Monarquia Serpente - Bughead
34 Capítulo 34 - Bônus
Notas iniciais
Alice Smith – Diário
O último trimestre letivo em Riverdale High.
Todos já sabiam o que queriam para o futuro e principalmente eu.
Daria um jeito de sair dessa cidade ridícula e agarrar com todas as forças a bolsa de estudos quase certa que tinha na Stanford, para estudar a única coisa em que eu era realmente foda: escrever.
Meus planos não tinham erros. Faltava apenas a entrevista com o orientador nos próximos meses e pelos elogios às minhas redações conseguiria cursar Comunicação facilmente. Ninguém estragaria isso a menos que eu deixasse.
Pelos burburinhos das garotas ao meu lado eu podia saber que Forsythe estava ali.
Simplesmente passeando pelo corredor querendo matar aula ou querendo me atormentar.
— O que quer? – continuei procurando pelo livro que precisaria entregar na biblioteca antes de pagar uma multa por atraso.
— Falar com você sobre ontem.
Fechei o armário e lá estava ele.
Forsythe Pendleton Jones II com seu casaco Bulldog imponente e os cabelos perfeitamente penteados com gel.
Revirei os olhos segundos após perceber que ele sorria ao me ver analisa-lo. Era difícil evitar isso algumas vezes.
– Agora eu não posso. – disse me afastando.
— E quando vai poder? – ele se apressou para me seguir.
— Sinceramente? Eu espero que nunca.
— Se está indo onde eu penso que está então significa outra coisa.
O olhei desacreditada.
Forsythe superava os limites de babaquice aceitáveis.
Balancei o livro no ar.
— Só preciso entregar isso e mais nada.
— Eu realmente preciso falar com você. – ele segurou meu pulso levemente me fazendo parar ali – Por favor. Vai ser rápido, eu prometo.
— Se é tão rápido fala de uma vez. – me desvencilhei dele cruzando os braços e lhe dando total atenção.
Ele olhou ao redor bufando para o corredor movimentado de alunos para todos os lados.
— Aqui não dá...
Eu normalmente desconfiaria de suas intenções se seu rosto não estivesse carregado de uma preocupação incomum para alguém tão desorientado com a vida como ele.
FP era uma pessoa distinta de todas que me cercavam.
Não importava o problema, nunca, ele sempre ria e dizia que daria um jeito de ajudar. Era divertido em momentos tristes e ficava sério ou até mesmo puto caso a brincadeira fosse com ele.
Eu poderia descrever suas mil e uma faces. O lia como a palma da minha mão e temia que ele pudesse fazer o mesmo comigo.
Era por isso que em momentos assim, mesmo depois de tudo o que ele tinha feito, eu sabia que ele falava sério.
— Tá bom. – concordei – Mas você tem vinte minutos. Eu combinei de me encontrar com alguém mais tarde.
Ele sorriu colocando as mãos na jaqueta do time.
— O meu reserva? – perguntou me acompanhando.
— Ele não é seu reserva. — retruquei de imeditato.
Ele ergueu uma sobrancelha ainda sorrindo.
— O reserva do time, quis dizer. — apontou para o casaco — Ele não seria bom o suficiente para ser meu reserva...
Revirei os olhos.
— Você é patético.
— Eu sou patético? Hal Cooper é patético. — concordou consigo mesmo fitando o teto por um instante, quando não respondi ele continuou — Desde quando se interessa por gente mesquinha?
— Desde quando eu tenho planos de me mandar desse inferno. – arregalei levemente os olhos para enfatizar a frase.
Não havia ninguém na biblioteca. Sr. Peterson costumava mentir que estava entre as estantes organizando os livros quando na verdade estava fumando do lado de fora.
Eu conhecia bem seu hábito por ser uma das que mais buscavam por livros na escola. Deixei o livro em sua mesa e anotei um bilhete para que ele soubesse da minha devolução.
FP me olhava atentamente enquanto eu escrevia no pedaço de papel. Me irritei desconcertada.
— Vamos logo. – o puxei pelo braço arrastando-o para a porta nos fundos.
Me lembro exatamente a forma vulgar de como encontramos esse lugar e não me orgulho disso. Por esse motivo essa seria apenas uma conversa e nada mais.
Girei a maçaneta da porta à esquerda do último corredor de livros. A estrutura de madeira quase passava despercebida entre as estantes de mesma cor e tonalidade.
FP entrou logo atrás fechando a porta atrás de si.
Recostei meu ombro na parede esperando que ele começasse a falar, mas tudo o que ele fez foi percorrer os olhos pelo meu corpo, parando em meu rosto. Completamente disperso como sempre.
Ergui uma sobrancelha.
— E então? – perguntei cética.
Ele piscou algumas vezes passando a mão pelos cabelos, como se não estivessem perfeitamente alinhados para trás.
— Me desculpa, é que esse lugar traz boas recordações. – franziu a testa por um instante – Não acha?
Fitei meus pés acanhada e em seguida me endireitei para ir até a porta.
— Se foi para isso que me chamou aqui então eu preciso ir. Não tenho mais tempo para suas gracinhas. – andei até a porta.
Sua mão me barrou.
— Na verdade eu preciso falar sobre o que você fez ontem. – meu coração falhou uma batida. Tentei ao máximo parecer calma.
Ninguém tinha visto. Ou pelo menos era o que eu achava.
— O que você colocou na bebida daquele cara Alice?
— Eu não fiz nada. Só peguei o número dele. – desviei minha atenção para a janela. Para as nossas iniciais gravadas na madeira do beiral.
Ele continuou com o braço entre mim e a parede. Perto o bastante para me intimidar com seu olhar acusador.
— Não minta para mim. Eu vi o que você fez.
— Viu? – engoli em seco.
— Não tem um segundo que consiga tirar os olhos de você. Tenho certeza que sabe e abusa disso sempre que pode.
— Fp... – murmurei nervosa.
— O que era aquilo Alice?
Busquei as palavras certas.
— Tem como você se afastar um pouco? – toquei seu tórax o empurrando para trás.
Forsythe se encostou na parede do outro lado cruzando os braços.
— Eu poderia estar do outro lado da cidade que você não conseguiria mentir para mim nem por telefone.
Me amaldiçoei por isso ser verdade. Apertei os olhos com força.
— O cara não morreu... morreu? – abri um deles.
— Não.
Assenti em silêncio.
— Mas não vou mentir. – ele continuou — O cara nem chegou a terminar a corrida e eu me recusei a ficar com o prêmio das apostas.
— Você é idiota ou que?!
— Não é justo vencer assim. – Fp foi até a janela fitando o movimento do estacionamento – Se quer mesmo saber, o cara não morreu, mas não está de tudo tão bem. Ele teve um colapso enquanto dirigia a mais de 100km/h e acabou capotando com o carro. Eu consegui tirar ele de lá antes que explodisse.
Permaneci atônita digerindo a gravidade do que tinha feito.
— Ao menos agora eu sei que você queria que eu ganhasse.
Ele deslizou os dedos pelas marcas na janela.
— Seu pai queria que você ganhasse, não eu. – girei os olhos.
Ele fez um bico concordando. Em seguida levantou a barra da camiseta branca, mostrando um grande hematoma que se estendia pela costela e se alastrava por outros pontos dali.
Impulsivamente fui até ele tocando todos os pontos roxos que coloriam sua pele quente.

— O que aconteceu? – o olhei pasma.
— Ele precisava do dinheiro. E, como pode ver não queria deixar uma marca a vista, então nada de acertar o rosto.
Algo em minha garganta se contorcia causando uma dor aguda. Eu não queria chorar.
— Eu quero saber Alice... onde conseguiu aquilo?
Senti meus dedos tremularem sob sua pele.
— Penélope me pediu para fazer o serviço para ela. – pensei – Não sei, ela estava com medo e disse que o cara não tirava os olhos de mim, que seria mais fácil se eu fizesse.
— É, eu percebi isso também.
Fp abaixou sua camiseta ainda me encarando e se afastou me fazendo prestar atenção no que ia dizer.
— Alice, fica longe dele e de toda essa merda. Não quero que estrague seu futuro brilhante. Então, — torceu os lábios descontente — se em algum momento você me amou, faça isso por mim, por favor.
— Não é justo você dizer isso. – anunciei com a voz embargada.
— Nada tem sido justo depois que nos separamos, mas nem por isso você tem que se afundar na loucura dessa gente.
Examinei seu rosto minunciosamente buscando ler a seriedade de suas palavras. Queria dizer que ainda o amava. Queria muito. Só não queria magoar Grandelyn ou me limitar a uma pessoa que estava fadada a cuidar de uma gangue numa cidade isolada.
— Acho que nunca estivemos juntos de verdade. – disse recolhendo minha mochila pelo chão ao dar passos lentos em direção à saída.
— Eu iria com você. – murmurou assim que toquei a maçaneta da porta – Se você aceitasse, Alice, eu me mandaria desse inferno com você.
Permaneci parada, de costas para ele.
No fundo eu queria que ele me convencesse, que me desse um bom motivo, ou que apenas me enganasse mais uma vez apenas para matar a saudade que tínhamos um do outro. Deixei que ele continuasse.
— Eu posso conseguir uma bolsa pelo time de futebol para Stanford. Estudaria qualquer coisa só para ficarmos juntos...
Eu temia que Forsythe pudesse ser cruel a ponto de deixar Glandelyn por mim e que eu não tivesse forças para recusá-lo, e eu não tinha.
— Mesmo se eu não conseguisse a porra da bolsa eu iria. Trabalharia com qualquer coisa na Califórnia só para ficar perto de você. – murmurou agora mais perto.
Sem que eu percebesse ele se aproximou e colocou sua mão sobre a minha a retirando calmamente da maçaneta.
— Como consegue mentir tão bem? – resmunguei.
Seu rosto estava ao lado do meu e tudo o que eu podia fazer era tentar manter a postura.
— Eu não tive intenção em te deixar por ela. – ele sussurrou– Só agora percebo que tentar te fazer ciúmes só te afastou e não ganhei porra nenhuma com isso.
Fp girou meu corpo em seus braços me deixando de frente a frente com ele.
— Parece que os ciúmes só funcionam quando é você quem faz. — encostou sua testa na minha – Passei a noite sem dormir tentando tirar a imagem de você com aquele imbecil do racha. Eu queria acabar com ele, mas você mesma acabou fazendo isso por mim.
Não contive um sorriso. Ele sorriu triste.
— Não podemos fazer isso com a Grandelyn. Ela é louca por você.
— E eu por você.
— Fp... – sorri sem graça – Sabe que não deve brincar com fogo. – consegui dizer mesmo inebriada com seu hábito quente contra meu rosto.
— E porque resistir ao prazer do perigo se vamos todos morrer algum dia? – sentenciou.
O moreno se aproximou seu rosto do meu vagarosamente. Sua mão que a pouco tinha me impedido de sair da sala pequena e estreita deslizou sorrateiramente para a minha cintura em um gesto delicado. Fp colou as nossas testas fitando meus lábios percebendo que eu também fitava os seus, mas não avançou nem mais um pouco sabendo que por mais que tentasse me convencer a decisão seria minha.
Eu tive poucas felicidades na vida. Era jovem para dizer isso levando em consideração que ainda não tinha vivido o suficiente. Entretanto, todos os momentos que passei com Forsythe tinham sido extraordinários, mesmo que em segredo.
Então decidi me permitir ser feliz, mesmo que isso custasse a felicidade de outra pessoa.
— Eu não quero pequenas doses suas. – consegui dizer.
— Sou todo seu se você quiser, só precisa pedir.
Concordei com um aceno.
Assim que tomei seus lábios para mim senti um suspiro aliviado sair de Fp e fluir por entre o beijo mais estranho que tivemos. Não era apressado, quente ou cheio de luxuria. Pela primeira vez nosso beijo era demorado e carinhoso, como se quiséssemos que aquele momento se eternizasse para sempre.
Pelo menos para mim se eternizou.
Infelizmente.
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