu tenho que encontrar minha mãe... – completei.

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Mais tarde me encontrei com Verônica e Archie no Pop’s, os dois estavam tensos quando cheguei, curiosa para saber o que tinham que me contar. Talvez fosse a notícia de que minha mãe finalmente fora encontrada, sem vida. Talvez quisessem me contar que o desaparecimento da minha mãe foi realmente um abandono. Ou ela poderia ter surtado e estava agora secretamente internada pelo meu pai no Lar das Irmãs da Serena Misericórdia.

Mas não, a notícia não foi tão ruim assim como eles provavelmente imaginavam que fosse para mim.

— Eu estou realmente feliz por vocês. – sorri sem graça – Mas não entendo porque quiseram esconder isso de mim.

— Olha Betty, eu pensei em como não era justo que estivéssemos felizes e juntos enquanto você está sofrendo pela sua mãe. – Verônica colocou sua mão sobre a minha na mesa a apertando.

— Eu entendo vocês. – concordei com a cabeça gentilmente – Já faz quanto tempo?

— Tem quase duas semanas. – Archie pigarreou – Nós ficamos mais próximos pela causa da sua mãe. Você sabe, espalhando os cartazes por aí e tudo mais. – ele finalizou com um olhar apaixonado para Verônica e eu só consegui imaginar como seria bom amar alguém que também me olhasse assim.

Quando minha mãe ainda estava conosco ela se certificava de que eu não caísse nas graças de nenhum garoto. “Ninguém nessa cidade é bom para você Elizabeth”, dizia seca. Depois que Polly fugiu com o Blossom, tudo piorou: os horários para estar em casa, a vigilância, a cobrança e as proibições. Nunca passei de primeiros beijos e paixões sem sal por pessoas que eu nunca consegui corresponder.

(música)

— Sabe, vocês são lindos juntos. – os admirei enquanto davam um selinho – Acho que temos que comemorar, vou pedir um milk-shake de morango!

— Nada disso! – Verônica se levantou puxando a mim e Archie pela mão – Você agora é uma Betty Dark, suas bebidas precisam de uma pitada de teor alcoólico. – nos puxou para a saída.

— Ei, Ronnie. Para onde vamos então? – Archie questionou enquanto atravessávamos a porta.

— Na verdade pompinhos... – interrompi com um olhar divertido e malicioso – Eu sei de um bar perfeito para essa noite.