Monarquia Serpente - Bughead
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Elizabeth Cooper
Abri o registro do chuveiro e fechei meus olhos sob sua estrutura metálica permitindo que a água quente percorresse meu corpo. Dentre todas as coisas que Jughead havia me dito, a fuga de minha mãe não fazia sentido. Se ela estivesse realmente fugindo de alguém provavelmente me levaria junto. Afinal, que tipo de ameaçador não estende a ameaça até a família da vítima? Porque ela me deixaria correr esse risco? Mil novas hipóteses se formavam: de que ela poderia ter sido assassinada; de que ela estaria em segurança bem longe daqui; de que ela havia feito um acordo para que me deixassem em paz; de que eu não sabia de absolutamente nada e tudo isso era inútil. Mas nada dessas hipóteses me saciava, eu me sentia frustrada por Jughead não saber nada além daquela pequena frase e percebi que ele se sentia ainda mais frustrado por não conseguir responder minhas perguntas.
Ao passo que o banheiro se enevoava com o vapor do chuveiro meu reflexo se estampava no vidro do box. Comecei a me encarar, a figura esguia que era refletida parecia cada vez macabra. A pele abaixo do seio delineava três costelas. As clavículas saltavam agora protuberantes sob o pescoço magro. Minhas bochechas estavam fundas assim como meus olhos cobertos de olheiras. Meus cabelos molhados para trás terminavam pouco antes da cintura denunciando meu desleixo na falta de um corte, sempre fora minha mãe que fizera isso por mim.
Lágrimas começaram a escorrer contra a minha vontade e de repente senti o desespero me tomar. Fechei os olhos comprimindo-os, uma dor latente me apertou e levei a mão até o peito. Eu precisava de respostas, algo que me desse esperança, mas acima de tudo precisava ser forte. Resiliente.
Alcancei o shampoo de morango na prateleira e ensaboei os cabelos que acabaram se embaraçando com o vento da moto. Um olhar sob outra perspectiva. Me lembrei da frase que havia marcado minha manhã. Em um salto já estava no meu quarto. Escolhi rapidamente as roupas para a aventura desta noite. Eu precisaria de algo confortável e principalmente quente. Puxei a jaqueta da mochila vestindo-a sobre uma malha preta em contraste com a calça jeans azul e um allstar surrado. Sequei os cabelos rapidamente e me lembrei de que a moto os embolaria novamente, o que me fez trança-los até o final. Meu rosto parecia cansado, mas em vista do objetivo de hoje não seria necessário camuflar isso. Joguei tudo que julgava ser necessário na bolsa e me lancei porta a fora.
— Pai? – verifiquei se era seguro sair com a jaqueta no corpo.
Ele ainda não havia voltado e apesar disso me deixar com uma mentira a menos eu me preocupava sobre o quanto ele estava se dedicando ao jornal. Decidi pegar uma rota diferente até o White Wyrm para verifica-lo antes de me encontrar com Jughead.
Tudo parecia diferente, o caminho parecia mais curto, eu parecia mais confiante, a noite parecia mais fria do que o normal. Mas nada é como parece. As luzes do jornal estavam todas apagadas, não havia nem sequer uma alma penada na rua. Um arrepio me percorreu enquanto eu olhava a calçada ao meu redor.
Decidi ir até lá. Pelo lado de fora o jornal parecia intocado há dias, ou semanas. Apalpei o beiral da janela esquerda até sentir a alça fria da chave tocar minha mão. Mamãe sempre deixava uma de reserva ali para o caso de esquecer as chaves em casa. Ao entrar na sala escura o ar empoeirado me fez espirrar. Acendi a luminária da mesa percebendo que a sujeira encrostava a madeira da mesa e até mesmo o único computador velho que existia no jornal. Meu pai não trabalhava ali a pelo menos umas duas semanas.
Acendi a lanterna do celular para dar uma última olhada na sala antes de ir. Marcas de dedos na maçaneta da gaveta se destacaram sob o brilho da luz chamando minha atenção. A puxei para fora, mas ela não abriu. No segundo puxão mais percebi que estava trancada, algo pesado se balançava lá dentro. O que quer que tivesse ali parecia importante.
Retirei o único grampo do cabelo fazendo com que as mechas rebeldes se libertassem da trança caindo sobre o rosto. Em menos de cinco segundos a gaveta estava aberta. Havia alguns papeis e um objeto mal iluminado. Retirei tudo evidenciando agora uma arma pequena. Cinco balas balançavam na gaveta rolando para a ponta.
Engoli em seco. Meu coração quase saltava pela garganta.
Comecei a vasculhar os papeis e um deles me chamou a atenção pela textura, era a mesma do bilhete quehavia encontrado no quarto de mamãe, porém faltava o final da folha que por sinal estava rasgado a mão. O papel seguinte era ainda mais intrigante. Um mapa desgastado da divisa com Greendale marcava pontos específicos da floresta em caneta azul, um deles estava circulado. O último papel era um recorte de jornal antigo, com data de onze anos atrás.
CRIANÇAS SÃO RESGATADAS NA FLORESTA POR MORADOR ISOLADO

Meu celular vibrou no bolso da jaqueta repetidamente me assustando. Dobrei todos os papeis os guardando dentro da bolsa. Analisei o objeto pequeno e pesado e os cinco filetes mortais de metal que agora rolavam pela minha mão, os joguei dentro da mochila puxando seu zíper. Fechei a gaveta como antes e corri para fora trancando a porta e atirando a chave sob o beiral novamente. Dei partida na moto e corri para Jughead, como nunca havia corrido antes.
◙ ○ ◙ ○ ◙
Só percebi a velocidade em que me encontrava quando comecei a desacelerar para entrar no estacionamento do Whyte Wyrm. A adrenalina fazia minhas pupilas saltarem sobre a escuridão do lugar, iluminado apenas por dois postes com lâmpadas fracas que ficavam piscando e uma cobra em neon na porta de entrada. Ao parar a moto, inconscientemente a virei na ansiedade de já deixá-la estacionada, em contato com o chão úmido o pneu traseiro derrapou subindo o vapor com cheiro de borracha queimada. O esganiçado da derrapagem chamou a atenção de alguns homens que bebiam na porta do estabelecimento fazendo com que todos olhassem em minha direção. Não tive tempo de me recompor então agi naturalmente como se a tivesse derrapado propositalmente. Desci com naturalidade retirando o capacete e caminhando até a entrada.
— Boa noite docinho...- algum deles disse com a voz sugestiva.
Continuei caminhando sem olhar para nenhum deles, até que percebi Tal Boy com uma garrafa de vidro marrom recostado sob a lateral da porta.
— Bela Scrambler loirinha. – ele sorriu tornando seu rosto ainda mais estranho.
— Obrigado. – disse rapidamente antes de entrar.
Era uma quarta-feira, o bar não estava cheio, haviam apenas alguns gatos pingados jogando sinuca e Toni ao fundo. Andei rapidamente até lá, já haviam passado mais de uma hora do horário combinado com Jughead. Na metade do caminho alguém me segurou pelo braço me assustando. Deixei o capacete cair no chão.
— Merda. – a figura o pegou imediatamente me entregando – Onde você estava Elizabeth? – Jughead me olhava assustado sob a luz fraca – Eu devo ter te ligado umas três vezes, fiquei preocupado c...
— Eu precisei passar no jornal, meu pai não estava em casa. – o cortei. Ele me analisava por inteira, como se buscasse qualquer coisa diferente, até encontrar.
— Por quê tá com essa jaqueta? – ele pareceu nervoso – Tira isso, se toparmos com os Ghoulies qualquer cobra vai chamar a atenção.
— É mesmo, não tinha pensando nisso. – minha voz saiu baixa.
Retirei a mochila deixando-a pender com cuidado ao chão, tirei a jaqueta a amarrando do avesso na cintura.
— E então vamos? – perguntei.
— Você veio de moto? – ele questionou vendo o capacete em minhas mãos.
— Sim, porque? Algum problema? – ele deu um sorriso torto.
— Meu pai confiscou minha moto até o dia do baile. – passou a mão pela nuca parecendo desconfortável — Sabe, escondeu as chaves. Não quer que eu vá a lugar nenhum que seja perigoso. Ele nem sequer sabe que estou aqui, eu disse que ia à casa do Archie.
— E é justamente algo perigoso o que vamos fazer hoje. – comprimi os lábios – E então, vamos? Eu tenho umas coisas pra te contar, mas não aqui. – olhei ao redor enquanto pegava a alça da mochila novamente.
— Tudo bem, mas vou precisar de um capacete, só por segurança. – o olhei fingindo me ofender, é claro que ele precisava de um – Isso não quer dizer que eu não confie em você, só sou precavido.
— É claro que é. — revirei os olhos caminhando em direção à porta.
Jughead veio logo atrás de mim. Nick e alguns outros garotos mais novos entraram analisando as pessoas no bar. Ele veio até mim e se preparou para dizer alguma coisa, mas assim que viu Jughead um sorriso sarcástico se formou em seu rosto. Seu olhar se alterou imediatamente para uma expressão frenética e doente. Eu continuei andando, mas parei na porta assim que percebi que ele havia parado Jughead com uma mão em seu ombro.
— Jughead Jones... Esteve sumido esses dias. – ele balançava um palito de dente entre os lábios – Fiquei sabendo que esteve treinando.
Ao contrário de Nick que sorria divertido Jughead continuava sério. Na verdade, sua expressão havia se transformado em uma mistura de fúria e angustia.
— Tire suas mãos de mim Nick, a não ser que queira adiantar o acerto de amanhã. — Nick o soltou imediatamente juntando os lábios em um bico.
— Bom, então quer dizer que ainda está de pé. – ele sorriu mais uma última vez antes de olhar para mim – Aliás loirinha, você está convidada. Amanhã às sete horas no estacionamento de trailers. – ele me analisou enquanto mordia o lábio inferior me causando repulsa – Espero que não esqueça sua jaqueta, já que dançou tão bem para consegui-la. – piscou e eu pude sentir a ânsia subir pela minha garganta, revirei os olhos empurrando a porta ao sair.
Em contato com o ar externo eu sentia que podia congelar sem o manto de couro, levei os braços até os cotovelos segurando firme enquanto me encolhia de frio. Caminhei a passos largos até a moto. O chão ao lado do pneu traseiro fazia perfeitamente um semicírculo preto, coloquei o capacete montando e dando a partida. Jughead parou ao meu lado analisando o rastro de pneu queimado.
— Você não acha melhor eu pilotar?
— O que foi Jones? Está com medo? — sorri divertida.
— Claro que não. — abotoou o capacete que havia pego com um dos homens próximo a porta externa.
— Essa é sua vida agora, espero que se acostume. – me lembrei do primeiro dia em que andei em sua garupa.
Eu não estava tão confiante para dirigir de forma desorientada como ele, mas com certeza já havia praticado o suficiente para não ir tão devagar.
— Aqui. – ele me estendeu uma jaqueta jeans grande – Vê se fica esperta na próxima vez.
Segurei a jaqueta ofendida.
— Eu não preciso de nenhum favor seu, muito pelo contrário. – bufei.
— Então entenda como uma troca de favores, te devo menos um agora. – franziu o cenho puxando a mochila das minhas costas para que eu vestisse a jaqueta.
Discutir com ele seria perda de tempo, ainda mais sobre algo tão insignificante. As mangas sobraram cobrindo minha mão e as dobrei duas vezes até que conseguisse me movimentar tranquilamente. O cheiro de Jughead preencheu todo o ar ao meu redor e apesar do orgulho era um alivio poder me proteger do frio. Ele jogou a mochila nas costas e atravessou a perna se sentando na garupa fazendo com que a moto rebaixasse sob seu peso.
— Sabe chegar até o campo? – ele disse alto compensando o som abafado que saia do capacete.
— Acho que sim, é o caminho contrário daquele dia. – me lembrei de quando ele me encontrou na floresta.
— Ok.
Jughead parou seus braços ao redor do meu quadril hesitando me tocar.
— Eu posso? – sua voz saiu baixa.
— Sim. – olhei para baixo enquanto arrancava.
Ele apenas pendeu os braços ao meu redor sem realmente se segurar. Acelerei mais a moto engatando a segunda e logo após a terceira conforme o ronco do motor pedia.
— Você já pode engatar a terceira... — ele disse por cima do meu ombro assim que eu já o havia feito.
— Eu sei o que estou fazendo Jughead! — gritei para que ele pudesse me ouvir bem.
Ao entrar em contato com o asfalto senti seu abraço me comprimir, mas não fui corajosa o suficiente para arriscar uma velocidade maior. A estrada escura me causava calafrios, não haviam borrões verdes ou algo do tipo já que não era possível ver nada.
— Quando mudar de um tipo de pista para outro eu te aconselho desacelerar, a não ser que queria perder o controle dela. — suas mãos me apertavam e ele parecia cada vez mais próximo.
O campo era iluminado por alguns postes. Sai da estrada desacelerando assim como ele havia dito, parei a moto rente à contenção de madeira que delimitava o rio. Assim que abaixei o apoio da moto sob a grama Jughead se levantou retirando o capacete, em seguida fiz o mesmo.
— Até que não foi tão mal assim. – sorriu amarelo – Mas confesso que no começo fiquei com medo.
— Agora sabe qual é a sensação. – ergui as sobrancelhas pendendo o capacete sobre a moto — Minha ficha ainda não caiu...
— Sobre o que? — uniu as sobrancelhas confuso.
— Sobre o quanto você pode ser babaca quando quer. — cuspi as palavras.
Ele revirou os olhos soltando um dos ombros da alça da mochila, a jogou para a frente do corpo abrindo o zíper.
— Você trouxe lanternas? – perguntou tranquilamente.
— Espera! – me sobressaltei lembrando do que havia lá dentro além das lanternas — Deixa que eu pego.
Tomei a mochila das mãos dele.
— Ei, não precisa ficar esquentadinha, eu não ia fuçar suas coisas. – bufou.
— Não é isso...- apoiei o fundo da mochila no banco da moto enquanto retirava os papeis – Eu preciso muito te mostrar uma coisa.
Sua expressão se tornou confusa e ele se aproximou me dando total atenção. Retirei duas lanternas lhe entregando uma, peguei os papeis em seguida.
— Meu pai não para em casa a muito tempo, vivia fora e chegou a fazer uma viagem de três dias. No começo eu achava estranho, mas aí ele me disse que estava ocupado demais com o jornal. O que pareceu verdade já que nunca paramos de publicar... – desdobrei os papeis que haviam se amassado e Jughead os iluminou com a lanterna.
— Ele pode estar tendo um caso e não quer te contar... — ergueu as sobrancelhas sugestivo.
Eu poderia bater em sua cabeça com a lanterna, ele realmente podia ser um babaca quando queria.
— Não! Tá louco? — questionei incrédula — Eu fui até o escritório do jornal e estava tudo intocado.
— Tá vendo, ele tem um caso... — continuou.
Decidi ignorar e provar o quanto era importante o que eu dizia.
— Achei isso em uma gaveta trancada. – seus olhos acompanharam o papel.
— Crianças são encontradas em floresta por morador isolado... — leu em tom irônico demonstrando desinteresse.
— Continua... — revirei os olhos.
Jughead continuou lendo a matéria em silêncio se surpreendendo de repente.
— É essa mesma floresta Elizabeth! – se voltou a mim – Você sabe quem são elas?
— Sim... quando eu era criança Polly costumava me levar para brincar na floresta escondido dos nossos pais, até o dia em que ficamos perdidas. Essas crianças do jornal somos nós a doze anos atrás... – Jughead me olhou surpreso e eu continuei – Acho que andamos por quase doze horas, sem comer e beber nada, até que anoiteceu e dormimos debaixo de uma árvore. A polícia usou cães de busca e tudo mais, só que o que nos encontrou foi um homem que morava na floresta. – apontei uma foto pequena dele no final do papel – Ele vivia recluso na floresta, em uma cabana pequena...
Jughead me olhou abismado arregalando os olhos.
— A cabana que você descobriu dos Ghoulies... – ele voltou seu olhar ao jornal ainda surpreso.
— Tem mais... – eu desamassei o mapa – Eu não tenho certeza, mas esse é um mapa da floresta que usaram no resgate.
Ele segurou o mapa por cima do jornal enquanto balançava a cabeça em negativo ao analisa-lo.
— Elizabeth, eu posso estar enganado, mas essas marcas são os lugares onde fizemos emboscadas... – torceu o rosto – Eu não entendo, como seu pai pode saber desses lugares?
— Não é obvio? – engoli em seco – Ele quer encontrar minha mãe tanto quanto eu...
Fale com o autor