Monarquia Serpente - Bughead
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Elizabeth Cooper
Três listas. Minhas crises de ansiedade se iniciaram aos quatorze anos, quando comecei a ferir a palma das mãos com as próprias unhas. Era como uma válvula de escape para não explodir e surtar. Não era um método eficaz, nem tão pouco terapêutico, por isso os remédios e algumas técnicas frequentemente me auxiliavam a organizar a minha percepção do mundo, acalmando a confusão que se passava em minha mente.
Primeira lista. Betty, três coisas que você vê.
Vejo Toni me oferecendo um sanduíche natural que acabara de comprar na bancada do refeitório. Eu não quero comer, mas ela insiste tanto.
Vejo Sweet Pea me encarando de soslaio o tempo inteiro enquanto conversa com Fangs. Ele deve achar que eu não percebo, mas o faz com tanta frequência.
Vejo Cheryl cochichando com sua trupe de seguidoras desmioladas. Ela gesticula e expressa raiva. Por fim ela olha para mim e cruza os braços erguendo a sobrancelha, mas já não parece tão assustadora quanto antes.
Segunda lista. Muito bem Betty, três coisas que pode sentir o cheiro.
Sinto o perfume amadeirado de Sweet Pea desde que ele envolveu meus ombros em seus braços no início da manhã, mas não é ruim.
Sinto o aroma doce e enjoativo do sanduíche que Toni me força a comer. Meu estômago se revira na última mordida me fazendo pressionar as unhas contra a pele úmida cada vez mais.
Sinto o cheiro exalado pelo couro novo, este se mistura ao cheiro de morango do meu creme corporal, isso me tranquiliza e então me permito relaxar a mão.
Terceira lista. Pense em uma coisa que está te incomodando.
O olhar assassino de Cheryl não me incomoda, então ela não entra na lista. O sanduíche natural não me incomoda agora que já consegui comer. Sweet Pea parece ter finalmente se interessado em seu assunto com Fangs e agora não me encara mais. Então afinal o que me incomoda?
— Estava pensando em mexer no motor dela hoje... — Fangs balbuciou em sua conversa com Pea.
— Aquela moto precisa é de freios, você e Jughead tem que parar com essas apostas bobas antes que alguém se machuque! — Pea retrucou irritado enquanto sua fala chamou minha atenção.
Jughead me incomoda. Eu queria tanto confrontá-lo, perguntar qual era o problema dele comigo. Ou simplesmente queria me dar ao luxo de ignorá-lo e atiçar sua curiosidade sobre o que eu pensava de suas atitudes. Contudo, agora que completara quatro dias de sua ausência eu não poderia fazer nada disso e minha incompetência vingativa me incomodava com intensidade. Não entendia como alguém poderia ficar doente em um momento tão propicio como Jughead Jones.
A pele que recobria a palma das mãos começou a latejar me fazendo perceber o quanto já havia comprimido as unhas naquela região. A técnica das listas havia falhado graças à menção de um maldito Jones.
— Vocês entendem de motos, não é? – resolvi me intrometer.
Fangs ergueu as sobrancelhas surpreso com minha quebra de silêncio.
— Um pouco eu diria. — Pea passou a mão sob a nuca trocando olhares com seu amigo.
— Bom, — sorri simpática — eu preciso de uma ajuda com a minha moto. Queria trocar algumas peças.
Toni fingiu um engasgo com seu suco enquanto Fangs ria baixo. Sweet Pea apenas baixou suas feições confuso, provavelmente até mais que eu.
— Fada, não era você quem tinha pavor de motos? — sua voz soou gentil ao contrário de Fangs que continuava com sua risada zombeteira.
— Fada? – Toni ergueu uma sobrancelha sugando o líquido restante da caixa.
— Talvez seja o momento de superar o meu medo, afinal agora também sou uma serpente.
— Desculpa, mas não te imagino pilotando uma moto. Quer dizer é perigoso demais para garotas. – Fangs soltou ainda sem controlar sua risada, que irritou Toni que atingiu sua caixa de suco vazia contra a mesa.
— Pois eu te apoio completamente Betty! — fez uma pausa comprimindo os olhos — Eu só não tenho costume de pilotar pelo que aconteceu com os meus pais.
Fangs se engessou de repente contraindo os lábios e engolindo em seco. Olhei se soslaio para Toni que piscou um dos olhos discretamente, ela estava sempre a um passo à frente dos garotos, usando todas as cartas da manga para manter essa posição.
— Eu posso passar na sua casa para dar uma olhada nela então. — Sweet Pea rompeu o clima pesado da mesa chamando minha atenção.
Meus olhos desviaram dos seus parando em Cheryl novamente. Eu não poderia levar a moto até lá sem saber pilotar, mas também não poderia receber um motoqueiro Serpente com meu pai em casa. Inconscientemente balanço a cabeça em negativa contra minhas próprias soluções.
— Ou se preferir você pode levar a moto até o pátio dos trailers... — suas sobrancelhas se uniram em algo que pareceu uma súplica por qualquer resposta.
Poucos segundos se passam e Cheryl finalmente sai do refeitório permitindo que minha mente clareasse as ideias. Um campo próximo ao rio Sweetwater que Polly havia me apresentado antes de fugir me vem à memória. Nós costumávamos atravessar a floresta atrás de nossa casa e passar por um caminho rápido e de fácil acesso até lá. Logicamente carros não passavam por entre as árvores, mas talvez eu conseguisse empurrar a moto até o campo.
— Na verdade, nós poderíamos combinar um outro lugar. — ele estava tão atento ao que eu dizia que sequer piscava — Entre a divisa de Riverdale e Greendale tem um campo, próximo ao rio. — o sinal soou me interrompendo — Nos encontramos lá amanhã.
"Elizabeth Cooper favor comparecer à sala do diretor", uma voz estridente soou nos autofalantes do refeitório fazendo com que rostos curiosos se voltassem para mim assim como mais cedo nos corredores. Um sorriso meu escapou, era óbvio demais que Cheryl fosse recorrer justiça com uma autoridade maior. Meu discurso de defesa já passava pronto pela minha mente enquanto eu me levantava, os outros na mesa fizeram o mesmo.
— Está tudo bem. — pisquei para Toni — Vão para a sala, já chego lá.
Dei alguns passos em direção à saída com olhares ainda me seguindo, dessa vez acompanhados por cochichos. Fiz um bico debochado ao olhar ao redor. Talvez demonstrar confiança seria o ideal nessa situação. Girei meu corpo dando passos para trás.
— Ei Pea! — os cochichos cessaram — Te espero amanhã! — senti as portas do refeitório se abrindo em minhas costas quando as atravessei.
◙ ○ ◙ ○ ◙
— Por favor Elizabeth! – o homem calvo à minha frente abre a porta me dando passagem para sua sala.
Comprimo os olhos repassando meu discurso mais uma vez. Eu diria sobre como é injusta a forma com a qual uma garota mesquinha e mimada é livre para praticar bullying com outros alunos enquanto infla seu ego sem ser minimamente castigada.
Para o caso de a discussão fugir do meu controle, penso em apelar para o sentimentalismo de ser uma adolescente que perdeu mãe e irmã para o mundo em um só ano. Mas talvez eu só peça desculpas e ele leve em consideração todo o meu histórico exemplar ao longo dos anos.
— Bom, senhorita Cooper. – ele inicia com sua voz grave e eu me rendo imediatamente.
— Eu lamento senhor Weatherbee. – respondo desajeitada.
— Como? – ele franze o cenho confuso – Você lamenta pelo que Elizabeth?
Meus olhos passeiam rapidamente pela sua mesa de madeira maciça.
— Perdão, por qual motivo o senhor me chamou aqui? – ele ajeita os óculos no rosto se mantendo sério.
— Eu acho que devo dizer o quanto lamento toda a transformação que aconteceu em sua vida nos últimos tempos. – ele pigarreou – Nos últimos dois anos você veio organizando alguns eventos da escola e depois do encerramento do Blue and Gold eu achei que fosse necessário perguntar se este ano organizaria o nosso baile de primavera...
Minhas sobrancelhas se ergueram involuntariamente acompanhadas por um suspiro de alivio, não seria dessa vez a minha primeira bronca do diretor.
Uma brisa fina escapou pela janela me fazendo perceber o quanto do inverno já havia ido embora. Agora, ao alcance dos meus olhos naquela pequena vista retangular, nenhum resquício de neve sobrara e as árvores já estavam prestes a tomar a sua forma colorida mais uma vez.
— Já é primavera... – sussurro por fim me dando conta de como os dias haviam passado depressa.
Um pensamento me alcançou sobre como já havia perdido tempo com coisas banais ao invés de investigar os Serpentes e colher pistas sobre o desaparecimento de minha mãe.
— Eu vou entender caso não seja possível Elizabeth, afinal muitas coisas aconteceram nos meses anteriores. – ele pigarreou novamente voltando meu olhar até ele – Mas acredito que lhe faça muito bem um pouco de distração.
Sorri de lábios fechados. Era exatamente o que eu queria evitar. Essas banalidades não tomariam meu tempo. Não mais.
— Desculpe Senhor Weatherbee. – me levantei alcançando a alça da mochila jogando-a sobre o ombro – Eu tenho outros projetos agora, sei que você já tem outra aluna em mente. – conclui com três passos para trás até sentir a maçaneta da porta.
— Na verdade não. – ele também se levantou com as sobrancelhas unidas ao centro em uma expressão um tanto séria quanto confusa – Quem você sugere?
Eu não precisei pensar muito, afinal tinha na ponta da língua a candidata perfeita a ocasião.
— Cheryl Blossom.
◙ ○ ◙ ○ ◙
Eu deveria imaginar que uma moto pesasse tanto. Já era a terceira vez que havia parado para descansar na floresta, por sorte estava adiantada no horário marcado com Sweet Pea. O caminho estava um pouco diferente do que eu me lembrava de alguns anos atrás, por vezes a trilha sumia me trazendo calafrios sobre como seria péssimo me perder ali.
Senti minha respiração estável novamente e me levantei da moto apoiada à uma árvore grande e robusta. A empurrei por poucos metros antes de ouvir roncos e estalados ressoando à minha esquerda, uma moto grande passou rapidamente algumas árvores à minha frente. Em sequência mais duas motos com baús traseiros atravessaram o mesmo caminho, seguidas por uma última mais devagar. O piloto da última moto analisava o ambiente da floresta como se procurasse por algo, me abaixei instintivamente atrás de um dos arbustos.
Quando ele sumiu do meu campo de visão decidi seguir sorrateiramente a trilha feita pelas motos, chegando à uma pequena Cabana encoberta por troncos. Seu telhado era pequeno e algumas madeiras das paredes externas aparentavam podridão, as janelas estavam lacradas por tábuas e seus vidros praticamente todos quebrados. Um homem caminhava pela porta da frente com o celular na orelha, ele tinha cabelos encaracolados como um anjo e parecia dar comandos a alguém do outro lado da linha. Conforme ele caminhava pude perceber uma tatuagem com algumas letras em seu antebraço direito.
Outros dois esvaziavam os baús das motos com pequenas caixas marrons, um deles era careca e alto com um cavanhaque, o outro tinha os cabelos arrepiados para cima e era extremamente magro. Em seguida ambos entraram na cabana com as caixas na mão. O homem com o celular desligou a chamada após concordar com algo e também entrou na cabana fechando a porta atrás de si. Me aproximei mais contando as quatro motos que havia visto antes, pensando que talvez o quarto homem já estivesse dentro do lugar.
Quis me aproximar de uma das janelas buscando entender o que se passava lá, dei alguns passos vagarosos até perceber uma outra figura próxima à parede de madeira. Ele olhava para baixo a observar algo entre uma das mãos, a outra o apoiava na parede. Entendi o que ele fazia apenas ao perceber um líquido escorrer pela madeira até o chão. Sem tirar os olhos dele, dei pequenos e cautelosos passos para trás me assustando com o som de uma porta batendo. Voltei minha atenção imediatamente para a frente da cabana, onde o homem franzino acabara de sair com as duas caixas.
— Ei! – o cara da parede exclama subindo o zíper da calça – Quem é você? – ele agora caminhava a passos largos em minha direção.
Recuei imediatamente até sentir um tronco em minhas costas, ele parou assoviando com um sinal de cabeça. Olhei assustada para o homem franzino que agora também havia me percebido. Meu coração batia descompassado pelo pânico de não compreender o que se passava ali.
— O que está esperando idiota? Pegue ela! – ele jogou as caixas no chão com o som oco denunciando seu esvaziamento.
Sem pensar duas vezes me virei e corri floresta a dentro sem planejar ao certo para onde iria. Em minha frente estava a trilha feita pelas motos e dentro de um determinado tempo iria chegar ao lugar de onde eles vieram, ou ambos me alcançariam antes mesmo disso. A cada árvore que passava, meus pulmões doíam suplicando por um pouco mais de ar. Eu arfava desesperadamente até tropeçar em uma raiz solta, caindo de cotovelos ao chão.
Me levantei imediatamente olhando para trás, havia dado uma grande distância de um dos homens, mas não conseguia ver o outro. Eu não poderia continuar correndo e não fazia ideia de onde estaria minha moto. Mesmo a encontrando não seria uma grande vantagem para alguém que não sabe pilotar, não antes que Sweet Pea me ensinasse.
— Sweet Pea! – sussurrei correndo na direção que imaginava ser o campo.
O som do motor de uma moto começou a surgir baixo, aumentando gradativamente. Meus olhos começaram a marejar e minhas pernas não correspondiam corretamente aos meus comandos, falhando com passos confusos e desorientados. O rugido do motor parecia estar cada vez mais próximo. Ao avistar o campo alguns metros à frente enchi meus pulmões de ar e gritei pelo seu nome desesperadamente:
— Sweet Pea! – olhei de relance para trás buscando a imagem da moto que me perseguia, mas minha visão estava embaçada demais.
Ao me virar para frente colidi com algo quase indo ao chão. Encarei assustada o homem que agora me erguia pelos cotovelos me mantendo em pé apesar das pernas frouxas.
— Betty?! – o encarei assustada – Betty, o que houve?! – Jughead parecia tão assustado quanto eu.
— Nós temos que sair daqui agora! Por favor! – minha voz quase não saiu.
Ele apenas concordou com a cabeça me puxando pela mão até onde sua moto estava.
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